sexta-feira, 27 de março de 2026

PARTE II Sereias e mouras em Soajo

 O prometido é devido. Aqui vai para cumprir a promessa. Qualquer achega para completar este trabalho pode ser enviado nos Xomentários,  por email mrodas1234@gmail, ou pelo Messenger, ou Whatsapp. Muito obrigado e não se esqueça de partilhar pelos amigos. 




Parte 
II

Embora a "Sereia" seja uma figura essencialmente marinha, ela partilha o mesmo "ADN" mitológico com as lendas de Soajo. Aqui estão os pontos de ligação:


A Metamorfose: Sereia vs. Serpente
​No litoral (Afife/Viana), a criatura é descrita como uma mulh
er-peixe
. À medida que subimos em direção à Serra do Soajo, essa mesma figura "transforma-se" na Moura Encantada ou na Mulher-Serpente.

Em ambas as regiões, o mito fala de uma mulher de beleza sobrenatural, frequentemente sob um feitiço (o "encanto"), que aparece junto à água (mar no litoral, fontes ou rios na serra).
Tanto a sereia de Viana como certas mouras do Soajo são descritas a pentear cabelos com um pente de ouro, um símbolo universal destas divindades aquáticas em Portugal.

 O Rio Lima como "Autoestrada" Mitológica
​O Rio Lima nasce em Espanha, une a serra de Soajo com a  serra Amarela e desagua em Viana do Castelo, acreditando os mais antigos que as criaturas das águas viajavam pelo rio.
​Existem relatos populares que sugerem que as sereias podiam subir os rios até às zonas de montanha. No Soajo, em pleno coração do Parque Nacional Soajo-Gerês, o folclore das mouras está profundamente ligado aos monumentos megalíticos (Antas) e à paisagem granítica. Aqui, as mouras não são apenas "moças bonitas", mas entidades poderosas que carregam pedras colossais na cabeça enquanto fiam com um fuso. Segundo a tradição oral, a "moura" não é um ser árabe, mas uma alma penada ou uma entidade pré-cristã (uma "deusa" da terra) que ficou presa a um local por um feitiço, muitas vezes por ter desobedecido aos pais ou por guardar um tesouro que não lhe pertence.
Para desencantar uma moura no Soajo, a tradição afasta-se das rezas cristãs e foca-se no simbolismo da pureza e do silêncio.

O Ritual da Meia-Noite na Mezio e da Ponte da Ladeira
A zona da Mezio (concelho de Arcos de Valdevez, freguesia de Soajo) é famosa pelas suas mamoas e antas e a Ponte da Ladeira permite a passagem dum portal muito antigo para a modernidade, do encanto para o desencanto. Segundo os antigos soajeiros, o ritual para quebrar o fado da moura ou para "desencantar" uma moura e obter as suas riquezas, raramente envolve apenas palavras; exige coragem, precisão e, muitas vezes, o cumprimento de tarefas bizarras. Deve procurar-se afloramentos graníticos que formam pequenas "grutas" ou abrigos naturais.

Ponte da Ladeira
A lenda da Ponte da Ladeira, em Soajo, é uma das mais emblemáticas recolhidas por Gentil Marques no seu volume dedicado ao Minho. Esta ponte medieval (frequentemente chamada de "ponte romana" pelo povo) cruza o rio Soajo e é o cenário de um encontro místico entre o mundo dos homens e o das mouras.
Aqui está o resumo da narrativa e os elementos de "desencanto" que Gentil Marques destaca sobre "O Cavaleiro e a Moura".
A lenda foca-se num jovem cavaleiro (ou caçador, dependendo da variante) que, ao passar pela Ponte da Ladeira numa noite de luar ou ao amanhecer, encontra uma mulher de beleza radiante sentada no parapeito da ponte.
Ela não está apenas ali parada; está a pentear os seus longos cabelos com um pente de ouro ou a fiações de seda (elemento comum no Soajo), (atividade)
A moura não pede ouro, mas sim um beijo ou uma prova de coragem. Ela explica que está sob um fado e que o cavaleiro, homem valente será o único que a pode libertar (prova)

O Ritual de Desencanto na Ponte
Gentil Marques descreve que o desencanto nesta ponte é particularmente difícil porque envolve a transformação, assim que o homem aceita o desafio, a bela mulher transforma-se numa enorme serpente ou dragão que se enrola no corpo do cavaleiro, (metamorfose).
O cavaleiro deve permitir que a serpente o beije na boca ou lhe dê a chave que guarda na garganta. Ele não pode gritar, nem rezar alto, nem fazer o sinal da cruz - o que afugentaria o ser mágico, mas condenaria a moura a mais cem anos de fado, (regra do silêncio e da imobilidade).
Se o cavaleiro resistir ao horror da transformação sem recuar, a serpente volta a ser a mulher e entrega-lhe o pente de ouro ou indica-lhe o local do tesouro oculto debaixo de um dos arcos da ponte, (a recompensa).

Elementos Específicos do Soajo (Notas de Gentil Marques)
O autor sublinha que, no Soajo, esta lenda tem um aviso moral:
O "Ouro que Arde": Diz-se que muitos tentaram escavar debaixo da Ponte da Ladeira à procura do tesouro da moura. Contudo, Gentil Marques nota que, para os gananciosos, o ouro transformava-se em brasas ardentes que lhes queimavam as mãos, deixando cicatrizes para sempre.

A Ligação ao Rio: A moura da Ponte da Ladeira é uma "moura das águas". Se o desencanto falha, ela mergulha no poço do rio Soajo, com um grito que se ouve em toda a serra.

O Ritual do Beijo (A Serpente)
Muitas vezes, a moura aparece sob a forma de uma serpente monstruosa com uma flor ou uma chave na boca. O "desencanto" exige que o homem a beije.
Não existe uma oração específica, mas sim um compromisso de silêncio. Se o pretendente gritar ou fugir, o encanto quebra-se para ele, mas a moura permanece presa, muitas vezes soltando um grito terrível:
"Ai, que me dobraste a dor!" ou "Cento e um anos me dobraste o fado!"

A Oferta do Pão sem Sal
Aqui, como no Alto Minho, em geral, acredita-se que o sal afasta o sobrenatural. Para desencantar uma moura que aparece a fiar junto a uma fonte, deve oferecer-se um pedaço de pão sem salAo receber o pão, se o encanto for quebrado, ela dirá algo:"Pão sem sal me deste, da minha prisão me tiraste. Leva este carvão, que o teu bem achaste." Ou ainda, "Pão te dou, fado te tiro, pelo sal que não comeste, pela vida que perdeste, dá-me o ouro a que vieste."  (O carvão, ao chegar a casa, transforma-se em moedas de ouro. Reza de Aceitação).

 O Ritual da Noite de São João
O São João é o momento de maior porosidade entre o mundo real e o encantado. No Alto Minho, diz-se que se deve ir a um penedo específico à meia-noite.
Deve bater-se três vezes na pedra com uma vara  e dizer: "Moura encantada, que o fado te deu, sai do teu reino, que o tempo venceu. Pelo poder da água e do pão, entrega o tesouro e a tua mão.
Ou ainda,  "Moura, moura, encantada, sai da tua pedra lascada! Pelo poder de São João, dá-me o ouro da tua mão. Que o teu fado se acabe agora, e que o sol te leve embora. 

