Deixo aqui mensagens e as minhas reflexões sobre os percursos por onde vou passando..."caminhante, não há caminho, o caminho faz-se caminhando..."
quinta-feira, 18 de junho de 2026
Poeira
domingo, 7 de junho de 2026
Scars / cicatrizes
The veins weep within, carrying tears to every corner of the body.
The body’s melody expands in circles of vibrant echoes
of muscles and bones, and millions of guest inhabitants attune to this resonant movement of weeping's harmony!
Outside, at the surface of skin and sight, only silence betrays the imminent catastrophe, which rage insists on holding in its icy hand,
the wounds do not heal.
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sábado, 30 de maio de 2026
A vida devia ser assim
(A propósito da sessão de trabalho de fotografia com J. Morais)
A vida devia ser assim
Começar a segunda feira com espanto total
E chegar ao sábado
Estarrecido do prazer de viver!
Domingo descansava
Para entrar novamente no rodízio do melhor que a vida tem
A vida devia ser assim
Na Palestina e na Ucrânia
Em Cuba e na Venezuela, em África e na Ásia
Começar a segunda feira com espanto total
De estar vivo!
E chegar ao sábado
Estarrecidos do prazer de viver!
Domingo descansavam
Para entrarem novamente
no rodízio do melhor que a vida tem
A vida devia ser assim
Para todos os que desistiram e não conseguem sonhar
E para os que ainda vão a tempo
De terem uma bandeira, um hino
Uma palavra e um punho
Começar a segunda feira com espanto total
E chegar ao sábado
Estarrecidos do prazer de viver!
Domingo descansavam
Para entrar novamente no rodízio do melhor que a vida tem
A vida devia ser assim
Para todos os excluídos
A quem negaram os direitos de ser pessoa
E plantaram a dor da separação e exclusão
Começar a segunda feira com espanto total
E chegar ao sábado
Estarrecidos do prazer de viver!
Domingo descansavam
Para entrar novamente no rodízio do melhor que a vida tem
A vida devia ser assim
Para todos aqueles que quiseres acrescentar
E vivem ao lado da tua indiferença
Alheios ao teu olhar
Começar a segunda feira com espanto total
E chegar ao sábado
Estarrecidos do prazer de viver!
Domingo descansavam
Para entrar novamente no rodízio do melhor que a vida tem
MRodas
domingo, 24 de maio de 2026
O whatsapp
O meu WhatsApp constipou-se
Ficou silencioso no canto do telemóvel,
mesmo na segunda página
perdido entre o Google Maps e o Gmail
Acima do Facebook e do Messenger.
Apaguei-o
Tentei reanimã-lo
Voltei a instalar
Permaneceu quedo e silencioso
Desligado do mundo.
E agora?
Como vou receber os PDF dos jornais e revistas?
E o grupo das viagens
E o das fotografias?
Vou ficar isolado dos amigos?
O Messenger é uma reserva
Mas o WhatsApp é o que me liga ao mundo.
Nem o Tic Toc, nem o Facebook nem o Messenger
Ou o Instagram
Fazem por mim
O que faz o WhatsApp.
Apesar destas redes todas
Pouco sabemos uns dos outros
Mas se fores ao Google
E procurares por mim
Logo saberás
O que não importa
Mas de mim mesmo
Só se fores ao meu blogue
Aí sim, saberás por onde andei nos últimos 12 anos
Até te encontrar nas redes sociais
Procuro o teu nome no Gemini
Recebo um texto longo com biografia no fim
De como procurar pessoas
Como fazer perguntas
E porque tu deves ser importante para mim.
O que ele nem o CHat GPT dizem
Como resistir a um beijo na fila do supermercado
Como trocar o recibo das compras
Por uma viagem
No sol dos teus olhos
E mesmo que estejas ao meu lado
sem Messenger, nem TicToc,
Como posso dizer que te quero
Sem o WhatsApp?
