domingo, 1 de março de 2026

Os patriarcas americanos, Epstein e companhia

 



Não resisti a transcrever este artigo escrito porMelinda Cooper,  pela análise lúcida e fundamentada dos novos patriarcas, fundadores da extrema direita americana. 

​Os valores familiares de Jeffrey Epstein

Por Melinda Cooper

Socióloga

​As revelações recentes e o conhecimento crescente que temos do universo de Epstein permitem perceber as lógicas da extrema-direita contemporânea. Seus patriarcas bilionários querem reinar sobre uma economia de mestres e servos, sustentada por violências econômica e sexual cujas vítimas são as primeiras a nomear e a resistir à ordem política emergente.

​Entre os traços mais singulares da extrema-direita americana contemporânea figura a emergência de "pais primordiais" — esses patriarcas do Antigo Testamento animados pelo desejo de gerar não simplesmente uma família, mas todo um povo. Elon Musk é o mais emblemático desses "Abraões" em potencial, sem ser o único.

​Uma longa reportagem do Wall Street Journal documentou seu desejo de gerar o que ele chama de uma "legião" de crianças destinadas a salvar a humanidade de um colapso demográfico e a carregar seus genes superiores para um futuro distante. Um foguete da SpaceX está pronto para transportar seu sêmen para além da Terra, em um processo que se assemelha à panspermia — a teoria de que a vida orgânica teria chegado ao nosso planeta por meio de poeira estelar — mas no sentido inverso.

​Até o momento, atribuem-se a Musk pelo menos quatorze filhos nascidos de quatro mulheres diferentes, cujos assuntos jurídicos e financeiros são em parte geridos por Jared Birchall, diretor de seu family office. "Teremos que recorrer a barrigas de aluguel", escreveu ele por SMS a uma delas, a fim de "alcançar o nível legião antes do apocalipse". Em previsão dessa multiplicação, ele adquiriu uma vasta propriedade de uso múltiplo em Austin, no Texas.

​Geralmente, considera-se o natalismo pregado pelo Vale do Silício como algo que remete à eugenia, mas esta é uma leitura que, embora capture o desejo de purificação racial, nada diz sobre o processo singular pelo qual essa pureza seria alcançada. Os eugenistas "clássicos" da era progressista americana buscavam erradicar a anomalia genética, que consideravam responsável pela degeneração mental e outros males sociais. Musk e seus semelhantes, por outro lado, estão imbuídos da pseudociência do transumanismo — menos preocupados em eliminar o erro do que em exaltar a "deviância excepcional". O patriarca ideal é aquele cujo QI fora de série o situa às margens da distribuição normal da inteligência. Ele não busca apenas preservar a herança genética branca, mas ressuscitá-la sobre fundamentos recém-santificados. Os pais primordiais são venerados não como ancestrais de uma raça antiga, mas como fundadores de uma raça nova.

​O Mito do Pai Tirânico

​O pai primordial é uma figura mítica. Em Totem e Tabu, Freud argumentava que o inconsciente primitivo era habitado por um pai tirânico e uma horda de filhos invejosos. Este pai original reivindicava um direito de propriedade exclusivo sobre todas as mulheres do grupo, sem considerar idade ou laços de parentesco. Seu reinado autocrático só terminava no dia em que seus filhos se revoltavam, matavam-no e instauravam uma nova ordem na qual as mulheres se tornavam propriedade comum. Freud reconhecia francamente que tudo isso pertencia a uma pré-história apócrifa. Por trás do mito da horda primitiva, não havia substrato de desenvolvimento ou antropológico — apenas os traços enterrados, meio apagados, que este pai imaginário deixa na mente de seus pacientes.

​No entanto, esse fantasma às vezes se manifesta na realidade. O caso dos gurus de seitas oferece a ilustração mais manifesta: com uma previsibilidade fascinante, eles invariavelmente acabam por instaurar um regime de sexualidade comunitária obrigatória sobre o qual detêm um direito de monopólio absoluto. Eles também preferem propriedades multi-residenciais a casas unifamiliares e, confrontados com a questão de sua sucessão, refugiam-se em fantasias de imortalidade e deificação. Sua banalização de um apocalipse iminente pode ser lida como a tradução cósmica dessa angústia: é mais fácil, para um guru, imaginar o fim do mundo do que a perda de seu poder.

​Não é preciso dizer que este ethos destoa singularmente dos valores familiares tradicionais pregados pela direita religiosa — uma das razões do murmúrio surdo que atravessa as diferentes facções da coalizão MAGA. Os pais primordiais querem um "lar ampliado", não uma família. Eles transgridem alegremente os tabus conservadores contra o adultério, o incesto e as relações intergeracionais, pois todos os membros de sua casa têm o status de servo, independentemente do laço de sangue.

​O Caso Epstein: Entre o Patriarcado e a Fratriarquia

​Os traços distintivos de suas economias domésticas aparecem mais claramente à luz do caso de Jeffrey Epstein. Como Musk, Epstein era fascinado pelo transumanismo e nutria a ambição de fecundar a espécie humana com seu DNA de elite. Após sua condenação em 2008 por solicitação de prostituição de menores, ele fantasiava em se retirar para seu rancho Zorro, no Novo México, para engravidar até vinte mulheres simultaneamente. Virginia Roberts Giuffre — recrutada aos dezesseis anos por Epstein e sua companheira na época, Ghislaine Maxwell — conta em suas memórias póstumas, Nobody’s Girl (Penguin Books, 2025), que seus algozes propuseram mantê-la como barriga de aluguel de seu futuro filho, sobre o qual ela não teria nenhum direito de guarda. Eles pagariam duzentos mil dólares por mês para criar a criança e acompanhá-lo pelo mundo em seus reencontros com Epstein. Temendo que seu filho fosse vítima de abusos, Giuffre arquitetou um plano de fuga.

