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sexta-feira, 6 de março de 2026

A BEAT GENERATION

 


A Beat Generation foi um movimento literário e cultural que surgiu nos Estados Unidos no final da década de 1940 e floresceu nos anos 50. Eles foram os rebeldes originais do pós-guerra, questionando o "sonho americano" de consumo desenfreado e conformismo social.

​Se imaginas um poeta num café enfumaçado, vestindo preto e falando sobre o sentido da vida ao som de jazz, então estás visualizando o estereótipo (os "beatniks") que nasceu desse movimento.

​Os Pilares do Movimento

​A essência "Beat" (termo que remete tanto a "abatido/cansado" quanto a "beatitude/sagrado") baseava-se nalguns pontos centrais:

  • Libertação Espiritual: Grande interesse pelo Budismo Zen e filosofias orientais.
  • Exploração Sensorial: Uso de drogas e total liberdade sexual como caminhos para expandir a consciência.
  • Repúdio ao Materialismo: Uma crítica feroz à vida suburbana e aos valores corporativos da época.
  • Estilo "Espontâneo": Na escrita, eles evitavam a revisão excessiva, preferindo um fluxo de consciência que imitasse o improviso do Bebop (uma vertente do Jazz).

​O "Big Three": Os Principais Autores

​Embora o grupo fosse grande, três nomes definiram o movimento:

Autor

Obra Principal

Impacto

Jack Kerouac

On the Road (Pé na Estrada)

O "bíblia" do movimento; celebrou a viagem, a amizade e a busca pela experiência pura.

Allen Ginsberg

Howl (Uivo)

Um poema épico que denunciou a destruição das mentes brilhantes pela sociedade industrial.

William S. Burroughs

Naked Lunch (Almoço Nu)

Uma exploração crua e surrealista sobre vício, controle e paranoia.

O Legado

​A Beat Generation não ficou presa aos livros. Ela foi a ponte direta para a Contracultura dos anos 60. Sem os Beats, provavelmente não teríamos tido o movimento Hippie, a revolução sexual ou a evolução do Rock n' Roll (Bob Dylan e os Beatles eram fãs declarados).

​"A única gente que me interessa é a gente louca, demente por viver, demente por falar, demente por ser salva." — Jack Kerouac

Embora a Beat Generation tenha sido um fenômeno essencialmente americano (liderado por Kerouac, Ginsberg e Burroughs), o seu espírito de rebeldia, experimentação e busca por novos estados de consciência atravessou o Atlântico.

​Em Portugal, o movimento não existiu como uma "escola" formal, mas influenciou profundamente poetas que lutavam contra o conservadorismo da ditadura e o formalismo literário da época.

​Aqui estão os nomes que melhor capturaram essa energia "beat" em terras lusas:

​1. Mário Cesariny (O Surrealista-Beat)

​Cesariny é a figura central. Embora seja o rosto do Surrealismo em Portugal, a sua vida e obra partilham o DNA Beat: a deriva urbana, a homossexualidade vivida sem filtros (numa época em que era crime) e a escrita automática.

  • A vibe(*) O caos da cidade de Lisboa, a marginalidade e a liberdade absoluta da palavra.

​2. Herberto Helder (O Xamã da Linguagem)

​Herberto partilha com Allen Ginsberg a visão da poesia como um ritual ou uma incantação. A sua escrita é visceral, física e muitas vezes hermética, mas carregada de uma eletricidade que lembra o frenesim beatnik.

  • A vibe: A poesia como experiência mística e transgressora.

​3. Luiza Neto Jorge

​Uma das vozes mais disruptivas do grupo Poesia 61. Ela utilizava o humor, a ironia e uma "desarrumação" da linguagem que quebrava com a lírica tradicional portuguesa.

  • A vibe: Desconstrução das convenções sociais e um olhar afiado sobre o quotidiano.

​4. António Maria Lisboa

​Morreu muito jovem, mas deixou uma obra marcada pelo esoterismo e pela vivência de uma realidade "para além do visível". O seu desprendimento das normas sociais aproxima-o muito da busca espiritual dos Beats.