MRodas
B.Dylan
Homenagem ao B.Dylan no seu 80. aniversário!
Quantas vezes tenho de virar a cabeça
Para fingir que não vejo?
Quantas pessoas
Estranham a morte
Na Ucrânia e na Palestina
No Mediterrâneo e em África?
Quantas vezes as tvs noticiam as colônias de índios nas Américas?
Quantas crianças precisam de passar fome?
Quantas pessoas
Quantas gerações precisam morrer
Para me indignar ?
Quantos gritos precisamos ouvir
Para estranharmos a dor?
Porque fico assustado com o vírus em África e
Permaneço indiferente aos que todos os dias se matam
Quantas vezes preciso de te beijar
Para saber que te amo?
Quantas luas é preciso contar
Para sermos humanos?
Quantos amigos no Facebook para podermos chorar
E partilhar juntos a mesma dor?
É escusado pedir ao vento que traga as respostas
Que todos já sabemos…
quinta-feira, 14 de maio de 2026
A nuvem à boca da noite
Para o J. Morais
A nuvem à boca da noite
Segredava
Rios
E viagens anunciadas
E sempre adiadas…
Cala-te nuvem
Não despertes em mim
O tufão porque esperas
Para poderes sonhar também! MRodas
A luz
Para o J. Morais
A luz vem ténue e terna
Deitar-se nos meus olhos
Com véus de dançarina e meneios ciganos
Fecho os olhos e deixo-a espraiar-se nas margens da alma
Onde o sol se põe ainda antes de nascer!
MRodas
quarta-feira, 13 de maio de 2026
Melancias
O qu eu queria
Era mesmo semear melancias no telhado
Nem favas ou ervilhas
Apenas melancias
Como ficaria feliz
Ver as melancias a escorrerem no teu corpo ereto
Em direção ao solo
Com as suas largas folhas verdes
Flores amarelas e frutos verdes e vermelhos
Amarelos e azuis
O seu perfume ácido
Sabor a gin com limão
Um piano próximo
E soda a fervilhar no meu copo
Eu queria
Que as melancias enchessem de verde a minha rua
E apertassem a mão a quem passa
Sorrissem às crianças e aos cães
E batessem de leve nas vidraças
E agora, não me lembro de mais
Mas era o que eu queria
Isso e ...ver-te de braços abertos
Oh!, quanto eu gostava
Que viesses comigo
semear as melancias no telhado
E ficasses à espreita
A ver nascer o sol
De verde passar a laranja
E mais tarde vermelho de melancia
Se viesses comigo
Faria a cama de lençóis de seda
E na mesa alva
Servir-te-ia
Todas as melancias do mundo
Para que pudesses
Ter-me dentro de ti...até à eternidade
Mas quis alguma deusa furiosa
Que tu tivesses vertigens
E não gostasses de melancias
Assim nunca as melancias podem ficar
Suspensas dos telhados
E eu desisto de as semear na lua
MRodas
sábado, 11 de abril de 2026
Manifesto criativo
Manifesto criativo
Contra a destruição, a criatividade;
Contra a morte, a vida que se desenha no escuro
Se o metal ruge e o solo se fende em sangue e dor,
Nós erguemos o pincel, a palavra, a música e o futuro
A guerra é a raiva do mal, fria e sem retorno,
Um cálculo estéril de horror e ausência
A imaginação é a curva, o labirinto, o adorno,
A teimosia sagrada de cantar a existência
Eles trazem a raiva das cinzas acumuladas,
Nós trazemos o verbo que ferve nas veias
Eles calam as vozes com cidades bombardeadas,
Nós gritamos mundos novos em telas cheias
Não há bomba que fragmente um ideal puro,
Nem machado que corte a raiz ao pensamento
Se eles erguem o medo, nós pintamos o muro,
Até que o cimento se transforme em movimento.