​O caso de Epstein é mais esclarecedor que o de Musk, pois articula as duas economias de propriedade sexual que Freud discernia no inconsciente primitivo — a fratriarcal e a patriarcal. Epstein soube criar laços inquebráveis com seus cúmplices ao fazê-los entender que o que era dele era deles, enquanto mantinha consigo as provas fotográficas. Instituiu, dessa forma, um sistema fratriarcal onde jovens mulheres e adolescentes circulavam entre "irmãos primordiais" como moedas de troca e cimento do grupo. Mas Epstein também pretendia retirar algumas dessas mulheres da circulação comum para torná-las sua propriedade estritamente pessoal e inalienável — as mães de seus futuros filhos, sequestradas atrás dos muros de uma propriedade inacessível. A economia doméstica de Epstein distribuía assim as mulheres entre esses dois regimes de propriedade sexual, com algumas passando, com a idade, do regime fratriarcal para o patriarcal. Todas as meninas e mulheres são propriedade de um único homem; ou todas as meninas e mulheres são propriedade de todos os homens.

​O Retorno do Tribalismo

​Para Freud, a horda primitiva pertencia resolutamente ao domínio do inconsciente. Ela só emergia à superfície em momentos de transgressão organizada, como os carnavais. Mas não há nada de mediado ou subliminar no desejo da extrema-direita do Vale do Silício de reencenar o conflito entre o pai primordial e os irmãos primordiais. Na realidade, seu principal "filósofo", Peter Thiel — membro da lendária "PayPal Mafia" — descobriu Freud através da obra de René Girard, filósofo cristão que lecionava em Stanford nos anos 1990.

​Thiel reivindica Girard até hoje, mas sua leitura de Freud pertence apenas a ele. Em Zero to One (Crown Business, 2014), manifesto de sua filosofia de negócios, ele faz de Totem e Tabu a grade de leitura da economia política das empresas de tecnologia. Os fundadores de startups são celebrados como irmãos rebeldes unidos em um mesmo impulso: derrubar o poder paterno dos grandes monopólios instalados — Google, Amazon, Microsoft. A coalizão dos "tech bros" provou sua capacidade de abalar tudo. Mas Thiel adverte, com lucidez, que os papéis não são gravados em pedra. Pois assim que o pai é derrubado, a fraternidade se estilhaça: cada filho se volta contra os outros e reivindica para si o direito de reinar em monopólio. "Fundadores fora de série não são novidade na história", escreve Thiel — evocando Édipo e Rômulo.

​Graças a documentos recentemente tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos EUA, sabemos agora que Epstein frequentava assiduamente as figuras de proa da extrema-direita do Vale do Silício. Após o Brexit, ele trocou e-mails com Thiel — ambos celebrando o "retorno do tribalismo" — e investiu milhões em suas empresas de tecnologia. Epstein teria reconhecido sem dificuldade em si mesmo o retrato do fundador trágico traçado por Thiel: ele se percebia como um homem livre da lei, chamado a forjar a sua própria. Segundo Virginia Giuffre, ele submetia suas vítimas a um interrogatório minucioso sobre suas infâncias, rastreando o menor sinal de fragilidade, mas esquivava-se sistematicamente de qualquer pergunta sobre suas próprias origens. Epstein, ao que parece, vinha de lugar nenhum: um homem sem passado, sem linhagem. Em um vídeo do mesmo lote de documentos, uma entrevista filmada por Steve Bannon, ele se apresentava como um elétron livre — "Jeffrey Epstein, apenas um bom garoto" —, livre das longas biografias que carregam personalidades como Bill Clinton ou Paul Volcker.

​A Economia Doméstica dos Bilionários

​Se a mitologia do pai primordial ilumina a forma de empresa privilegiada pela nova elite, ela se aplica igualmente à sua organização doméstica. O quadro de referência pertinente aqui não é a família nuclear, mas a "economia doméstica" (household economy) — esse mundo onde produção e reprodução são indissociáveis, onde a gestão dos ativos da empresa se confunde com a preservação do patrimônio familiar.

​A fortuna colossal acumulada desde a crise financeira global ressuscitou uma forma de trabalho que, pelo menos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, havia se tornado cada vez mais rara desde meados do século XX: o serviço doméstico em larga escala, permanente e internalizado. Tomemos Palm Beach, onde Trump e Epstein conviviam outrora, e que hoje abriga muitos bilionários americanos — bem como os aliados mais próximos do presidente. Na última década, Stephen A. Schwarzman, fundador da Blackstone e megadoador republicano, estabeleceu-se lá, assim como Ken Griffin, chefe da Citadel, e o gestor de fundos de hedge Paul Tudor Jones. Outros, como Julia Koch, viúva de David Koch, e Henry Kravis, cofundador da KKR, residem lá há muito tempo. Suas mansões não são meras residências: são verdadeiros polos de emprego, cada uma empregando dezenas de funcionários permanentes e sazonais vindos das áreas mais modestas do condado de Palm Beach, mas também de Nova York, Irlanda, África do Sul e Romênia.

​Esta forma de serviço doméstico é tacitamente regida por regras próximas às que ligavam antigamente o mestre ao seu servo — um regime de emprego que conferia aos mestres um domínio quase absoluto sobre sua esfera privada de governo e punia os trabalhadores com sanções penais, como prisão domiciliar, encarceramento ou mesmo castigos corporais. Dadas as origens medievais inglesas dessas leis, seria tentador ver nelas um retorno ao feudalismo — uma leitura do presente cada vez mais difundida, da qual os trabalhos recentes de Yanis Varoufakis oferecem a ilustração mais conhecida.