​Por que não houve um "Ginsberg" português?

​Portugal vivia sob a censura do Estado Novo. Enquanto os Beats americanos podiam berrar "Howl" (Uivo) em galerias de São Francisco, os poetas portugueses tinham de usar a metáfora e a subtileza para escapar à PIDE. A "viagem" beat em Portugal foi mais interior e metafórica do que física e pública.

​"A poesia não se faz para ninguém, faz-se contra toda a gente."

Mário Cesariny


​ Análise das as semelhanças com a escrita de Jack Kerouac ou Allen Ginsberg

Para esta comparação, não há escolha mais certeira do que Mário Cesariny. Ele foi o que mais se aproximou da "poesia de rua", da performance e do desabafo visceral que define o movimento Beat.

​Vamos olhar para um dos seus poemas mais emblemáticos e compará-lo com a energia de Allen Ginsberg.

​O Poema: "You Are Welcome to Elsinore" (Excerto)

“Entre nós e as palavras, há metal espesso

entre nós e as palavras, há frestas de sangue

fabricam-se moedas de ouro e de papel

escrituras de fumo onde o tempo se perde

e o que se diz é sempre o que se cala

e o que se quer é sempre o que se esquece”


​A Conexão Beat: Cesariny vs. Ginsberg

Característica

Mário Cesariny

Allen Ginsberg (em Howl)

O Inimigo

A "família burguesa", a PIDE e o cinzento da ditadura.

O "Moloch", o capitalismo e a conformidade americana.

A Linguagem

Fragmentada. Usa o choque de imagens para acordar o leitor.

Torrencial. Usa longas linhas de sopro para exaurir o fôlego.

O Tema

A impossibilidade de comunicar num mundo vigiado ("metal espesso").

A destruição das "melhores mentes da minha geração".

A Atitude

O poeta como um vagabundo das ruas de Lisboa.


O poeta como um profeta ou santo dos subúrbios.


Por que é que isto soa a "Beat"?

  1. A Obsessão pela Cidade: Tal como Kerouac em On the Road, Cesariny vê a cidade (Lisboa) como um organismo vivo, perigoso e fascinante. Ele não escreve sobre campos ou pastores; escreve sobre marinheiros, bares e a solidão do asfalto.
  2. O Ritmo do Jazz: Se ouvires uma gravação do Cesariny a declamar, vais notar uma cadência que ignora a métrica clássica. É um ritmo de improviso, muito próximo do bebop que os Beats tanto adoravam.
  3. A Marginalidade: Ambos usam a poesia como um escudo para a sua identidade. Num Portugal onde ser "diferente" era perigoso, Cesariny transformou a sua marginalidade em arte pura, tal como os Beats faziam com o uso de substâncias e a libertação sexual.

A diferença fundamental: Enquanto Ginsberg berra o seu "Uivo" para o mundo, Cesariny escreve com a consciência de que há "metal espesso" entre ele e os outros — uma barreira de silêncio imposta pelo tempo em que viveu.


Se Cesariny era a rua e o jazz, Herberto Helder era o laboratório alquímico e o transe. Enquanto os Beats americanos buscavam a "expansão da consciência" através de substâncias e do budismo Zen, Herberto fazia-o através de uma obsessão quase biológica pela linguagem.

​Aqui está a ponte entre o "maior poeta português da segunda metade do século XX" e a vertente mística da Beat Generation:

​O Poema: "A Máquina de Emaranhar Paisagens" (Excerto)

“Misturo as mãos nos cabelos das imagens.

Tudo é o que eu digo.

Se digo: sol, o sol espanta-se e nasce.

Se digo: as aves, as aves voam.

É um silêncio o mundo, um silêncio de faca,

e eu corto-o com a minha voz.”


