domingo, 30 de agosto de 2026

 

O homem sentou-se, por isso, estava de pé. 

Ele estava sempre de pé, mesmo sentado, imaginava-se sempre de pé.

Foi um habito que lhe ficou, mal começou a andar. 

Sempre de pé. 

Fazia tudo de pé.

Escrevia de pé

Lia de pé.

Comia de pé.

Ouvia os discursos do 1.ministro na TV de pé.

Assistia as conferências de pé.

Mesmo nasconsultas medicas ficava depé.

Recusava andar de carro porque não podia ir de pé. 

Ia de autocarro.

Ou de comboio.

Também andava de bicicleta, mas sempre de pé.

ErA professor e mesmo nas reunioes ficava sempre  de pé

Até quando dormia, os sonhos aconteciam sempre de pé. 


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O homem não se  sentou na bancada da Assembleia da República, por isso, estava de pé.

​Ele estava sempre de pé, mesmo sentado naquele hemiciclo de veludo vermelho; na sua cabeça, imaginava-se irredutivelmente de pé. Foi um hábito que lhe ficou desde que começou a andar, uma recusa obstinada em curvar-se perante o mundo. Escrevia as suas propostas de lei de pé, consultava os pareceres jurídicos de pé e comia na cafetaria do parlamento de pé, sob o olhar sobressaltado dos funcionários. Recusava os carros oficiais com motorista porque neles não podia ir de pé; apanhava o comboio suburbano e viajava agarrado ao varão, hirto, ou pedalava até São Bento sempre em cima dos pedais. Era uma rigidez que trazia desde os tempos em que era professor, altura em que as reuniões de conselho pedagógico o viam eternamente erguido junto à janela. Até nos escassos momentos em que fechava os olhos, os seus sonhos aconteciam vertiginosamente de pé.

​Mas a Assembleia da República tem rituais seculares, geometrias estritas de submissão regimental e assentos que exigem a curvatura do corpo. Naquele vasto salão de passos perdidos e microfones acesos, a sua presença erguida sobressaía como uma afronta muda. Quando os sinos chamavam para as votações, enquanto duzentos e trinta deputados se sentavam  obedientemente nas cadeiras para carregar nos botões electrónicos, ele mantinha-se fixo, plantado sobre as solas dos sapatos, qual estátua de si mesmo no meio da tempestade.

​A perplexidade inicial dos colegas de partido transformou-se rapidamente em cochichos e, depois, numa vaga de chacota generalizada. Os jornalistas apontavam-lhe as câmaras nas galerias, os comentadores políticos ridicularizavam a sua excentricidade nos programas de debate da noite, e o próprio líder da bancada chamou-o a reuniões de urgência para lhe exigir decoro institucional, lembrando-lhe que a democracia se faz sentada, alinhada e dócil às ordens da direção.

​Cansado das críticas, das interrogações irónicas nos corredores e dos olhares de esguelha que mediam a altura da sua insolência, subiu finalmente à tribuna dos oradores. Olhou a sala inteira com soberana altivez e esmagou o microfone com a força das suas convicções:

​— Ridicularizam-me porque me recuso a baixar a cabeça e a dobrar os joelhos! Acusam-me de indisciplina, de quebrar o decoro, de perturbar a sagrada harmonia dos vossos consensos de carpete! Mas eu digo-vos aqui, de alto a baixo desta tribuna: um homem de pé não tem de obedecer a ninguém!

​Um silêncio gélido caiu sobre o hemiciclo, logo seguido por gargalhadas abafadas nas bancadas da oposição. Mas ele não vacilou, erguendo ainda mais o tronco perante o espanto geral:

​— Vocês aprenderam a sentar-se antes de aprender a pensar. Curvam-se perante a disciplina de voto, prostram-se perante os líderes, sentam-se à mesa dos vossos pequenos confortos partidários e chamam a isso democracia. Eu não. Eu sou um homem de pé. E um homem de pé é o único e verdadeiro senhor do seu livre arbítrio!

​A sala irrompeu num coro de protestos e apupos, mas ele continuou hirto, imóvel na sua verticalidade, sozinho contra a geometria inteira do Estado.

O silêncio que se seguiu à sua declaração foi cortado apenas pelo som abafado de um microfone mal desligado. Ele ajustou os óculos, firmou as mãos nos rebordos de madeira da tribuna e, recusando qualquer apelo à moderação vindo da mesa da presidência, prosseguiu com a voz cortante que vinha da sua imutável verticalidade:

​— Vocês esqueceram-se para que serve este edifício. Julgam que a soberania nacional cabe inteiramente no conforto estéril destas cadeiras estofadas. Mas trago comigo a memória daqueles que nunca souberam o que era curvar-se. Como nos lembrava Jean-Paul Sartre, a liberdade não é um prémio nem um dom gracioso, mas uma conquista perpétua que exige que estejamos de pé contra todas as formas de tirania, mesmo quando essa tirania se veste com a gravata e o decoro institucional de um regimento parlamentar!

​Nas bancadas, alguns deputados começaram a folhear ostensivamente os papéis, enquanto outros trocavam sorrisos cúmplices. Ele, no entanto, não recuou um milímetro. A sua postura era de quem defendia uma trincheira intransponível.

​— Querem impor-me a disciplina de voto? Querem que eu abdique da minha consciência em troca da paz dos vossos corredores? Como alertava Albert Camus, a liberdade é, antes de mais, um risco e um combate permanente contra a complacência. Um homem não se ajoelha perante a conveniência de um partido nem perante a ditadura mansa das maiorias absolutas. Quem se senta para obedecer perde o direito de reclamar a aurora.

​Os murmúrios na sala adensaram-se, transformando-se num zumbido de indignação por parte dos líderes de bancada que gesticulavam furiosamente para os serviços taquigráficos. Mas ele ergueu ainda mais a voz, rasgando o ar do hemiciclo com a convicção dos resistentes:

​— Recuso-me a ser mais uma engrenagem dócil nesta máquina de conformismo. Se a vossa política exige submissão, joelhos dobrados e cabeças baixas, prefiro a solidão da minha postura à vossa comitiva de dóceis cortesãos. Porque, como proclamava Rosa Luxemburgo, a liberdade é sempre e apenas a liberdade de quem pensa de maneira diferente — e quem pensa de pé, caminha sem coleira!

​Um tumulto generalizado rebentou na sala, com deputados a levantarem-se aos gritos para exigir a interrupção do uso da palavra. Ele continuou hirto, imóvel na tribuna, olhando de cima o frenesim do parlamento, soberano e irredutível no seu livre arbítrio.

--Senhores deputados, mantenham  a compostura, silêncio, por favor!- dizia o Presidente da Assembleia.

O alvoroço nas bancadas ameaçava soterrar-lhe as palavras, mas ele bateu com a palma da mão na madeira da tribuna, exigindo o silêncio que a sua intransigência impunha. Os taquígrafos tentavam apanhar o fio à meada daquele discurso insólito, enquanto o Presidente da Assembleia fazia soar a campainha numa cadência furiosa que ele ignorou por completo.

​— Continuam a fazer soar os sinos para tentar abafar a única voz que ousa desobedecer ao guião! Mas o barulho da vossa burocracia nunca conseguirá sufocar a verdade dos resistentes. Como nos ensinou António Sérgio, a verdadeira democracia não se compadece com o rebanho domesticado, mas exige espíritos livres que saibam erguer-se contra o dogma instituído, quer esse dogma venha da rua, quer venha dos gabinetes dourados do poder!

