sexta-feira, 6 de março de 2026

A BEAT GENERATION

 


A Beat Generation foi um movimento literário e cultural que surgiu nos Estados Unidos no final da década de 1940 e floresceu nos anos 50. Eles foram os rebeldes originais do pós-guerra, questionando o "sonho americano" de consumo desenfreado e conformismo social.

​Se imaginas um poeta num café enfumaçado, vestindo preto e falando sobre o sentido da vida ao som de jazz, então estás visualizando o estereótipo (os "beatniks") que nasceu desse movimento.

​Os Pilares do Movimento

​A essência "Beat" (termo que remete tanto a "abatido/cansado" quanto a "beatitude/sagrado") baseava-se nalguns pontos centrais:

  • Libertação Espiritual: Grande interesse pelo Budismo Zen e filosofias orientais.
  • Exploração Sensorial: Uso de drogas e total liberdade sexual como caminhos para expandir a consciência.
  • Repúdio ao Materialismo: Uma crítica feroz à vida suburbana e aos valores corporativos da época.
  • Estilo "Espontâneo": Na escrita, eles evitavam a revisão excessiva, preferindo um fluxo de consciência que imitasse o improviso do Bebop (uma vertente do Jazz).

​O "Big Three": Os Principais Autores

​Embora o grupo fosse grande, três nomes definiram o movimento:

Autor

Obra Principal

Impacto

Jack Kerouac

On the Road (Pé na Estrada)

O "bíblia" do movimento; celebrou a viagem, a amizade e a busca pela experiência pura.

Allen Ginsberg

Howl (Uivo)

Um poema épico que denunciou a destruição das mentes brilhantes pela sociedade industrial.

William S. Burroughs

Naked Lunch (Almoço Nu)

Uma exploração crua e surrealista sobre vício, controle e paranoia.

O Legado

​A Beat Generation não ficou presa aos livros. Ela foi a ponte direta para a Contracultura dos anos 60. Sem os Beats, provavelmente não teríamos tido o movimento Hippie, a revolução sexual ou a evolução do Rock n' Roll (Bob Dylan e os Beatles eram fãs declarados).

​"A única gente que me interessa é a gente louca, demente por viver, demente por falar, demente por ser salva." — Jack Kerouac

Embora a Beat Generation tenha sido um fenômeno essencialmente americano (liderado por Kerouac, Ginsberg e Burroughs), o seu espírito de rebeldia, experimentação e busca por novos estados de consciência atravessou o Atlântico.

​Em Portugal, o movimento não existiu como uma "escola" formal, mas influenciou profundamente poetas que lutavam contra o conservadorismo da ditadura e o formalismo literário da época.

​Aqui estão os nomes que melhor capturaram essa energia "beat" em terras lusas:

​1. Mário Cesariny (O Surrealista-Beat)

​Cesariny é a figura central. Embora seja o rosto do Surrealismo em Portugal, a sua vida e obra partilham o DNA Beat: a deriva urbana, a homossexualidade vivida sem filtros (numa época em que era crime) e a escrita automática.

  • A vibe(*) O caos da cidade de Lisboa, a marginalidade e a liberdade absoluta da palavra.

​2. Herberto Helder (O Xamã da Linguagem)

​Herberto partilha com Allen Ginsberg a visão da poesia como um ritual ou uma incantação. A sua escrita é visceral, física e muitas vezes hermética, mas carregada de uma eletricidade que lembra o frenesim beatnik.

  • A vibe: A poesia como experiência mística e transgressora.

​3. Luiza Neto Jorge

​Uma das vozes mais disruptivas do grupo Poesia 61. Ela utilizava o humor, a ironia e uma "desarrumação" da linguagem que quebrava com a lírica tradicional portuguesa.

  • A vibe: Desconstrução das convenções sociais e um olhar afiado sobre o quotidiano.

​4. António Maria Lisboa

​Morreu muito jovem, mas deixou uma obra marcada pelo esoterismo e pela vivência de uma realidade "para além do visível". O seu desprendimento das normas sociais aproxima-o muito da busca espiritual dos Beats.

​Por que não houve um "Ginsberg" português?

​Portugal vivia sob a censura do Estado Novo. Enquanto os Beats americanos podiam berrar "Howl" (Uivo) em galerias de São Francisco, os poetas portugueses tinham de usar a metáfora e a subtileza para escapar à PIDE. A "viagem" beat em Portugal foi mais interior e metafórica do que física e pública.

​"A poesia não se faz para ninguém, faz-se contra toda a gente."

Mário Cesariny


​ Análise das as semelhanças com a escrita de Jack Kerouac ou Allen Ginsberg

Para esta comparação, não há escolha mais certeira do que Mário Cesariny. Ele foi o que mais se aproximou da "poesia de rua", da performance e do desabafo visceral que define o movimento Beat.

