segunda-feira, 10 de junho de 2013

O LIVRO - POR SOAJO







Apresentado em Soajo, em 2 Agosto de 2014!


Depois de ter recolhido todos os textos e crónicas escritas por meu pai (José de Sousa Rodas) estou a preparar a sua edição e futura publicação. Numa 1ª parte faço umas anotações explicativase introdutórias da obra. Numa 2ª parte o autor  descreve a sua infância e adolescência, primeiro no lugar da Várzea e depois num percurso que o há-de levar a Sintra, aos Açores e novamente de regresso a Soajo. Nas duas últimas partes serão publicadas todas as crónicas publicadas no Jornal arcoense A Vanguarda. Neste blogue vou publicando apenas alguns excertos!

JOAQUIM PESSOA, in NOMES (Litexa, 2001)

PAI

Na tua casa havia uma aldeia
onde sempre foste todos os habitantes.
O ar vinha cantando dos campos da lua,
entrava em festa pelas frestas, pelas ruas,
doirando até à pele. Com ele chegava o aroma
do alecrim e da resina, da primeira lã dos cordeiros.
Tomaste para ti um nome que era todos os nomes,
aquele que pode mover todas as coisas, que pode ser
todas as coisas, o que todas as coisas comentam e festejam.
O nome dos pastores e dos lumes. Nome de reis
e artesãos. De escribas. E das crias
dos cães que povoavam os desertos.
Em todas as casas havia o teu nome
numa aldeia. Onde todos os habitantes
foram sempre tu. E onde a lua vinha cantando
dos campos, quando a festa do ar entrava
pelas frestas da pele com o aroma dos cordeiros.
Doiraste o alecrim e a resina. E tomaste
todas as coisas no teu nome. O nome
que todos os nomes comentam e festejam.
Em nome do nome de crias e pastores.
Em nome do nome de reis e artesãos.
Em nome dos lumes e dos cães. E em nome
dos escribas que povoam os desertos.



Autobiografia
17º
Assim se passaram estes 19 meses que estive no Moinho do Capitão. Em fins de Março de 1943, regressei a S. Amaro para embarcar para o continente, a fim de ser desmobilizado. Ninguém pode calcular o que se passava dentro da minha cabeça e do meu coração. Sentia-me contente por poder ser livre e poder voltar à minha aldeia e abraçar meus pais e todas as pessoas amigas. Mas sentia-me imensamente triste, terrivelmente contrariado, por não poder fazer-me acompanhar da minha bem-amada. Se o meu corpo partia esperançado e confiante no futuro, o meu espírito e coração ali ficavam pregados juntos daquela que tanto amava. Ainda imaginei que ela poderia embarcar para o continente, antes ou depois de eu ter saído, mas  nem os meus pais o desejavam e o pai dela opunha-se peremptoriamente. “Teria de voltar ao Faial, casar pela Igreja e depois que a levasse para onde quisesse”. Assim, parti só, apesar do barco vir cheio de militares!
Antes de partir, pedi ao meu irmão António, que era furriel miliciano, para ir falar com o pai dela e permitisse receber correspondência minha. No entanto, meu irmão compreendeu mal e foi pedi-la em casamento, coisa que só vim a saber muito mais tarde!
Regressado assim ao convívio dos meus familiares, continuei escrevendo-lhe e numa das cartas pedia-lhe que voltasse aos bancos da escola e tirasse o curso de regente escolar. Pensei que, quando me fosse possível, iria ao Fail, casaríamos e voltaríamos para cá, podendo ela leccionar no lugar da Várzea. Ao fim de 11 meses junto de meus pais, voltei a Sintra, pois só assim conseguiria arranjar dinheiro para a projectada viagem e casamento. Fui trabalhar de carvoeiro para o Algueirão Novo, mas residia na Agualva, Cacém.

 Continuámos trocando cartas amorosas e fazendo projectos para o futuro, que antevíamos risonho. Em fins de Maio de 1945, apareceu meu irmão António, que tinha sido desmobilizado. Disse-me que voltava aos Açores, pelos fins do verão, pois tencionava casar com a namorada que lá deixara. Para mim foi um rude golpe, pois sendo assim, já eu não voltaria aos Cedros. Meu irmão ainda tentou convencer-me a regressarmos os dois aos Açores, mas tive de lhe lembrar que a mãe só tinha dois filhos. Como poderíamos os dois ir embora e deixá-la desamparada? Um de nós tinha de casar cá, e como ele já tinha assumido compromissos muito sérios, teria de ser eu a sacrificar-me, embora com grande custo!