Criar é o ato de liberdade mais profundo
onde o ódio divide, a estética une o que resta
Pois se a guerra é o fim ruidoso do mundo,
A arte é o início melodioso da festa
Pela vida Pela luz Pela criação
Criar é resistir Compor é viver
sexta-feira, 6 de março de 2026
A BEAT GENERATION
A Beat Generation foi um movimento literário e cultural que surgiu nos Estados Unidos no final da década de 1940 e floresceu nos anos 50. Eles foram os rebeldes originais do pós-guerra, questionando o "sonho americano" de consumo desenfreado e conformismo social.
Se imaginas um poeta num café enfumaçado, vestindo preto e falando sobre o sentido da vida ao som de jazz, então estás visualizando o estereótipo (os "beatniks") que nasceu desse movimento.
Os Pilares do Movimento
A essência "Beat" (termo que remete tanto a "abatido/cansado" quanto a "beatitude/sagrado") baseava-se nalguns pontos centrais:
- Libertação Espiritual: Grande interesse pelo Budismo Zen e filosofias orientais.
- Exploração Sensorial: Uso de drogas e total liberdade sexual como caminhos para expandir a consciência.
- Repúdio ao Materialismo: Uma crítica feroz à vida suburbana e aos valores corporativos da época.
- Estilo "Espontâneo": Na escrita, eles evitavam a revisão excessiva, preferindo um fluxo de consciência que imitasse o improviso do Bebop (uma vertente do Jazz).
O "Big Three": Os Principais Autores
Embora o grupo fosse grande, três nomes definiram o movimento:
|
Autor |
Obra Principal |
Impacto |
|---|---|---|
|
Jack Kerouac |
On the Road (Pé na Estrada) |
O "bíblia" do movimento; celebrou a viagem, a amizade e a busca pela experiência pura. |
|
Allen Ginsberg |
Howl (Uivo) |
Um poema épico que denunciou a destruição das mentes brilhantes pela sociedade industrial. |
|
William S. Burroughs |
Naked Lunch (Almoço Nu) |
Uma exploração crua e surrealista sobre vício, controle e paranoia. |
O Legado
A Beat Generation não ficou presa aos livros. Ela foi a ponte direta para a Contracultura dos anos 60. Sem os Beats, provavelmente não teríamos tido o movimento Hippie, a revolução sexual ou a evolução do Rock n' Roll (Bob Dylan e os Beatles eram fãs declarados).
"A única gente que me interessa é a gente louca, demente por viver, demente por falar, demente por ser salva." — Jack Kerouac
Embora a Beat Generation tenha sido um fenômeno essencialmente americano (liderado por Kerouac, Ginsberg e Burroughs), o seu espírito de rebeldia, experimentação e busca por novos estados de consciência atravessou o Atlântico.
Em Portugal, o movimento não existiu como uma "escola" formal, mas influenciou profundamente poetas que lutavam contra o conservadorismo da ditadura e o formalismo literário da época.
Aqui estão os nomes que melhor capturaram essa energia "beat" em terras lusas:
1. Mário Cesariny (O Surrealista-Beat)
Cesariny é a figura central. Embora seja o rosto do Surrealismo em Portugal, a sua vida e obra partilham o DNA Beat: a deriva urbana, a homossexualidade vivida sem filtros (numa época em que era crime) e a escrita automática.
- A vibe(*) O caos da cidade de Lisboa, a marginalidade e a liberdade absoluta da palavra.
2. Herberto Helder (O Xamã da Linguagem)
Herberto partilha com Allen Ginsberg a visão da poesia como um ritual ou uma incantação. A sua escrita é visceral, física e muitas vezes hermética, mas carregada de uma eletricidade que lembra o frenesim beatnik.
- A vibe: A poesia como experiência mística e transgressora.
3. Luiza Neto Jorge
Uma das vozes mais disruptivas do grupo Poesia 61. Ela utilizava o humor, a ironia e uma "desarrumação" da linguagem que quebrava com a lírica tradicional portuguesa.