​Este argumento deve muito a Marx, que sugeria que o serviço doméstico pessoal se tornaria obsoleto à medida que as relações feudais cedessem lugar ao contrato de trabalho livre. Mas lembremos que, contrariamente às suas previsões, o serviço doméstico conheceu uma expansão no final do século XIX — não apesar da concentração crescente de riquezas industriais e financeiras, mas precisamente graças a ela. Além disso, as relações de mestre e servo perduraram até meados do século XX antes de retornarem nas últimas décadas — se não nos arranjos jurídicos formais, ao menos nos fatos.

​Essas leis mostraram-se particularmente difíceis de desalojar quando se tratava do tratamento de domésticas residentes, em sua maioria mulheres negras: qualquer tentativa de organização sindical chocava-se com o argumento de que elas "faziam parte da família" — e encontravam-se, por isso, expostas às mesmas formas santificadas de maus-tratos que os parentes próximos. Percebe-se aqui a "confusão de categorias" singular que caracteriza a economia doméstica. Onde a família nuclear postula uma separação ideal entre lar e mercado, vida pessoal e profissional, as leis sobre domesticidade pressupõem, ao contrário, uma fusão total entre as duas esferas.

​A Pirâmide de Epstein

​Epstein possuía inúmeras propriedades — em Palm Beach, Nova York, Paris e Novo México — além de uma ilha privada, Little Saint James. Sua folha de pagamento incluía dezenas, talvez centenas de funcionários residentes: conselheiros jurídicos, guarda-costas, motoristas, cozinheiros, agentes de limpeza, jardineiros e "massagistas". Os testemunhos de seus visitantes descrevem uma hierarquia de assessores cuja relação exata com Epstein — íntima ou comercial — era por vezes difícil de desvendar. Seus parceiros comerciais masculinos, como o advogado Alan Dershowitz, eram também seus amigos e, segundo alegações de algumas vítimas, participantes ocasionais de seus crimes sexuais. Em Relentless Pursuit: My Fight for the Victims of Jeffrey Epstein (Gallery Books, 2020), Bradley J. Edwards, um advogado da Flórida que representou cerca de vinte vítimas de Epstein, sugere que um círculo de namoradas oficiais — geralmente mais velhas e mais ricas — formava um círculo interno privilegiado, por vezes cúmplice dos abusos. Se a relação terminasse em bons termos, elas poderiam ser promovidas, juntando-se a Maxwell como recrutadoras de meninas em tempo integral.

​As origens da fortuna de Epstein permanecem enigmáticas. Sabe-se que ele atuava como consultor financeiro e gestor de patrimônio — sem qualquer qualificação — para bilionários como Les Wexner (Victoria's Secret), Leon Black (Apollo Global Management) e, segundo revelações recentes, o magnata imobiliário Mortimer Zuckerman e a herdeira Ariane de Rothschild. Os honorários extravagantes que esses personagens lhe pagavam continuam a desafiar qualquer explicação. O que se sabe, por outro lado, é o uso que ele fazia desse dinheiro: um caixa dois a serviço de um mecenato em tempo integral. Em suas relações com outros homens da elite, ele acenava com a promessa de favores financeiros e sexuais. Seus devedores podiam receber o financiamento de uma unidade de pesquisa, acompanhado de uma visita aparentemente inofensiva à casa de Epstein — devidamente documentada por fotos. Em troca, esperava-se que eles lhe abrissem o acesso a círculos de influência cada vez mais altos.

​No plano financeiro como no sexual, Epstein atrelava sua reputação à de seus devedores. Qualquer dano ao seu nome recairia inevitavelmente sobre o deles. Durante longos anos, esse arranjo traduziu-se em uma quase imunidade jurídica. Em 2008, os promotores federais desistiram de acusá-lo de tráfico de seres humanos para fins sexuais, apesar dos testemunhos de trinta e seis jovens mulheres.

​Epstein apresentava-se como um mecenas, inclusive para suas jovens vítimas. Às estudantes de ensino médio que ele encontrava em Nova York, prometia financiar seus estudos em universidades da Ivy League, ou usar suas relações com o proprietário de uma galeria de arte renomada. As adolescentes vindas de condomínios de trailers de West Palm Beach podiam esperar tornar-se massagistas profissionais, ou pelo menos recrutadoras de outras meninas (a fugitiva Giuffre recebeu, por exemplo, treinamento de massagista em uma das melhores escolas da Tailândia). Muitas viram em seu mecenato uma verdadeira alternativa econômica. Segundo o advogado Edwards, várias das vítimas que ele representou haviam sido abusadas na infância ou vinham de lares violentos. Algumas eram sinceramente gratas a Epstein por tê-las retirado de uma prostituição menos remunerada.

​Não eram apenas os cem dólares que ele pagava por uma primeira sessão de "massagem" — Epstein também prometia uma trajetória de carreira, uma perspectiva de futuro. Mas o mecenato sexual rapidamente tornava-se servidão sexual: generoso com seus pequenos presentes, ele nunca cumpria suas grandes promessas. O objetivo era manter suas vítimas em um estado de dívida permanente.

​Cumplicidade e Allégeance

​Como Epstein envolveu em laços tentaculares de obrigação e dependência quase todos que cruzaram seu caminho, a questão da responsabilidade é particularmente espinhosa. Todo o pessoal de sua casa era provavelmente cúmplice, em algum grau, de seus abusos sexuais. Muitos deviam ter conhecimento direto — o chef celebridade que recebia as jovens na cozinha antes de subirem, os motoristas que levavam Maxwell por Nova York enquanto ela buscava estudantes, a governanta que limpava quartos e banheiros. Mesmo as vítimas mais vulneráveis podiam, segundo alguns relatos, comprar proteção contra as piores formas de abuso recrutando outras meninas. Mais de uma descreveu a economia doméstica de Epstein como uma vasta pirâmide de Ponzi na qual os participantes eram encorajados a ver-se como trabalhadores independentes — livres para gerir seus próprios "pequenos negócios" na moda ou na arte, desde que satisfizessem as necessidades de recrutamento do mestre. Em que momento o interesse pessoal sob coação tornou-se cumplicidade?