A Quebra pelo Batismo
Nalgumas variantes mais cristãs, o desencanto ocorre através da conversão. Deve atirar água benta sobre a moura, enquanto se diz: "Eu te batizo, Maria, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo." 
Diz a lenda que ela perderá a sua forma sobre-humana e tornar-se-á uma mulher mortal, casando-se com quem a salvou.
Se ela for libertada, o encanto quebra-se, ela torna-se humana e o tesouro (ouro) aparece. Se falhar a entoação ou tiver medo, ela solta um grito e desaparece por mais cem anos.

Avisos da Tradição
Tenha em conta que, no folclore minhoto, as tentativas de desencanto são perigosas:
O Silêncio é Ouro: Não se pode proferir uma única palavra durante todo o percurso até ao local (geralmente uma anta ou um penedo rachado). Se o caminhante falar ou responder a uma voz que o chama pelo nome, o encanto fortifica-se.
Em quase todos os relatos, se a pessoa falar ou demonstrar medo antes do momento certo, o tesouro transforma-se em fumo ou pedras. 
A Ambição Castigada: Quem tenta enganar a moura para ficar com o ouro sem cumprir a promessa acaba, geralmente, "atoleimado" ou levado para dentro da rocha.

O Teste do Leite
 Diz-se que a moura aparece a ordenhar uma cabra ou a oferecer uma tigela de leite. O segredo é beber o leite sem fazer o sinal da cruz e sem agradecer, aceitando o pacto de igual para igual.
A Reza do Destemido: Não é uma prece, mas um grito de comando que deve ser feito enquanto se agarra a chave: "Pela chave que guardas e pelo sangue que corre, quebra-se o ferro e o encanto morre!"
A Troca do Fuso: Se a vires a fiar, deves tocar no fuso e dizer:"Vem comigo, Maria, que o tempo de fiar já lá vai."
Existe um aviso constante nas histórias de desencanto: a moura costuma oferecer carvão ou cascas de cebola como recompensa inicial.

O erro comum: O explorador, achando que foi enganado, deita o carvão fora. Deve guardar o o carvão no bolso em silêncio absoluto até chegar a casa e passar a porta. Só dentro de casa, com a porta fechada, é que o carvão se transforma em ouro maciço.
Nota: Se olhares para trás antes de entrar em casa, ouves o grito da moura: "Ai, que me deixaste em maior desgraça!", e o ouro volta a ser carvão para sempre, 

A Sentença do "Ouro ou Carvão"
Muitas vezes, a moura não quer ser salva, mas sim testar a tua virtude. Quando ela entrega o carvão, deve aceitar-se com humildade e dizer em voz baixa, pois o silêncio é obrigatório até chegar a casa: O que a moura me deu, o destino guardou; se era carvão, o sol o doirou.
 
O teste do galo preto
Levar um galo preto, à meia noite, ao local pretendido. Se o galo cantar, a moura é desencantada e trará os tesouros com ela.
O Ritual de Desencanto (Leite de Vasconcelos)
Diferente de outras zonas do Minho, no Soajo o desencanto exige um teste de astúcia e coragem física, não apenas uma reza. Ele anotou que, no Soajo, as mouras eram chamadas, por vezes, de "Madamas".
O caminhante deve subir ao penedo e não demonstrar espanto perante a força da mulher, (encontro). 
Ela estende o fuso de ouro. Se o homem tentar agarrar o fuso, ela transforma-se em serpente. O segredo, segundo o folclore local, é tocar na pedra que ela leva na cabeça e não no ouro, (prova do fuso).

A reza ou sentença: Ao tocar na pedra, deve-se dizer a fórmula de libertação do fardo: "Pesa-te a pedra, moura fada? Deixa-a no chão, que a tua vida é chegada!"
Se dita com a intenção certa, a pedra cai (formando os monumentos que vemos hoje no Mezio) e a moura desaparece, deixando o fuso de ouro como recompensa.
 
A "Moura da Peneda"
​Na Serra do Soajo, simultaneamente  com outras lendas de mouras encantadas, a lenda mais forte é de uma aparição, a  Senhora da Peneda que apareceu a uma pastora na serra. Curiosamente, antes da versão cristã, muitos destes locais eram associados a "mulheres das águas" ou "mães-do-rio", figuras que a Sereia Marinha do Minho também personifica no litoral. Diz-se que algumas destas figuras da serra podiam assumir a forma de serpente com rosto de mulher, uma imagem que na iconografia medieval é exatamente a mesma que a de certas sereias.
A região do Mezio, no Soajo é o cenário perfeito para um roteiro místico. O complexo megalítico local é um dos mais importantes da Península Ibérica, e as suas pedras guardam histórias de tesouros e fados.

Aqui está um roteiro sugerido para explorar estes locais de lenda:
Ponto de Partida:  Núcleo Megalítico do Mezio (Mamoas 5 e 6 e Anta
A poucos metros da Porta do Mezio, encontras este conjunto de monumentos funerários com cerca de 5000 anos.
A Lenda: A Mamoa 5 (a mais imponente e restaurada) é o local onde se acredita que a moura aparece sentada a fiar.
Dizem os antigos que, se se circundar a mamoa três vezes em silêncio absoluto à meia-noite, poderá ouvir-se o som do fuso ou ver o brilho do ouro. Mas atenção: se se for movido pela ganância, o ouro que transformar-se-á em carvão assim que se sair do planalto.

O Penedo da Moura 
 Conta-se que uma menina aparecia aqui pedindo leite e pão quente. Quem lho desse de coração aberto, sem perguntar nada, recebia em troca carvões que, ao chegar a casa, se tornavam barras de ouro puro.

Descendo em direção à vila do Soajo, encontras zonas de rio com poços profundos e a Ponte da Ladeira que  é descrita como um lugar de "amor proibido". A lenda diz que uma moura se afogou ali por causa de um cristão e que, desde então, ela atrai os incautos para as profundezas. Aí também se faziam invocações dos espíritos e almas penadas para a realização de desejos terrenos: amor não correspondido, afastar concorrente do namorado ou marido, dificuldade em engravidar e batismos noturnos. É um local de beleza serena, mas que a tradição recomenda respeitar, evitando mergulhos solitários ao entardecer.