​Alguns deputados mais veteranos cruzavam os braços, visivelmente irritados com a evocação dos grandes nomes do pensamento livre, enquanto outros nas bancadas mais jovens filmavam a cena com os telemóveis, divididos entre o escândalo e a diversão. Ele, porém, manteve os olhos fixos na presidência, sem pestanejar, sem recuar um único centímetro na sua geometria de homem inteiro.

​— Acusam-me de utopia, de viver fora do tempo, de ignorar as regras do jogo democrático. Mas o que é o vosso "jogo" senão uma coreografia milimetricamente estudada para domesticar a esperança? Como proclamava o poeta e combatente Agostinho Neto, a nossa marcha faz-se de passos irredutíveis em direção à dignidade humana, e a dignidade não cabe em assentos reclináveis, nem se negocia nos corredores escuros das negociações de secretaria! Um homem que se ergue de pé rasga a teia de aranha do conformismo e obriga o mundo a olhar-lhe nos olhos, de igual para igual.

​O eco das suas palavras ressoou pelo teto pintado do hemiciclo, estilhaçando a solenidade pacata daquela tarde parlamentar. A campainha da presidência emudeceu de repente, como se o próprio chefe da mesa tivesse ficado sem argumentos perante tanta audácia obstinada. Ele permaneceu ali, imóvel, estátua viva de carne e osso, provando a um parlamento inteiro que a maior revolução de um cidadão começa simplesmente por recusar baixar a espinha.


A sua indignação ecoa a voz do deputado na tribuna: enquanto o hemiciclo se perdia em querelas partidárias e melindres regimentais, o mundo real ardia em chamas que a política institucional finge não ver.

​Ao transpor esse desabafo para o centro do debate, as palavras ganham uma urgência ainda maior, rasgando a hipocrisia do plenário com questões que nenhum regimento consegue calar:

​— Estão aqui há horas a discutir o decoro das posturas, a contabilidade dos votos e a geometria dos assentos, enquanto lá fora o mundo desaba sob o silêncio cúmplice das vossas prioridades! — trovejou ele, inclinando-se sobre a madeira da tribuna, com o olhar fixo nas bancadas atónitas. — Sobre a catástrofe climática que consome o futuro, nada! Sobre a algoritmização das nossas mentes, a manipulação sistemática das redes sociais e o império invisível das grandes tecnológicas, nada!

​Fez uma pausa breve, deixando que o peso da denúncia caísse sobre o silêncio tenso da sala, antes de desferir a pergunta que ressoou como uma lâmina:

​— E sobre o abismo obsceno que separa a maioria de pobres da minoria de ricos, dizem o quê? Absolutamente nada! Quantos pobres são precisos mais para fabricar um só rico, como já perguntava Almeida Garrett há mais de um século, nos escombros de uma pátria que vocês continuam a repetir? Quantas vidas esmagadas são necessárias para sustentar o vosso festim de estatísticas alegres?

​O deputado endireitou ainda mais o tronco, assumindo uma verticalidade implacável, e apontou o dedo indicador diretamente ao centro do hemiciclo:

​— Prefiro mil vezes a chacota dos corredores e a perplexidade dos vossos gabinetes a compactuar com esta fábrica de ilusões. Vocês deixaram que a mentira se tornasse o método de governo e que o medo fosse a coleira com que domesticam os cidadãos, fazendo-os desejar a própria coleira e suspirar por uma ditadura que vos garanta o sossego! Mas eu recuso-me a marchar nesse cortejo de sonâmbulos. Um homem de pé não se cala perante a miséria do mundo, nem abdica da verdade para caber no vosso conforto!

A impaciência do deputado atingiu o ponto de ebulição. Sem arredar pé da tribuna, com os punhos cerrados sobre a madeira e o olhar faiscante dirigido às bancadas do governo e da oposição, empurrou a denúncia ainda mais fundo na ferida aberta do país:

​— E quando o país real desmorona pelas fundações, qual é a vossa resposta? Um silêncio ensurdecedor! Sobre a situação caótica e desumana da educação pública, onde professores são esmagados pela burocracia e escolas se desfazem em abandono, nada! Sobre a saúde a agonizar nas urgências entupidas, onde os doentes esperam a morte nos corredores enquanto as listas de espera se tornam lápides burocráticas, silêncio absoluto!

​O tom de voz subiu de jacto, cortando o ar rarefeito da sala como uma lâmina afiada, sem dar tréguas aos sussurros nervosos que tentavam abafá-lo.

​— Sobre a incompetência sistémica e a criminosa incapacidade no combate aos incêndios que todos os verões reduzem a cinzas as nossas florestas, as nossas aldeias e a vida de quem trabalha, zero! Sobre a proliferação impune da droga que apodrece os bairros e destrói gerações, zero! E sobre a corrupção endémica que apodrece as instituições a partir de dentro, transformando o Estado num balcão de negócios e de influências, zero absoluto! Vocês estão demasiado ocupados a olhar para o umbigo dos vossos tachos e a acomodar os traseiros nestas poltronas para verem que o país está a arder em todas as frentes!

​O deputado ergueu ainda mais o queixo, esticando o corpo até ao limite da sua orgulhosa verticalidade, enquanto o plenário irrompia de novo num coro ensurdecedor de protestos, com os líderes parlamentares a gritarem por ordens de expulsão. Ele, porém, soberano no seu livre arbítrio, retorquiu com a força inquebrantável de quem se recusa a ajoelhar:

​— Podem espernear, podem mandar cortar-me o microfone, podem ordenar a minha expulsão deste circo regimental! Mas enquanto houver um homem de pé, a vossa hipocrisia não terá sossego!


O deputado não recuou um único milímetro face à tempestade de protestos que se abatia sobre a tribuna. Com a mesma rigidez com que enfrentara a vida inteira — de pé contra tudo e contra todos —, agarrou-se aos rebordos de madeira e desferiu o golpe final na consciência cúmplice daquela Assembleia:

​— Esse vosso silêncio ensurdecedor, esse vazio absoluto de respostas perante a ruína do país, não é um descuido nem um esquecimento! É a prova cabal, cristalina e vergonhosa de como o mundo financeiro, os fundos abutre e os grandes interesses económicos vos controlam por fios invisíveis! Vocês não governam para o povo que vos elegeu; gerem apenas a sucursal de uma corporação, agachados perante os mercados que vos ditam as leis, as privatizações e a miséria social!

​Um coro de gritos de indignação estalou de imediato nas bancadas da maioria e da oposição, com os deputados a levantarem-se em protesto furioso, apontando o dedo à tribuna. O Presidente da Assembleia batia a campainha num ritmo frenético e inútil, exigindo a interrupção imediata da sessão.

​Mas ele continuou inabalável, erguido na sua absoluta verticalidade, uma torre humana a desafiar o colapso de um sistema inteiro:

​— Podem gritar, podem espumar de raiva, podem expulsar-me deste hemiciclo! Mas a verdade já foi dita e não há regimento que a consiga apagar. Enquanto vocês continuarem sentados a obedecer aos vossos donos invisíveis, eu continuarei aqui: inteiro, irredutível e de pé! Porque um homem de pé não tem dono, não se vende ao capital e é o único senhor do seu livre arbítrio!