​Em seus depoimentos à polícia e aos promotores, as vítimas destacaram uma conivência perturbadora mantida por Epstein e Maxwell para com elas, mesmo nos piores momentos de abuso. Uma delas comeu pipoca e assistiu Sex and the City com eles antes de ser agredida. Maxwell, segundo outro relato, comportava-se como uma "irmã mais velha descolada", iniciando as mais jovens nos refinamentos do mundo adulto.

​Os laços de parentesco, ao contrário das relações de mercado, evocam uma forma de obrigação não contratual — um vínculo que não se dissolve facilmente por dinheiro. A economia doméstica estende essas obrigações não contratuais tanto aos funcionários quanto aos membros da família, apagando a distinção fundamental entre os dois — sem, contudo, abolir as hierarquias internas. Uma ex-vítima teve dificuldade em se libertar de Epstein porque se sentia devedora a ele como "amigo, figura paterna, empregador e mestre". Virginia Giuffre conta que Epstein e Maxwell se comportavam como seus pais, pagando tratamentos dentários e ensinando-lhe boas maneiras à mesa.

​No entanto, também acontecia de Virginia ser a "mãe substituta"; de manhã, ela calçava meias nos pés de Epstein e, à noite, o cobria na cama. "Epstein e Maxwell consolidaram seu domínio sobre mim oferecendo-me um novo tipo de família", escreve ela. "Epstein era o patriarca, Maxwell a matriarca, e esses papéis não eram apenas implícitos. Maxwell gostava de chamar as meninas que satisfaziam regularmente Epstein de seus 'filhos'." Os laços afetivos que a prendiam a Epstein pareciam reais: "Não exatamente amor, mas acredito que a palavra certa é lealdade (allégeance)."

​Essa dívida, porém, só funcionava em um sentido. Epstein podia demitir qualquer membro de sua casa em um piscar de olhos — mas ninguém, e especialmente suas jovens vítimas, podia fazer o mesmo com ele. Virginia Giuffre teve que se exilar na Austrália para escapar de seu algoz, sem nunca deixar de estar "morta de medo". Muitas outras mulheres testemunharam que Epstein e Maxwell as ameaçaram de morte caso tentassem fugir ou denunciar o que sofriam.

​A Presidência como Empresa Familiar

​A casa de Epstein pode ter atingido o fundo do sadismo, mas sua economia política deixa a cada dia de ser uma exceção. Quando um único indivíduo dispõe de mais meios do que uma agência governamental de fomento ou uma grande universidade, o impacto na produção do conhecimento e nas relações acadêmicas é profundo. O mesmo fenômeno se propaga no setor de serviços e habitação, à medida que as propriedades de bilionários começam a ditar o destino de economias urbanas inteiras. A empresa doméstica de Epstein era sem dúvida única em sua complexidade organizacional — mas a obrigação pessoal e o endividamento psicológico que ele sabia impor aos seus dependentes são agora moeda corrente no universo das grandes fortunas.

​Esta grade de leitura permite compreender melhor o papel catalisador que o movimento #MeToo desempenhou na reação conservadora que atravessamos. São inúmeros os homens de todos os espectros políticos que, nos últimos anos, operaram conversões súbitas para a extrema-direita trumpista. Quando questionados a explicar essa reviravolta, eles invariavelmente retornam a pequenas anedotas de "ferida sexual" demasiado irrelevantes, para não dizer grotescas, para terem provocado sozinhas tal sentimento de colapso civilizacional.

​Esta aparente desproporção faz todo o sentido quando lembramos que o #MeToo nasceu em um setor específico da indústria cinematográfica — o mundo altamente personalizado do estúdio de autor privado. Cofundador da Miramax e da The Weinstein Company, Harvey Weinstein encarnava um modelo singular de empresa controlada por seu fundador, onde o patrão-proprietário dispõe de um poder absoluto sobre seu pessoal e clientes. O #MeToo representava um ataque direto ao poder sexual e econômico desses patrões-proprietários. Não surpreende, portanto, que Epstein e Weinstein fossem amigos. Nem que homens de todas as vertentes políticas tenham recorrido a Epstein em busca de conselhos quando as acusações de agressão sexual começaram a chover após o #MeToo.

​Graças ao conhecimento crescente que temos do universo de Epstein, percebemos mais claramente a lógica psíquica e econômica da extrema-direita contemporânea. Assim como Epstein queria fechar todas as saídas para suas vítimas, Trump e seus aliados reacionários do Vale do Silício buscam sufocar qualquer alternativa à economia doméstica e transformar a presidência em uma empresa familiar controlada por seu fundador. Os ataques ao Estado administrativo, ao setor público e aos sindicatos, bem como a transformação dos agentes de controle de fronteiras em uma milícia pessoal, podem ser lidos como elementos de um programa mais amplo visando estender o reinado da domesticidade a toda a economia. Se todos nos tornarmos motoristas de Uber, vendedores terceirizados na Amazon, subcontratados de magnatas imobiliários ou auxiliares acadêmicos de bilionários, o fundador talvez esteja a salvo do sacrifício coletivo.

​As vítimas de Epstein viveram o reinado do mestre e do servo não apenas como uma violência econômica, mas como uma violência sexual. Elas foram as primeiras a nomear e a resistir à ordem política emergente que é a nossa.

Traduzido do francês (originalmente traduzido do inglês por Hélène Borraz).

Nota do editor: a versão original deste artigo foi publicada na Equator em 14 de fevereiro.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Ó Peixoto!

 




Eu já o tinha visto a correr na marginal, junto ao mar... Ia suado, corria e as 

tatuagens no braço esquerdo e os brincos na orelha direita não enganavam. 

Como vinha em sentido contrário –nascente poente- não o incomodei. Fiquei só a 

olhar. Quem sabe, um dia falo-lhe da minha- antiga- admiração. 