 Espigueiros do Soajo
 Embora os espigueiros sejam estruturas comunitárias para secar milho, a sua implantação sobre um enorme necrópole granítica liga-os à crença de que os "antigos" (os mouros) dominavam a arte de mover pedras gigantescas com a força do pensamento ou de feitiços. Em eras remotas a  Eira era lugar de celebrações, sacrifícios e invocação dos espíritos e de contemplação do universo. O historiador grego Estrabão escreveu que os povos indígenas do Norte (Galaicos e Lusitanos) sacrificavam prisioneiros de guerra e cavalos para ler o futuro nas suas entranhas. Em qualquer um dos  lugares distribuídos pela serra, (Adrão, Várzea, Paradela, Cunhas, Vilar de Suente e Vilarinho das Quartas, Ermelo, Gavieira, Tibo, Rouces, Castro Laboreiro)  se encontram referencias a mouras encantadas. Os cuidados são os mesmos: silêncio e respeito para com as mouras e a negação da cobiça. Há ainda locais ainda por encontrar, como atesta a descoberta recente do  agrupamento militar romano, no Alto da Pedrada.


Abraço

 

A minha saga nas Artes plásticas continua. Estou inserido num grupo de artistas que me têm ajudado imenso. Obrigado a todos e muito em especialmente  ao Mestre João Paulo. 
O tema des te projeto é EU E OS OUTROS. 
Partilho aqui convosco um dos meus  últimos trabalhos:
 O ABRAÇO. 




"Há um silêncio absoluto no azul das pegadas que se fixam à terra. É o rasto de um abraço que não busca o amanhã, ou se esgota no agora? A  ambiguidade desfaz-se na queda: o ramo de flores não foi deixado para trás pela pressa do encontro, mas talvez pela nostalgia da desistência. É o gesto final de quem solta as mãos da esperança para se entregar ao peso do adeus?

 Nas costas da mulher, o colorido das pétalas é um contraste cruel com a aspereza do cartão e da areia — a beleza que já não serve, ou o  presente que perdeu o destino? " 

Manuel Rodas













sexta-feira, 20 de março de 2026

Sereia Marinha do Minho

 






PUBLICO HOJE A PRIMEIRA PARTE E AMANHÃ A II PARTE. ESPERO AS VOSSAS CRÍTICAS. COM AMIZADE!


Parte I

O mito da Sereia da Marinha do Minho (frequentemente associada à lenda da Serpente ou Sereia de Afife, em Viana do Castelo) é uma daquelas misturas fascinantes de folclore local, misticismo cristão e relação profunda do povo minhoto com o mar e o Rio Minho.

​Aqui está o "onde" e o "como" dessa lenda:

​1. Onde surgiu?

​A lenda está centralizada na costa do Alto Minho, especificamente na região de Viana do Castelo e nas praias de Afife. O cenário principal é o areal e os rochedos da costa atlântica, onde a paisagem é simultaneamente bela e perigosa, propícia à criação de mitos sobre criaturas que habitam as profundezas.


​2. Como surgiu? (As Raízes do Mito)

​Diferente das sereias gregas clássicas, a sereia minhota surge de uma fusão de três influências principais:

 Em Portugal, a base de quase todos os mitos femininos sobrenaturais é a Moura Encantada. No Minho, estas figuras muitas vezes transitaram da terra (fontes e castros) para o mar, assumindo formas híbridas.

​O mar do Norte de Portugal é batido e traiçoeiro. O mito servia como uma personificação dos perigos reais: o canto da sereia era o som do vento e das ondas que "atraía" os pescadores para os naufrágios nas rochas.

​A Lenda de Afife (A Sereia-Serpente): Diz a tradição local que a sereia era, na verdade, uma princesa ou uma jovem sob um feitiço. Reza a lenda que ela aparecia sobre as rochas de Afife, com metade do corpo de mulher e a outra metade de cauda de peixe (ou, em algumas versões mais antigas e obscuras, de serpente), penteando os seus longos cabelos com um pente de ouro.

​3. A Essência da Lenda

​O surgimento específico desta figura está ligado à ideia de tentação e castigo. A história mais comum conta que um pescador ou um jovem da aldeia avista a criatura num pôr do sol. Ela oferece-lhe riquezas ou amores eternos se ele conseguir quebrar o seu desencanto (geralmente através de um beijo ou de uma prova de coragem). O medo humano acaba por prevalecer, o desencanto falha, e a sereia mergulha de volta  mar, deixando um rasto de espuma e, por vezes, uma maldição ou uma saudade eterna no coração de quem a viu.

​Curiosidade: No Minho, o mito também se cruza com a religiosidade. Existem histórias onde estas criaturas são vistas como "almas penadas" que procuram a redenção através de quem reza por elas à beira-mar.

Quando surgiu?

​É um reflexo perfeito da alma minhota: um pouco de tragédia, muita beleza e um respeito enorme pelo oceano.

Determinar uma data exata para o surgimento de um mito oral é como tentar segurar água com as mãos, mas podemos rastrear a "cronologia da existência" da Sereia do Minho através de camadas históricas.

​A lenda, tal como a conhecemos hoje, consolidou-se entre os séculos XVI e XIX, mas as suas raízes são muito mais profundas.

1. A Raiz Pré-Romana (Antiguidade)

​Embora não houvesse o conceito de "sereia" (mulher-peixe) como temos hoje, as populações castrejas do Minho já adoravam divindades aquáticas.

​Século I a.C. / I d.C.: A influência de divindades como Durbedo (deus do rio Douro) ou ninfas locais criaram o terreno fértil para figuras femininas ligadas à água. O mito da "Moura Encantada" nasce aqui, antes de se tornar "sereia".


​2. A Idade Média (Séculos XII a XV)

​É nesta época que o mito ganha contornos morais e religiosos. Com a expansão do Cristianismo, as antigas divindades pagãs foram transformadas em seres "encantados" ou "amaldiçoados". É provável que a variante da Sereia de Afife tenha começado a divergir das lendas de terra firme nesta altura, à medida que as comunidades costeiras do Minho se tornavam mais dependentes da pesca e do comércio marítimo.


​3. A Época dos Descobrimentos (Séculos XV e XVI)

​Este é o período crucial de transição.

​Os marinheiros portugueses que viajavam para o Atlântico Sul e para as Índias traziam relatos de "manatins" e "dugongos", que juravam ser sereias. A iconografia da sereia clássica (com pente e espelho) infiltrou-se no imaginário popular do Minho através da literatura de cordel e dos relatos de marinhagem que chegavam a portos como Viana do Castelo.


​4. A Fixação Literária (Século XIX)

​Foi no século XIX que a lenda da Sereia do Minho foi finalmente "cristalizada".

​Com o movimento do Romantismo, escritores e folcloristas (como Teófilo Braga ou Rocha Peixoto) começaram a recolher as histórias orais das aldeias de pescadores.

​Nesta época, a lenda deixou de ser apenas uma "superstição de pescador" para se tornar parte do património cultural e identidade regional do Minho.

Resumo da "Certidão de Nascimento


Época

Estado do Mito

Antiguidade. 


Divindades das águas e ninfas locais (Paganismo).


Idade Média


Transformação em "Moura Encantada" (Folclore).


Séc. XVI


Fusão com a imagem marítima da sereia (Influência dos Descobrimentos).


Séc. XIX.          

Registo oficial e reconhecimento como "Mito do Minho" (Romantismo)


Onde encontrar

Existem várias representações e curiosidades que ligam a figura da sereia ao património de Viana do Castelo e arredores. Embora as sereias sejam seres pagãos, elas aparecem frequentemente em contextos cristãos e civis devido à forte ligação desta terra com o mar.