A fúria do plenário atingiu o paroxismo, mas ele recusou-se a ceder um único centímetro àquela cacofonia de indignação fingida. Com o corpo esticado ao máximo na sua orgulhosa verticalidade, fixou os olhos nos rostos pálidos da liderança parlamentar e desferiu a última estocada:

​— E agora vejo-vos a tremer, a espumar falsas lágrimas e a encher os telejornais de alarmismo com o crescimento da extrema direita! Mas não nos enganem com o vosso teatro moralista: o vosso pânico não nasce de uma genuína preocupação pelo país, pela democracia ou pelos direitos do povo! Vocês estão aterrorizados é com a ameaça que isso representa para a conservação do vosso exclusivo poder de manipulação, para a manutenção dos vossos tachos blindados e para a sinecura intocável dos grandes interesses corporativos e financeiros que alimentam a vossa engrenagem!

​O eco daquela acusação estilhaçou o pouco decoro que restava no hemiciclo. Os gritos cruzavam-se de uma ponta à outra da sala, os deputados acotovelavam-se nas bancadas e o Presidente da Assembleia, com o rosto rubro de ira, abandonou a contenção regimental para berrar a expulsão imediata do orador.

​Ele, porém, nem piscou. Permaneceu plantado na tribuna como um monumento intransigente, a desafiar a tempestade inteira com a força inabalável de quem sabe que a verdadeira liberdade não se acomoda em poltronas estofadas.

​— Podem ordenar a força pública, podem rasgar os regulamentos e podem cortar-me o microfone de vez! Mas a máscara caiu para sempre. Vocês são o retrato acabado de um sistema podre que apodreceu por dentro. Enquanto continuarem sentados a negociar a pátria nos corredores escuros do capital, eu serei sempre a vossa maior insónia: a voz de um homem inteiro que se recusa a baixar a espinha, porque um homem de pé não tem dono, não tem amo e é o único senhor absoluto do seu livre arbítrio!

O apelo ecoou final e retumbante, cortando o coro de insultos e a agitação febril que tomava conta de todo o hemiciclo:

​— Por isso, aqui e agora, lanço um apelo direto a todos os homens e mulheres de bem deste país: não esperem nada de quem trocou a dignidade pelo conforto de um assento parlamentar! Organizem-se em cada rua, em cada bairro, em cada associação, em cada IPSS, em cada fábrica e local de trabalho! Reúnam-se, discutam sem medo e decidam que democracia queremos para o nosso futuro, porque a liberdade nunca nos foi dada de bandeja pelos senhores dos gabinetes! Organizemo-nos de braços dados e mentes abertas para defender o povo, resgatar o país e devolver a soberania a quem verdadeiramente trabalha!

​Enquanto o microfone se desviava num estalido seco e os funcionários se precipitavam para o obrigar a abandonar o estrado, ele desceu da tribuna. Não curvou os ombros, não baixou a cabeça e não cedeu à tentação de se sentar na poltrona que a sua bancada lhe reservava. Caminhou pelo corredor central do hemiciclo, altivo, com o passo firme e cadenciado de quem recusava qualquer geometria de submissão, deixando para trás um parlamento atónito, amordaçado pelo eco implacável de um homem que escolheu viver e morrer inteiramente de pé.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Vaca na escola

 

                                       Paradela, 2026
                                        Fotografia de M. Rodas


Como dizer a esta vaca
Que foi aqui
No interior destas pedras
Com vista para o mundo
Que aprendi a amar?

Sim, aprendi a amar
Antes de saber soletrar
Aprendi a amar
Antes de saber desenhar.

Mas como dizer a esta vaca
-Vai-te embora, não és desta história
Esta ruína foi uma escola
Subi estes degraus de pedra
Pelas mãos duma lousa e sacola

Aqui aprendi a fazer rabiscos, 
mais tarde,letras
E depois palavras e frases
Números e operações
Com giz traçamos fronteiras
descobrimos países e continentes
Seguimos Viriato até ao Gama
De Lisboa a Calicut, Macau e Timor
Vimos Cabral a chegar ao Brasil
E Fernão de Magalhães abraçar o mundo.

Ah, também suspeitamos que os escravos 
iam de África para a América e Brasil
E a  guerra colonial
Matava gente, dum lado e do outro, 
Mas não sabíamos que tinhamos de esperar abril
Para nos abraçamos uns aos outros
E podermos acreditar que o papão 
Não nos assustava mais.

Como dizer a esta vaca
Que foi no interior destas pedras
Com vista para o mundo
Que aqui aprendi o amor e desamor
Aprendi a soletrar e sonhar
Aprendi a  alegria e a dor
O mel e o fel, o corpo e a pele.


Mas como dizer a esta vaca
-Vai-te embora, não és desta história
Esta ruína foi uma escola
Subi estes degraus de pedra
Pelas mãos duma lousa e sacola.

Como dizer a esta vaca
Cada vez que aqui passo
É a nostalgia e a melancolia
Que faço e desfaço
Cada uma à porfia
Como gume de faca
Assombrar a memória
Que hei-de reescrever esta história?


Aqui fui professor aqui ensinei outros
A sonhar com um novo mundo 
Promessa de utopia e dança
A guardar bem lá no fundo
As cores e alegrias da esperança
Dum mundo que havia de vir
E nunca mais nos iria fugir...


Mas como dizer a esta vaca
-Vai-te embora, não és desta história
Esta ruína foi uma escola
Subi estes degraus de pedra
Pelas mãos duma lousa e sacola
Vontade de aprender
Ser aluno e  professor 
Ser homem e caminhante 
Ser poeta do amor?

Manuel Rodas










sexta-feira, 17 de julho de 2026

FEJRADO LIVRO INDEPENDENTE - Arcos de Valdevez 2026

 

É já na quinta feira,dia 23 julho, que apresentarei os meus 10 livros , incluindo  HISTORIAS DE AMOR E GUERRA.  

APARECE ÀS 17 HORAS PARA CONVERSARMOS UM POUCO SOBRE A MINHA ESCRITA.









quinta-feira, 18 de junho de 2026

Poeira

 




Algures
Entre dois universos
Ou entre duas partículas
Num raio de luz obsceno
E sabor a água pura
Era  bom saber
Que não estamos sós 

Pode ser uma fenda
Por onde se escapa uma leve brisa
Pode ser apenas um grito épico
Uma carícia imprevista
Um beijo solitário
Um poema sem sentido
Ou uma partícula de desejo realizado

Podia até nem ter uma bandeira
eco de luz e água 
Ser uma pessoa comum
não ter confissão
Partido ou religião
Podia mastigar a fome
Em dias de maior solidão

Podia ser apenas uma espera
incerta e inquieta
o deserto na garganta
salpicado de saliva seca
diálogos suspensos na sílaba
da frase  inarticulada e suspensa
onde a poeira teimosa ao sol vacila

MRodas


domingo, 7 de junho de 2026

Scars / cicatrizes

 



The veins weep within, carrying tears to every corner of the body.

​The body’s melody expands in circles of vibrant echoes

​of muscles and bones, and millions of guest inhabitants attune to this resonant movement of weeping's harmony!

​Outside, at the surface of skin and sight, only silence betrays the imminent catastrophe, which rage insists on holding in its icy hand,

​the wounds do not heal.

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As veias choram por dentro e levam as lágrimas a todas as partes do corpo.
A melodia do corpo  alarga-se de em círculos de ecos vibrantes
de músculos e ossos,  e milhões de habitantes hóspedes sintonizam esse movimento ressoante da harmonia do choro!
Cá fora a flor da pele e da vista, apenas o silêncio denuncia a catástrofe eminente, que a raiva teima em suster em sua mão gélida,  
as feridas não cicatrizam

domingo, 31 de maio de 2026

Obrigado!