O tempo passou-como passa o tempo? A Terra gira, mas como nós rodamos com 

ela, o tempo não devia contar. Mas enfim, conta.

Outro dia fui a uma loja que vende artigos usados. Tenho o gosto de passar por 

lá; admirar o que os outros já não querem, o que é supérfluo nas suas vidas. É 

assim: quando passo perto e sem muita pressa, pergunto-me: e porque não 

passamos por lá, para ver as novidades? 

Mas só são novidades para mim, pois para os outros são objectos desusados, 

rejeitados, supérfluos, desnecessários, um empecilho lá nas gavetas, na 

arrecadação ou na dispensa; moeda de troca para uma necessidade, por um 

desejo. Um desejo antigo a dar corpo e alma a um desejo novo, tenro e fresco. Ou 

só um litro de leite e meia duzia de carcaças, pró jantar!

Quando deitas isto fora, pergunta a mulher esbaforida com os gritos do bébé e a 

televisão aos berros. Porque não vais vender o aspirador que a avó ofereceu no 

natal? Precisamos lá daquilo... (sai e bate a porta com estrondo). Agora, para que 

queres esta bicicleta? Vende o microondas que já dá para comprar uma dose. 

Roubaste esse blusão de motard? Vai vendê-lo aos usados e bebemos um bejecas. 

Olha aquela aparelhagem, que compraste no aniversário do casamento. Vende-a 

e compra os remédios aos teus filhos. O anel e o relógio? A máquina de escrever? 

Era do meu pai... Ó pá, já te pago. Na segunda vou vender ali umas coisas, 

berbequins, lixadoras, aparafusadoras e outro material ... segunda sem falta. Sim 

pá, não me lixes. Na segunda pago-te! 

E por trás daquelas prateleiras, cheias de utensílios e novidades, estão pessoas; 

eu sinto-as. E, observador anónimo, condoo-me das suas tristezas, sorrio das 

espertezas e recrimino os gestos reprováveis. Olho o aparelho de musculação, 

toco-lhe e imagino alguém, descontente com o seu aspecto e a querer 

impressionar-se e a mais alguém, com a força dos músculos e do peito aberto por 

baixo da camilha fechada. Um ele qualquer a querer salientar os músculospara a 

impressionar. Teria conseguido? Provavelmente não, e por isso, desistiu. 

Recuperou uns trocos para o compensar da ilusão. E a viola? Oh! Quem não tem 

sonhos de guitarrista? Quantos pais como não o conseguiram, ofereceram-nas 

aos filhos na esperança de serem eles a prolongarem os seus sonhos. E os 

telemóveis, e os Xboxs, as Wiis? Quantos sonhos destroçados, ilusões desfeitas... 

e saudades de tardes bem passadas.

Bem, máquinas de fazer pão, fazer café e chá, frisar cabelos, arrancar pestanas, 

termómetros, caixilhos de fotos, ferros de engomar, máquinas fotográficas, 

lentes, aparelhagens amplificadores, tv, computadores... uma infinidade de coisas 

da nossa vida. Cada objecto, muitas histórias e... vidas.

Andava eu nesta peregrinação, quando de repente, nervoso o vejo a deambular 

pela sala de prateleiras em busca não sei de quê, acompanhado duma jovem de 

cabelo liso e negro- talvez a companheira, pelo olhar cumplice.

Tinha lido numa revista que uns miúdos lhe tinham roubado o telemóvel na 

Guiné. E de repente começo a ver na minha mente uma lista de obras a 

lembrarem-me que ele era um herói!

Um herói e artista das palavras, das idéias, carregadas de humanidade e amor à vida e ao próximo. 

Obras do José Luís Peixoto, até 2011!


• 2000 - Morreste-me em que este retrata a morte e as recordações 

que tem do pai.

2000 - Nenhum Olhar É uma viagem pela vida das personagens que 

tanto nos partilham momentos de alegria como momentos de tristeza e 

solidão.

• 2002 - Uma Casa na Escuridão É um romance que perscruta a alma 

desesperada de um narrador, que encontra o verdadeiro amor na 

imagem de uma mulher reflectida dentro do seu próprio interior, 

mulher que não existe no seu tempo real, amor esse que é 

descrito e passado a papel noite após noite, centro único da sua 

vida que já se manifestava completamente despegada da vida 

real, na sua casa, vivendo com a sua mãe e a sua escrava, a 

casa na escuridão.1

• 2003 - Antídoto um livro de contos

• 2006 - Minto Até ao Dizer que Minto (distribuído apenas com a revista 

Visão)

2006 - Cemitério de Pianos Os narradores – pai e filho –, em tempos 

diferentes, que se sobrepõem por vezes, desvendam a história da 

família. Falam de morte, não para indicar o fim, mas a renovação, o elo 

entre as gerações e a continuação: o pai – relação entre dois 

Franciscos, iguais no nome e no destino, por um gerado, do outro 

genitor – nasce no dia da morte desse primeiro Lázaro; o filho, neto do 

seu homónimo, morre no dia em que a sua mulher dá à luz.1

A obra retrata uma família de Benfica (Lisboa) e, aborda a morte como 

não apenas o fim, mas também a continuidade através da herança 

deixada em vida. A morte como destino irremediável da vida e nova 

vida após a morte. Um ciclo que se repete ininterruptamente.

Relata tanto o lado negro como luminoso das ligações entre familiares 

cujas algumas das vivências mais importantes se sucedem num 

espaço de uma oficina chamado de cemitério de pianos que alberga 

pianos "mortos" cujas peças vão dar vida a novos pianos.

• O maratonista português Francisco Lázaro foi a inspiração para a 

personagem principal deste romance, que partilha o seu nome e 

parte da sua história.

• 2007 - Hoje Não (distribuído apenas com a revista Sábado)

• 2007 - Cal Reúne textos de natureza diversa (3 poemas, 17 contos, 1 

peça de teatro), ancorados num espaço rural e na vivência e 

memória dos mais velhos.1

• 2010 - Livro O cenário deste livro é a saga da emigração portuguesa 

para a França, entre uma vila do interior de Portugal e Paris.1

• 2011 - Abraço

Poesia[editar]

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Nota aos leitores

 Este blogue tem vindo a sofrer censura por parte da multinacional que o suporta, a GOOGLE. 

Esta é uma ameaça real já visível no presente. A recolha de dados pessoais feita pelas multinacionais da informação pretende poder utilizá-los, aumentando o controlo sobre a humanidade, gerindo as suas percepões e criando necessidades, que eles satisfarºao, obviamente.

Tenho amigos que se desculpam em não aceder para que não fiquem registados pelo algoritmo, não querem enfrentar o algoritmo e aceitam serem impedidos de acesso a este blogue! Incompreensível, mas o futuro já começou há muito!

. A Autonomia e o "Medo" do Algoritmo

​Eu destaco uma mudança de comportamento preocupante: a desistência de uma ação (visitar um blog) para não "incomodar o algoritmo".

  • Submissão Tecnológica: Eticamente, isso sugere que os indivíduos estão a começar a moldar a sua vontade e curiosidade para se adaptarem às regras invisíveis das máquinas, em vez de as máquinas servirem os humanos.
  • Inibição Social: A aceitação da censura por parte do amigo indica uma passividade que pode levar à erosão do pensamento crítico e da liberdade de exploração digital.

​2. Vigilância e Controle de Dados

​Há "multinacionais globais" que recolhem dados pessoais com o intuito de "controlar a vida da humanidade".

  • Privacidade como Poder: A recoha de dados não é vista apenas como uma questão técnica, mas como uma ferramenta de controle social.
  • Falta de Transparência: Esta denuncia  de censura informática", sugere que os critérios de bloqueio ou visibilidade de conteúdos não são claros nem justos para o utilizador comum.

​3. O Futuro da Interação Humana

​A pergunta final — "Será assim o futuro?" — levanta um dilema ético sobre o caminho da sociedade.

  • Desumanização: O autor lamenta o "caminho que isto leva", sugerindo que a tecnologia está a criar barreiras entre as pessoas (neste caso, entre o autor e o seu amigo) em vez de pontes.
  • Responsabilidade Corporativa: Existe uma crítica implícita à responsabilidade ética das empresas que gerem estas plataformas, priorizando o funcionamento de algoritmos proprietários sobre o direito à informação e conexão.


Nota aos Leitores: Não Deixe o Algoritmo Escolher por Você

​Muitos de vocês têm tido dificuldade em aceder a este espaço devido ao que chamo de "censura informática". Algoritmos de multinacionais globais tentam decidir o que deve ou não ser lido, muitas vezes priorizando a recolha de dados em vez da liberdade de expressão.

​Se você não quer aceitar passivamente este controlo, aqui estão três formas simples de continuarmos ligados:

  1. Acesso Direto: Não espere que o link apareça no seu feed. Guarde o endereço manrodasblog.blogspot.pt nos seus favoritos e visite-o diretamente.
  2. Interação Humana: Se o sistema dificultar a entrada, insista. O algoritmo aprende com a sua persistência. Quando você ignora um aviso de "site não seguro" ou uma barreira técnica injustificada, você está a retomar a sua autonomia.
  3. Partilha Manual: Se gostou de algo, envie o link diretamente a um amigo por mensagem. Isso "fura a bolha" e evita que a nossa comunicação dependa de filtros corporativos.
Se conheceres outras formas de ultrapassar  a censura a este blogue, agradecia que as partilhassem comigo, ou aqui no blogue, ou por email  mrodas1234@gmail.com.

​A tecnologia deve servir para nos aproximar, não para nos controlar. Obrigado por não desistirem de ler estas Palavras a Solta.


domingo, 1 de fevereiro de 2026

VITÓRIA

Fotografia, MRodas



 tudo começou 

em noites de insónias

e tudo acabou numa noite mal dormida

tentei resistir

mas não fui capaz


o teu amor 

tirou-me as mãos dos bolsos 

e arrancou-me dentro de ti


foram precisas muitas noites e flores 

muita água e passos perdidos

para te reencontrar


desentranhou-se o coração quando partiste

        partiste?

e fiquei no meu canto

         triste?

à espera do regresso





sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Lívia



 




Aqui está uma peça em três atos ao estilo do drama grego, com coro e deuses, contando a história de uma menina estropiada na Palestina que procura seus pais e irmão:

Aqui está uma versão mais desenvolvida da peça em três atos, com coro e deuses, contando a história de uma menina estropiada na Palestina que procura seus pais e irmão:
Ato I
Cena 1
(A cena abre com a menina, Lívia, sentada em frente à sua casa, na Palestina. O Coro entra em cena.)
Coro: Ó, deuses do Olimpo, que vedes o sofrimento humano,
Olhai para Lívia, menina inocente e pura,
Que perdeu seus pais e irmão na guerra cruel,
E agora busca por eles, com coração partido.

Lívia: (levantando-se) Ó, deuses, por que me abandonastes?
Perdi tudo o que tinha, minha família, minha casa...
Não tenho mais nada, um corpo destroçado,
uma perna amputada e o coração destruído
E com pouca esperança de encontrar meus pais e irmão.
As saudades gritam nos braços da minha trizteza
e as sombras do  ódio crescem como ervas ruins
seca o sangue nas veias e a esperança no meu ser
Será que algum dia verei minha família , meus vizinhos e amigos?
Todos mortos e desaparecidos, soterrados por esses escombros
o seu cheiro inunda esta terra cheia de destroços  e morte
Ó deuses, porque não me daixais morrer também?