​Aqui estão os principais locais e formas onde pode encontrar estas figuras. ​É muito comum encontrar sereias esculpidas na talha dourada de igrejas barrocas e rococó do Minho.

1. A ​Igreja da Misericórdia (Viana do Castelo) é uma das joias do Barroco em Portugal. Nos seus retábulos de talha, é frequente a presença de figuras híbridas e mitológicas (seres com caudas de peixe ou folhagens) que serviam como elementos decorativos chamados "brutescos".

 A Igreja da Misericórdia (s. XVI) e o Museu de Artes Decorativas guardam as representações visuais desta ligação ao mar. ​Na Igreja da Misericórdia, observe a talha dourada e os elementos decorativos do século XVI e XVII, onde figuras marítimas e híbridas estão integradas na arquitetura.

​Igrejas do Alto Minho: Em muitos altares laterais de igrejas rurais da região, a sereia era usada como um símbolo de aviso contra a "tentação da carne" ou simplesmente como uma homenagem ao domínio dos mares.


​2. O "Fóssil de Sereia" no Museu de Artes e Arqueologia

 Museu de Artes Decorativas (frequentemente referido como Museu de Artes e Arqueologia) é o local ideal para explorar o espólio histórico que inclui curiosidades sobre o folclore local e a iconografia marinha da região.

Uma das curiosidades mais insólitas  é a existência de um "fóssil de sereia" que esteve em exposição no Museu de Artes e Arqueologia de Viana do Castelo. Trata-se, na verdade, de uma peça de "arte bruta" ou uma montagem histórica curiosa, mas que demonstra como o mito estava entranhado na cultura local. Durante anos, alimentou a imaginação de quem visitava o museu, sendo uma representação física direta da crença popular.


​3. O Chafariz da Praça da República (Séc. XVI)

O Chafariz da Praça da República serve como um ponto de referência histórico da era dos Descobrimentos, período em que a sereia se tornou um símbolo comum. ​As figuras esculpidas no chafariz renascentista mostram a estética da época que misturava o humano com o mitológico. Situa-se no centro cívico da cidade, rodeado por outros edifícios históricos que utilizam motivos marinhos na sua decoração. ​Embora as figuras centrais não sejam sereias "clássicas" com cauda de peixe, o chafariz monumental de Viana (concluído em 1559) possui figuras antropomórficas que vertem água. A estética desta época (Renascimento/Maneirismo) frequentemente misturava figuras humanas com elementos marinhos, refletindo o espírito dos Descobrimentos.


​4. A Arte Contemporânea e a "Lavradeira Marinha"

​A cidade continua a homenagear esta ligação:

​Existem murais de azulejos recentes (como a Lavradeira de Viana em versão moderna) que por vezes fundem o traje típico de Viana com elementos marinhos.

​No ateliê de artistas locais (como o conhecido Joaquim Pires, em Darque*), as sereias são um tema recorrente, criadas a partir de materiais recolhidos no mar, mantendo vivo o mito através da arte popular atual.

​5. Afife: O Cenário Natural

A Serpente ou Sereia de Afife,  é uma daquelas misturas fascinantes de folclore local, misticismo cristão e a relação profunda do povo minhoto com o mar e o Rio Minho. ​Em Afife, embora não haja uma estátua gigante de uma sereia, os habitantes apontam para as rochas à beira-mar como o local exato das aparições. O "monumento" aqui é a própria paisagem natural, que os locais preservam através da tradição oral. A Praia de Afife é o cenário natural por excelência da lenda, onde se acredita que a sereia aparecia sobre os rochedos. ​É um local de enorme beleza natural, conhecido pelas suas dunas e mar batido, ideal para compreender a origem do mito.

​As rochas na zona norte da praia são frequentemente apontadas pela tradição oral como o lugar do "desencanto".




*

Joaquim Pires é um antigo pescador de Viana do Castelo que se tornou um reconhecido artista de arte bruta (ou arte popular) em Darque. Após passar mais de 40 anos no mar, especialmente na faina do bacalhau, ele dedica-se agora a transformar materiais reciclados e objetos encontrados na praia em esculturas vibrantes.

​O seu trabalho é profundamente ligado ao imaginário marítimo do Minho, sendo as sereias uma das suas figuras mais icónicas e recorrentes.

Um detalhe curioso: o artista Joaquim Pires (que mencionámos em Darque) vive perto da foz do Lima, mas a sua arte "bruta" utiliza pedras e madeiras que muitas vezes foram trazidas pela corrente do rio desde as montanhas (como a Serra do Soajo) até ao mar. De certa forma, o material de que são feitas as suas sereias vem da serra.

Atelier Joaquim Pires é o espaço onde ele dá vida às suas criações, localizado no bairro dos pescadores em Darque.

  • Materiais Reciclados: Joaquim utiliza madeira flutuante, restos de baldes de tinta, esferovite e outras "velharias" que recolhe na Praia do Cabedelo para criar os seus seres.
  • Temas Marítimos: Além das sereias, o seu portfólio inclui peixes, barcos, aves marinhas (como flamingos e garças), mas também aviões e figuras religiosas.
  • Estilo "Bruto": O próprio artista define o seu trabalho como "arte bruta", caracterizada pela autenticidade e pela ausência de formação académica, nascendo puramente da intuição e das memórias da vida no mar.

​Reconhecimento

​Embora trabalhe num atelier improvisado de zinco, o seu talento já atravessou as fronteiras locais:

  • Exposições: Já participou na prestigiada Bienal de Arte de Cerveira e teve obras expostas em galerias no Porto (como a Cruzes Canhoto) e em Lisboa.
  • Presença na Cidade: Quem passa pela zona da Senhora das Areias, em Darque, pode facilmente identificar a sua casa pelas antenas parabólicas decoradas com motivos marinhos que adornam o portão.

​Joaquim Pires é frequentemente descrito como um "escultor de memórias e de sonhos", sendo uma figura viva que mantém as lendas e a cultura visual da Marinha do Minho presentes na atualidade através da arte.


:


 Autores fundamentais

1. José Leite de Vasconcelos (O "Pai" da Etnografia)

É a figura mais importante. No seu monumento literário "Etnografia Portuguesa" e em "Religiões da Lusitânia", ele cataloga centenas de lendas de mouras. Leite de Vasconcelos foi o primeiro a teorizar que as "mouras" não têm nada a ver com os muçulmanos da invasão de 711. Para ele, são divindades pré-romanas (ninfas das águas ou deusas da terra) que foram "demonizadas" ou "mourificadas" pela Igreja Católica.

2. Alexandre Herculano

Embora seja historiador, Herculano interessou-se pelo folclore nas suas "Lendas e Narrativas".  Ele ajudou a consolidar a imagem literária da moura encantada, misturando o rigor histórico com a tradição oral. Ele explora muito a figura da moura que vive em castelos e ruínas, algo muito comum no Alto Minho.