 

Obrigado aos meus leitores desta semana, assim distribuídos pelo mundo!

Queria pedir duas coisas: 

Façam mais comentários sobre o que partilho;

Partilhem este blogue com os vossos amigos!

Muito obrigado por fazerem parte da minha vida!

Abraço a todos:



sábado, 30 de maio de 2026

A vida devia ser assim

 




(A propósito da sessão de trabalho de fotografia com J. Morais)


A vida devia ser assim

Começar a segunda feira com espanto total

E chegar ao sábado

Estarrecido do prazer de viver! 

Domingo descansava 

Para entrar novamente no rodízio do melhor que a vida tem


A vida devia ser assim

Na Palestina e na Ucrânia

Em Cuba e na Venezuela, em África e na Ásia

Começar a segunda feira com espanto total

De estar vivo!

E chegar ao sábado

Estarrecidos do prazer de viver! 

Domingo descansavam 

Para entrarem  novamente 

no rodízio do melhor que a vida tem


A vida devia ser assim

Para todos os que desistiram e não conseguem sonhar

E para os que ainda vão a tempo

De terem uma bandeira, um hino

Uma palavra e um punho

Começar a segunda feira com espanto total

E chegar ao sábado

Estarrecidos do prazer de viver! 

Domingo descansavam

Para entrar novamente no rodízio do melhor que a vida tem


A vida devia ser assim

Para todos os excluídos

A quem negaram os direitos de ser pessoa

E plantaram a dor da separação e exclusão

Começar a segunda feira com espanto total

E chegar ao sábado

Estarrecidos do prazer de viver! 

Domingo descansavam

Para entrar novamente no rodízio do melhor que a vida tem


A vida devia ser assim

Para todos aqueles que quiseres acrescentar

E vivem ao lado da tua indiferença

Alheios ao teu olhar

Começar a segunda feira com espanto total

E chegar ao sábado

Estarrecidos do prazer de viver! 

Domingo descansavam

Para entrar novamente no rodízio do melhor que a vida tem


MRodas




domingo, 24 de maio de 2026

O whatsapp

 O meu WhatsApp constipou-se

Ficou silencioso no canto do telemóvel, 

mesmo na segunda página 

perdido entre o Google Maps  e o Gmail

Acima do Facebook e do Messenger.

Apaguei-o

Tentei reanimã-lo 

Voltei a instalar 

Permaneceu quedo e silencioso

Desligado do mundo.

E agora? 

Como vou  receber os PDF dos jornais e revistas?

E o grupo das viagens

E o das fotografias?

Vou ficar isolado dos amigos? 

O Messenger é uma reserva

Mas o WhatsApp  é o que me liga ao mundo.

Nem o Tic Toc, nem o Facebook  nem o Messenger 

Ou o Instagram

Fazem por mim

O que faz o WhatsApp.


Apesar destas redes  todas

Pouco sabemos uns  dos outros


Mas se fores ao Google 

E procurares por mim

Logo saberás 

O que não importa

  Mas de mim mesmo

Só se fores ao meu blogue

Aí sim, saberás por onde andei nos últimos 12 anos

Até te encontrar nas redes sociais


Procuro o teu nome no Gemini

Recebo um texto longo com biografia no fim

De como procurar pessoas

Como fazer perguntas

E porque tu deves ser importante para mim.


O que ele nem o CHat GPT dizem

Como resistir a um beijo na fila do supermercado

Como trocar o recibo das compras

Por uma viagem 

No sol dos teus olhos


E mesmo que estejas ao meu lado

sem Messenger, nem TicToc, 

Como posso dizer que te quero

Sem o WhatsApp?

MRodas


B.Dylan

 Homenagem ao B.Dylan no seu 80. aniversário!


Quantas vezes tenho de virar a cabeça 

Para fingir que não vejo?

Quantas pessoas 

Estranham a morte 

Na Ucrânia e na Palestina

No Mediterrâneo e em África?

Quantas vezes as tvs noticiam as colônias de índios nas Américas? 

Quantas crianças precisam de passar fome?

Quantas pessoas

Quantas gerações precisam morrer

Para me indignar ?

Quantos gritos precisamos ouvir 

Para estranharmos a dor? 

Porque fico assustado com o vírus em África e

Permaneço indiferente aos que todos os dias se matam

Quantas vezes preciso de te beijar

Para saber que te amo? 

Quantas luas é preciso contar

Para sermos humanos?

Quantos amigos no Facebook para podermos chorar 

E partilhar juntos a mesma dor?


É escusado pedir ao vento que traga as respostas 

Que todos já sabemos…


quinta-feira, 14 de maio de 2026

A nuvem à boca da noite

 Para o J. Morais



A nuvem à boca da noite 

Segredava

Rios

E viagens anunciadas

E sempre adiadas…


Cala-te nuvem

Não despertes em mim

O tufão porque esperas 

Para poderes sonhar também! MRodas

A luz

 Para o J. Morais


A luz vem ténue e terna

Deitar-se nos meus olhos

Com véus de dançarina e meneios ciganos


Fecho os olhos e deixo-a espraiar-se nas margens da alma

Onde o sol se põe ainda antes de nascer! 

MRodas

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Melancias

 


O qu eu queria

Era mesmo semear melancias no telhado

Nem favas ou ervilhas

Apenas melancias


Como ficaria feliz

Ver as melancias a escorrerem no teu corpo ereto

Em direção ao solo

Com as suas largas folhas verdes

Flores amarelas e frutos verdes e vermelhos

Amarelos e azuis


O seu perfume ácido

Sabor a gin com limão

Um piano próximo 

E soda a fervilhar no meu copo


Eu queria 

Que as melancias enchessem de verde a minha rua

E apertassem a mão a quem passa

Sorrissem às crianças e aos cães

E batessem de leve nas vidraças

E agora, não me lembro de mais

Mas era o que eu queria

Isso e ...ver-te de braços abertos


Oh!, quanto eu gostava 

Que viesses comigo

semear as melancias no telhado

E ficasses à espreita

A ver nascer o sol

De  verde passar a laranja 

E mais tarde vermelho de melancia


Se viesses comigo

Faria a cama de lençóis de seda

E na mesa alva

Servir-te-ia 

Todas as melancias do mundo

Para que pudesses 

Ter-me dentro de ti...até à eternidade


Mas quis  alguma deusa furiosa

Que tu tivesses vertigens

E não gostasses de melancias


Assim nunca as melancias podem ficar 

Suspensas dos telhados 

E eu desisto de as semear na lua


MRodas








sábado, 11 de abril de 2026

Manifesto criativo

 

Pintura, Manuel Rodas
EU E OS OUTROS


Manifesto criativo


​Contra a destruição, a criatividade;

Contra a morte, a vida que se desenha no escuro

Se o metal ruge e o solo se fende em sangue e dor,

Nós erguemos o pincel, a palavra, a música e o futuro


​A guerra é a raiva do mal, fria e sem retorno,

Um cálculo estéril de horror e  ausência

A imaginação é a curva, o labirinto, o adorno,

A teimosia sagrada de cantar a existência


​Eles  trazem a raiva das cinzas acumuladas,

Nós trazemos o verbo que ferve nas veias

Eles calam as vozes com cidades bombardeadas,

Nós gritamos mundos novos em telas cheias


​Não há bomba que fragmente um ideal puro,

Nem machado que corte a raiz ao pensamento

Se eles erguem o medo, nós pintamos o muro,

Até que o cimento se transforme em movimento.