- A vibe: Desconstrução das convenções sociais e um olhar afiado sobre o quotidiano.
4. António Maria Lisboa
Morreu muito jovem, mas deixou uma obra marcada pelo esoterismo e pela vivência de uma realidade "para além do visível". O seu desprendimento das normas sociais aproxima-o muito da busca espiritual dos Beats.
Por que não houve um "Ginsberg" português?
Portugal vivia sob a censura do Estado Novo. Enquanto os Beats americanos podiam berrar "Howl" (Uivo) em galerias de São Francisco, os poetas portugueses tinham de usar a metáfora e a subtileza para escapar à PIDE. A "viagem" beat em Portugal foi mais interior e metafórica do que física e pública.
"A poesia não se faz para ninguém, faz-se contra toda a gente."
— Mário Cesariny
Análise das as semelhanças com a escrita de Jack Kerouac ou Allen Ginsberg
Para esta comparação, não há escolha mais certeira do que Mário Cesariny. Ele foi o que mais se aproximou da "poesia de rua", da performance e do desabafo visceral que define o movimento Beat.
Vamos olhar para um dos seus poemas mais emblemáticos e compará-lo com a energia de Allen Ginsberg.
O Poema: "You Are Welcome to Elsinore" (Excerto)
“Entre nós e as palavras, há metal espesso
entre nós e as palavras, há frestas de sangue
fabricam-se moedas de ouro e de papel
escrituras de fumo onde o tempo se perde
e o que se diz é sempre o que se cala
e o que se quer é sempre o que se esquece”
A Conexão Beat: Cesariny vs. Ginsberg
|
Característica |
Mário Cesariny |
Allen Ginsberg (em Howl) |
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|---|---|---|---|---|
|
O Inimigo |
A "família burguesa", a PIDE e o cinzento da ditadura. |
O "Moloch", o capitalismo e a conformidade americana. |
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|
A Linguagem |
Fragmentada. Usa o choque de imagens para acordar o leitor. |
Torrencial. Usa longas linhas de sopro para exaurir o fôlego. |
||
|
O Tema |
A impossibilidade de comunicar num mundo vigiado ("metal espesso"). |
A destruição das "melhores mentes da minha geração". |
||
|
A Atitude |
O poeta como um vagabundo das ruas de Lisboa. |
|
Por que é que isto soa a "Beat"?
- A Obsessão pela Cidade: Tal como Kerouac em On the Road, Cesariny vê a cidade (Lisboa) como um organismo vivo, perigoso e fascinante. Ele não escreve sobre campos ou pastores; escreve sobre marinheiros, bares e a solidão do asfalto.
- O Ritmo do Jazz: Se ouvires uma gravação do Cesariny a declamar, vais notar uma cadência que ignora a métrica clássica. É um ritmo de improviso, muito próximo do bebop que os Beats tanto adoravam.
- A Marginalidade: Ambos usam a poesia como um escudo para a sua identidade. Num Portugal onde ser "diferente" era perigoso, Cesariny transformou a sua marginalidade em arte pura, tal como os Beats faziam com o uso de substâncias e a libertação sexual.
A diferença fundamental: Enquanto Ginsberg berra o seu "Uivo" para o mundo, Cesariny escreve com a consciência de que há "metal espesso" entre ele e os outros — uma barreira de silêncio imposta pelo tempo em que viveu.
Se Cesariny era a rua e o jazz, Herberto Helder era o laboratório alquímico e o transe. Enquanto os Beats americanos buscavam a "expansão da consciência" através de substâncias e do budismo Zen, Herberto fazia-o através de uma obsessão quase biológica pela linguagem.
Aqui está a ponte entre o "maior poeta português da segunda metade do século XX" e a vertente mística da Beat Generation:
O Poema: "A Máquina de Emaranhar Paisagens" (Excerto)
“Misturo as mãos nos cabelos das imagens.
Tudo é o que eu digo.