Cena 2
(Aparece Atena, deusa da sabedoria)
Atena: Lívia, não desesperes, pois estou aqui para te ajudar.
Eu te darei força e coragem para continuar tua busca.
Preserva e terás o que procuras. 
Procura e encontrarás.
Para a sabedoria e o amor todo o caminho é duro.

Lívia: Ó, Atena, deusa bondosa, eu te agradeço.
Vou seguir em frente, não importa o que aconteça.
Ensina-me o caminho, mostra-me a alvorada
para que acredite em ti e em mim
e possamos ainda um dia sorrir juntas ao por do sol
Dá-me  a mão e sê minha mãe por um dia
sê meu pai a sorrir e o meu irmão a correr.

Cena 3
(Lívia começa sua jornada, procurando por seus pais e irmão)
Coro: Lívia busca por seus pais e irmão,
Por toda a Palestina, ela vai,
Mas não os encontra, apenas dor e sofrimento,
E a esperança que se esvai.
Quem ajudará Lívia nesta hora de tormento
quem lhe afagará a cara e limpa os olhos das lágrimas e poeira?

Ato II
Cena 1
(A cena mostra Lívia procurando por seus pais e irmão em diferentes locais da Palestina)
Lívia: (desesperada) Não posso mais continuar,
Estou cansada, estou fraca...
Não sei mais o que fazer...
Não aguento mais o meu corpo, a sede e a fome
não suporto mais este desespero
Que mais poderei fazer eu. sozinha e sem ajuda?
Sinto que estou a morrer, não consigo prosseguir.
O céu está nublado e os ferros e cheiro 
a morte substituiram as flores e o voo dos pássaros. 
Onde estão que não os ouço? Onde estais?

Cena 2
(Aparece Apolo, deus do sol)
Apolo: Lívia, não desistas, tua busca não será em vão.
Teus pais e irmão estão contigo, em espírito,
E te guiarão em tua jornada.
Cada passo que deres é outra mão na ua
é a sombra que mostra o caminho
é a chuva que há-de regar o teu deserto.

Lívia: Ó, Apolo, deus da luz, eu te agradeço.
Vou seguir em frente, com tua bênção.
Tenho de acreditar em ti
pois a esperança sem esforço e sem fé 
é um muro demasiado alto para ver o por do sol
Sou mulher e todas sabemos como ir mais longe
quando já todos desistiram. 

Cena 3
(Lívia continua sua busca, enfrentando desafios e obstáculos)
Coro: Lívia enfrenta a dor e o sofrimento,
Mas não desiste, não se rende...
Ela é forte, ela é corajosa,
E não vai parar até encontrar seus pais e irmão.
Até encontrar seus vizinhos e amigos.
Sem eles como viverá Lívia?

Ato III
Cena 1
(A cena mostra Lívia em frente à sua casa, erguendo uma bandeira com os nomes de seus pais e irmão)
Lívia: Já não posso caminhar mais.
(erguendo a bandeira) Aqui está a minha esperança,
Aqui está a minha fé...
Que meus pais e irmão me vejam,
E saibam que estou aqui, esperando por eles.
Sento-me na memória deles
e não esqueço o afago de minha mãe
a coragem de meu pai e a alegria de meu irmão.
Não quero esquecer os amigos, esta terra, a Palestina. 

Cena 2
(Os deuses aparecem no céu)
Atena: Lívia, tua fé é forte,
E tua esperança é pura...
Nós te abençoamos, e te protegeremos,
E te reuniremos com tua família, um dia.

Apolo: Sim, Lívia, não desesperes,
Pois a esperança é a última que morre...
E tuas ações serão recompensadas,
E encontrarás a paz que procuras.

Cena 3
(O Coro fecha a peça)
Coro: E assim termina a história de Lívia,
Uma menina que não desistiu,
E que ergueu uma bandeira de esperança,
Na Palestina, terra de sofrimento e dor.

(Lívia começa a refletir sobre sua jornada)

Lívia: Eu pensei que tivesse perdido tudo,
Mas descobri que ainda tenho esperança...
Eu vou seguir em frente, não importa o que aconteça,
E vou encontrar meus pais e irmão, um dia.
Eu vou guardar esta memória de dor e sofrimento, de raiva e cólera
e com elas curar as feridas dos amigos, e sobreviventes
contarei a todos a nossa história de guerra e morte
e de amor a esta terra e a esta gente.
O amor vencerá, a liberdade crescerá nos nossos corações.


Página 6
(O Coro comenta sobre a jornada de Lívia)
Coro: Lívia é um exemplo de força e coragem,
Uma menina que não se rendeu...
Ela é um símbolo de esperança,
Num mundo cheio de dor e sofrimento.


(Atena e Apolo refletem sobre a jornada de Lívia)

Atena: Lívia é uma menina especial,
Com uma força e coragem que inspira...
Eu estou orgulhosa de ter ajudado,
Em sua jornada de busca e esperança.
Apolo: Sim, Lívia é uma menina pura,
Com um coração cheio de amor...
Eu estou ao seu lado, sempre,
E vou ajudá-la a encontrar seus pais e irmão.

(Lívia começa a sentir a presença de seus pais e irmão)

Lívia: Eu sinto que estou perto,
Sinto que eles estão aqui...
Eu vou continuar em frente,
E vou encontrar meus pais e irmão, um dia.
Sinto o seu perfume no ar,
o calor dos seus rostos na minha face, 
as mão que me afagam e abraçam.
Estão perto, eu sinto-os, sim estou a senti-los.
- Pai, pai, mãe, mãe onde estão. 
Aqui, venham nesta direção. Estou aqui!