3. Consiglieri Pedroso

Contemporâneo de Leite de Vasconcelos, escreveu "Tradições Populares Portuguesas". Focou-se na estrutura do conto popular. É a melhor fonte para entender os padrões das rezas e dos castigos (como o ouro que vira carvão). Ele analisa a moura como um ser mitológico europeu, comparando-a com as fadas e as "banshees".

4. Teófilo Braga

Em "O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições", o antigo Presidente da República e folclorista dedicou capítulos inteiros a estes seres.  Teófilo Braga via as mouras como uma sobrevivência do animismo dos povos galaicos e lusitanos. No Minho, ele destaca a ligação das mouras com a fiação (o fuso e a roca) como um símbolo do destino.

5. Cláudio Basto (Especialista no Minho)

Este autor é crucial  pois era de Viana do Castelo e focou-se especificamente na etnografia minhota. Escreveu na revista "Lusa" e na "Revista de Guimarães".  Ele estudou as particularidades do falar minhoto nas rezas de desencanto e a relação específica das mouras com os Penedos e as Citânias (como a de Briteiros ou Santa Luzia).

6. Gentil Marques

Autor da famosa "Lenda de Portugal" (uma coleção de vários volumes).  É uma leitura mais acessível e narrativa. Ele reconta as lendas do Soajo, da Peneda e de Arcos de Valdevez de uma forma literária, ideal para quem quer conhecer a história "romanceada" sem o peso académico.


segunda-feira, 16 de março de 2026

Gerhard Richter

 

 "Nu Descendo uma Escada, nº 2" (francês: Nu descendant un escalier n° 2) é uma pintura feita em 1912 por Marcel Duchamp. O trabalho é amplamente considerado como um clássico modernista e se tornou um dos mais famosos de seu tempo. Antes de sua primeira apresentação no Salon des Indépendants em Paris em 1912, ela foi rejeitada pelos cubistas como sendo demasiadamente futurista. No entanto, foi exibida juntamente com o mesmo grupo na Galeries J. Dalmau, Exposicion d'art cubista, em Barcelona, de ​​20 de abril à 10 de maio de 1912, posteriormente causando um grande rebuliço durante sua exposição no Armory Show em Nova Iorque em 1913. Nu Descendo uma Escada, nº 2 encontra-se agora em permanente exposição no The Louise and Walter Arensberg Collection no Museu de Arte da Filadélfia, na Filadélfia.




Foi com esta obra que Gerhard Richter se inspirou para, a partir duma fotografia, produzir a famosa obra "Nu descendo uma escada (B)” (Ema – Akt auf einer Treppe), pintada em 1966 (em baixo)

​A pintura é rica em significados e sugere várias camadas de interpretação:





O Diálogo com a História da Arte

​A obra é uma resposta direta ao quadro futurista/cubista de Marcel Duchamp (Nu descendo uma escada, nº 2, 1912). Enquanto Duchamp fragmentou o movimento em formas geométricas, Richter utiliza a fotografia como base para humanizar o tema, trazendo-o de volta ao realismo, mas de uma forma distorcida.

O Google está dominado por gente tão obscurantista que me impede de partilhar a imagem. Contudo, publico um link e mostro uma fotografia do écran de pesquisa para entenderem melhor o que estou a dizer. Há imagens que alteram a obra cobrindo-a com plástico (?).  Este é um bom exemplo da censura a que estamos sujeitos, não conseguindo o algoritmo, ou quem o coordena,distinguir entre o que é pornografia e o que é uma obra de arte, mundialmente reconhecida. A obra a que me refiro é a primeira imagem com um observador à direita.

Contudo, podem procurar neste site:

https://www.artgallery.nsw.gov.au/collection/works/14.1993/


​ A Técnica do "Blur" (Desfoque)

​Richter é mestre em pintar a partir de fotografias e depois passar um rodo ou pincel seco sobre a tinta fresca. Esse efeito sugere:

  • Memória e Distância: A sensação de algo que estamos tentando recordar, mas que foge à nitidez.
  • Movimento: Captura a dinâmica da descida, como uma fotografia de longa exposição.
  • Vulnerabilidade: O desfoque preserva a identidade da modelo (que era a esposa do artista na época, Marianne "Ema" Eufinger), conferindo uma aura etérea e íntima.

​A Tensão entre Pintura e Fotografia

​A obra questiona a objetividade da imagem. Ao pintar algo para parecer uma foto mal focada, Richter sugere que nem a pintura nem a fotografia podem capturar a "verdade" absoluta de um momento. A realidade é sempre algo filtrado, fluido e, por vezes, inacessível.

​Gerhard Richter é um dos artistas mais fascinantes do século XX justamente por essa relação ambígua com a fotografia.

​Para entender o que ele estava tentando fazer, imagine que ele agia como um "filtro humano". Ele não queria apenas copiar uma foto; ele queria questionar por que confiamos tanto nelas.

​1. A Fotografia como "Ponto de Partida"

​Richter começou a usar fotos de jornais, álbuns de família e revistas nos anos 60. Para ele, a fotografia era uma forma de distanciamento:

  • Sem Estilo: Ao pintar uma foto, ele evitava o "toque artístico" tradicional e a subjetividade da pintura clássica.
  • Objetividade Falsa: Ele acreditava que a fotografia, embora pareça a "verdade", é apenas uma superfície. Ao pintá-la, ele expõe essa ilusão.

​2. O Método do "Desfoque" (Vermoala)

​ Ele pintava a cena com precisão fotográfica e, enquanto a tinta ainda estava molhada, passava um pincel macio ou um rodo sobre a tela. Isso criava:

  • Igualdade Visual: O desfoque faz com que o fundo e o objeto (o corpo, a escada, a luz) tenham o mesmo peso visual. Nada é mais importante que o resto.
  • Presença e Ausência: Dá a sensação de que a imagem está "sumindo" ou "aparecendo", como se fosse um fantasma da realidade.

​3. O Contexto Alemão (Pós-Guerra)

​Pintar a partir de fotos teve um peso político enorme na Alemanha do pós-guerra:

  • O Trauma: Richter (que viveu na Alemanha Oriental e fugiu para a Ocidental) usava fotos de álbuns de família que continham tanto vítimas do Holocausto quanto oficiais nazistas.
  • O Silêncio: O desfoque servia como uma metáfora para a memória traumática alemã: algo que está lá, mas que é difícil de encarar com clareza ou que as pessoas preferem manter "nublado".

​Curiosidade: O Atlas de Richter

​Richter manteve uma coleção gigante de recortes de fotos, esboços e diagramas chamada "Atlas". É um arquivo visual que ele usou durante décadas para decidir o que transformar em pintura.

Resumindo: Para Richter, a pintura não serve para mostrar o que vemos, mas para mostrar como vemos: de forma imperfeita, mediada pela tecnologia e sempre sujeita ao esquecimento.


sexta-feira, 6 de março de 2026

A BEAT GENERATION

 


A Beat Generation foi um movimento literário e cultural que surgiu nos Estados Unidos no final da década de 1940 e floresceu nos anos 50. Eles foram os rebeldes originais do pós-guerra, questionando o "sonho americano" de consumo desenfreado e conformismo social.