Se digo: sol, o sol espanta-se e nasce.
Se digo: as aves, as aves voam.
É um silêncio o mundo, um silêncio de faca,
e eu corto-o com a minha voz.”
A Conexão Psicadélica: Herberto Helder vs. A Mística Beat
Para os Beats (como Allen Ginsberg ou Michael McClure), a poesia era uma forma de bio-energia. Herberto Helder leva isto ao extremo:
- O Poeta como Xamã: Tal como Ginsberg usava mantras hindus nas suas leituras, Herberto via o poeta como um "médium". Ele não escreve sobre coisas; ele tenta fazer as coisas acontecerem através do som. A palavra é um ato de magia.
- O Corpo e a Metamorfose: Nos Beats, há uma celebração do corpo físico. Em Herberto, o corpo funde-se com o mundo: o sangue vira vinho, a luz vira carne. É uma viagem psicadélica onde as fronteiras entre o "eu" e o "universo" desaparecem.
- A Escrita em Transe: Embora Herberto fosse um mestre da técnica, a sua poesia tem um fôlego torrencial. É o que Kerouac chamava de "Spontaneous Bop Prosody" — uma escrita que flui sem interrupção, como se o poeta estivesse a transcrever uma visão direta do cosmos.
Herberto Helder e o "Corte" (Cut-up)
William Burroughs (outro pilar Beat) usava a técnica do cut-up (cortar textos e baralhá-los) para encontrar novos significados. Herberto fazia algo semelhante, mas de forma orgânica: ele trabalhava e retrabalhava os seus poemas ao longo das décadas (na sua obra Poesia Toda), "emaranhando" as paisagens e as palavras até que o sentido original se perdesse numa explosão de imagens puras.
Síntese: Onde se encontram?
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Elemento |
Beat Generation (EUA) |
Herberto Helder (PT) |
|---|---|---|
|
Objetivo |
Quebrar o "ego" e a norma social. |
Alcançar a "unidade primordial" da vida. |
|
Ferramenta |
Viagens, drogas, meditação. |
A própria matéria do poema (o verbo). |
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Resultado |
Uma poesia de protesto e êxtase. |
Uma poesia de incandescência e mistério. |
"A poesia é para comer." — Uma frase famosa de Herberto que resume o espírito beat: a arte não é para contemplar, é para ser consumida e para transformar quem a lê.
Jack Kerouac: A Morte como "Apressadora" da Vida
A morte, para a Beat Generation e para a linhagem de Herberto Helder, não é um fim estático ou um funeral solene; é o "combustível" da própria vida. É a consciência da finitude que acelera o ritmo da escrita e da existência.
Vamos traçar esse paralelo existencialista entre a estrada americana e o abismo poético português:
Em On the Road, a morte está sempre no espelho retrovisor. Kerouac escrevia com uma urgência maníaca porque sentia que o tempo estava a esgotar-se.
- O Conceito: Para os Beats, se vamos morrer, então cada momento deve ser "it" (o momento supremo).
- A "Estrada": A viagem não é para chegar a um destino, mas para fugir da paragem — que é a morte em vida (o conformismo).
2. Herberto Helder: A Morte como Mutação
Herberto não temia a morte no sentido burguês; ele via-a como uma transmutação alquímica. Para ele, o corpo que morre alimenta a terra, que faz crescer a flor, que vira poema.
- O Conceito: A morte é um processo biológico e místico de "mudar de forma".
- A "Luz": Nos seus últimos livros, a morte aparece como uma "claridade cegante". Não é escuridão, é excesso de luz.
|
Elemento |
Jack Kerouac (Beat) |
Herberto Helder (PT) |
|---|---|---|
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Atitude |
Aceleração. Beber, correr, amar e escrever rápido para "vencer" o tempo. |
Intensificação. Escavar a palavra até encontrar o osso, o sangue e a raiz. |
|
A Morte é... |
Uma sombra que nos persegue na autoestrada. |
Um espelho onde a vida se reconhece como energia pura. |
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O Legado |
"A única gente que me interessa é a gente louca..." |
"A morte é o fulgor de um estilo." |
A Conexão Existencialista: O "Viver no Limite"
Ambos partilham a ideia de que a arte só é real se for perigosa.