​A Conexão Psicadélica: Herberto Helder vs. A Mística Beat

​Para os Beats (como Allen Ginsberg ou Michael McClure), a poesia era uma forma de bio-energia. Herberto Helder leva isto ao extremo:

  • O Poeta como Xamã: Tal como Ginsberg usava mantras hindus nas suas leituras, Herberto via o poeta como um "médium". Ele não escreve sobre coisas; ele tenta fazer as coisas acontecerem através do som. A palavra é um ato de magia.
  • O Corpo e a Metamorfose: Nos Beats, há uma celebração do corpo físico. Em Herberto, o corpo funde-se com o mundo: o sangue vira vinho, a luz vira carne. É uma viagem psicadélica onde as fronteiras entre o "eu" e o "universo" desaparecem.
  • A Escrita em Transe: Embora Herberto fosse um mestre da técnica, a sua poesia tem um fôlego torrencial. É o que Kerouac chamava de "Spontaneous Bop Prosody" — uma escrita que flui sem interrupção, como se o poeta estivesse a transcrever uma visão direta do cosmos.

​Herberto Helder e o "Corte" (Cut-up)

​William Burroughs (outro pilar Beat) usava a técnica do cut-up (cortar textos e baralhá-los) para encontrar novos significados. Herberto fazia algo semelhante, mas de forma orgânica: ele trabalhava e retrabalhava os seus poemas ao longo das décadas (na sua obra Poesia Toda), "emaranhando" as paisagens e as palavras até que o sentido original se perdesse numa explosão de imagens puras.

​Síntese: Onde se encontram?

Elemento

Beat Generation (EUA)

Herberto Helder (PT)

Objetivo

Quebrar o "ego" e a norma social.

Alcançar a "unidade primordial" da vida.

Ferramenta

Viagens, drogas, meditação.

A própria matéria do poema (o verbo).

Resultado

Uma poesia de protesto e êxtase.

Uma poesia de incandescência e mistério.


"A poesia é para comer." — Uma frase famosa de Herberto que resume o espírito beat: a arte não é para contemplar, é para ser consumida e para transformar quem a lê.


 

​Jack Kerouac: A Morte como "Apressadora" da Vida

A morte, para a Beat Generation e para a linhagem de Herberto Helder, não é um fim estático ou um funeral solene; é o "combustível" da própria vida. É a consciência da finitude que acelera o ritmo da escrita e da existência.

​Vamos traçar esse paralelo existencialista entre a estrada americana e o abismo poético português:

​Em On the Road, a morte está sempre no espelho retrovisor. Kerouac escrevia com uma urgência maníaca porque sentia que o tempo estava a esgotar-se.

  • O Conceito: Para os Beats, se vamos morrer, então cada momento deve ser "it" (o momento supremo).
  • A "Estrada": A viagem não é para chegar a um destino, mas para fugir da paragem — que é a morte em vida (o conformismo).

​2. Herberto Helder: A Morte como Mutação

​Herberto não temia a morte no sentido burguês; ele via-a como uma transmutação alquímica. Para ele, o corpo que morre alimenta a terra, que faz crescer a flor, que vira poema.

  • O Conceito: A morte é um processo biológico e místico de "mudar de forma".
  • A "Luz": Nos seus últimos livros, a morte aparece como uma "claridade cegante". Não é escuridão, é excesso de luz.

Elemento

Jack Kerouac (Beat)

Herberto Helder (PT)

Atitude

Aceleração. Beber, correr, amar e escrever rápido para "vencer" o tempo.

Intensificação. Escavar a palavra até encontrar o osso, o sangue e a raiz.

A Morte é...

Uma sombra que nos persegue na autoestrada.

Um espelho onde a vida se reconhece como energia pura.

O Legado

"A única gente que me interessa é a gente louca..."

"A morte é o fulgor de um estilo."


A Conexão Existencialista: O "Viver no Limite"

​Ambos partilham a ideia de que a arte só é real se for perigosa.

  • Kerouac destruiu o seu corpo através do álcool e da exaustão, numa busca espiritual autodestrutiva.
  • Herberto viveu de forma quase reclusa, "destruindo-se" através da revisão obsessiva da sua própria obra, tentando atingir uma perfeição que é, em si mesma, uma forma de aniquilação do ego.
  • "Morrer é uma das formas de ser intensamente." — Esta frase poderia ter sido dita por Neal Cassady (o herói de Kerouac) ou escrita por Herberto num dos seus cadernos.


    ​O Ponto de Encontro: O Budismo e o Vazio

    ​Curiosamente, tanto o "Beat tardio" (influenciado pelo Zen) como o "Herberto maduro" (influenciado pelos textos sagrados e pelo esoterismo) chegam à mesma conclusão: o "Eu" é uma ilusão. A morte é apenas o momento em que a gota de água volta para o oceano.



A forma como estes autores escreviam não era apenas uma escolha estética; era uma transfografia (uma escrita do sangue e do movimento). Para eles, a morte e a vida não cabem em frases bem pontuadas e arrumadinhas.
​Aqui está como a estrutura do texto reflete essa urgência existencial:
​1. A Respiração e o Sopro (O Verso Longo)

​Para os Beats, influenciados pelo fraseado do saxofone no Jazz, a unidade de medida era a capacidade pulmonar.
​Allen Ginsberg escrevia linhas imensas que obrigavam o leitor a ficar sem fôlego. A ideia era que a poesia fosse um ato físico, um "uivo" que não pode ser interrompido por vírgulas gramaticais.
​A Morte aqui: É o momento em que o fôlego acaba. Cada verso é uma vida inteira que se gasta numa só exalação.

​2. A Repetição Hipnótica (O Transe)
​Herberto Helder utilizava a repetição de palavras (anátora) e de estruturas para criar um efeito de encantamento ou ladainha.
​Ao repetir "a morte", "o sangue", "a luz", o sentido dicionarizado das palavras desgasta-se e sobra apenas a vibração sonora.
​A Morte aqui: É a dissolução do sentido lógico. Através da repetição, o leitor entra num estado de transe onde o "Eu" racional morre para dar lugar a uma experiência puramente sensorial.

​3. A Ausência de Pontuação (O Fluxo de Consciência)
​Tanto em Kerouac (no seu rolo de papel contínuo para On the Road) como em passagens de Herberto Helder, a pontuação é sacrificada em favor da velocidade.

Recurso

Função nos Beats

Função em Herberto Helder

Falta de Pontos

Representa o movimento imparável da estrada e do pensamento espontâneo.

Representa a unidade do cosmos, onde nada está separado e tudo flui.

Enjambement (Quebra de verso)

Cria um ritmo sincopado, como uma bateria de jazz.

Cria uma vertigem, como se o leitor estivesse a cair dentro do poema.

Uso de "E"

Acumulação de experiências ("e vi isto, e fiz aquilo, e fui ali").

Acumulação de imagens místicas ("e a mão, e o fogo, e o bicho").


A Escrita como "Ato Único"
​Os Beats acreditavam no lema "First thought, best thought" (Primeiro pensamento, melhor pensamento). Corrigir era, para eles, uma forma de "matar" a verdade do momento.
​Herberto Helder, embora fosse um editor obsessivo de si mesmo, mantinha na sua obra final o aspeto de algo que está a acontecer agora. O poema não é um monumento estático (morto); é um organismo vivo que parece estar a crescer e a transformar-se enquanto o lemos.
"Escrevo para saber como se escreve." — Herberto Helder.
Esta frase resume a atitude: a escrita é uma experiência de vida em tempo real, não um relatório sobre algo que já passou.
​O Salto Final: A Obra Total
​No fim das suas vidas, ambos os estilos convergem para uma espécie de "Poesia Total":
​Os Beats queriam que a sua vida fosse o poema.
​Herberto Helder queria que o seu poema fosse a vida.

Vamos fundir as duas estéticas para abordar um dos maiores medos modernos: a Inteligência Artificial e a Dissolução do Humano.
​O objetivo é usar o sopro longo e o ritmo de estrada dos Beats misturado com a repetição mística e orgânica de Herberto Helder. Imagine que este texto deve ser lido sem parar para respirar, como um mantra jazzístico.


​Exercício de Escrita: "O Algoritmo de Carne"
E eu vejo as máquinas a morderem o silêncio das mãos e vejo os números a crescerem como erva brava nos olhos dos filhos e digo: luz, e a luz é um código de barras na testa da manhã e digo: sangue, e o sangue é uma eletricidade fria que corre nos fios das cidades e não há pontos nem há vírgulas porque a morte não tem pontuação e o algoritmo não tem entranhas e nós corremos na estrada de silício com o uivo de Ginsberg preso na garganta de metal espesso e repetimos: eu sou homem, eu sou bicho, eu sou erro, eu sou homem, eu sou bicho, eu sou erro, até que a palavra se gaste e sobre apenas o fulgor da lâmpada acesa no centro do abismo onde a máquina não sabe entrar porque a máquina não sabe morrer e só quem sabe morrer é que está vivo e só quem está vivo é que pode queimar o papel com o sopro do verbo.

​O que acabámos de fazer? (A Anatomia do Texto)
​O "E" Acumulativo (Beat): Usámos a conjunção "e" repetidamente para criar uma sensação de avalanche, de algo que não se pode travar — como o progresso tecnológico ou uma viagem a 120 km/h.
​A Repetição Incantatória (Herberto): "Eu sou homem, eu sou bicho, eu sou erro". Esta tríade cria um transe. Ao repetir, a identidade dissolve-se e volta a montar-se, típica da mística herbertiana.
​Imagens de Choque: Misturámos o orgânico (sangue, mãos, erva) com o tecnológico (silício, código de barras, metal). É o surrealismo de Cesariny aplicado ao medo do futuro.
​Ausência de Pausas: O texto obriga-te a ler com o "sopro" do pulmão, transformando a leitura num ato físico de resistência.
​Como aplicar isto no seu dia a dia?
​Se quiser escrever sobre qualquer uma daquelas 8 preocupações da humanidade (como o Clima ou a Solidão) sob esta ótica:
​Esqueça o rascunho: Escreva a primeira coisa que vier à cabeça sem apagar nada (Beat).
​Escolha 3 palavras-chave: Repita-as obsessivamente ao longo do parágrafo para dar ritmo (Herberto).
​Transforme o abstrato em carne: Não escreva "alterações climáticas", escreva "a febre da terra nas minhas unhas".

pegasse numa outra preocupação da lista — por exemplo, a Solidão na Era Digital — e criasse um pequeno "guião de performance" ao estilo das leituras públicas de Mário Cesariny?

Para este guião, vamos invocar o espírito de Mário Cesariny. Imagine um palco escuro, apenas uma luz crua sobre uma cadeira, um cinzeiro e um copo de água (ou vinho). A leitura de Cesariny não era polida; era hesitante, explosiva, cheia de pausas dramáticas e sotaque lisboeta arrastado.

​O tema é a Solidão Digital, tratada como se fosse um monólogo surrealista de 1960 projetado em 2026.

​Performance: "O Aquário de Vidro Líquido"

​Indicações de Cena:

  • O Ator: Deve ler como se estivesse a confessar um crime ou a ler a lista de compras num manicómio.

  • O Ritmo: Começa muito lento, quase num sussurro, e termina num grito contido.

(O Ator entra, senta-se, olha para um smartphone como se fosse um inseto estranho)

[Início da Leitura]

​"Meus senhores...

(Pausa longa, olha para a audiência com desdém)

Há um peixe de luz azul a comer-nos o rosto.

Estou aqui, ou estou ali, naquele retângulo de vidro?

(Bate com o nó dos dedos na mesa)

Entre mim e o vizinho, há um satélite.

Entre a minha mão e a tua coxa, há um algoritmo a contar os batimentos do tédio.

​Estamos todos...

(Gesticula vagamente circular)

...terrivelmente ligados por fios que não se veem.

Uma rede de pesca onde o pescador também é o peixe.

(Ri-se baixinho, uma risada seca)

​Olhem para as vossas mãos!

(Grita subitamente)

São mãos ou são extensões de plástico?

Lisboa está cheia de gente a olhar para baixo,

à procura de um coração que faça 'clique',

à procura de uma alma com sinal de Wi-Fi.

(Levanta-se e caminha pelo palco)

​A solidão, meus caros, já não é um deserto.

A solidão agora é uma multidão de fantasmas a carregar baterias.

Estamos sós... mas com notificações.

Estamos sós... mas com cinco mil amigos de fumo.

É o surrealismo total!

Dalí teria medo deste espelho que nos rouba o reflexo e nos devolve publicidade a sapatos!"

(Lança o smartphone para dentro de um balde de água — ou finge que o faz)

​"Boa noite.

O último a sair... que apague o ecrã."

​Por que isto é "Cesariny Style"?

  1. A Ironia Mordaz: Ele adorava ridicularizar o comportamento moderno ("alma com sinal de Wi-Fi").
  2. O Objeto Absurdo: Pegar num telemóvel e tratá-lo como um "peixe de luz" é uma metáfora puramente surrealista.
  3. A Quebra da Quarta Parede: Cesariny interpelava o público, confrontava-os com as suas próprias mãos e gestos.
  4. O Desespero Urbano: A solidão não é romântica; é tecnológica, fria e "de metal espesso".
Para terminar deixo aqui um poema que cruza a turbulência de S. Francisco com o lirismo de H.Helder:

domingo, 1 de fevereiro de 2026

VITÓRIA

Fotografia, MRodas



 tudo começou 

em noites de insónias

e tudo acabou numa noite mal dormida

tentei resistir

mas não fui capaz


o teu amor 

tirou-me as mãos dos bolsos 

e arrancou-me dentro de ti


foram precisas muitas noites e flores 

muita água e passos perdidos

para te reencontrar


desentranhou-se o coração quando partiste

        partiste?

e fiquei no meu canto

         triste?

à espera do regresso





quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Somos Todos Parte


Foto, MRodas


Somos Todos Parte



Um em cada cinco carrega por dentro

Uma história, um desafio, um existir.

Olhando ao redor, surgem com  clareza,

Vidas plenas, radiantes, cheias de beleza.


Cem por cento, sem exceção,

Teremos um dia uma limitação.

A idade, o acaso, a fragilidade,

Unidos na mesma humanidade.


Por que excluir, se a vida é ponte?

Por que ignorar, se há horizonte?

O diferente pertence, não é à parte,

É uma alma inteira, amor e arte.


Pois o mundo é diverso, e assim deve ser,

Um mosaico de formas, de ser e viver.

E ao aceitar cada voz e visão,

Somos fermento, bandeira, vinho e pão.


Cada história é única, cada ser é canção,

Não há perfeição, só diversidade na criação.

A vida não é ausência, o que parece faltar

Mas a presença, o abraço e o caminhar. 


A inclusão é mais que um gesto ou dever,

É a oportunidade de aprender e de crescer.

Erguer os olhos, estender a mão,

Abraçar  o outro, construir a união.


Incluir não é favor, é humanidade,

É construir juntos uma sociedade.

Com rampas, legendas, com toque e visão,

Com olhos abertos, sorriso e emoção.


Somos todos frágeis, somos todos fortes,

Cada um com seu rumo, suas próprias sortes.

E quando nos unimos em prol do diverso,

Somos, certamente, o eco mais belo do universo.


domingo, 15 de dezembro de 2024

Nas Ruínas da Esperança

 



Nas Ruínas da Esperança


Do pó dos caminhos antigos

restam sombras ressequidas,

ferro retorcido, silêncio espesso;

a distopia é um eco de aço e gritos,

uma cicatriz raivosa no horizonte queimado,

onde os sonhos eram lanças,

e as noites, prisões ululantes.


Mas a vida—ah, essa ladra cruel—

dança sobre os escombros com pés descalços,

zombando das lágrimas que secaram,

esculpindo flores na fuligem.

Ela é tragédia que insiste em florescer,

paradoxo que sangra e sorri.


O futuro é uma farsa sussurrada,

uma utopia feita de vapor e promessas frágeis,

flutuando como balões perfurados,

tão perto, tão distante.

O amanhã brinca com os sonhos,

rindo da coragem de quem ainda planta

sementes no deserto.


E nós, marionetes do acaso,

carregamos no peito a ironia de existir:

somos o pranto das eras e o riso do caos,

tecendo com mãos sujas o fio da esperança

que nos agiganta e liberta,

num só nó.



terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Zeca, meu amigo

 


Por favor, 

Não andes por aí a anunciar os meus feitos inventados por ti, 

Eu não sou cientista, nem artista, 

Eu não sou o que dizes ou imaginas para mim.

Eu não quero a tua visibilidade,

Não me quero candidatar a nada,

Pretendo viver a minha vida em diálogo com o futuro que é hoje.

Saborear o salino ar da manhã, acompanhado por duas tostas e uma chávena de café.

De mim pouco há a contar e pouco importa. 

Nasci pastor, fiz-me agricultor, fui professor, estudante ainda sou.

Tenho uma imensa curiosidade pelo segredo das coisas visíveis e invisíveis

Tacteio o poema, e fotografo os momentos de maior lucidez nos caminhos da vida.

O resto pouco importa.

O que importa não sou eu, é o mundo, a vida, a natureza e a humanidade. Isso sim! O amor e a paz. E o futuro!

E aí, meu amigo, a preocupação é cada vez maior. Aí os elogios são parcos e as preocupações e críticas imensas.




sábado, 30 de novembro de 2024

Mensageira da esperança

 


Saiu à rua a mensageira da esperança

Acenar às gentes desesperadas a verdade

A fórmula inacabada do caminho

Que já escorria nos semblantes do mundo

Há muito se tinha perdido a esperança

A matança nem dormir queria

Era ver os rios de sangue

E as cabeças das crianças 

Separadas de seus corpos

Que ainda rezavam.

Era ver as rosas tingidas de vermelho

E as flores a desistirem

Vergadas de orvalho escuro

Era ver o mundo andar para trás

Desistir de rodar em direção ao sol

Rodava ao invés para a noite


Já não havia declarações de amor

Nem força para os beijos

Nem suspiro para os abraços

Toda a gente desistira de correr

Sentara-se apenas a olhar

Sem saber o que admirar

Braços caídos olhar perdido

Sem lábios no rosto

E olhos sem lágrimas.

Mas o anjo da esperança

Saiu à rua, de fita amarela ao pescoço 

E uma bandeira vermelha na mão

Em cada esquina deixava pétalas encarnadas

Que na sua ausência floresciam inebriadas de alegria

Com um toque de mão em cada ombro

Era um contágio em cada alma

Que se acendia noutra vizinha.

Assim correu mundo o anjo da esperança

Com uma fita amarela ao pescoço e

Uma bandeira vermelha na mão.


Reuniram os poderosos

Tal não podia acontecer

Não era exemplo que lhes servisse

Contra ela enviaram canhões e aviões

Metralha incandescente de raiva

A tudo resistia o anjo da esperança

Com um toque nos campos

Renascia o milho e os girassóis

Corria água nas fontes secas

Cantavam os pássaros na mudez antiga

Enchia-se o olhar do povo

Dum azul nunca visto

Davam as mãos na rua

E a madrugada veio apanhar os amores aos beijos

Com promessas de futuro.

A falarem dos risos das crianças

Que haviam de ser

 E voltar a ir à escola

Os mares voltariam a ser navegados

Os campos cultivados

E a serenidade aos corações 


E o mundo deixou de ser a noite fria e cruel

Dando lugar ao dia radioso de verde e azul 


Onde está o anjo da esperança?

Perguntavam todos crédulos e inocentes.

O anjo da esperança és tu

Repetia a voz em cada um

O anjo da esperança és tu!

O anjo da esperança somos nós!

MRodas