​Se imaginas um poeta num café enfumaçado, vestindo preto e falando sobre o sentido da vida ao som de jazz, então estás visualizando o estereótipo (os "beatniks") que nasceu desse movimento.

​Os Pilares do Movimento

​A essência "Beat" (termo que remete tanto a "abatido/cansado" quanto a "beatitude/sagrado") baseava-se nalguns pontos centrais:

  • Libertação Espiritual: Grande interesse pelo Budismo Zen e filosofias orientais.
  • Exploração Sensorial: Uso de drogas e total liberdade sexual como caminhos para expandir a consciência.
  • Repúdio ao Materialismo: Uma crítica feroz à vida suburbana e aos valores corporativos da época.
  • Estilo "Espontâneo": Na escrita, eles evitavam a revisão excessiva, preferindo um fluxo de consciência que imitasse o improviso do Bebop (uma vertente do Jazz).

​O "Big Three": Os Principais Autores

​Embora o grupo fosse grande, três nomes definiram o movimento:

Autor

Obra Principal

Impacto

Jack Kerouac

On the Road (Pé na Estrada)

O "bíblia" do movimento; celebrou a viagem, a amizade e a busca pela experiência pura.

Allen Ginsberg

Howl (Uivo)

Um poema épico que denunciou a destruição das mentes brilhantes pela sociedade industrial.

William S. Burroughs

Naked Lunch (Almoço Nu)

Uma exploração crua e surrealista sobre vício, controle e paranoia.

O Legado

​A Beat Generation não ficou presa aos livros. Ela foi a ponte direta para a Contracultura dos anos 60. Sem os Beats, provavelmente não teríamos tido o movimento Hippie, a revolução sexual ou a evolução do Rock n' Roll (Bob Dylan e os Beatles eram fãs declarados).

​"A única gente que me interessa é a gente louca, demente por viver, demente por falar, demente por ser salva." — Jack Kerouac

Embora a Beat Generation tenha sido um fenômeno essencialmente americano (liderado por Kerouac, Ginsberg e Burroughs), o seu espírito de rebeldia, experimentação e busca por novos estados de consciência atravessou o Atlântico.

​Em Portugal, o movimento não existiu como uma "escola" formal, mas influenciou profundamente poetas que lutavam contra o conservadorismo da ditadura e o formalismo literário da época.

​Aqui estão os nomes que melhor capturaram essa energia "beat" em terras lusas:

​1. Mário Cesariny (O Surrealista-Beat)

​Cesariny é a figura central. Embora seja o rosto do Surrealismo em Portugal, a sua vida e obra partilham o DNA Beat: a deriva urbana, a homossexualidade vivida sem filtros (numa época em que era crime) e a escrita automática.

  • A vibe(*) O caos da cidade de Lisboa, a marginalidade e a liberdade absoluta da palavra.

​2. Herberto Helder (O Xamã da Linguagem)

​Herberto partilha com Allen Ginsberg a visão da poesia como um ritual ou uma incantação. A sua escrita é visceral, física e muitas vezes hermética, mas carregada de uma eletricidade que lembra o frenesim beatnik.

  • A vibe: A poesia como experiência mística e transgressora.

​3. Luiza Neto Jorge

​Uma das vozes mais disruptivas do grupo Poesia 61. Ela utilizava o humor, a ironia e uma "desarrumação" da linguagem que quebrava com a lírica tradicional portuguesa.

  • A vibe: Desconstrução das convenções sociais e um olhar afiado sobre o quotidiano.

​4. António Maria Lisboa

​Morreu muito jovem, mas deixou uma obra marcada pelo esoterismo e pela vivência de uma realidade "para além do visível". O seu desprendimento das normas sociais aproxima-o muito da busca espiritual dos Beats.

​Por que não houve um "Ginsberg" português?

​Portugal vivia sob a censura do Estado Novo. Enquanto os Beats americanos podiam berrar "Howl" (Uivo) em galerias de São Francisco, os poetas portugueses tinham de usar a metáfora e a subtileza para escapar à PIDE. A "viagem" beat em Portugal foi mais interior e metafórica do que física e pública.

​"A poesia não se faz para ninguém, faz-se contra toda a gente."

Mário Cesariny


​ Análise das as semelhanças com a escrita de Jack Kerouac ou Allen Ginsberg

Para esta comparação, não há escolha mais certeira do que Mário Cesariny. Ele foi o que mais se aproximou da "poesia de rua", da performance e do desabafo visceral que define o movimento Beat.

​Vamos olhar para um dos seus poemas mais emblemáticos e compará-lo com a energia de Allen Ginsberg.

​O Poema: "You Are Welcome to Elsinore" (Excerto)

“Entre nós e as palavras, há metal espesso

entre nós e as palavras, há frestas de sangue

fabricam-se moedas de ouro e de papel

escrituras de fumo onde o tempo se perde

e o que se diz é sempre o que se cala

e o que se quer é sempre o que se esquece”


​A Conexão Beat: Cesariny vs. Ginsberg

Característica

Mário Cesariny

Allen Ginsberg (em Howl)

O Inimigo

A "família burguesa", a PIDE e o cinzento da ditadura.

O "Moloch", o capitalismo e a conformidade americana.

A Linguagem

Fragmentada. Usa o choque de imagens para acordar o leitor.

Torrencial. Usa longas linhas de sopro para exaurir o fôlego.

O Tema

A impossibilidade de comunicar num mundo vigiado ("metal espesso").

A destruição das "melhores mentes da minha geração".

A Atitude

O poeta como um vagabundo das ruas de Lisboa.


O poeta como um profeta ou santo dos subúrbios.


Por que é que isto soa a "Beat"?

  1. A Obsessão pela Cidade: Tal como Kerouac em On the Road, Cesariny vê a cidade (Lisboa) como um organismo vivo, perigoso e fascinante. Ele não escreve sobre campos ou pastores; escreve sobre marinheiros, bares e a solidão do asfalto.
  2. O Ritmo do Jazz: Se ouvires uma gravação do Cesariny a declamar, vais notar uma cadência que ignora a métrica clássica. É um ritmo de improviso, muito próximo do bebop que os Beats tanto adoravam.
  3. A Marginalidade: Ambos usam a poesia como um escudo para a sua identidade. Num Portugal onde ser "diferente" era perigoso, Cesariny transformou a sua marginalidade em arte pura, tal como os Beats faziam com o uso de substâncias e a libertação sexual.

A diferença fundamental: Enquanto Ginsberg berra o seu "Uivo" para o mundo, Cesariny escreve com a consciência de que há "metal espesso" entre ele e os outros — uma barreira de silêncio imposta pelo tempo em que viveu.


Se Cesariny era a rua e o jazz, Herberto Helder era o laboratório alquímico e o transe. Enquanto os Beats americanos buscavam a "expansão da consciência" através de substâncias e do budismo Zen, Herberto fazia-o através de uma obsessão quase biológica pela linguagem.