​Criar é o ato de liberdade mais profundo

onde o ódio divide, a estética une o que resta

Pois se a guerra é o fim ruidoso do mundo,

A arte é o início melodioso da festa


Pela vida    Pela luz   Pela criação

Criar é resistir    Compor é viver


sexta-feira, 27 de março de 2026

PARTE II Sereias e mouras em Soajo

 O prometido é devido. Aqui vai para cumprir a promessa. Qualquer achega para completar este trabalho pode ser enviado nos Xomentários,  por email mrodas1234@gmail, ou pelo Messenger, ou Whatsapp. Muito obrigado e não se esqueça de partilhar pelos amigos. 




Parte 
II

Embora a "Sereia" seja uma figura essencialmente marinha, ela partilha o mesmo "ADN" mitológico com as lendas de Soajo. Aqui estão os pontos de ligação:


A Metamorfose: Sereia vs. Serpente
​No litoral (Afife/Viana), a criatura é descrita como uma mulh
er-peixe
. À medida que subimos em direção à Serra do Soajo, essa mesma figura "transforma-se" na Moura Encantada ou na Mulher-Serpente.

Em ambas as regiões, o mito fala de uma mulher de beleza sobrenatural, frequentemente sob um feitiço (o "encanto"), que aparece junto à água (mar no litoral, fontes ou rios na serra).
Tanto a sereia de Viana como certas mouras do Soajo são descritas a pentear cabelos com um pente de ouro, um símbolo universal destas divindades aquáticas em Portugal.

 O Rio Lima como "Autoestrada" Mitológica
​O Rio Lima nasce em Espanha, une a serra de Soajo com a  serra Amarela e desagua em Viana do Castelo, acreditando os mais antigos que as criaturas das águas viajavam pelo rio.
​Existem relatos populares que sugerem que as sereias podiam subir os rios até às zonas de montanha. No Soajo, em pleno coração do Parque Nacional Soajo-Gerês, o folclore das mouras está profundamente ligado aos monumentos megalíticos (Antas) e à paisagem granítica. Aqui, as mouras não são apenas "moças bonitas", mas entidades poderosas que carregam pedras colossais na cabeça enquanto fiam com um fuso. Segundo a tradição oral, a "moura" não é um ser árabe, mas uma alma penada ou uma entidade pré-cristã (uma "deusa" da terra) que ficou presa a um local por um feitiço, muitas vezes por ter desobedecido aos pais ou por guardar um tesouro que não lhe pertence.
Para desencantar uma moura no Soajo, a tradição afasta-se das rezas cristãs e foca-se no simbolismo da pureza e do silêncio.

O Ritual da Meia-Noite na Mezio e da Ponte da Ladeira
A zona da Mezio (concelho de Arcos de Valdevez, freguesia de Soajo) é famosa pelas suas mamoas e antas e a Ponte da Ladeira permite a passagem dum portal muito antigo para a modernidade, do encanto para o desencanto. Segundo os antigos soajeiros, o ritual para quebrar o fado da moura ou para "desencantar" uma moura e obter as suas riquezas, raramente envolve apenas palavras; exige coragem, precisão e, muitas vezes, o cumprimento de tarefas bizarras. Deve procurar-se afloramentos graníticos que formam pequenas "grutas" ou abrigos naturais.

Ponte da Ladeira
A lenda da Ponte da Ladeira, em Soajo, é uma das mais emblemáticas recolhidas por Gentil Marques no seu volume dedicado ao Minho. Esta ponte medieval (frequentemente chamada de "ponte romana" pelo povo) cruza o rio Soajo e é o cenário de um encontro místico entre o mundo dos homens e o das mouras.
Aqui está o resumo da narrativa e os elementos de "desencanto" que Gentil Marques destaca sobre "O Cavaleiro e a Moura".
A lenda foca-se num jovem cavaleiro (ou caçador, dependendo da variante) que, ao passar pela Ponte da Ladeira numa noite de luar ou ao amanhecer, encontra uma mulher de beleza radiante sentada no parapeito da ponte.
Ela não está apenas ali parada; está a pentear os seus longos cabelos com um pente de ouro ou a fiações de seda (elemento comum no Soajo), (atividade)
A moura não pede ouro, mas sim um beijo ou uma prova de coragem. Ela explica que está sob um fado e que o cavaleiro, homem valente será o único que a pode libertar (prova)

O Ritual de Desencanto na Ponte
Gentil Marques descreve que o desencanto nesta ponte é particularmente difícil porque envolve a transformação, assim que o homem aceita o desafio, a bela mulher transforma-se numa enorme serpente ou dragão que se enrola no corpo do cavaleiro, (metamorfose).
O cavaleiro deve permitir que a serpente o beije na boca ou lhe dê a chave que guarda na garganta. Ele não pode gritar, nem rezar alto, nem fazer o sinal da cruz - o que afugentaria o ser mágico, mas condenaria a moura a mais cem anos de fado, (regra do silêncio e da imobilidade).
Se o cavaleiro resistir ao horror da transformação sem recuar, a serpente volta a ser a mulher e entrega-lhe o pente de ouro ou indica-lhe o local do tesouro oculto debaixo de um dos arcos da ponte, (a recompensa).

Elementos Específicos do Soajo (Notas de Gentil Marques)
O autor sublinha que, no Soajo, esta lenda tem um aviso moral:
O "Ouro que Arde": Diz-se que muitos tentaram escavar debaixo da Ponte da Ladeira à procura do tesouro da moura. Contudo, Gentil Marques nota que, para os gananciosos, o ouro transformava-se em brasas ardentes que lhes queimavam as mãos, deixando cicatrizes para sempre.

A Ligação ao Rio: A moura da Ponte da Ladeira é uma "moura das águas". Se o desencanto falha, ela mergulha no poço do rio Soajo, com um grito que se ouve em toda a serra.

O Ritual do Beijo (A Serpente)
Muitas vezes, a moura aparece sob a forma de uma serpente monstruosa com uma flor ou uma chave na boca. O "desencanto" exige que o homem a beije.
Não existe uma oração específica, mas sim um compromisso de silêncio. Se o pretendente gritar ou fugir, o encanto quebra-se para ele, mas a moura permanece presa, muitas vezes soltando um grito terrível:
"Ai, que me dobraste a dor!" ou "Cento e um anos me dobraste o fado!"

A Oferta do Pão sem Sal
Aqui, como no Alto Minho, em geral, acredita-se que o sal afasta o sobrenatural. Para desencantar uma moura que aparece a fiar junto a uma fonte, deve oferecer-se um pedaço de pão sem salAo receber o pão, se o encanto for quebrado, ela dirá algo:"Pão sem sal me deste, da minha prisão me tiraste. Leva este carvão, que o teu bem achaste." Ou ainda, "Pão te dou, fado te tiro, pelo sal que não comeste, pela vida que perdeste, dá-me o ouro a que vieste."  (O carvão, ao chegar a casa, transforma-se em moedas de ouro. Reza de Aceitação).

 O Ritual da Noite de São João
O São João é o momento de maior porosidade entre o mundo real e o encantado. No Alto Minho, diz-se que se deve ir a um penedo específico à meia-noite.
Deve bater-se três vezes na pedra com uma vara  e dizer: "Moura encantada, que o fado te deu, sai do teu reino, que o tempo venceu. Pelo poder da água e do pão, entrega o tesouro e a tua mão.
Ou ainda,  "Moura, moura, encantada, sai da tua pedra lascada! Pelo poder de São João, dá-me o ouro da tua mão. Que o teu fado se acabe agora, e que o sol te leve embora. 

