sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Não deixes que a mentalidade “Que se Lixe” tome conta do teu Natal

Que se lixe o Natal.

Sim, que se lixe! Quem quer saber do Natal? O governo? Ora, os partidos políticos e os governos só querem saber do Natal se as eleições - onde as há- estiverem próximas. Nessa altura é vê-los a correr, aos beijinhos, tudo sorrisos, bandeirinhas na mão, fotografias dos candidatos em cima dum pinheirinho verde, estampado num panfleto, autocolantes do Pai Natal, de colar no frigorífico, tudo a correr, de mão em mão. Cumprimentos no mercado, como vai, nas ruas, boas festas, à saída dos espetáculos, bom Natal, à porta dos templos e campos de futebol.

NÃ, que se lixe o Natal.

O presidente distribui abraços e beijinhos durante todo o ano. Não precisa do Natal para nada.

A câmara municipal e os comerciantes bem podem pôr os arranjinhos de luzes nas árvores e erguer presépios nas rotundas. Os centros comerciais fazem propaganda, de preços imbatíveis, ofertas miraculosas, viagens extraordinárias, seguros indesmentíveis, o raio que os parta. Para quê? Para incrementar as compras, com preços mais elevados, a explorar a onda de afetos que o Natal seria suposto ter.

NÃ, que se lixe o Natal.

Estou mesmo para ver se o Putin e o Zelenski mandam parar a guerra, por causa do Natal. Ou se declaram a paz em honra da Humanidade e do Natal. Ou se os países da CEE aceitam os refugiados, que fogem para a Europa e distribuem a riqueza acumulada, ou fazem investimentos, de modo a criarem riqueza para todos. E aqueles que não acreditam na ciência, nas alterações climáticas, nem na democracia? Há algum Natal que os salve? Tá bem, tá!

Nã, que se lixe o Natal.

Quem quer saber do Natal?

Os poetas? Esses querem é vender os seus livrinhos, serem conhecidos e, quem quer fazer poemas ao Natal? Os poemas são emoções e o Natal não desperta emoção nenhuma. Aquela emoção da menina pobre a vender fósforos, essa já deu...

Os pintores e todos os outros artistas querem é vender as suas obras, não querem saber do Natal para nada. Os outros, os informáticos, bancários, pessoal dos serviços, saúde, segurança, nada, ninguém quer saber do Natal, só se for para se prepararem para o trabalho a dobrar. Nas escolas ainda fazem uns presépios em que ninguém já acredita. Gostam porque se altera a rotina, trabalha-se em grupo e as relações são mais próximas. De resto... mal começam as interrupções, já ninguém se lembra do presépio e do menino jesus exposto à chuva e ao frio. Parece ser mais uma tortura do que uma celebração. Assim conseguem ensinar o sado/masoquismo às crianças.

NÃ, que se lixe o Natal.

Apenas alguma saudade da infância e tristeza pelos que partiram e já cá não estão. Tudo o que resta é solidão. Escuro e triste, frio... mais nada.

Nem esperança nos vizinhos, nem confiança na humanidade. Nada!

NÃ, que se lixe o Natal.

Bem vejo o ar trocista do vizinho do andar de cima a desejar bom Natal à empregada doméstica e aflito com medo de que ela lhe peça aumento, no próximo ano. Ou o senhorio a receber as desculpas do atraso, por mais um mês, só mais um mês, por favor, da renda do andar e da loja. Ou o modo como ele olha para mim, que tenho uma renda baixa, a perscrutar no meu olhar algum sinal de envelhecimento precoce e morte súbita para lhe deixar o andar vazio. Bem o vejo.

NÃ, que se lixe o Natal.

Até o Banco Alimentar e a Caritas se queixam das poucas dádivas que recebem, mas, em contrapartida, os bancos e as grandes empresas anunciam os lucros do último trimestre. Milhões de lucros, para engordar a ganância dos acionistas.

NÃ, que se lixe o Natal.

Valeu bem a pena ouvir o Presidente dizer que ia falar com o governo para acabar com os sem abrigo. Ia, ia, mas não foi! Vai para todo o lado, até os visita e lhes dá abraços. Tirá-los daquela vida é que não! Nem ele, nem o governo.

NÃ, que se lixe o Natal.

Os padres querem o Natal para permitir mais aproximações e disfarçar o ar lascivo com que afagam as moças novas ou os rapazinhos tímidos e frágeis. Agora é tudo amor, comunidade, espírito cristão...uma ova!

Até o Vaticano abriu um Centro Comercial de luxo. Pois claro, de luxo é onde eles sempre andaram, basta visitar os museus das igrejas, ouro, prata, safira, incenso... e do Natal? Nada! Mirrou ou desapareceu!

NÃ, que se lixe o Natal.

No meu tempo, sim. Éramos crianças e o Natal era, depois das férias grandes, o melhor que nos podia acontecer. Não era tanto pelas guloseimas, nem pelas poucas prendas que recebia. Não, isso ajudava, contribuía, mas não era o essencial.

Era um encadeado de pormenores e situações, que criavam a expetativa do Natal. Toda aldeia começava cedo a guardar o canhoto para a noite de Natal. Um canhoto que dê para a noite toda, dizia alguém, a despedir-se da vizinha.

Já em outubro plantavam as couves para a consoada. O bacalhau, comprado muitos dias antes, era para o Natal! A lã começava cedo a ser cardada pois ainda havia que lavar, fiar e fazer as meias grossas, para as ofertas. Os tecidos e rendas adquiridos com antecedência para fazer as prendas, mais um cinto, uns sapatos ou botas, casaco e uma camisola grossa.

- O seu marido vem pró Natal, comadre? E os filhos?

- O mais novo, vamos ver se no quartel o deixam vir. O que está em França, esse, pensa em vir, vamos ver. O meu marido este ano não vem e não vindo, se calhar o filho fica com ele. Vamos ver.

E neste vamos ver estava um mundo de expetativas. Vamos ver. Vamos aguardar e esperar o que há de vir ou suceder.

Se viessem, a casa ficaria cheia de amor, ternura e... adeus saudades. Se não viessem, paciência, fariam quase tudo como se eles estivessem.

O pai a cortar o bacalhau, esse peixe misterioso, que nunca vinha inteiro, mas sempre de espinha à mostra e sem caabeça. Ele parava, contava mentalmente as pessoas à volta da mesa e ia atirando com as postas para o balde, meio de água. Juro que o ouvia a dizer baixinho, mãe, pai, filho, filha, avó, irmão, tia, tio, compadre, comadre...

Enquanto a lenha no fogão de ferro crepitava e a água borbulhava na caldeira, o calor inundava a casa e as almas. A filha mais velha, de cara afogueada, ia fazendo as filhoses, arroz-doce e a letria. As rabanadas, não. Quem fazia as rabanadas era o pai, segundo uma receita que aprendeu com a mãe dele, ou que ele tentava imitar.  De leite e de vinho.

A mãe escolhia as couves, descascava as batatas e as cebolas, procurava o polvo e os ovos e sorria a imaginar a mesa farta.

A tia tratava das bebidas e aquecia o vinho com mel e canela.

Os rapazes faziam pequenos recados na ânsia de receberem os restos das guloseimas, ou a panela vazia do arroz-doce, para rapar. Jogavam ao Xarramil, ou jogo do galo, enquanto iam saboreando a concórdia, a partilha e amor filial, imaginando a mesa posta e as prendas no sapatinho, que o menino jesus havia de deixar, depois de descer pela chaminé.

Era preciso pôr a mesa, para que nada faltasse. E distribuir os lugares. Já todos os convivas estavam presentes, mas não havia, ainda, comida na mesa, ninguém se tinha sentado, todos aguardavam um sinal, pois este era o momento mais perfeito de todos. Uma calma ansiosa, o tempo congelado nas vontades cheias de ternura, uma antevisão do paraíso, com a toalha branca salpicada de pequenos lagos e jardins, pássaros a esvoaçar e um cavalo pintado, de patas dianteiras levantadas no prato, a condizer. Havia a expetativa de que caísse, ou havia de tomar a posição quadrúpede, mas não. Mantinha-se lá no alto, no pedestal com o seu cavaleiro, ambos imunes à gravidade.

Esse tempo é que era belo e esplêndido. Ali estava toda a imaginação à solta, a correr pelos pormenores abraçada a realidade sentida, fraternal e quente. O mundo parava nas nossas almas e apenas os olhos brilhavam de contentamento e de promessas irrealizáveis.

Depois, já não tinha muita graça. Era comer, saborear, dizer umas graças e aplaudir os cozinhados e seus autores, falar do tempo, de quem não tinha podido vir, quem estava doente, quem não ultrapassaria o ano, e outras coisas que só interessavam aos adultos.

Ela voltaria mais tarde, adormecendo na promessa dos brinquedos que o Menino Jesus traria na manhã, mas, nunca trazia o que ambicionávamos.

Agora? O Natal que se lixe.

........

Quem assim perorava contra o Natal era um homem de idade avançada, que a vida tinha atirado para um canto, a remoer o passado e sem perspetivas mobilizadoras no presente. Estava só, trôpego e pronto a desistir. Mulher morta e filho moribundo pela ausência, sem comunicação, sem um olá. Tantos anos, onde estaria? Teria casado? Teria filhos?

- Se calhar morreu, mas se morresse eu saberia, sabe-se lá, em breve saberei...

Era assim que se preparava para o encontro com a esposa e com o filho, no além, com muito azul e cor-de-rosa, sem vento, nem frio, nem fome, só música angelical. Às vezes pensava, porque não um planeta distante, como esses dos filmes?

- Pois que seja assim, será a última vez, mas vou fazer a ceia de Natal para dois, eu e o outro, num encontro final, sozinhos, eu o outro, que para mim, significa todos os outros que amei, amigos, familiares, conhecidos e alguns parvos que tropeçaram na minha vida. É uma pequena loucura que não faz mal a ninguém, nem os ricos ficam mais ricos, nem os pobres mais pobres, nem os enfermos, sãos, nem estes, doentes.

E foi assim que encomendou na mercearia da rua o bolo-rainha, as filhoses, as rabanadas, o vinho do Porto, Champanhe e vinho tinto e branco, os pinhões, as nozes, o bacalhau, o polvo, as batatas e os legumes.

-Sim, agradeço que entreguem em casa, ao fundo da rua, sim, muito obrigado.

Todo o dia foi intercalado por tarefas inerentes à ceia, com momentos de descanso e retemperança. Começou de manhã cedo a descascar as batatas e sorria, de pé, no lavatório da cozinha. Na sua cabeça iam passando várias imagens do passado, da sua infância em casa dos pais, na guerra colonial, da vida de professor, em Moçambique, o retorno a Portugal, os alunos, a morte da esposa, o desaparecimento do filho, as várias operações a que foi sujeito, a aprendizagem do convívio com a solidão, de que esta ceia seria o último capítulo.

Posta a mesa para dois, aberto o vinho tinto, enquanto o champanhe aguardava no frigorifico, pôs uma valsa a tocar, acendeu as velas, foi tomar banho, vestir as calças do fato, camisa branca, colete, sapatos pretos, alisou o resto dos cabelos e de olhos brilhantes, sentou-se, finalmente, a afagar as dores que iam arruinando a sua coluna.

Caro leitor, o homem já está sentado à mesa, as velas acesas, o vinho aberto e... agora? Como encontrar um final feliz e que contraste com o “Natal que se lixe”, que ele passou o tempo quase todo a gritar?

O menos surpreendente seria o toque na campainha e finalmente, o filho regressava a casa, qual cavaleiro da Dinamarca, com o caminho iluminado por uma estrela, caíam nos braços um do outro, chorariam, pediriam desculpa, erros meus, má fortuna, amor ardente e tal... e acabaria assim.

Noutra versão menos dramática, a campainha tocava, e uma jovem loira diria: -Avô, sou a sua neta! Bom Natal, avô! E ela contaria a sua história, como o pai tinha vivido, algures em França e como tinha morrido. A surpresa seria grande, mas menos empolgante e dolorosa. A noite seria um inquérito permanente do avô à sua neta. Monótono e cruel!

Bem...e se campainha tocasse e o homem do quiosque, o sr. Armindo trouxesse a lotaria premiada, que o velho tinha adquirido, mas se tinha esquecido de trazer.

- Premiada, a sua lotaria! Veja lá que sorte a sua! Boas festas e, depois de amanhã, passe lá no quiosque para eu o orientar e levantar a maquia! Boas Festas, amigo!

Esta versão parece pouco convincente, não parece? O leitor ficará a pensar que não é nada plausível, até porque o sr. Armindo teria ficado com a massa, numa perspetiva mais realista da mente humana- “que se lixe o velho!” e não seria natural o esquecimento da lotaria no balcão, depois de a ter pago.

Ainda pensei no padre, mas esse estava muito ocupado com as festas e as múltiplas tarefas das cerimónias e com a missa da meia-noite. O padre a tocar à campainha não seria boa ideia. Nem teria tempo para se sentar e jantar com o velho. Nem o velho iria apreciar a sua companhia, pelo que ele já disse no início da história. O padre, não. O mesmo aconteceria com o presidente da junta que nessa noite também estava super ocupado e o velho professor criticava constantemente.

Ah! A vizinha! Aquela que há muito tempo andava de olho nele, tocava à campainha e oferecia a malga de arroz-doce.

- Para si, amigo! Boas festas!

Ele mandaria entrar, comiam em silêncio, viam televisão e ela sairia, com ar mais triste do que quando chegara e diria, boa noite!

Não era grande coisa este final, pois não?

Subi a rua deserta, dei mais uma volta pela praça, a ver se encontrava algum mendigo, mas ...nada. Tudo iluminado, o pinheiro gigante, o presépio ao lado, mas nem vivalma.

Quem haveria de tocar à campainha? Diga lá, leitor, quem tocaria à campainha, na vida deste homem tão só?

Caro leitor, fui à porta do vizinho e envergonhei-me, vim para a minha e governei-me. Não queria fazer a apologia do individualismo, mas às vezes, acontece a solução estar debaixo da mão e nós a olhar para os pés ou para a lua, que eu até gosto muito de ficar a olhar para ela, longas horas. E o amigo leitor? Olhe, venha comigo, e vamos tocar à campainha do velho e discutir com ele a solução que mais lhe agradaria, para o final da sua ceia e final desta história. Será o nosso presente de Natal. Mais um prato, menos um prato, que mal fará? E o velho, já agora, deixe-me dizer-lhe o seu nome, Víctor Manuel, é esse o seu nome, ficará tão contente, que não se importará nada com isso. Ah! Foi seu aluno? Ora ainda bem. Ele vai gostar de o ver. Eu levo uma flor de Natal e o meu amigo traga o que lhe aprouver. Combinado? Entramos e dizemos, Boas festas, Professor Vitor! Viva o Natal! Viva!

Manuel Rodas

Oeiras, Nov.2022