​Aqui está a ponte entre o "maior poeta português da segunda metade do século XX" e a vertente mística da Beat Generation:

​O Poema: "A Máquina de Emaranhar Paisagens" (Excerto)

“Misturo as mãos nos cabelos das imagens.

Tudo é o que eu digo.

Se digo: sol, o sol espanta-se e nasce.

Se digo: as aves, as aves voam.

É um silêncio o mundo, um silêncio de faca,

e eu corto-o com a minha voz.”


​A Conexão Psicadélica: Herberto Helder vs. A Mística Beat

​Para os Beats (como Allen Ginsberg ou Michael McClure), a poesia era uma forma de bio-energia. Herberto Helder leva isto ao extremo:

  • O Poeta como Xamã: Tal como Ginsberg usava mantras hindus nas suas leituras, Herberto via o poeta como um "médium". Ele não escreve sobre coisas; ele tenta fazer as coisas acontecerem através do som. A palavra é um ato de magia.
  • O Corpo e a Metamorfose: Nos Beats, há uma celebração do corpo físico. Em Herberto, o corpo funde-se com o mundo: o sangue vira vinho, a luz vira carne. É uma viagem psicadélica onde as fronteiras entre o "eu" e o "universo" desaparecem.
  • A Escrita em Transe: Embora Herberto fosse um mestre da técnica, a sua poesia tem um fôlego torrencial. É o que Kerouac chamava de "Spontaneous Bop Prosody" — uma escrita que flui sem interrupção, como se o poeta estivesse a transcrever uma visão direta do cosmos.

​Herberto Helder e o "Corte" (Cut-up)

​William Burroughs (outro pilar Beat) usava a técnica do cut-up (cortar textos e baralhá-los) para encontrar novos significados. Herberto fazia algo semelhante, mas de forma orgânica: ele trabalhava e retrabalhava os seus poemas ao longo das décadas (na sua obra Poesia Toda), "emaranhando" as paisagens e as palavras até que o sentido original se perdesse numa explosão de imagens puras.

​Síntese: Onde se encontram?

Elemento

Beat Generation (EUA)

Herberto Helder (PT)

Objetivo

Quebrar o "ego" e a norma social.

Alcançar a "unidade primordial" da vida.

Ferramenta

Viagens, drogas, meditação.

A própria matéria do poema (o verbo).

Resultado

Uma poesia de protesto e êxtase.

Uma poesia de incandescência e mistério.


"A poesia é para comer." — Uma frase famosa de Herberto que resume o espírito beat: a arte não é para contemplar, é para ser consumida e para transformar quem a lê.


 

​Jack Kerouac: A Morte como "Apressadora" da Vida

A morte, para a Beat Generation e para a linhagem de Herberto Helder, não é um fim estático ou um funeral solene; é o "combustível" da própria vida. É a consciência da finitude que acelera o ritmo da escrita e da existência.

​Vamos traçar esse paralelo existencialista entre a estrada americana e o abismo poético português:

​Em On the Road, a morte está sempre no espelho retrovisor. Kerouac escrevia com uma urgência maníaca porque sentia que o tempo estava a esgotar-se.

  • O Conceito: Para os Beats, se vamos morrer, então cada momento deve ser "it" (o momento supremo).
  • A "Estrada": A viagem não é para chegar a um destino, mas para fugir da paragem — que é a morte em vida (o conformismo).

​2. Herberto Helder: A Morte como Mutação

​Herberto não temia a morte no sentido burguês; ele via-a como uma transmutação alquímica. Para ele, o corpo que morre alimenta a terra, que faz crescer a flor, que vira poema.

  • O Conceito: A morte é um processo biológico e místico de "mudar de forma".
  • A "Luz": Nos seus últimos livros, a morte aparece como uma "claridade cegante". Não é escuridão, é excesso de luz.

Elemento

Jack Kerouac (Beat)

Herberto Helder (PT)

Atitude

Aceleração. Beber, correr, amar e escrever rápido para "vencer" o tempo.

Intensificação. Escavar a palavra até encontrar o osso, o sangue e a raiz.

A Morte é...

Uma sombra que nos persegue na autoestrada.

Um espelho onde a vida se reconhece como energia pura.

O Legado

"A única gente que me interessa é a gente louca..."

"A morte é o fulgor de um estilo."


A Conexão Existencialista: O "Viver no Limite"

​Ambos partilham a ideia de que a arte só é real se for perigosa.

  • Kerouac destruiu o seu corpo através do álcool e da exaustão, numa busca espiritual autodestrutiva.
  • Herberto viveu de forma quase reclusa, "destruindo-se" através da revisão obsessiva da sua própria obra, tentando atingir uma perfeição que é, em si mesma, uma forma de aniquilação do ego.
  • "Morrer é uma das formas de ser intensamente." — Esta frase poderia ter sido dita por Neal Cassady (o herói de Kerouac) ou escrita por Herberto num dos seus cadernos.


    ​O Ponto de Encontro: O Budismo e o Vazio

    ​Curiosamente, tanto o "Beat tardio" (influenciado pelo Zen) como o "Herberto maduro" (influenciado pelos textos sagrados e pelo esoterismo) chegam à mesma conclusão: o "Eu" é uma ilusão. A morte é apenas o momento em que a gota de água volta para o oceano.



A forma como estes autores escreviam não era apenas uma escolha estética; era uma transfografia (uma escrita do sangue e do movimento). Para eles, a morte e a vida não cabem em frases bem pontuadas e arrumadinhas.
​Aqui está como a estrutura do texto reflete essa urgência existencial:
​1. A Respiração e o Sopro (O Verso Longo)

​Para os Beats, influenciados pelo fraseado do saxofone no Jazz, a unidade de medida era a capacidade pulmonar.
​Allen Ginsberg escrevia linhas imensas que obrigavam o leitor a ficar sem fôlego. A ideia era que a poesia fosse um ato físico, um "uivo" que não pode ser interrompido por vírgulas gramaticais.
​A Morte aqui: É o momento em que o fôlego acaba. Cada verso é uma vida inteira que se gasta numa só exalação.

​2. A Repetição Hipnótica (O Transe)
​Herberto Helder utilizava a repetição de palavras (anátora) e de estruturas para criar um efeito de encantamento ou ladainha.
​Ao repetir "a morte", "o sangue", "a luz", o sentido dicionarizado das palavras desgasta-se e sobra apenas a vibração sonora.
​A Morte aqui: É a dissolução do sentido lógico. Através da repetição, o leitor entra num estado de transe onde o "Eu" racional morre para dar lugar a uma experiência puramente sensorial.

​3. A Ausência de Pontuação (O Fluxo de Consciência)
​Tanto em Kerouac (no seu rolo de papel contínuo para On the Road) como em passagens de Herberto Helder, a pontuação é sacrificada em favor da velocidade.

Recurso

Função nos Beats

Função em Herberto Helder

Falta de Pontos

Representa o movimento imparável da estrada e do pensamento espontâneo.