(O Coro comenta sobre a esperança de Lívia)

Coro: A esperança é uma coisa poderosa,
Que nos dá força e coragem...
Lívia é um exemplo disso,
Uma menina que não desistiu.
Página 10
(A peça termina com Lívia erguendo a bandeira e olhando para o céu)
Lívia: (erguendo a bandeira) Aqui está a minha esperança,
Aqui está a minha fé...
Que meus pais e irmão me vejam,
E saibam que estou aqui, esperando por eles.
(O Coro fecha a peça)
Coro: E assim termina a história de Lívia,
Uma menina que não desistiu,
E que ergueu uma bandeira de esperança,
Na Palestina, terra de sofrimento e dor.



2ªª PARTE

A Dor de Lívia
Ato I: A Busca
(Cena 1)
(A cena abre com Lívia, uma jovem determinada, caminhando por uma terra devastada pela guerra. O coro grego, ao fundo, lamenta a situação.)
Lívia: (ao coro) Eu preciso encontrar meu irmão. Ele foi levado para a Palestina. Dizem que está entre os reféns.
Coro: (lamentando) 
Ó, Lívia, filha da dor, 
por que teimas em seguir esse caminho de lágrimas?
 A guerra não distingue inocentes de culpados.

Lívia: (determinada) 
Eu não posso desistir. Ele é meu irmão.
 Eu preciso saber se está vivo.

(Cena 2)
(Lívia encontra um velho que perdeu sua família na destruição.)
Velho: (desesperado)
 Eu perdi tudo. Minha esposa, meus filhos... tudo
Perdi a casa, animais, hortas e tudo.
Perdi amigos e família. Perdemos tudo. 

Lívia: (com compaixão) Sinto muito. 
Eu estou procurando por meu irmão, meus pais.
Onde estão os amigos com quem brinquei,
a vizinha qe me aconchegava com as bonecas de pano...   

Velho: (com um olhar de sabedoria)
Israel trocou Deus pelo diabo. O bezerro de ouro venceu.
O grande mal alastrou na nossa terra e ameaça invadir o mundo.
A mentira, o ódio, a vingança mandam no mundo. 
Já morri, já estou morto. Que os profetas nos salvem. 

Lívia: (determinada) 
Eu não vou desistir. Eu vou encontrá-los.

Ato II: O Encontro ELEGEU O BEZERRO DA MORTE
(Cena 1)
(Lívia finalmente chega ao local onde os reféns estão sendo mantidos.
 Ela vê seu irmão, desnutrido e cansado, mas vivo.)
Lívia: (correndo para abraçar o irmão) Irmão! Eu encontrei-te!
Sempre soube que te abraçaria.
Irmão: (fraco) Lívia... eu sabia que  virias.
Coro: (ao fundo) Ó, alegria efêmera! 
A guerra não permite felicidade completa.

(Cena 2)
(Lívia e seu irmão são confrontados pela realidade da situação. Eles sabem que a liberdade não é garantida.)
Irmão: (com medo) Lívia, eu não sei se vamos sair daqui vivos.
Lívia: (determinada) Nós vamos sair daqui juntos. Eu prometo.

Ato III: O Protesto
(Cena 1)
(A cena muda para Lívia e seu irmão, agora livres, mas marcados pela experiência. Lívia  dirige-se ao coro e ao público.)
Lívia: (com raiva e determinação)
Isso não pode continuar! A guerra, a indiferença, a dor... 
É hora de agir!
Coro: (ecoando) Sim, é hora de agir! 
Contra a guerra, contra a indiferença, contra a dor!

(Cena 2)
(Lívia e o coro se unem num poderoso protesto, clamando por justiça e paz.)
Lívia: (ao público) Nós podemos fazer a diferença. Vamos agir!
Coro: (final) Que a voz da humanidade seja ouvida!

(Cena final)
(A cena termina com Lívia e seu irmão caminhando juntos, determinados a construir um futuro melhor.)
Lívia: (com esperança) Vamos reconstruir nossas vidas, irmão.
Irmão: (com um sorriso) Juntos, Lívia. Sempre juntos.
Coro: (ao fundo) E que a dor da guerra se transforme em esperança de paz.

(Epílogo)
(A peça termina com o coro sozinho no palco, refletindo sobre a jornada de Lívia e a luta contra a guerra e a indiferença.)
Coro: (final) A dor de Lívia é a dor de todos nós.
Vamos agir para que o mal seja derrotado
e a humanidade possa viver em paz por mil anos.

(A cortina fecha.)
Coro Final: Uma Retrospectiva da Violência Humana
(A cena termina com o coro sozinho no palco, refletindo sobre a jornada de Lívia e a luta contra a violência.)
Coro:
(Com voz trêmula)
Nós vimos a dor, a destruição e a morte,
Ao longo dos séculos, a violência nos perseguiu,
Desde as guerras mundiais até os conflitos locais,
A humanidade sofreu, sem encontrar paz.
Coro:
(Relembrando os fatos)
Nos últimos dois séculos, vimos:
  • Guerras Mundiais: milhões de mortos, cidades destruídas, famílias separadas.
  • Genocídios: atrocidades cometidas em nome da etnia, religião ou ideologia.
  • Conflitos regionais: guerras civis, terrorismo, deslocados internos e refugiados.
  • Violência doméstica: mulheres, crianças e idosos vítimas de abuso e exploração.
Coro:
(Com indignação)
E por que isso continua? Por que a violência persiste?
Será que não aprendemos com os erros do passado?
Será que não vemos o sofrimento que causamos?
Coro:
(Com esperança)
Mas ainda há tempo para mudar,
Para construir um mundo mais justo e pacífico,
Onde a empatia e a compaixão sejam os guias,
E a violência seja apenas uma lembrança distante.
Coro:
(Com determinação)
Nós podemos fazer a diferença,
Podemos ser a mudança que queremos ver,
Vamos trabalhar juntos para criar um mundo melhor,
Onde a paz e a harmonia sejam a norma.
(A cortina fecha lentamente, enquanto o coro continua a cantar, sua voz ecoando na escuridão, trazendo esperança para um futuro melhor.) ¹