- Kerouac destruiu o seu corpo através do álcool e da exaustão, numa busca espiritual autodestrutiva.
- Herberto viveu de forma quase reclusa, "destruindo-se" através da revisão obsessiva da sua própria obra, tentando atingir uma perfeição que é, em si mesma, uma forma de aniquilação do ego.
"Morrer é uma das formas de ser intensamente." — Esta frase poderia ter sido dita por Neal Cassady (o herói de Kerouac) ou escrita por Herberto num dos seus cadernos.
O Ponto de Encontro: O Budismo e o Vazio
Curiosamente, tanto o "Beat tardio" (influenciado pelo Zen) como o "Herberto maduro" (influenciado pelos textos sagrados e pelo esoterismo) chegam à mesma conclusão: o "Eu" é uma ilusão. A morte é apenas o momento em que a gota de água volta para o oceano.
|
Recurso |
Função nos Beats |
Função em Herberto Helder |
|---|---|---|
|
Falta de Pontos |
Representa o movimento imparável da estrada e do pensamento espontâneo. |
Representa a unidade do cosmos, onde nada está separado e tudo flui. |
|
Enjambement (Quebra de verso) |
Cria um ritmo sincopado, como uma bateria de jazz. |
Cria uma vertigem, como se o leitor estivesse a cair dentro do poema. |
|
Uso de "E" |
Acumulação de experiências ("e vi isto, e fiz aquilo, e fui ali"). |
Acumulação de imagens místicas ("e a mão, e o fogo, e o bicho"). |
pegasse numa outra preocupação da lista — por exemplo, a Solidão na Era Digital — e criasse um pequeno "guião de performance" ao estilo das leituras públicas de Mário Cesariny?
Para este guião, vamos invocar o espírito de Mário Cesariny. Imagine um palco escuro, apenas uma luz crua sobre uma cadeira, um cinzeiro e um copo de água (ou vinho). A leitura de Cesariny não era polida; era hesitante, explosiva, cheia de pausas dramáticas e sotaque lisboeta arrastado.
O tema é a Solidão Digital, tratada como se fosse um monólogo surrealista de 1960 projetado em 2026.
Performance: "O Aquário de Vidro Líquido"
Indicações de Cena:
- O Ator: Deve ler como se estivesse a confessar um crime ou a ler a lista de compras num manicómio.
- O Ritmo: Começa muito lento, quase num sussurro, e termina num grito contido.
(O Ator entra, senta-se, olha para um smartphone como se fosse um inseto estranho)
[Início da Leitura]
"Meus senhores...
(Pausa longa, olha para a audiência com desdém)
Há um peixe de luz azul a comer-nos o rosto.
Estou aqui, ou estou ali, naquele retângulo de vidro?
(Bate com o nó dos dedos na mesa)
Entre mim e o vizinho, há um satélite.
Entre a minha mão e a tua coxa, há um algoritmo a contar os batimentos do tédio.
Estamos todos...
(Gesticula vagamente circular)
...terrivelmente ligados por fios que não se veem.
Uma rede de pesca onde o pescador também é o peixe.
(Ri-se baixinho, uma risada seca)
Olhem para as vossas mãos!
(Grita subitamente)
São mãos ou são extensões de plástico?
Lisboa está cheia de gente a olhar para baixo,
à procura de um coração que faça 'clique',
à procura de uma alma com sinal de Wi-Fi.
(Levanta-se e caminha pelo palco)
A solidão, meus caros, já não é um deserto.
A solidão agora é uma multidão de fantasmas a carregar baterias.
Estamos sós... mas com notificações.
Estamos sós... mas com cinco mil amigos de fumo.
É o surrealismo total!
Dalí teria medo deste espelho que nos rouba o reflexo e nos devolve publicidade a sapatos!"
(Lança o smartphone para dentro de um balde de água — ou finge que o faz)
"Boa noite.
O último a sair... que apague o ecrã."
Por que isto é "Cesariny Style"?
- A Ironia Mordaz: Ele adorava ridicularizar o comportamento moderno ("alma com sinal de Wi-Fi").
- O Objeto Absurdo: Pegar num telemóvel e tratá-lo como um "peixe de luz" é uma metáfora puramente surrealista.
- A Quebra da Quarta Parede: Cesariny interpelava o público, confrontava-os com as suas próprias mãos e gestos.
- O Desespero Urbano: A solidão não é romântica; é tecnológica, fria e "de metal espesso".
domingo, 1 de fevereiro de 2026
VITÓRIA
tudo começou
em noites de insónias
e tudo acabou numa noite mal dormida
tentei resistir
mas não fui capaz
o teu amor
tirou-me as mãos dos bolsos
e arrancou-me dentro de ti
foram precisas muitas noites e flores
muita água e passos perdidos
para te reencontrar
desentranhou-se o coração quando partiste
partiste?
e fiquei no meu canto
triste?
à espera do regresso
quarta-feira, 18 de dezembro de 2024
Somos Todos Parte
Somos Todos Parte
Um em cada cinco carrega por dentro
Uma história, um desafio, um existir.
Olhando ao redor, surgem com clareza,
Vidas plenas, radiantes, cheias de beleza.
Cem por cento, sem exceção,
Teremos um dia uma limitação.
A idade, o acaso, a fragilidade,
Unidos na mesma humanidade.
Por que excluir, se a vida é ponte?
Por que ignorar, se há horizonte?
O diferente pertence, não é à parte,
É uma alma inteira, amor e arte.
Pois o mundo é diverso, e assim deve ser,
Um mosaico de formas, de ser e viver.
E ao aceitar cada voz e visão,
Somos fermento, bandeira, vinho e pão.
Cada história é única, cada ser é canção,
Não há perfeição, só diversidade na criação.
A vida não é ausência, o que parece faltar
Mas a presença, o abraço e o caminhar.
A inclusão é mais que um gesto ou dever,
É a oportunidade de aprender e de crescer.
Erguer os olhos, estender a mão,
Abraçar o outro, construir a união.
Incluir não é favor, é humanidade,
É construir juntos uma sociedade.
Com rampas, legendas, com toque e visão,
Com olhos abertos, sorriso e emoção.
Somos todos frágeis, somos todos fortes,
Cada um com seu rumo, suas próprias sortes.
E quando nos unimos em prol do diverso,
Somos, certamente, o eco mais belo do universo.
domingo, 15 de dezembro de 2024
Nas Ruínas da Esperança
Nas Ruínas da Esperança
Do pó dos caminhos antigos
restam sombras ressequidas,
ferro retorcido, silêncio espesso;
a distopia é um eco de aço e gritos,
uma cicatriz raivosa no horizonte queimado,
onde os sonhos eram lanças,
e as noites, prisões ululantes.
Mas a vida—ah, essa ladra cruel—
dança sobre os escombros com pés descalços,
zombando das lágrimas que secaram,
esculpindo flores na fuligem.
Ela é tragédia que insiste em florescer,
paradoxo que sangra e sorri.
O futuro é uma farsa sussurrada,
uma utopia feita de vapor e promessas frágeis,
flutuando como balões perfurados,
tão perto, tão distante.
O amanhã brinca com os sonhos,
rindo da coragem de quem ainda planta
sementes no deserto.
E nós, marionetes do acaso,
carregamos no peito a ironia de existir:
somos o pranto das eras e o riso do caos,
tecendo com mãos sujas o fio da esperança
que nos agiganta e liberta,
num só nó.