Representa a unidade do cosmos, onde nada está separado e tudo flui.

Enjambement (Quebra de verso)

Cria um ritmo sincopado, como uma bateria de jazz.

Cria uma vertigem, como se o leitor estivesse a cair dentro do poema.

Uso de "E"

Acumulação de experiências ("e vi isto, e fiz aquilo, e fui ali").

Acumulação de imagens místicas ("e a mão, e o fogo, e o bicho").


A Escrita como "Ato Único"
​Os Beats acreditavam no lema "First thought, best thought" (Primeiro pensamento, melhor pensamento). Corrigir era, para eles, uma forma de "matar" a verdade do momento.
​Herberto Helder, embora fosse um editor obsessivo de si mesmo, mantinha na sua obra final o aspeto de algo que está a acontecer agora. O poema não é um monumento estático (morto); é um organismo vivo que parece estar a crescer e a transformar-se enquanto o lemos.
"Escrevo para saber como se escreve." — Herberto Helder.
Esta frase resume a atitude: a escrita é uma experiência de vida em tempo real, não um relatório sobre algo que já passou.
​O Salto Final: A Obra Total
​No fim das suas vidas, ambos os estilos convergem para uma espécie de "Poesia Total":
​Os Beats queriam que a sua vida fosse o poema.
​Herberto Helder queria que o seu poema fosse a vida.

Vamos fundir as duas estéticas para abordar um dos maiores medos modernos: a Inteligência Artificial e a Dissolução do Humano.
​O objetivo é usar o sopro longo e o ritmo de estrada dos Beats misturado com a repetição mística e orgânica de Herberto Helder. Imagine que este texto deve ser lido sem parar para respirar, como um mantra jazzístico.


​Exercício de Escrita: "O Algoritmo de Carne"
E eu vejo as máquinas a morderem o silêncio das mãos e vejo os números a crescerem como erva brava nos olhos dos filhos e digo: luz, e a luz é um código de barras na testa da manhã e digo: sangue, e o sangue é uma eletricidade fria que corre nos fios das cidades e não há pontos nem há vírgulas porque a morte não tem pontuação e o algoritmo não tem entranhas e nós corremos na estrada de silício com o uivo de Ginsberg preso na garganta de metal espesso e repetimos: eu sou homem, eu sou bicho, eu sou erro, eu sou homem, eu sou bicho, eu sou erro, até que a palavra se gaste e sobre apenas o fulgor da lâmpada acesa no centro do abismo onde a máquina não sabe entrar porque a máquina não sabe morrer e só quem sabe morrer é que está vivo e só quem está vivo é que pode queimar o papel com o sopro do verbo.

​O que acabámos de fazer? (A Anatomia do Texto)
​O "E" Acumulativo (Beat): Usámos a conjunção "e" repetidamente para criar uma sensação de avalanche, de algo que não se pode travar — como o progresso tecnológico ou uma viagem a 120 km/h.
​A Repetição Incantatória (Herberto): "Eu sou homem, eu sou bicho, eu sou erro". Esta tríade cria um transe. Ao repetir, a identidade dissolve-se e volta a montar-se, típica da mística herbertiana.
​Imagens de Choque: Misturámos o orgânico (sangue, mãos, erva) com o tecnológico (silício, código de barras, metal). É o surrealismo de Cesariny aplicado ao medo do futuro.
​Ausência de Pausas: O texto obriga-te a ler com o "sopro" do pulmão, transformando a leitura num ato físico de resistência.
​Como aplicar isto no seu dia a dia?
​Se quiser escrever sobre qualquer uma daquelas 8 preocupações da humanidade (como o Clima ou a Solidão) sob esta ótica:
​Esqueça o rascunho: Escreva a primeira coisa que vier à cabeça sem apagar nada (Beat).
​Escolha 3 palavras-chave: Repita-as obsessivamente ao longo do parágrafo para dar ritmo (Herberto).
​Transforme o abstrato em carne: Não escreva "alterações climáticas", escreva "a febre da terra nas minhas unhas".

pegasse numa outra preocupação da lista — por exemplo, a Solidão na Era Digital — e criasse um pequeno "guião de performance" ao estilo das leituras públicas de Mário Cesariny?

Para este guião, vamos invocar o espírito de Mário Cesariny. Imagine um palco escuro, apenas uma luz crua sobre uma cadeira, um cinzeiro e um copo de água (ou vinho). A leitura de Cesariny não era polida; era hesitante, explosiva, cheia de pausas dramáticas e sotaque lisboeta arrastado.

​O tema é a Solidão Digital, tratada como se fosse um monólogo surrealista de 1960 projetado em 2026.

​Performance: "O Aquário de Vidro Líquido"

​Indicações de Cena:

  • O Ator: Deve ler como se estivesse a confessar um crime ou a ler a lista de compras num manicómio.

  • O Ritmo: Começa muito lento, quase num sussurro, e termina num grito contido.

(O Ator entra, senta-se, olha para um smartphone como se fosse um inseto estranho)

[Início da Leitura]

​"Meus senhores...

(Pausa longa, olha para a audiência com desdém)

Há um peixe de luz azul a comer-nos o rosto.

Estou aqui, ou estou ali, naquele retângulo de vidro?

(Bate com o nó dos dedos na mesa)

Entre mim e o vizinho, há um satélite.

Entre a minha mão e a tua coxa, há um algoritmo a contar os batimentos do tédio.

​Estamos todos...

(Gesticula vagamente circular)

...terrivelmente ligados por fios que não se veem.

Uma rede de pesca onde o pescador também é o peixe.

(Ri-se baixinho, uma risada seca)

​Olhem para as vossas mãos!

(Grita subitamente)

São mãos ou são extensões de plástico?

Lisboa está cheia de gente a olhar para baixo,

à procura de um coração que faça 'clique',

à procura de uma alma com sinal de Wi-Fi.

(Levanta-se e caminha pelo palco)

​A solidão, meus caros, já não é um deserto.

A solidão agora é uma multidão de fantasmas a carregar baterias.

Estamos sós... mas com notificações.

Estamos sós... mas com cinco mil amigos de fumo.

É o surrealismo total!

Dalí teria medo deste espelho que nos rouba o reflexo e nos devolve publicidade a sapatos!"

(Lança o smartphone para dentro de um balde de água — ou finge que o faz)

​"Boa noite.

O último a sair... que apague o ecrã."

​Por que isto é "Cesariny Style"?

  1. A Ironia Mordaz: Ele adorava ridicularizar o comportamento moderno ("alma com sinal de Wi-Fi").
  2. O Objeto Absurdo: Pegar num telemóvel e tratá-lo como um "peixe de luz" é uma metáfora puramente surrealista.
  3. A Quebra da Quarta Parede: Cesariny interpelava o público, confrontava-os com as suas próprias mãos e gestos.
  4. O Desespero Urbano: A solidão não é romântica; é tecnológica, fria e "de metal espesso".
Para terminar deixo aqui um poema que cruza a turbulência de S. Francisco com o lirismo de H.Helder: