Para o José Morais
A nuvem à boca da noite
Segredava
Rios
E viagens anunciadas
E sempre adiadas…
Cala-te nuvem
Não despertes em mim
O tufão porque esperas
Para poderes sonhar também! MRodas
Deixo aqui mensagens e as minhas reflexões sobre os percursos por onde vou passando..."caminhante, não há caminho, o caminho faz-se caminhando..."
Para o José Morais
A nuvem à boca da noite
Segredava
Rios
E viagens anunciadas
E sempre adiadas…
Cala-te nuvem
Não despertes em mim
O tufão porque esperas
Para poderes sonhar também! MRodas
Para o J. Morais
A luz vem ténue e terna
Deitar-se nos meus olhos
Com véus de dançarina e meneios ciganos
Fecho os olhos e deixo-a espraiar-se nas margens da alma
Onde o sol se põe ainda antes de nascer!
MRodas
O qu eu queria
Era mesmo semear melancias no telhado
Nem favas ou ervilhas
Apenas melancias
Como ficaria feliz
Ver as melancias a escorrerem no teu corpo ereto
Em direção ao solo
Com as suas largas folhas verdes
Flores amarelas e frutos verdes e vermelhos
Amarelos e azuis
O seu perfume ácido
Sabor a gin com limão
Um piano próximo
E soda a fervilhar no meu copo
Eu queria
Que as melancias enchessem de verde a minha rua
E apertassem a mão a quem passa
Sorrissem às crianças e aos cães
E batessem de leve nas vidraças
E agora, não me lembro de mais
Mas era o que eu queria
Isso e ...ver-te de braços abertos
Oh!, quanto eu gostava
Que viesses comigo
semear as melancias no telhado
E ficasses à espreita
A ver nascer o sol
De verde passar a laranja
E mais tarde vermelho de melancia
Se viesses comigo
Faria a cama de lençóis de seda
E na mesa alva
Servir-te-ia
Todas as melancias do mundo
Para que pudesses
Ter-me dentro de ti...até à eternidade
Mas quis alguma deusa furiosa
Que tu tivesses vertigens
E não gostasses de melancias
Assim nunca as melancias podem ficar
Suspensas dos telhados
E eu desisto de endireitar as pernas
da mesa e da cama
MRodas
Manifesto criativo
Contra a destruição, a criatividade;
Contra a morte, a vida que se desenha no escuro
Se o metal ruge e o solo se fende em sangue e dor,
Nós erguemos o pincel, a palavra, a música e o futuro
A guerra é a raiva do mal, fria e sem retorno,
Um cálculo estéril de horror e ausência
A imaginação é a curva, o labirinto, o adorno,
A teimosia sagrada de cantar a existência
Eles trazem a raiva das cinzas acumuladas,
Nós trazemos o verbo que ferve nas veias
Eles calam as vozes com cidades bombardeadas,
Nós gritamos mundos novos em telas cheias
Não há bomba que fragmente um ideal puro,
Nem machado que corte a raiz ao pensamento
Se eles erguem o medo, nós pintamos o muro,
Até que o cimento se transforme em movimento.
Criar é o ato de liberdade mais profundo
onde o ódio divide, a estética une o que resta
Pois se a guerra é o fim ruidoso do mundo,
A arte é o início melodioso da festa
Pela vida Pela luz Pela criação
Criar é resistir Compor é viver
O prometido é devido. Aqui vai para cumprir a promessa. Qualquer achega para completar este trabalho pode ser enviado nos Xomentários, por email mrodas1234@gmail, ou pelo Messenger, ou Whatsapp. Muito obrigado e não se esqueça de partilhar pelos amigos.
O erro comum: O explorador, achando que foi enganado, deita o carvão fora. Deve guardar o o carvão no bolso em silêncio absoluto até chegar a casa e passar a porta. Só dentro de casa, com a porta fechada, é que o carvão se transforma em ouro maciço.
"Há um silêncio absoluto no azul das pegadas que se fixam à terra. É o rasto de um abraço que não busca o amanhã, ou se esgota no agora? A ambiguidade desfaz-se na queda: o ramo de flores não foi deixado para trás pela pressa do encontro, mas talvez pela nostalgia da desistência. É o gesto final de quem solta as mãos da esperança para se entregar ao peso do adeus?
Nas costas da mulher, o colorido das pétalas é um contraste cruel com a aspereza do cartão e da areia — a beleza que já não serve, ou o presente que perdeu o destino? "
Manuel Rodas
Parte I
O mito da Sereia da Marinha do Minho (frequentemente associada à lenda da Serpente ou Sereia de Afife, em Viana do Castelo) é uma daquelas misturas fascinantes de folclore local, misticismo cristão e relação profunda do povo minhoto com o mar e o Rio Minho.
Aqui está o "onde" e o "como" dessa lenda:
1. Onde surgiu?
A lenda está centralizada na costa do Alto Minho, especificamente na região de Viana do Castelo e nas praias de Afife. O cenário principal é o areal e os rochedos da costa atlântica, onde a paisagem é simultaneamente bela e perigosa, propícia à criação de mitos sobre criaturas que habitam as profundezas.
2. Como surgiu? (As Raízes do Mito)
Diferente das sereias gregas clássicas, a sereia minhota surge de uma fusão de três influências principais:
Em Portugal, a base de quase todos os mitos femininos sobrenaturais é a Moura Encantada. No Minho, estas figuras muitas vezes transitaram da terra (fontes e castros) para o mar, assumindo formas híbridas.
O mar do Norte de Portugal é batido e traiçoeiro. O mito servia como uma personificação dos perigos reais: o canto da sereia era o som do vento e das ondas que "atraía" os pescadores para os naufrágios nas rochas.
A Lenda de Afife (A Sereia-Serpente): Diz a tradição local que a sereia era, na verdade, uma princesa ou uma jovem sob um feitiço. Reza a lenda que ela aparecia sobre as rochas de Afife, com metade do corpo de mulher e a outra metade de cauda de peixe (ou, em algumas versões mais antigas e obscuras, de serpente), penteando os seus longos cabelos com um pente de ouro.
3. A Essência da Lenda
O surgimento específico desta figura está ligado à ideia de tentação e castigo. A história mais comum conta que um pescador ou um jovem da aldeia avista a criatura num pôr do sol. Ela oferece-lhe riquezas ou amores eternos se ele conseguir quebrar o seu desencanto (geralmente através de um beijo ou de uma prova de coragem). O medo humano acaba por prevalecer, o desencanto falha, e a sereia mergulha de volta mar, deixando um rasto de espuma e, por vezes, uma maldição ou uma saudade eterna no coração de quem a viu.
Curiosidade: No Minho, o mito também se cruza com a religiosidade. Existem histórias onde estas criaturas são vistas como "almas penadas" que procuram a redenção através de quem reza por elas à beira-mar.
Quando surgiu?
É um reflexo perfeito da alma minhota: um pouco de tragédia, muita beleza e um respeito enorme pelo oceano.
Determinar uma data exata para o surgimento de um mito oral é como tentar segurar água com as mãos, mas podemos rastrear a "cronologia da existência" da Sereia do Minho através de camadas históricas.
A lenda, tal como a conhecemos hoje, consolidou-se entre os séculos XVI e XIX, mas as suas raízes são muito mais profundas.
1. A Raiz Pré-Romana (Antiguidade)
Embora não houvesse o conceito de "sereia" (mulher-peixe) como temos hoje, as populações castrejas do Minho já adoravam divindades aquáticas.
Século I a.C. / I d.C.: A influência de divindades como Durbedo (deus do rio Douro) ou ninfas locais criaram o terreno fértil para figuras femininas ligadas à água. O mito da "Moura Encantada" nasce aqui, antes de se tornar "sereia".
2. A Idade Média (Séculos XII a XV)
É nesta época que o mito ganha contornos morais e religiosos. Com a expansão do Cristianismo, as antigas divindades pagãs foram transformadas em seres "encantados" ou "amaldiçoados". É provável que a variante da Sereia de Afife tenha começado a divergir das lendas de terra firme nesta altura, à medida que as comunidades costeiras do Minho se tornavam mais dependentes da pesca e do comércio marítimo.
3. A Época dos Descobrimentos (Séculos XV e XVI)
Este é o período crucial de transição.
Os marinheiros portugueses que viajavam para o Atlântico Sul e para as Índias traziam relatos de "manatins" e "dugongos", que juravam ser sereias. A iconografia da sereia clássica (com pente e espelho) infiltrou-se no imaginário popular do Minho através da literatura de cordel e dos relatos de marinhagem que chegavam a portos como Viana do Castelo.
4. A Fixação Literária (Século XIX)
Foi no século XIX que a lenda da Sereia do Minho foi finalmente "cristalizada".
Com o movimento do Romantismo, escritores e folcloristas (como Teófilo Braga ou Rocha Peixoto) começaram a recolher as histórias orais das aldeias de pescadores.
Nesta época, a lenda deixou de ser apenas uma "superstição de pescador" para se tornar parte do património cultural e identidade regional do Minho.
Resumo da "Certidão de Nascimento
|
Época |
Estado do Mito |
|---|---|
|
Antiguidade. |
Divindades das águas e ninfas locais (Paganismo). |
|
Idade Média |
Transformação em "Moura Encantada" (Folclore). |
|
Séc. XVI |
Fusão com a imagem marítima da sereia (Influência dos Descobrimentos). |
|
Séc. XIX. |
Registo oficial e reconhecimento como "Mito do Minho" (Romantismo) |
Onde encontrar
Existem várias representações e curiosidades que ligam a figura da sereia ao património de Viana do Castelo e arredores. Embora as sereias sejam seres pagãos, elas aparecem frequentemente em contextos cristãos e civis devido à forte ligação desta terra com o mar.
Aqui estão os principais locais e formas onde pode encontrar estas figuras. É muito comum encontrar sereias esculpidas na talha dourada de igrejas barrocas e rococó do Minho.
1. A Igreja da Misericórdia (Viana do Castelo) é uma das joias do Barroco em Portugal. Nos seus retábulos de talha, é frequente a presença de figuras híbridas e mitológicas (seres com caudas de peixe ou folhagens) que serviam como elementos decorativos chamados "brutescos".
A Igreja da Misericórdia (s. XVI) e o Museu de Artes Decorativas guardam as representações visuais desta ligação ao mar. Na Igreja da Misericórdia, observe a talha dourada e os elementos decorativos do século XVI e XVII, onde figuras marítimas e híbridas estão integradas na arquitetura.
Igrejas do Alto Minho: Em muitos altares laterais de igrejas rurais da região, a sereia era usada como um símbolo de aviso contra a "tentação da carne" ou simplesmente como uma homenagem ao domínio dos mares.
2. O "Fóssil de Sereia" no Museu de Artes e Arqueologia
Museu de Artes Decorativas (frequentemente referido como Museu de Artes e Arqueologia) é o local ideal para explorar o espólio histórico que inclui curiosidades sobre o folclore local e a iconografia marinha da região.
Uma das curiosidades mais insólitas é a existência de um "fóssil de sereia" que esteve em exposição no Museu de Artes e Arqueologia de Viana do Castelo. Trata-se, na verdade, de uma peça de "arte bruta" ou uma montagem histórica curiosa, mas que demonstra como o mito estava entranhado na cultura local. Durante anos, alimentou a imaginação de quem visitava o museu, sendo uma representação física direta da crença popular.
3. O Chafariz da Praça da República (Séc. XVI)
O Chafariz da Praça da República serve como um ponto de referência histórico da era dos Descobrimentos, período em que a sereia se tornou um símbolo comum. As figuras esculpidas no chafariz renascentista mostram a estética da época que misturava o humano com o mitológico. Situa-se no centro cívico da cidade, rodeado por outros edifícios históricos que utilizam motivos marinhos na sua decoração. Embora as figuras centrais não sejam sereias "clássicas" com cauda de peixe, o chafariz monumental de Viana (concluído em 1559) possui figuras antropomórficas que vertem água. A estética desta época (Renascimento/Maneirismo) frequentemente misturava figuras humanas com elementos marinhos, refletindo o espírito dos Descobrimentos.
4. A Arte Contemporânea e a "Lavradeira Marinha"
A cidade continua a homenagear esta ligação:
Existem murais de azulejos recentes (como a Lavradeira de Viana em versão moderna) que por vezes fundem o traje típico de Viana com elementos marinhos.
No ateliê de artistas locais (como o conhecido Joaquim Pires, em Darque*), as sereias são um tema recorrente, criadas a partir de materiais recolhidos no mar, mantendo vivo o mito através da arte popular atual.
5. Afife: O Cenário Natural
A Serpente ou Sereia de Afife, é uma daquelas misturas fascinantes de folclore local, misticismo cristão e a relação profunda do povo minhoto com o mar e o Rio Minho. Em Afife, embora não haja uma estátua gigante de uma sereia, os habitantes apontam para as rochas à beira-mar como o local exato das aparições. O "monumento" aqui é a própria paisagem natural, que os locais preservam através da tradição oral. A Praia de Afife é o cenário natural por excelência da lenda, onde se acredita que a sereia aparecia sobre os rochedos. É um local de enorme beleza natural, conhecido pelas suas dunas e mar batido, ideal para compreender a origem do mito.
As rochas na zona norte da praia são frequentemente apontadas pela tradição oral como o lugar do "desencanto".
Joaquim Pires é um antigo pescador de Viana do Castelo que se tornou um reconhecido artista de arte bruta (ou arte popular) em Darque. Após passar mais de 40 anos no mar, especialmente na faina do bacalhau, ele dedica-se agora a transformar materiais reciclados e objetos encontrados na praia em esculturas vibrantes.
O seu trabalho é profundamente ligado ao imaginário marítimo do Minho, sendo as sereias uma das suas figuras mais icónicas e recorrentes.
Um detalhe curioso: o artista Joaquim Pires (que mencionámos em Darque) vive perto da foz do Lima, mas a sua arte "bruta" utiliza pedras e madeiras que muitas vezes foram trazidas pela corrente do rio desde as montanhas (como a Serra do Soajo) até ao mar. De certa forma, o material de que são feitas as suas sereias vem da serra.
Atelier Joaquim Pires é o espaço onde ele dá vida às suas criações, localizado no bairro dos pescadores em Darque.
Embora trabalhe num atelier improvisado de zinco, o seu talento já atravessou as fronteiras locais:
Joaquim Pires é frequentemente descrito como um "escultor de memórias e de sonhos", sendo uma figura viva que mantém as lendas e a cultura visual da Marinha do Minho presentes na atualidade através da arte.
:
É a figura mais importante. No seu monumento literário "Etnografia Portuguesa" e em "Religiões da Lusitânia", ele cataloga centenas de lendas de mouras. Leite de Vasconcelos foi o primeiro a teorizar que as "mouras" não têm nada a ver com os muçulmanos da invasão de 711. Para ele, são divindades pré-romanas (ninfas das águas ou deusas da terra) que foram "demonizadas" ou "mourificadas" pela Igreja Católica.
Embora seja historiador, Herculano interessou-se pelo folclore nas suas "Lendas e Narrativas". Ele ajudou a consolidar a imagem literária da moura encantada, misturando o rigor histórico com a tradição oral. Ele explora muito a figura da moura que vive em castelos e ruínas, algo muito comum no Alto Minho.
Contemporâneo de Leite de Vasconcelos, escreveu "Tradições Populares Portuguesas". Focou-se na estrutura do conto popular. É a melhor fonte para entender os padrões das rezas e dos castigos (como o ouro que vira carvão). Ele analisa a moura como um ser mitológico europeu, comparando-a com as fadas e as "banshees".
Em "O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições", o antigo Presidente da República e folclorista dedicou capítulos inteiros a estes seres. Teófilo Braga via as mouras como uma sobrevivência do animismo dos povos galaicos e lusitanos. No Minho, ele destaca a ligação das mouras com a fiação (o fuso e a roca) como um símbolo do destino.
Este autor é crucial pois era de Viana do Castelo e focou-se especificamente na etnografia minhota. Escreveu na revista "Lusa" e na "Revista de Guimarães". Ele estudou as particularidades do falar minhoto nas rezas de desencanto e a relação específica das mouras com os Penedos e as Citânias (como a de Briteiros ou Santa Luzia).
Autor da famosa "Lenda de Portugal" (uma coleção de vários volumes). É uma leitura mais acessível e narrativa. Ele reconta as lendas do Soajo, da Peneda e de Arcos de Valdevez de uma forma literária, ideal para quem quer conhecer a história "romanceada" sem o peso académico.
"Nu Descendo uma Escada, nº 2" (francês: Nu descendant un escalier n° 2) é uma pintura feita em 1912 por Marcel Duchamp. O trabalho é amplamente considerado como um clássico modernista e se tornou um dos mais famosos de seu tempo. Antes de sua primeira apresentação no Salon des Indépendants em Paris em 1912, ela foi rejeitada pelos cubistas como sendo demasiadamente futurista. No entanto, foi exibida juntamente com o mesmo grupo na Galeries J. Dalmau, Exposicion d'art cubista, em Barcelona, de 20 de abril à 10 de maio de 1912, posteriormente causando um grande rebuliço durante sua exposição no Armory Show em Nova Iorque em 1913. Nu Descendo uma Escada, nº 2 encontra-se agora em permanente exposição no The Louise and Walter Arensberg Collection no Museu de Arte da Filadélfia, na Filadélfia.
Foi com esta obra que Gerhard Richter se inspirou para, a partir duma fotografia, produzir a famosa obra "Nu descendo uma escada (B)” (Ema – Akt auf einer Treppe), pintada em 1966 (em baixo)
A pintura é rica em significados e sugere várias camadas de interpretação:
A obra é uma resposta direta ao quadro futurista/cubista de Marcel Duchamp (Nu descendo uma escada, nº 2, 1912). Enquanto Duchamp fragmentou o movimento em formas geométricas, Richter utiliza a fotografia como base para humanizar o tema, trazendo-o de volta ao realismo, mas de uma forma distorcida.
O Google está dominado por gente tão obscurantista que me impede de partilhar a imagem. Contudo, publico um link e mostro uma fotografia do écran de pesquisa para entenderem melhor o que estou a dizer. Há imagens que alteram a obra cobrindo-a com plástico (?). Este é um bom exemplo da censura a que estamos sujeitos, não conseguindo o algoritmo, ou quem o coordena,distinguir entre o que é pornografia e o que é uma obra de arte, mundialmente reconhecida. A obra a que me refiro é a primeira imagem com um observador à direita.
Contudo, podem procurar neste site:
https://www.artgallery.nsw.gov.au/collection/works/14.1993/
Richter é mestre em pintar a partir de fotografias e depois passar um rodo ou pincel seco sobre a tinta fresca. Esse efeito sugere:
A obra questiona a objetividade da imagem. Ao pintar algo para parecer uma foto mal focada, Richter sugere que nem a pintura nem a fotografia podem capturar a "verdade" absoluta de um momento. A realidade é sempre algo filtrado, fluido e, por vezes, inacessível.
Gerhard Richter é um dos artistas mais fascinantes do século XX justamente por essa relação ambígua com a fotografia.
Para entender o que ele estava tentando fazer, imagine que ele agia como um "filtro humano". Ele não queria apenas copiar uma foto; ele queria questionar por que confiamos tanto nelas.
Richter começou a usar fotos de jornais, álbuns de família e revistas nos anos 60. Para ele, a fotografia era uma forma de distanciamento:
Ele pintava a cena com precisão fotográfica e, enquanto a tinta ainda estava molhada, passava um pincel macio ou um rodo sobre a tela. Isso criava:
Pintar a partir de fotos teve um peso político enorme na Alemanha do pós-guerra:
Richter manteve uma coleção gigante de recortes de fotos, esboços e diagramas chamada "Atlas". É um arquivo visual que ele usou durante décadas para decidir o que transformar em pintura.
Resumindo: Para Richter, a pintura não serve para mostrar o que vemos, mas para mostrar como vemos: de forma imperfeita, mediada pela tecnologia e sempre sujeita ao esquecimento.
A Beat Generation foi um movimento literário e cultural que surgiu nos Estados Unidos no final da década de 1940 e floresceu nos anos 50. Eles foram os rebeldes originais do pós-guerra, questionando o "sonho americano" de consumo desenfreado e conformismo social.
Se imaginas um poeta num café enfumaçado, vestindo preto e falando sobre o sentido da vida ao som de jazz, então estás visualizando o estereótipo (os "beatniks") que nasceu desse movimento.
A essência "Beat" (termo que remete tanto a "abatido/cansado" quanto a "beatitude/sagrado") baseava-se nalguns pontos centrais:
Embora o grupo fosse grande, três nomes definiram o movimento:
|
Autor |
Obra Principal |
Impacto |
|---|---|---|
|
Jack Kerouac |
On the Road (Pé na Estrada) |
O "bíblia" do movimento; celebrou a viagem, a amizade e a busca pela experiência pura. |
|
Allen Ginsberg |
Howl (Uivo) |
Um poema épico que denunciou a destruição das mentes brilhantes pela sociedade industrial. |
|
William S. Burroughs |
Naked Lunch (Almoço Nu) |
Uma exploração crua e surrealista sobre vício, controle e paranoia. |
A Beat Generation não ficou presa aos livros. Ela foi a ponte direta para a Contracultura dos anos 60. Sem os Beats, provavelmente não teríamos tido o movimento Hippie, a revolução sexual ou a evolução do Rock n' Roll (Bob Dylan e os Beatles eram fãs declarados).
"A única gente que me interessa é a gente louca, demente por viver, demente por falar, demente por ser salva." — Jack Kerouac
Embora a Beat Generation tenha sido um fenômeno essencialmente americano (liderado por Kerouac, Ginsberg e Burroughs), o seu espírito de rebeldia, experimentação e busca por novos estados de consciência atravessou o Atlântico.
Em Portugal, o movimento não existiu como uma "escola" formal, mas influenciou profundamente poetas que lutavam contra o conservadorismo da ditadura e o formalismo literário da época.
Aqui estão os nomes que melhor capturaram essa energia "beat" em terras lusas:
Cesariny é a figura central. Embora seja o rosto do Surrealismo em Portugal, a sua vida e obra partilham o DNA Beat: a deriva urbana, a homossexualidade vivida sem filtros (numa época em que era crime) e a escrita automática.
Herberto partilha com Allen Ginsberg a visão da poesia como um ritual ou uma incantação. A sua escrita é visceral, física e muitas vezes hermética, mas carregada de uma eletricidade que lembra o frenesim beatnik.
Uma das vozes mais disruptivas do grupo Poesia 61. Ela utilizava o humor, a ironia e uma "desarrumação" da linguagem que quebrava com a lírica tradicional portuguesa.
Morreu muito jovem, mas deixou uma obra marcada pelo esoterismo e pela vivência de uma realidade "para além do visível". O seu desprendimento das normas sociais aproxima-o muito da busca espiritual dos Beats.
Portugal vivia sob a censura do Estado Novo. Enquanto os Beats americanos podiam berrar "Howl" (Uivo) em galerias de São Francisco, os poetas portugueses tinham de usar a metáfora e a subtileza para escapar à PIDE. A "viagem" beat em Portugal foi mais interior e metafórica do que física e pública.
"A poesia não se faz para ninguém, faz-se contra toda a gente."
— Mário Cesariny
Análise das as semelhanças com a escrita de Jack Kerouac ou Allen Ginsberg
Para esta comparação, não há escolha mais certeira do que Mário Cesariny. Ele foi o que mais se aproximou da "poesia de rua", da performance e do desabafo visceral que define o movimento Beat.
Vamos olhar para um dos seus poemas mais emblemáticos e compará-lo com a energia de Allen Ginsberg.
“Entre nós e as palavras, há metal espesso
entre nós e as palavras, há frestas de sangue
fabricam-se moedas de ouro e de papel
escrituras de fumo onde o tempo se perde
e o que se diz é sempre o que se cala
e o que se quer é sempre o que se esquece”
|
Característica |
Mário Cesariny |
Allen Ginsberg (em Howl) |
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|---|---|---|---|---|
|
O Inimigo |
A "família burguesa", a PIDE e o cinzento da ditadura. |
O "Moloch", o capitalismo e a conformidade americana. |
||
|
A Linguagem |
Fragmentada. Usa o choque de imagens para acordar o leitor. |
Torrencial. Usa longas linhas de sopro para exaurir o fôlego. |
||
|
O Tema |
A impossibilidade de comunicar num mundo vigiado ("metal espesso"). |
A destruição das "melhores mentes da minha geração". |
||
|
A Atitude |
O poeta como um vagabundo das ruas de Lisboa. |
|
A diferença fundamental: Enquanto Ginsberg berra o seu "Uivo" para o mundo, Cesariny escreve com a consciência de que há "metal espesso" entre ele e os outros — uma barreira de silêncio imposta pelo tempo em que viveu.
Se Cesariny era a rua e o jazz, Herberto Helder era o laboratório alquímico e o transe. Enquanto os Beats americanos buscavam a "expansão da consciência" através de substâncias e do budismo Zen, Herberto fazia-o através de uma obsessão quase biológica pela linguagem.
Aqui está a ponte entre o "maior poeta português da segunda metade do século XX" e a vertente mística da Beat Generation:
“Misturo as mãos nos cabelos das imagens.
Tudo é o que eu digo.
Se digo: sol, o sol espanta-se e nasce.
Se digo: as aves, as aves voam.
É um silêncio o mundo, um silêncio de faca,
e eu corto-o com a minha voz.”
Para os Beats (como Allen Ginsberg ou Michael McClure), a poesia era uma forma de bio-energia. Herberto Helder leva isto ao extremo:
William Burroughs (outro pilar Beat) usava a técnica do cut-up (cortar textos e baralhá-los) para encontrar novos significados. Herberto fazia algo semelhante, mas de forma orgânica: ele trabalhava e retrabalhava os seus poemas ao longo das décadas (na sua obra Poesia Toda), "emaranhando" as paisagens e as palavras até que o sentido original se perdesse numa explosão de imagens puras.
|
Elemento |
Beat Generation (EUA) |
Herberto Helder (PT) |
|---|---|---|
|
Objetivo |
Quebrar o "ego" e a norma social. |
Alcançar a "unidade primordial" da vida. |
|
Ferramenta |
Viagens, drogas, meditação. |
A própria matéria do poema (o verbo). |
|
Resultado |
Uma poesia de protesto e êxtase. |
Uma poesia de incandescência e mistério. |
"A poesia é para comer." — Uma frase famosa de Herberto que resume o espírito beat: a arte não é para contemplar, é para ser consumida e para transformar quem a lê.
A morte, para a Beat Generation e para a linhagem de Herberto Helder, não é um fim estático ou um funeral solene; é o "combustível" da própria vida. É a consciência da finitude que acelera o ritmo da escrita e da existência.
Vamos traçar esse paralelo existencialista entre a estrada americana e o abismo poético português:
Em On the Road, a morte está sempre no espelho retrovisor. Kerouac escrevia com uma urgência maníaca porque sentia que o tempo estava a esgotar-se.
Herberto não temia a morte no sentido burguês; ele via-a como uma transmutação alquímica. Para ele, o corpo que morre alimenta a terra, que faz crescer a flor, que vira poema.
|
Elemento |
Jack Kerouac (Beat) |
Herberto Helder (PT) |
|---|---|---|
|
Atitude |
Aceleração. Beber, correr, amar e escrever rápido para "vencer" o tempo. |
Intensificação. Escavar a palavra até encontrar o osso, o sangue e a raiz. |
|
A Morte é... |
Uma sombra que nos persegue na autoestrada. |
Um espelho onde a vida se reconhece como energia pura. |
|
O Legado |
"A única gente que me interessa é a gente louca..." |
"A morte é o fulgor de um estilo." |
Ambos partilham a ideia de que a arte só é real se for perigosa.
"Morrer é uma das formas de ser intensamente." — Esta frase poderia ter sido dita por Neal Cassady (o herói de Kerouac) ou escrita por Herberto num dos seus cadernos.
Curiosamente, tanto o "Beat tardio" (influenciado pelo Zen) como o "Herberto maduro" (influenciado pelos textos sagrados e pelo esoterismo) chegam à mesma conclusão: o "Eu" é uma ilusão. A morte é apenas o momento em que a gota de água volta para o oceano.
|
Recurso |
Função nos Beats |
Função em Herberto Helder |
|---|---|---|
|
Falta de Pontos |
Representa o movimento imparável da estrada e do pensamento espontâneo. |
Representa a unidade do cosmos, onde nada está separado e tudo flui. |
|
Enjambement (Quebra de verso) |
Cria um ritmo sincopado, como uma bateria de jazz. |
Cria uma vertigem, como se o leitor estivesse a cair dentro do poema. |
|
Uso de "E" |
Acumulação de experiências ("e vi isto, e fiz aquilo, e fui ali"). |
Acumulação de imagens místicas ("e a mão, e o fogo, e o bicho"). |
pegasse numa outra preocupação da lista — por exemplo, a Solidão na Era Digital — e criasse um pequeno "guião de performance" ao estilo das leituras públicas de Mário Cesariny?
Para este guião, vamos invocar o espírito de Mário Cesariny. Imagine um palco escuro, apenas uma luz crua sobre uma cadeira, um cinzeiro e um copo de água (ou vinho). A leitura de Cesariny não era polida; era hesitante, explosiva, cheia de pausas dramáticas e sotaque lisboeta arrastado.
O tema é a Solidão Digital, tratada como se fosse um monólogo surrealista de 1960 projetado em 2026.
(O Ator entra, senta-se, olha para um smartphone como se fosse um inseto estranho)
[Início da Leitura]
"Meus senhores...
(Pausa longa, olha para a audiência com desdém)
Há um peixe de luz azul a comer-nos o rosto.
Estou aqui, ou estou ali, naquele retângulo de vidro?
(Bate com o nó dos dedos na mesa)
Entre mim e o vizinho, há um satélite.
Entre a minha mão e a tua coxa, há um algoritmo a contar os batimentos do tédio.
Estamos todos...
(Gesticula vagamente circular)
...terrivelmente ligados por fios que não se veem.
Uma rede de pesca onde o pescador também é o peixe.
(Ri-se baixinho, uma risada seca)
Olhem para as vossas mãos!
(Grita subitamente)
São mãos ou são extensões de plástico?
Lisboa está cheia de gente a olhar para baixo,
à procura de um coração que faça 'clique',
à procura de uma alma com sinal de Wi-Fi.
(Levanta-se e caminha pelo palco)
A solidão, meus caros, já não é um deserto.
A solidão agora é uma multidão de fantasmas a carregar baterias.
Estamos sós... mas com notificações.
Estamos sós... mas com cinco mil amigos de fumo.
É o surrealismo total!
Dalí teria medo deste espelho que nos rouba o reflexo e nos devolve publicidade a sapatos!"
(Lança o smartphone para dentro de um balde de água — ou finge que o faz)
"Boa noite.
O último a sair... que apague o ecrã."