A Quebra pelo Batismo
Nalgumas variantes mais cristãs, o desencanto ocorre através da conversão. Deve atirar água benta sobre a moura, enquanto se diz: "Eu te batizo, Maria, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo." 
Diz a lenda que ela perderá a sua forma sobre-humana e tornar-se-á uma mulher mortal, casando-se com quem a salvou.
Se ela for libertada, o encanto quebra-se, ela torna-se humana e o tesouro (ouro) aparece. Se falhar a entoação ou tiver medo, ela solta um grito e desaparece por mais cem anos.

Avisos da Tradição
Tenha em conta que, no folclore minhoto, as tentativas de desencanto são perigosas:
O Silêncio é Ouro: Não se pode proferir uma única palavra durante todo o percurso até ao local (geralmente uma anta ou um penedo rachado). Se o caminhante falar ou responder a uma voz que o chama pelo nome, o encanto fortifica-se.
Em quase todos os relatos, se a pessoa falar ou demonstrar medo antes do momento certo, o tesouro transforma-se em fumo ou pedras. 
A Ambição Castigada: Quem tenta enganar a moura para ficar com o ouro sem cumprir a promessa acaba, geralmente, "atoleimado" ou levado para dentro da rocha.

O Teste do Leite
 Diz-se que a moura aparece a ordenhar uma cabra ou a oferecer uma tigela de leite. O segredo é beber o leite sem fazer o sinal da cruz e sem agradecer, aceitando o pacto de igual para igual.
A Reza do Destemido: Não é uma prece, mas um grito de comando que deve ser feito enquanto se agarra a chave: "Pela chave que guardas e pelo sangue que corre, quebra-se o ferro e o encanto morre!"
A Troca do Fuso: Se a vires a fiar, deves tocar no fuso e dizer:"Vem comigo, Maria, que o tempo de fiar já lá vai."
Existe um aviso constante nas histórias de desencanto: a moura costuma oferecer carvão ou cascas de cebola como recompensa inicial.

O erro comum: O explorador, achando que foi enganado, deita o carvão fora. Deve guardar o o carvão no bolso em silêncio absoluto até chegar a casa e passar a porta. Só dentro de casa, com a porta fechada, é que o carvão se transforma em ouro maciço.
Nota: Se olhares para trás antes de entrar em casa, ouves o grito da moura: "Ai, que me deixaste em maior desgraça!", e o ouro volta a ser carvão para sempre, 

A Sentença do "Ouro ou Carvão"
Muitas vezes, a moura não quer ser salva, mas sim testar a tua virtude. Quando ela entrega o carvão, deve aceitar-se com humildade e dizer em voz baixa, pois o silêncio é obrigatório até chegar a casa: O que a moura me deu, o destino guardou; se era carvão, o sol o doirou.
 
O teste do galo preto
Levar um galo preto, à meia noite, ao local pretendido. Se o galo cantar, a moura é desencantada e trará os tesouros com ela.
O Ritual de Desencanto (Leite de Vasconcelos)
Diferente de outras zonas do Minho, no Soajo o desencanto exige um teste de astúcia e coragem física, não apenas uma reza. Ele anotou que, no Soajo, as mouras eram chamadas, por vezes, de "Madamas".
O caminhante deve subir ao penedo e não demonstrar espanto perante a força da mulher, (encontro). 
Ela estende o fuso de ouro. Se o homem tentar agarrar o fuso, ela transforma-se em serpente. O segredo, segundo o folclore local, é tocar na pedra que ela leva na cabeça e não no ouro, (prova do fuso).

A reza ou sentença: Ao tocar na pedra, deve-se dizer a fórmula de libertação do fardo: "Pesa-te a pedra, moura fada? Deixa-a no chão, que a tua vida é chegada!"
Se dita com a intenção certa, a pedra cai (formando os monumentos que vemos hoje no Mezio) e a moura desaparece, deixando o fuso de ouro como recompensa.
 
A "Moura da Peneda"
​Na Serra do Soajo, simultaneamente  com outras lendas de mouras encantadas, a lenda mais forte é de uma aparição, a  Senhora da Peneda que apareceu a uma pastora na serra. Curiosamente, antes da versão cristã, muitos destes locais eram associados a "mulheres das águas" ou "mães-do-rio", figuras que a Sereia Marinha do Minho também personifica no litoral. Diz-se que algumas destas figuras da serra podiam assumir a forma de serpente com rosto de mulher, uma imagem que na iconografia medieval é exatamente a mesma que a de certas sereias.
A região do Mezio, no Soajo é o cenário perfeito para um roteiro místico. O complexo megalítico local é um dos mais importantes da Península Ibérica, e as suas pedras guardam histórias de tesouros e fados.

Aqui está um roteiro sugerido para explorar estes locais de lenda:
Ponto de Partida:  Núcleo Megalítico do Mezio (Mamoas 5 e 6 e Anta
A poucos metros da Porta do Mezio, encontras este conjunto de monumentos funerários com cerca de 5000 anos.
A Lenda: A Mamoa 5 (a mais imponente e restaurada) é o local onde se acredita que a moura aparece sentada a fiar.
Dizem os antigos que, se se circundar a mamoa três vezes em silêncio absoluto à meia-noite, poderá ouvir-se o som do fuso ou ver o brilho do ouro. Mas atenção: se se for movido pela ganância, o ouro que transformar-se-á em carvão assim que se sair do planalto.

O Penedo da Moura 
 Conta-se que uma menina aparecia aqui pedindo leite e pão quente. Quem lho desse de coração aberto, sem perguntar nada, recebia em troca carvões que, ao chegar a casa, se tornavam barras de ouro puro.

Descendo em direção à vila do Soajo, encontras zonas de rio com poços profundos e a Ponte da Ladeira que  é descrita como um lugar de "amor proibido". A lenda diz que uma moura se afogou ali por causa de um cristão e que, desde então, ela atrai os incautos para as profundezas. Aí também se faziam invocações dos espíritos e almas penadas para a realização de desejos terrenos: amor não correspondido, afastar concorrente do namorado ou marido, dificuldade em engravidar e batismos noturnos. É um local de beleza serena, mas que a tradição recomenda respeitar, evitando mergulhos solitários ao entardecer.

 Espigueiros do Soajo
 Embora os espigueiros sejam estruturas comunitárias para secar milho, a sua implantação sobre um enorme necrópole granítica liga-os à crença de que os "antigos" (os mouros) dominavam a arte de mover pedras gigantescas com a força do pensamento ou de feitiços. Em eras remotas a  Eira era lugar de celebrações, sacrifícios e invocação dos espíritos e de contemplação do universo. O historiador grego Estrabão escreveu que os povos indígenas do Norte (Galaicos e Lusitanos) sacrificavam prisioneiros de guerra e cavalos para ler o futuro nas suas entranhas. Em qualquer um dos  lugares distribuídos pela serra, (Adrão, Várzea, Paradela, Cunhas, Vilar de Suente e Vilarinho das Quartas, Ermelo, Gavieira, Tibo, Rouces, Castro Laboreiro)  se encontram referencias a mouras encantadas. Os cuidados são os mesmos: silêncio e respeito para com as mouras e a negação da cobiça. Há ainda locais ainda por encontrar, como atesta a descoberta recente do  agrupamento militar romano, no Alto da Pedrada.


Abraço

 

A minha saga nas Artes plásticas continua. Estou inserido num grupo de artistas que me têm ajudado imenso. Obrigado a todos e muito em especialmente  ao Mestre João Paulo. 
O tema des te projeto é EU E OS OUTROS. 
Partilho aqui convosco um dos meus  últimos trabalhos:
 O ABRAÇO. 



"Há um silêncio absoluto no azul das pegadas que se fixam à terra. É o rasto de um abraço que não busca o amanhã, ou se esgota no agora? A  ambiguidade desfaz-se na queda: o ramo de flores não foi deixado para trás pela pressa do encontro, mas talvez pela nostalgia da desistência. É o gesto final de quem solta as mãos da esperança para se entregar ao peso do adeus?

 Nas costas da mulher, o colorido das pétalas é um contraste cruel com a aspereza do cartão e da areia — a beleza que já não serve, ou o  presente que perdeu o destino? " 

Manuel Rodas













sexta-feira, 20 de março de 2026

Sereia Marinha do Minho

 






PUBLICO HOJE A PRIMEIRA PARTE E AMANHÃ A II PARTE. ESPERO AS VOSSAS CRÍTICAS. COM AMIZADE!


Parte I

O mito da Sereia da Marinha do Minho (frequentemente associada à lenda da Serpente ou Sereia de Afife, em Viana do Castelo) é uma daquelas misturas fascinantes de folclore local, misticismo cristão e relação profunda do povo minhoto com o mar e o Rio Minho.

​Aqui está o "onde" e o "como" dessa lenda:

​1. Onde surgiu?

​A lenda está centralizada na costa do Alto Minho, especificamente na região de Viana do Castelo e nas praias de Afife. O cenário principal é o areal e os rochedos da costa atlântica, onde a paisagem é simultaneamente bela e perigosa, propícia à criação de mitos sobre criaturas que habitam as profundezas.


​2. Como surgiu? (As Raízes do Mito)

​Diferente das sereias gregas clássicas, a sereia minhota surge de uma fusão de três influências principais:

 Em Portugal, a base de quase todos os mitos femininos sobrenaturais é a Moura Encantada. No Minho, estas figuras muitas vezes transitaram da terra (fontes e castros) para o mar, assumindo formas híbridas.

​O mar do Norte de Portugal é batido e traiçoeiro. O mito servia como uma personificação dos perigos reais: o canto da sereia era o som do vento e das ondas que "atraía" os pescadores para os naufrágios nas rochas.

​A Lenda de Afife (A Sereia-Serpente): Diz a tradição local que a sereia era, na verdade, uma princesa ou uma jovem sob um feitiço. Reza a lenda que ela aparecia sobre as rochas de Afife, com metade do corpo de mulher e a outra metade de cauda de peixe (ou, em algumas versões mais antigas e obscuras, de serpente), penteando os seus longos cabelos com um pente de ouro.

​3. A Essência da Lenda

​O surgimento específico desta figura está ligado à ideia de tentação e castigo. A história mais comum conta que um pescador ou um jovem da aldeia avista a criatura num pôr do sol. Ela oferece-lhe riquezas ou amores eternos se ele conseguir quebrar o seu desencanto (geralmente através de um beijo ou de uma prova de coragem). O medo humano acaba por prevalecer, o desencanto falha, e a sereia mergulha de volta  mar, deixando um rasto de espuma e, por vezes, uma maldição ou uma saudade eterna no coração de quem a viu.

​Curiosidade: No Minho, o mito também se cruza com a religiosidade. Existem histórias onde estas criaturas são vistas como "almas penadas" que procuram a redenção através de quem reza por elas à beira-mar.

Quando surgiu?

​É um reflexo perfeito da alma minhota: um pouco de tragédia, muita beleza e um respeito enorme pelo oceano.

Determinar uma data exata para o surgimento de um mito oral é como tentar segurar água com as mãos, mas podemos rastrear a "cronologia da existência" da Sereia do Minho através de camadas históricas.

​A lenda, tal como a conhecemos hoje, consolidou-se entre os séculos XVI e XIX, mas as suas raízes são muito mais profundas.

1. A Raiz Pré-Romana (Antiguidade)

​Embora não houvesse o conceito de "sereia" (mulher-peixe) como temos hoje, as populações castrejas do Minho já adoravam divindades aquáticas.

​Século I a.C. / I d.C.: A influência de divindades como Durbedo (deus do rio Douro) ou ninfas locais criaram o terreno fértil para figuras femininas ligadas à água. O mito da "Moura Encantada" nasce aqui, antes de se tornar "sereia".


​2. A Idade Média (Séculos XII a XV)

​É nesta época que o mito ganha contornos morais e religiosos. Com a expansão do Cristianismo, as antigas divindades pagãs foram transformadas em seres "encantados" ou "amaldiçoados". É provável que a variante da Sereia de Afife tenha começado a divergir das lendas de terra firme nesta altura, à medida que as comunidades costeiras do Minho se tornavam mais dependentes da pesca e do comércio marítimo.


​3. A Época dos Descobrimentos (Séculos XV e XVI)

​Este é o período crucial de transição.

​Os marinheiros portugueses que viajavam para o Atlântico Sul e para as Índias traziam relatos de "manatins" e "dugongos", que juravam ser sereias. A iconografia da sereia clássica (com pente e espelho) infiltrou-se no imaginário popular do Minho através da literatura de cordel e dos relatos de marinhagem que chegavam a portos como Viana do Castelo.


​4. A Fixação Literária (Século XIX)

​Foi no século XIX que a lenda da Sereia do Minho foi finalmente "cristalizada".

​Com o movimento do Romantismo, escritores e folcloristas (como Teófilo Braga ou Rocha Peixoto) começaram a recolher as histórias orais das aldeias de pescadores.

​Nesta época, a lenda deixou de ser apenas uma "superstição de pescador" para se tornar parte do património cultural e identidade regional do Minho.

Resumo da "Certidão de Nascimento


Época

Estado do Mito

Antiguidade. 


Divindades das águas e ninfas locais (Paganismo).


Idade Média


Transformação em "Moura Encantada" (Folclore).


Séc. XVI


Fusão com a imagem marítima da sereia (Influência dos Descobrimentos).


Séc. XIX.          

Registo oficial e reconhecimento como "Mito do Minho" (Romantismo)


Onde encontrar

Existem várias representações e curiosidades que ligam a figura da sereia ao património de Viana do Castelo e arredores. Embora as sereias sejam seres pagãos, elas aparecem frequentemente em contextos cristãos e civis devido à forte ligação desta terra com o mar.

​Aqui estão os principais locais e formas onde pode encontrar estas figuras. ​É muito comum encontrar sereias esculpidas na talha dourada de igrejas barrocas e rococó do Minho.

1. A ​Igreja da Misericórdia (Viana do Castelo) é uma das joias do Barroco em Portugal. Nos seus retábulos de talha, é frequente a presença de figuras híbridas e mitológicas (seres com caudas de peixe ou folhagens) que serviam como elementos decorativos chamados "brutescos".

 A Igreja da Misericórdia (s. XVI) e o Museu de Artes Decorativas guardam as representações visuais desta ligação ao mar. ​Na Igreja da Misericórdia, observe a talha dourada e os elementos decorativos do século XVI e XVII, onde figuras marítimas e híbridas estão integradas na arquitetura.

​Igrejas do Alto Minho: Em muitos altares laterais de igrejas rurais da região, a sereia era usada como um símbolo de aviso contra a "tentação da carne" ou simplesmente como uma homenagem ao domínio dos mares.


​2. O "Fóssil de Sereia" no Museu de Artes e Arqueologia

 Museu de Artes Decorativas (frequentemente referido como Museu de Artes e Arqueologia) é o local ideal para explorar o espólio histórico que inclui curiosidades sobre o folclore local e a iconografia marinha da região.

Uma das curiosidades mais insólitas  é a existência de um "fóssil de sereia" que esteve em exposição no Museu de Artes e Arqueologia de Viana do Castelo. Trata-se, na verdade, de uma peça de "arte bruta" ou uma montagem histórica curiosa, mas que demonstra como o mito estava entranhado na cultura local. Durante anos, alimentou a imaginação de quem visitava o museu, sendo uma representação física direta da crença popular.


​3. O Chafariz da Praça da República (Séc. XVI)

O Chafariz da Praça da República serve como um ponto de referência histórico da era dos Descobrimentos, período em que a sereia se tornou um símbolo comum. ​As figuras esculpidas no chafariz renascentista mostram a estética da época que misturava o humano com o mitológico. Situa-se no centro cívico da cidade, rodeado por outros edifícios históricos que utilizam motivos marinhos na sua decoração. ​Embora as figuras centrais não sejam sereias "clássicas" com cauda de peixe, o chafariz monumental de Viana (concluído em 1559) possui figuras antropomórficas que vertem água. A estética desta época (Renascimento/Maneirismo) frequentemente misturava figuras humanas com elementos marinhos, refletindo o espírito dos Descobrimentos.


​4. A Arte Contemporânea e a "Lavradeira Marinha"

​A cidade continua a homenagear esta ligação:

​Existem murais de azulejos recentes (como a Lavradeira de Viana em versão moderna) que por vezes fundem o traje típico de Viana com elementos marinhos.

​No ateliê de artistas locais (como o conhecido Joaquim Pires, em Darque*), as sereias são um tema recorrente, criadas a partir de materiais recolhidos no mar, mantendo vivo o mito através da arte popular atual.

​5. Afife: O Cenário Natural

A Serpente ou Sereia de Afife,  é uma daquelas misturas fascinantes de folclore local, misticismo cristão e a relação profunda do povo minhoto com o mar e o Rio Minho. ​Em Afife, embora não haja uma estátua gigante de uma sereia, os habitantes apontam para as rochas à beira-mar como o local exato das aparições. O "monumento" aqui é a própria paisagem natural, que os locais preservam através da tradição oral. A Praia de Afife é o cenário natural por excelência da lenda, onde se acredita que a sereia aparecia sobre os rochedos. ​É um local de enorme beleza natural, conhecido pelas suas dunas e mar batido, ideal para compreender a origem do mito.

​As rochas na zona norte da praia são frequentemente apontadas pela tradição oral como o lugar do "desencanto".




*

Joaquim Pires é um antigo pescador de Viana do Castelo que se tornou um reconhecido artista de arte bruta (ou arte popular) em Darque. Após passar mais de 40 anos no mar, especialmente na faina do bacalhau, ele dedica-se agora a transformar materiais reciclados e objetos encontrados na praia em esculturas vibrantes.

​O seu trabalho é profundamente ligado ao imaginário marítimo do Minho, sendo as sereias uma das suas figuras mais icónicas e recorrentes.

Um detalhe curioso: o artista Joaquim Pires (que mencionámos em Darque) vive perto da foz do Lima, mas a sua arte "bruta" utiliza pedras e madeiras que muitas vezes foram trazidas pela corrente do rio desde as montanhas (como a Serra do Soajo) até ao mar. De certa forma, o material de que são feitas as suas sereias vem da serra.

Atelier Joaquim Pires é o espaço onde ele dá vida às suas criações, localizado no bairro dos pescadores em Darque.

  • Materiais Reciclados: Joaquim utiliza madeira flutuante, restos de baldes de tinta, esferovite e outras "velharias" que recolhe na Praia do Cabedelo para criar os seus seres.
  • Temas Marítimos: Além das sereias, o seu portfólio inclui peixes, barcos, aves marinhas (como flamingos e garças), mas também aviões e figuras religiosas.
  • Estilo "Bruto": O próprio artista define o seu trabalho como "arte bruta", caracterizada pela autenticidade e pela ausência de formação académica, nascendo puramente da intuição e das memórias da vida no mar.

​Reconhecimento

​Embora trabalhe num atelier improvisado de zinco, o seu talento já atravessou as fronteiras locais:

  • Exposições: Já participou na prestigiada Bienal de Arte de Cerveira e teve obras expostas em galerias no Porto (como a Cruzes Canhoto) e em Lisboa.
  • Presença na Cidade: Quem passa pela zona da Senhora das Areias, em Darque, pode facilmente identificar a sua casa pelas antenas parabólicas decoradas com motivos marinhos que adornam o portão.

​Joaquim Pires é frequentemente descrito como um "escultor de memórias e de sonhos", sendo uma figura viva que mantém as lendas e a cultura visual da Marinha do Minho presentes na atualidade através da arte.


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 Autores fundamentais

1. José Leite de Vasconcelos (O "Pai" da Etnografia)

É a figura mais importante. No seu monumento literário "Etnografia Portuguesa" e em "Religiões da Lusitânia", ele cataloga centenas de lendas de mouras. Leite de Vasconcelos foi o primeiro a teorizar que as "mouras" não têm nada a ver com os muçulmanos da invasão de 711. Para ele, são divindades pré-romanas (ninfas das águas ou deusas da terra) que foram "demonizadas" ou "mourificadas" pela Igreja Católica.

2. Alexandre Herculano

Embora seja historiador, Herculano interessou-se pelo folclore nas suas "Lendas e Narrativas".  Ele ajudou a consolidar a imagem literária da moura encantada, misturando o rigor histórico com a tradição oral. Ele explora muito a figura da moura que vive em castelos e ruínas, algo muito comum no Alto Minho.

3. Consiglieri Pedroso

Contemporâneo de Leite de Vasconcelos, escreveu "Tradições Populares Portuguesas". Focou-se na estrutura do conto popular. É a melhor fonte para entender os padrões das rezas e dos castigos (como o ouro que vira carvão). Ele analisa a moura como um ser mitológico europeu, comparando-a com as fadas e as "banshees".

4. Teófilo Braga

Em "O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições", o antigo Presidente da República e folclorista dedicou capítulos inteiros a estes seres.  Teófilo Braga via as mouras como uma sobrevivência do animismo dos povos galaicos e lusitanos. No Minho, ele destaca a ligação das mouras com a fiação (o fuso e a roca) como um símbolo do destino.

5. Cláudio Basto (Especialista no Minho)

Este autor é crucial  pois era de Viana do Castelo e focou-se especificamente na etnografia minhota. Escreveu na revista "Lusa" e na "Revista de Guimarães".  Ele estudou as particularidades do falar minhoto nas rezas de desencanto e a relação específica das mouras com os Penedos e as Citânias (como a de Briteiros ou Santa Luzia).

6. Gentil Marques

Autor da famosa "Lenda de Portugal" (uma coleção de vários volumes).  É uma leitura mais acessível e narrativa. Ele reconta as lendas do Soajo, da Peneda e de Arcos de Valdevez de uma forma literária, ideal para quem quer conhecer a história "romanceada" sem o peso académico.