Eu já o tinha visto a correr na marginal, junto ao mar... Ia suado, corria e as
tatuagens no braço esquerdo e os brincos na orelha direita não enganavam.
Como vinha em sentido contrário –nascente poente- não o incomodei. Fiquei só a
olhar. Quem sabe, um dia falo-lhe da minha- antiga- admiração.
O tempo passou-como passa o tempo? A Terra gira, mas como nós rodamos com
ela, o tempo não devia contar. Mas enfim, conta.
Outro dia fui a uma loja que vende artigos usados. Tenho o gosto de passar por
lá; admirar o que os outros já não querem, o que é supérfluo nas suas vidas. É
assim: quando passo perto e sem muita pressa, pergunto-me: e porque não
passamos por lá, para ver as novidades?
Mas só são novidades para mim, pois para os outros são objectos desusados,
rejeitados, supérfluos, desnecessários, um empecilho lá nas gavetas, na
arrecadação ou na dispensa; moeda de troca para uma necessidade, por um
desejo. Um desejo antigo a dar corpo e alma a um desejo novo, tenro e fresco. Ou
só um litro de leite e meia duzia de carcaças, pró jantar!
Quando deitas isto fora, pergunta a mulher esbaforida com os gritos do bébé e a
televisão aos berros. Porque não vais vender o aspirador que a avó ofereceu no
natal? Precisamos lá daquilo... (sai e bate a porta com estrondo). Agora, para que
queres esta bicicleta? Vende o microondas que já dá para comprar uma dose.
Roubaste esse blusão de motard? Vai vendê-lo aos usados e bebemos um bejecas.
Olha aquela aparelhagem, que compraste no aniversário do casamento. Vende-a
e compra os remédios aos teus filhos. O anel e o relógio? A máquina de escrever?
Era do meu pai... Ó pá, já te pago. Na segunda vou vender ali umas coisas,
berbequins, lixadoras, aparafusadoras e outro material ... segunda sem falta. Sim
pá, não me lixes. Na segunda pago-te!
E por trás daquelas prateleiras, cheias de utensílios e novidades, estão pessoas;
eu sinto-as. E, observador anónimo, condoo-me das suas tristezas, sorrio das
espertezas e recrimino os gestos reprováveis. Olho o aparelho de musculação,
toco-lhe e imagino alguém, descontente com o seu aspecto e a querer
impressionar-se e a mais alguém, com a força dos músculos e do peito aberto por
baixo da camilha fechada. Um ele qualquer a querer salientar os músculospara a
impressionar. Teria conseguido? Provavelmente não, e por isso, desistiu.
Recuperou uns trocos para o compensar da ilusão. E a viola? Oh! Quem não tem
sonhos de guitarrista? Quantos pais como não o conseguiram, ofereceram-nas
aos filhos na esperança de serem eles a prolongarem os seus sonhos. E os
telemóveis, e os Xboxs, as Wiis? Quantos sonhos destroçados, ilusões desfeitas...
e saudades de tardes bem passadas.
Bem, máquinas de fazer pão, fazer café e chá, frisar cabelos, arrancar pestanas,
termómetros, caixilhos de fotos, ferros de engomar, máquinas fotográficas,
lentes, aparelhagens amplificadores, tv, computadores... uma infinidade de coisas
da nossa vida. Cada objecto, muitas histórias e... vidas.
Andava eu nesta peregrinação, quando de repente, nervoso o vejo a deambular
pela sala de prateleiras em busca não sei de quê, acompanhado duma jovem de
cabelo liso e negro- talvez a companheira, pelo olhar cumplice.
Tinha lido numa revista que uns miúdos lhe tinham roubado o telemóvel na
Guiné. E de repente começo a ver na minha mente uma lista de obras a
lembrarem-me que ele era um herói!
Um herói e artista das palavras, das idéias, carregadas de humanidade e amor à vida e ao próximo.
Obras do José Luís Peixoto, até 2011!
• 2000 - Morreste-me em que este retrata a morte e as recordações
que tem do pai.
•
2000 - Nenhum Olhar É uma viagem pela vida das personagens que
tanto nos partilham momentos de alegria como momentos de tristeza e
solidão.
•
• 2002 - Uma Casa na Escuridão É um romance que perscruta a alma
desesperada de um narrador, que encontra o verdadeiro amor na
imagem de uma mulher reflectida dentro do seu próprio interior,
mulher que não existe no seu tempo real, amor esse que é
descrito e passado a papel noite após noite, centro único da sua
vida que já se manifestava completamente despegada da vida
real, na sua casa, vivendo com a sua mãe e a sua escrava, a
casa na escuridão.1
• 2003 - Antídoto um livro de contos
• 2006 - Minto Até ao Dizer que Minto (distribuído apenas com a revista
Visão)
2006 - Cemitério de Pianos Os narradores – pai e filho –, em tempos
diferentes, que se sobrepõem por vezes, desvendam a história da
família. Falam de morte, não para indicar o fim, mas a renovação, o elo
entre as gerações e a continuação: o pai – relação entre dois
Franciscos, iguais no nome e no destino, por um gerado, do outro
genitor – nasce no dia da morte desse primeiro Lázaro; o filho, neto do
seu homónimo, morre no dia em que a sua mulher dá à luz.1
A obra retrata uma família de Benfica (Lisboa) e, aborda a morte como
não apenas o fim, mas também a continuidade através da herança
deixada em vida. A morte como destino irremediável da vida e nova
vida após a morte. Um ciclo que se repete ininterruptamente.
Relata tanto o lado negro como luminoso das ligações entre familiares
cujas algumas das vivências mais importantes se sucedem num
espaço de uma oficina chamado de cemitério de pianos que alberga
pianos "mortos" cujas peças vão dar vida a novos pianos.
• O maratonista português Francisco Lázaro foi a inspiração para a
personagem principal deste romance, que partilha o seu nome e
parte da sua história.
• 2007 - Hoje Não (distribuído apenas com a revista Sábado)
• 2007 - Cal Reúne textos de natureza diversa (3 poemas, 17 contos, 1
peça de teatro), ancorados num espaço rural e na vivência e
memória dos mais velhos.1
• 2010 - Livro O cenário deste livro é a saga da emigração portuguesa
para a França, entre uma vila do interior de Portugal e Paris.1
• 2011 - Abraço
Poesia[editar]
• 2000 - Morreste-me em que este retrata a morte e as recordações