16º
Não fomos muito bem acolhidos quando chegamos aos Cedros, principalmente pela população feminina. Quando passeávamos pela população, estas recolhiam-se em casa, fechavam as portas e janelas, voltando abri-las após a nossa passagem. Só aos domingos, ao entrarem e saírem da igreja, podíamos contemplar as beldades, por sinal, bem formosas e bem feitas, tanto de corpo, como de rosto.
No moinho, as únicas visitas que tínhamos eram do sr. Pe. Cura  e do moleiro. Com raras excepções, era uma população alegre, feliz e respeitadora das suas tradições e do seu meio e acima de tudo, muito religiosa, bem-educada, mas um pouco tímida…
Aos poucos fomo-nos aproximando e viemos a saber que existiam vários boatos, vindo de outras ilhas: “Que nenhum militar poderia casar nas ilhas, por os comandos militares não autorizarem, que já existiam muitas jovens grávidas que iriam dar à luz filhos sem pais”, etc. Isto aumentava ainda o fraco acolhimento.

Conseguindo tornear essas dificuldades, consegui as simpatias de uma jovem, órfã de mãe, que vivia com uma irmã mais nova e o pai. Era uma das mais lindas, ou até mesmo a mais formosa da freguesia dos Cedros! Acredito que tudo correria bem se o pai não se tivesse oposto terminantemente. Tornou-se um carrasco para ela, tratando-a rude e cruelmente, tanto com palavras, como até fisicamente. Trancou-a em casa, chegando a pregar as janelas para não falar comigo, só podendo sair acompanhada de uma tia ou irmã. Levando tudo com paciência correspondíamo-nos muito secretamente. Raras vezes nos víamos, sempre às escondidas e muitas vezes, com a cumplicidade da tia.

15º

 Nesta data fui incorporado no Batalhão de Recrutas do Regimento de Infantaria nº11 em Setúbal. Em Março desse ano fui inspeccionado no Quartel-general de Lisboa, tendo ficado apurado, para Viana do Castelo, Caçadores nº 9. Meti um requerimento a solicitar a minha incorporação numa unidade militar de Lisboa ou suas proximidades. Fui mandado para Setúbal. Aí tudo corria bem, embora como era de prever, tivesse certas dificuldades de adaptação. Novo requerimento e após a recruta recebi a guia de marcha para a Amadora, na Formação do Batalhão de Carros de Assalto nº1, sendo obrigado a interromper o curso de cabo.
Recebi o nº 441 e o meu colega Basílio o nº 440, e fomos colocados na 1ª Companhia, que tinha por Comandante, o Capitão Delcio da Mata Calisto.
Todos estes requerimentos foram causados por desejar estar próximo da minha primeira namorada, que de Inverno vivia na Avª de Berna, em Lisboa e de Verão, passava-o no Largo 1º Dezembro, S. Pedro de Pena Ferrim, em Sintra. O meu meio de transporte entre o quartel na Amadora e a Avª de Berna era pedestre, a ida e a volta, embora raras vezes fosse de comboio, mas como era a carvão, durante a viagem tinha de colocar um lenço no colarinho senão chegava com o colarinho todo sujo, junto da namorada …
Em finais de Fevereiro de 1941veio ordem para passar à disponibilidade e assim deixei este quartel definitivamente, ao fim de 13 meses.
Como tinha prometido a meus pais, vim visitá-los à Várzea, minha terra natal, com intenção de aí passar apenas um mês junto deles, mas acabei por ficar sete semanas.
Como entretanto tinham passado já sete anos, ao regressar agora já um homem feito, era natural que algumas pessoas não me conhecessem e eu não as conhecesse também, causando-me grande embaraço. Cheguei à Várzea, na quarta-feira de Cinzas e no sábado de Páscoa tive que me apresentar em Braga, para ser incorporado no 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº8. Oito dias depois da apresentação em Braga, seguimos para o Quartel da Graça em Lisboa e passados dois dias, em finais de Abril de 1941,embarcamos com destino desconhecido, para nós.
Ao embarque compareceu a minha namorada, acompanhada pela prima. Enquanto ela se desfazia em lágrimas eu tentava aparentar boa disposição, o que levou a prima a comentar: “ Até parece que vai para uma festa!”
Só em pleno Oceano soubemos ser o nosso destino os Açores, por sinal a Ilha do Faial. Ficamos instalados no quartel de S. Amaro, cidade da Horta. Devido a doença, broncopneumonia, fui internado no hospital civil desta cidade em 1 de Maio, onde estive 25 dias. Regressado ao Quartel, ali estive até 2 Agosto, data em que fui colocado no P.O. do Moinho do Capitão, freguesia dos Cedros, juntamente com mais 3 colegas, José Gonçalves da freguesia de Couço, Melgaço, Rodrigues, da Póvoa de Lanhoso, Peixoto, das Terras de Bouro, e eu, claro, de Soajo.
Estivemos acampados em tendas militares, nos terrenos anexos ao moinho, cerca de 15 dias, por não haver quem quisesse arrendar uma casa. Foi necessário, com autorização superior, obrigar um proprietário a ceder-nos parte de uma dependência do 1º andar da casa de arrumos, por eles designada de “atafona”. Estive aí até fins de Abril de 1943, data em que fui desmobilizado e regressei ao continente.
Não quero demorar-me muito sobre a minha estadia nesta terra, pois embora tenha belíssimas recordações, também foi aí que sofri os primeiros desaires amorosos da minha vida. Fiz várias vezes a volta à ilha de bicicleta, fui ao fundo da Caldeira, e rodeei esta no alto, a pé.

14º

Nesta data fui incorporado no Batalhão de Recrutas do Regimento de Infantaria nº11 em Setúbal. Em Março desse ano fui inspeccionado no Quartel-general de Lisboa, tendo ficado apurado, para Viana do Castelo, Caçadores nº 9. Meti um requerimento a solicitar a minha incorporação numa unidade militar de Lisboa ou suas proximidades. Fui mandado para Setúbal. Aí tudo corria bem, embora como era de prever, tivesse certas dificuldades de adaptação. Novo requerimento e após a recruta recebi a guia de marcha para a Amadora, na Formação do Batalhão de Carros de Assalto nº1, sendo obrigado a interromper o curso de cabo.
Recebi o nº 441 e o meu colega Basílio o nº 440, e fomos colocados na 1ª Companhia, que tinha por Comandante, o Capitão Delcio da Mata Calisto.
Todos estes requerimentos foram causados por desejar estar próximo da minha primeira namorada, que de Inverno vivia na Avª de Berna, em Lisboa e de Verão, passava-o no Largo 1º Dezembro, S. Pedro de Pena Ferrim, em Sintra. O meu meio de transporte entre o quartel na Amadora e a Avª de Berna era pedestre, a ida e a volta, embora raras vezes fosse de comboio, mas como era a carvão, durante a viagem tinha de colocar um lenço no colarinho senão chegava com o colarinho todo sujo, junto da namorada …
Em finais de Fevereiro de 1941veio ordem para passar à disponibilidade e assim deixei este quartel definitivamente, ao fim de 13 meses. 

13º


Mas…voltemos a Sintra a 12 de Março de 1935.
Nesse dia fiquei tão contente e satisfeito que até se me torna difícil explicar. Passei pela Chã dos Meninos, onde trabalhavam alguns rapazes e homens da nossa terra, falei com eles e disseram-me que podia dormir na casa da Tia Lucinda, ou na da Tia Maria Coiradas. Fui ver, não gostei, pois era poisio de prostituição e gente viciada em bebidas e até… com aspecto de criminosos. Regressei à Vila de Sintra e contei à Tia Ana, que na manhã seguinte iria trabalhar para a Pena, mas… que não tinha onde ficar à noite. Ela disse que estivesse descansado, pois falava com o marido e podia ficar lá em casa. O Tio Manuel Cancela concordou em dar-me a cama e a sopa à noite, mas tinha que trazer todos os dias, dois ou três paus de lenha, para o lume.
Alguns dias depois chegou, o meu primo Padreca, que depois de andar por Lisboa, Barreiro e Setúbal, não tinha conseguido arranjar trabalho. Finalmente na Administração Florestal da Serra de Sintra conseguiu ir trabalhar comigo para o Parque da Pena. Assim andamos os dois até 29 de Junho, data em que terminou o trabalho na Pena e fomos todos despedidos, menos os efectivos. O meu primo voltou para Setúbal e eu fui parar à Casa Piriquita, pastelaria na Rua das Padarias, na Vila de Sintra. Aí trabalhei até Outubro do mesmo ano. Tratava dois porcos, 8 cães, e todos os dias ia à estação da CP, ao comboio das 13 horas, levar encomendas de doces para Lisboa. Peneirava farinha de trigo. Esmagava e desfazia queijos frescos, ajudava a preparar a massa para as queijadas e outros bolos. Ajudava a empacotar queijadas e arrumava nas prateleiras…
Em fins de Outubro, fui para S.Pedro de Sintra, Largo 1º Dezembro, trabalhar para o sr. José de Almeida (Russo). Lavava automóveis e vendia gasolina e óleo. Estive nesta casa até Junho de 1936, data em que fui para o Bairro das Palmeiras, no Barreiro, aprender de padeiro na padaria do sr. Ramos.
Como esta vida não me agradasse, em Março de 1937 despedi-me e voltei para S. Pedro de Sintra e novamente para casa do Sr. Russo, mas agora também tinha de fazer distribuição de petróleo e gasolina por todo o concelho e ainda aos azeiteiros de Alcabideche, Oeiras, Queluz, Cacém, Amadora e Sabugo. Eu era o ajudante e tinha como condutor, o Manuel Francia.
Estive nesta casa até 25 de Outubro de 1939. 

12º 

Um dia, talvez oito dias após a minha chegada, apareceu lá o António Afonso, que por sinal era um fala-barato, para não dizer gabarola, elogiou-se tanto, que o Tio Cancela, que quase todos os dias se embriagava, e como nesse dia também tinha uma pinga a mais, disse que eu também tinha de ir procurar trabalho, devia ir por essas quintas e quintais, tocando as campainhas e oferecer-me para trabalhos leves.
Nesse dia já não jantei e assim fiz. Depois de muitas recusas fui parar a Abelheira, Secretaria dos Serviços Florestais, na Serra de Sintra. Primeiro apareceu-me um Guarda-florestal a dizer que não, mas como estava ali o Sr. Engenheiro o melhor era falar com ele. Este disse que sim, mas se fosse para os Capuchos. O engenheiro perguntou-me de donde era e onde dormia à noite. Disse-lhe ser de Soajo, Arcos de Valdevez e ficava no Rio do Porto, em casa do sr. Cancela. “ Ah! Sim, em casa do vosso Cônsul!” Então virou-se para o Guarda e disse-lhe: “ Para os Capuchos não, que fica longe, vai apresentar-se amanhã nos Portões da Pena, ao João Guarda”.
Foi assim que iniciei a minha vida de trabalho como jornaleiro nos Serviços Florestais, na Serra de Sintra e que muitos anos mais tarde viria ocupar o lugar de Guarda-Florestal de 3ª, 2ª, 1ª classe e finalmente Guarda Principal, nas serras da Anta, Amarela, Peneda e Soajo, com várias comissões de serviço, ente as quais na Beira Alta. Mas isso ficará para tratar no devido tempo.


11º

Como este senhor tinha uma venda de leite ambulante, nem ele nem a mulher estavam em casa a essa hora, pelo que tive de esperar à porta da sua residência no lugar do Rio do Porto. Quando chegaram por volta das 5 ou 6 da tarde, já sabiam da minha fuga do Seminário, pois nesse mesmo dia, de manhã, tinha chegado da Várzea, o meu primo Francisco Gonçalves, conhecido por Chico Padreca. Fui muito bem recebido por ele e pela mulher Tia Ana. Ele tirou-me as botas e  as meias, aqueceu água, lavou-me os pés, enxugou-mos e desinfectou-os com álcool. Ela fez a comida, pôs a mesa e foi um belo jantar, a que não faltou o café e a macieira para remate.

No dia seguinte, meu primo seguiu procurando trabalho, mas a mim não me deixaram ir, por acharem não estar ainda em condições, devido ao esforço feito. Como meu primo não conseguisse emprego, passados alguns dias seguiu para o Barreiro e daí para Setúbal. Quanto a mim, fiquei em descanso e tratamento por alguns dias, embora todos os dias de manhã e à tarde fosse ajudar a Tia Ana na venda do leite.

10º 


De Valongo a Sintra foi sempre uma marcha forçada. Caminhava de dia e à noite descansava. Passei fome, pois precisava fazer render os meus 4$00. Tive sorte, pois as pessoas que me davam dormida, também me davam comida à noite, e geralmente o café de manhã. Em S. João da Madeira, como todos me mandavam para a estalagem, resolvi entrar numa corte de animais onde estava uma toura. Quando me procurava esconder, um senhor com palha nos braços perguntou-me que estava a fazer ali. Levou-me para casa e deu-me comida com abundância, e como não tinha alojamento para mim, por ser pobre, levou-me a casa dum compadre, onde dormi regaladamente.

Com mais ou menos sacrifício, mas sempre em marcha cadenciada e esforçada prossegui minha viagem com destino a Sintra, onde cheguei no dia 6 de Março de 1935, pelas 14 horas. Será escusado dizer que o meu destino era o “Consulado de Arcos de Valdevez”, a casa do Tio Cancela! 




Ao sair do Seminário não me dirigi para a Régua, nem para a estação dos Quatro Caminhos, pois sabia que quando fosse notada a minha falta, as buscas seriam feitas nessas direcções. Tomei o rumo de Amarante. Sabia que a distância a percorrer até Sintra era grande, as dificuldades seriam enormes, mas teria de vencer e… venci!
Fui na direcção de Mesão Frio e nessa noite dormi em casa dum seminarista chamado Portela, mas é claro, não disse que tinha fugido do Seminário. No dia seguinte dirigi-me à estação da CP de Porto Rei, onde por $50 atravessei o rio de barco. Tinha planeado pedir dinheiro emprestado à professora D. Laurinda e seu marido que me tinha levado a exame da 4ª classe, e eram proprietários da Quinta de S. João da Fontoura. Mas… pouca sorte, estavam em Resende! 
Para regressar tive de pagar mais $50 ao barqueiro, pelo que fiquei com 4$00 apenas. Como já era tarde deitei-me no cais da estação, onde tencionava passar a noite. Como o Chefe da estação pensasse que eu era o espião de ladrões, quis-me levar para o seu gabinete, mas quando passou um comboio, passo por baixo duma carruagem para o outro lado, e como a carruagem estava vazia, saltei lá para dentro. Como estava frio, encolhi-me num canto coberto pelo  sobretudo, e assim fui até Valongo. Aí passei a noite, por ser uma estação com pouco movimento. 




No entanto, devido às saudades da família e da vida na aldeia, custou-me adaptar, um pouco às leis rígidas, para não dizer bastante ou demasiado severas, impostas pelo Seminário. 
Todos os nossos movimentos, as nossas reacções ou atitudes eram secretamente vigiadas e anotadas e, no fim-de-semana e do mês eram dadas notas de bom ou mau comportamento. Assim vivemos enclausurados no Seminário de 1 de Outubro a tantos de Julho.  
Quando o tempo consentia tínhamos passeios ao domingo e quintas-feiras de tarde. Éramos acompanhados por padres, que nos vigiavam com certo rigor. Tudo isto principiou a causar-me um certo mal-estar, uma certa revolta, que durante as férias  de Julho a Setembro, viria a aumentar. 
Logo que voltei para o 2º ano pensei em abandonar os estudos, pois não me sentia com forças para levar aquela cruz. Disse ao Sr. Director Pe. Mário Alves da Silva, que não queria ser padre, mas também não queria que me mandasse de volta para casa de meus pais. Desejava ir para o Barreiro, onde tinha o meu irmão Francisco, ou para Sintra, onde tinha primos e mais gente da minha terra. 
Não concordou e pediu-me para ficar mais algum tempo e pensar no passo que ia dar. O meu pensamento concentrou-se todo no modo como devia abandonar o Seminário, pois sabia que o Director nunca me deixaria ir para Sintra, ou para o Barreiro. 
Um belo dia do mês de Fevereiro de1935, não sei precisar o dia certo, pois já lá vão cinquenta e dois anos, depois do pequeno almoço, pedi autorização para ir ao dormitório, peguei no sobretudo e em cinco escudos, que tinha escondido, desci à capela, abri uma janela, abri a porta que dava para o exterior, saí, fechei a porta à chave e mandei estas para dentro da capela, pela janela que tinha aberto. Pronto, neste preciso momento tinha dito adeus à vida sacerdotal. Teria feito bem? Teria feito mal? Não estou arrependido, pois nunca seria um bom padre.





Lá voltei à vida de pastor até que foi criada a escola primária de Paradela. Todas as crianças dos 7 aos 14 anos teriam de ir para a escola. Começou em 7 de Janeiro de 1930. Assim durante três anos, chovesse ou nevasse, fizesse frio ou calor, eu e meu irmão tínhamos de calcorrear de manhã o caminho da Várzea a Paradela e de tarde o regresso. De Janeiro até ao fim do ano escolar do ano de 1933 eu e meu irmão tivemos de ficar em Paradela, de segunda a sábado, para frequentarmos a escola nocturna, para fazermos o exame do 2º grau (4ª classe). Éramos 7 candidatos, mas no final só fomos 3 a exame: eu, meu irmão e o Artur Flores Afonso, filho dum Guarda-Fiscal. Ficamos todos bem. Fomos os primeiros alunos de Paradela a fazer exame nos Arcos.

Após o exame, meus pais pensaram fazer de mim e meu irmão António, dois sacerdotes missionários, pelo que em 26 dias nos preparamos em Soajo, com o sr. Padre Amorim (da Benta) para o exame de admissão. Daqui seguimos para o Seminário do Fraião em Braga, onde prestamos provas, o que fizemos com certa facilidade e fomos aprovados. Logo fomos informados que no dia 1 de Outubro teríamos de dar entrada no Seminário das Missões do Espírito Santo em S. José de Godim, Régua e ainda o número com que deviam ser marcadas todas as peças de roupa, constituindo o enxoval de cada um de nós.

Neste primeiro ano tudo correu bem e não tive grandes dificuldades.





Como na Várzea não havia escola e meus pais pensassem em dar-me mais alguma instrução, levaram-me para a sede da freguesia, onde existia a escola, que era dirigida pelo Sr. Prof. Manuel Gonçalves Lage. Eu frequentava a aula nocturna e em troca de comida, dormida e roupa lavada ficava a trabalhar na taberna no largo do Eiró, para o sr. António Barbosa, o Caixeirinho, de quem o meu pai era amigo. Tudo parecia fácil, mas… quase sempre há um mas… O sr. Caixeirinho era casado com a srª Teresa, formando um casal de ideias completamente antagónicas. Ele boa pessoa, educado e compreensível, de quem fiquei sempre muito amigo e respeitei enquanto viveu. Ela, completamente oposta, sempre mal disposta, teimosa e sem educação. Levava o dia inteiro zangada com o marido e a ralhar comigo. Eu aguentei todo o mês de Outubro e Novembro. Um dia enchi-me de coragem, meti as minhas coisinhas num saco, subi a encosta de Ramil, Portela do Galo, e eis-me em casa. O meu irmão Francisco escrevia de Sintra e só mandava dizer maravilhas. Comecei a passar as noites sem dormir, a pensar como ir ter com ele. Um dia, combinei com o Domingos Niquete e Manuel do Ricardo fugirmos para Lisboa, que era o sonho de qualquer rapaz com 14 ou 15 anos de idade, embora eu só tivesse sete. 



Em Fevereiro, eu e o Manuel juntamos 400$00, o Domingos nada conseguiu, mas o dinheiro daria para os 3. No dia marcado, de tarde, lá fomos nós, encosta acima, Chã do Salgueiro, Chã da Porca e pernoitamos na Trapela, numa corte do Sr. Luís Tabelho. Eu apesar de ser o mais novo era o chefe e ao romper do dia acordei-os e metemo-nos a caminho da Casa das Máquinas, ou Empalme, local onde passava a carreira de passageiros de Cidadelhe, Ponte da Barca. Nessa altura a estrada não passava de Cidadelhe e a de Soajo só chegava a Figueiredo. Lá atravessamos a ponte de arame, que existia sobre o rio Lima e na outra margem demos de caras com o Tio Ricardo. Tantas ilusões desfeitas num só instante! Desatei num choro sem fim. Mas… o remédio foi voltar para casa. 



Em Maio, voltei a tirar 200$00 ao meu pai e ao romper do dia não foi preciso acordarem-me, como fazia minha mãe todos os dias. Tomei o pequeno almoço e saí para ir pelas cabras ao Lombo da Vinha, como fazia todos os dias, só que nesse dia, mudei de roupa nas cortes do Santo ou Cruzeiros e ala direito a Soajo, onde tomei café em casa do Sr. Caixeirinho, atravesso a ponte de arame e… mais uma vez estava ali o azar! Estava à espera da camioneta, quando ouço vozes conhecidas: eram as de minha mãe e meu cunhado Barreira. Arranco para Britelo, apanho a carreira e chego a Arcos de Valdevez. O condutor, o sr. Quintino e o cobrador, sr. Vergílio dizem-me para esperar na casa do sr. Trinta, um senhor de Adrão, pela camioneta para Braga daí a 4 horas, que eles depois iriam chamar-me. Quem apareceu foi o meu cunhado e lá regressei a casa, tendo a fuga para Lisboa sido adiada para outra ocasião. 






Havia uma certa rivalidade entre jovens da Várzea e do Olelas (Espanha), sendo frequente haver pancadaria entre ambos, embora também houvesse amizade e compreensão. No dia 18 de Dezembro vinha eu e o meu vizinho João Pedro (Gigante), com animais nossos e ao chegar a Monteiro deparamos com 4 rapazes de Olelas mais ou menos da nossa idade. Conseguimos correr com eles até ao Cabeço da Vigia.
Noutra ocasião fomos à festa, na terça-feira de Pentecostes, em honra de Nª Sª Virgem de Olelas. Neste dia grandes e pequenos, rapazes e raparigas lá vestiam a sua melhor fatiota e ala de abalada à festa da Virgem. Geralmente os rapazes levavam compridas varas de pau, só que nesse ano, a Guarda Civil obrigou a guardá-los no comércio do Sr. Inácio. Nós éramos oito e a rixa começou logo que chegamos, mas ainda só com palavras. O pior foi à tarde no arraial. A certa altura um rapaz da Ilha passou uma rasteira ao Refia quando este andava a dançar. Formou-se logo ali uma zaragata enorme entre os moços pequenos. Como eu e o Refia éramos os piores, a Guarda Civil prendeu-nos. Pelo Refia respondeu o Guarda-Fiscal, Leites, mas teve que se retirar com ele, para a Várzea. Por mim, respondeu o meu tio João Manuel, que me fez as orelhas negras e obrigou a estar junto das pessoas mais velhas o resto do dia.
Apesar de tudo, existiam fortes amizades entre nós e os galegos. Quando havia festas, nós íamos comer a casa deles e eles às nossas. Havia uma convivência íntima até nos trabalhos, indo nós ajudá-los e eles vinham também ajudar-nos.
Aos sábados, os rapazes iam lá aos bailes e eles vinham cá noutros sábados e tudo na melhor ordem, respeito e amizade. As desavenças eram só entre moços pequenos. Logo que principiassem a namorar acabavam as rixas.








Por esta altura, meu irmão Francisco imigrou para Lisboa, melhor para Sintra, pelo que o meu trabalho de pastor aumentou, indo eu ocupar o lugar dele e vindo o meu irmão António para meu auxiliar. Como era mais gordo que eu, e andava com mais dificuldade, quando íamos com as cabras para a Saramagueira tinha de o levar às costas, apesar de, só ser mais velho, 23 meses.

Na Primavera, em fins de Março, eu e meu pai levávamos os touros e touras com menos de 4 anos, ao Carvalhal, monte espanhol, que fica junto ao Campo do Louro, no Quinjo e permaneciam lá até Maio. Durante este tempo, duas a três vezes por semana, meu pai ia-nos passar ao rio no Salto e nós lá íamos pelas Baijas, Figueira Moura e muitas vezes até Brenguela, juntar os animais. Meu pai aconselhava para no regresso passarmos o rio no Porto-à-Várzea, mas como a volta era grande, quando chegávamos ao Salto, pegava no meu irmão às costas e aventurava-me a atravessar assim o rio.

Estes animais em meados de Maio juntavam-se com os outros e iam para a Seida e aí acontecia o que já foi relatado.

Em meados de Setembro regressávamos da Seida e voltávamos ao Quinjo, mas desta vez para Trabação, Brengula, Chã do Marco, Seixedo e Bris, ficando por aí até fins de Novembro, altura em que vinham para o lugar a fim de passar o Inverno.

continua...



Estou a lembrar-me de outro episódio, ocorrido numa manhã linda do mês de Abril. Como faltava uma égua há já 6 ou 7 dias, meu pai mandou-me procurá-la lá para os lados de Soutelinho. Estando eu sozinho neste local, comecei a ouvir roncar um motor de camião, que parecia vir pela encosta do Silval abaixo. Comecei a sentir um certo receio, pois não havia estrada. O ruído era cada vez maior e parecia estar por cima de mim. Tentei localizá-lo e verifiquei tratar-se dum enorme pássaro branco que voava na direcção de sul-norte. Era um fenómeno nunca antes visto e com medo, principiei a rezar, pensando ser o fim do mundo. Corri para casa e quando lá cheguei não se falava doutra coisa, pois todos tinham visto o avião. O João da Piedade (Perdido) tinha vindo a gritar e a correr para casa. Isto sucedeu a muitos, pois nunca tínhamos visto, nem ouvido falar de aviões.

continua...



Também nesta altura, era preciso levar as vacas para a Seida. Geralmente eram 13 ou 14 e 2 éguas, só ficando as necessárias para o trabalho e alguma parida, para dar leite. Por vezes chegávamos a estar na Seida aos 15 dias seguidos. O que custava mais era passar a noite, uma vez que a cama era feita de carqueja, dentro do cortelho ou cabana. A alimentação era à base de farinha de milho e leite com abundância, pois até chegávamos a fazer a sopa só com leite e farinha e pouco sal. Também tínhamos pão milho para fazer sopas com leite e uma vez por outra um pedacinho de toucinho ou de salpicão. Porém, várias vezes havia carne de cabra ou ovelha ou ainda vitela com abundância. Era o lobo que matava estes animais e nós aproveitávamos para variar de menu. Chegávamos a comer carne assada ou cozida sem sal, por haver pouco e fazer falta para as papas. Muitas vezes aparecia uma cortina densa de nevoeiro, que se tornava perigosa para a nossa orientação, causando extravio, como aconteceu algumas vezes irmos parar a locais distantes e desconhecidos. Estou a lembrar-me de uma vez, que com o António Pedro (chegou a padre) e o Manuel Esteves (Pé Lebe), saímos à tarde, levando cada um o seu cabaço para recolher leite, ordenhando alguma vaca ao sair do mosqueiro, quando se juntava com a cria, e aconteceu que por volta das 16 horas ficou tudo coberto de nevoeiro fresco e húmido.
Eu e o António Pedro fomos para a zona do Cantinho, Besiconde e Fornos, enquanto o Esteves foi para a zona do Fojo e Curral do Pai. A visibilidade tornou-se tão difícil, que para além de 5 metros, era impossível identificar qualquer objecto, pessoa ou animal. Combinei com o meu companheiro seguirmos uma ou duas vacas e elas levar-nos-iam ao Poulo, local onde ficavam à noite e onde se situava o nosso cortelho. Assim o fizemos. Quanto ao Esteves (Colhudo), não mais o vimos e depois de muito chamarmos, só dois dias depois tivemos notícias pelo Tio Catarino, de que tinha ido parar a Lombadinha, tendo seguido depois para a Várzea.




A 18 de Abril de 1918, nasceu no lugar da Várzea, freguesia de Soajo, concelho e comarca de Arcos de Valdevez, um menino a quem foi posto o nome de José de Sousa Rodas. Era filho de Manuel Preto Rodas (Marujo) e Ana de Sousa. Primeiro rebento, no referente à mãe, visto neste casal já existirem dois filhos (Francisco e Ana), trazidos pelo pai do seu primeiro matrimónio com Engrácia Esteves, da qual era viúvo. Deste segundo casamento houve mais dois filhos, António e Maria, tendo esta falecido aos seis meses de idade.
É pois sobre o José, que vamos citar algumas passagens da sua agitada e movimentada vida terrena. Ora esse José, sou eu, por isso, passo a falar de mim, o que para dizer a verdade não é muito agradável.
Fui criado como todas as crianças daquele tempo, naquele lugar e naquelas circunstâncias. Não havia falta de pão milho, broa, sopa e caldo de farinha, de dia com couves e a à noite com leite, que quase sempre sobrava para de manhã, para o pequeno-almoço.
Aos domingos, era um pouco melhorada a refeição do meio-dia, pois havia couves, batatas, feijões, carne de porco, com chouriça ou salpicão e bolo da pedra ou bicas do pote. Nestes dias também lá aparecia uma pinga, vinho da lavra da casa. Existiam datas tradicionais que eram celebradas por grandes e pequenos, novos e velhos, ou sejam: Carnaval, Páscoa, Festa do Vinte  e Nove, ou do S. Miguel, o Anjo, em 29 de Setembro, a matança do porco e Natal. Cada um tinha os seus usos e costumes, vindos dos nossos avós e que haviam de ser respeitados por nós, nossos filhos e netos. Como não existiam escolas, também não havia professores. As crianças, logo que atingiam 4 ou 5 anos, passavam a pastores de cabras, ovelhas e vacas. De manhã cedo, depois do pequeno-almoço, depois de ingerir uma tigela ou duas de caldo, que ficara da noite anterior, ei-los de saca ou fole, às costas, com uma côdea de pão dentro e algumas vezes uma cebola, ou sardinha e raras vezes um bocadinho de toucinho para fazer uma assadura. Lá iam elas, todas satisfeitas, encosta acima. Cai aqui, levanta acolá, com o seu rebanho, e só regressavam à noitinha, mais ou menos satisfeitos, uns com os outros. Embora às vezes houvesse desavenças entre pastores, tudo terminava em bem e no outro dia, lá iam todos satisfeitos para o mesmo trabalho. Como não havia professores, as primeiras letras e números eram ensinados por pessoas mais velhas, que faziam isso à noite. Entre esses contava-se o meu pai, pois era dos que sabia mais e tinha jeito para ensinar. Conseguia ensinar-lhes as quatro operações, escrever e ler uma carta. Desde que atingissem este grau, era-lhes dada dispensa de instrução. Mais dia, menos dia, lá iam de abalada até Lisboa e arredores, à procura de trabalho. Nessas paragens tinham outros mais velhos que os ajudavam. A mais das vezes eram pais, irmãos, parentes ou até simples vizinhos, a quem se dirigiam no intuito de serem auxiliados, principalmente com alojamento e alimentação, até conseguirem emprego. Não quero, nem devo esquecer de citar a pessoa que foi um benemérito nesse sentido, chegando ao ponto de ser conhecido como o Cônsul de Arcos de Valdevez, em Sintra e a quem também fui bater à porta. Era esse benfeitor, o senhor Manuel Esteves da Bouça, mais conhecido por Manuel Cancela. Mas voltando à minha infância, ao tempo em que também eu iniciava os primeiros passos, não só na aprendizagem das letras e números, mas também na vida pastoril, da qual mantenho inúmeras e saudáveis recordações. Desde os quatro anos que principiei a vida de pastor, ao princípio guardando cabritos, começando por aprender a contá-los, difícil tarefa, mas era ajudado por meu irmão Francisco, que mesmo assim me puxava as orelhas quando me enganava.
No fim do mês de Maio, juntavam-se as cabras com os cabritos e já iam pastar juntos, pelo que acompanhava meu irmão, a fim de o auxiliar. 




continua...



"O que você deixa para trás não é o que é gravado em monumentos de pedra, mas o que é tecido nas vidas de outros."

Péricles ( 495 aC-429 AC)

4 comentários:

  1. Gloria F.
    Uma historia muito parecida com a que meu pai contava. Tempos duros, mas penso que felizes. Obrigada , gostei muito de ler!

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  2. Mata Cabril
    Lindo texto, sábias palavras, eu também fui pastor de CABIRTOS ( termos de Lindoso).

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  3. Ermelinda Júlia
    Sabia que teu pai gostava de escrever, mas nunca tinha lido nada dele. Bela surpresa. Felicito teu gesto.

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  4. Maria Leiria
    Entendo de onde veio ao Manuel o gosto pela escrita e pela comunicação. Teve um bom mestre!

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