​Vamos olhar para um dos seus poemas mais emblemáticos e compará-lo com a energia de Allen Ginsberg.

​O Poema: "You Are Welcome to Elsinore" (Excerto)

“Entre nós e as palavras, há metal espesso

entre nós e as palavras, há frestas de sangue

fabricam-se moedas de ouro e de papel

escrituras de fumo onde o tempo se perde

e o que se diz é sempre o que se cala

e o que se quer é sempre o que se esquece”


​A Conexão Beat: Cesariny vs. Ginsberg

Característica

Mário Cesariny

Allen Ginsberg (em Howl)

O Inimigo

A "família burguesa", a PIDE e o cinzento da ditadura.

O "Moloch", o capitalismo e a conformidade americana.

A Linguagem

Fragmentada. Usa o choque de imagens para acordar o leitor.

Torrencial. Usa longas linhas de sopro para exaurir o fôlego.

O Tema

A impossibilidade de comunicar num mundo vigiado ("metal espesso").

A destruição das "melhores mentes da minha geração".

A Atitude

O poeta como um vagabundo das ruas de Lisboa.


O poeta como um profeta ou santo dos subúrbios.


Por que é que isto soa a "Beat"?

  1. A Obsessão pela Cidade: Tal como Kerouac em On the Road, Cesariny vê a cidade (Lisboa) como um organismo vivo, perigoso e fascinante. Ele não escreve sobre campos ou pastores; escreve sobre marinheiros, bares e a solidão do asfalto.
  2. O Ritmo do Jazz: Se ouvires uma gravação do Cesariny a declamar, vais notar uma cadência que ignora a métrica clássica. É um ritmo de improviso, muito próximo do bebop que os Beats tanto adoravam.
  3. A Marginalidade: Ambos usam a poesia como um escudo para a sua identidade. Num Portugal onde ser "diferente" era perigoso, Cesariny transformou a sua marginalidade em arte pura, tal como os Beats faziam com o uso de substâncias e a libertação sexual.

A diferença fundamental: Enquanto Ginsberg berra o seu "Uivo" para o mundo, Cesariny escreve com a consciência de que há "metal espesso" entre ele e os outros — uma barreira de silêncio imposta pelo tempo em que viveu.


Se Cesariny era a rua e o jazz, Herberto Helder era o laboratório alquímico e o transe. Enquanto os Beats americanos buscavam a "expansão da consciência" através de substâncias e do budismo Zen, Herberto fazia-o através de uma obsessão quase biológica pela linguagem.

​Aqui está a ponte entre o "maior poeta português da segunda metade do século XX" e a vertente mística da Beat Generation:

​O Poema: "A Máquina de Emaranhar Paisagens" (Excerto)

“Misturo as mãos nos cabelos das imagens.

Tudo é o que eu digo.

Se digo: sol, o sol espanta-se e nasce.

Se digo: as aves, as aves voam.

É um silêncio o mundo, um silêncio de faca,

e eu corto-o com a minha voz.”


​A Conexão Psicadélica: Herberto Helder vs. A Mística Beat

​Para os Beats (como Allen Ginsberg ou Michael McClure), a poesia era uma forma de bio-energia. Herberto Helder leva isto ao extremo:

  • O Poeta como Xamã: Tal como Ginsberg usava mantras hindus nas suas leituras, Herberto via o poeta como um "médium". Ele não escreve sobre coisas; ele tenta fazer as coisas acontecerem através do som. A palavra é um ato de magia.
  • O Corpo e a Metamorfose: Nos Beats, há uma celebração do corpo físico. Em Herberto, o corpo funde-se com o mundo: o sangue vira vinho, a luz vira carne. É uma viagem psicadélica onde as fronteiras entre o "eu" e o "universo" desaparecem.
  • A Escrita em Transe: Embora Herberto fosse um mestre da técnica, a sua poesia tem um fôlego torrencial. É o que Kerouac chamava de "Spontaneous Bop Prosody" — uma escrita que flui sem interrupção, como se o poeta estivesse a transcrever uma visão direta do cosmos.

​Herberto Helder e o "Corte" (Cut-up)

​William Burroughs (outro pilar Beat) usava a técnica do cut-up (cortar textos e baralhá-los) para encontrar novos significados. Herberto fazia algo semelhante, mas de forma orgânica: ele trabalhava e retrabalhava os seus poemas ao longo das décadas (na sua obra Poesia Toda), "emaranhando" as paisagens e as palavras até que o sentido original se perdesse numa explosão de imagens puras.

​Síntese: Onde se encontram?

Elemento

Beat Generation (EUA)

Herberto Helder (PT)

Objetivo

Quebrar o "ego" e a norma social.

Alcançar a "unidade primordial" da vida.

Ferramenta

Viagens, drogas, meditação.

A própria matéria do poema (o verbo).

Resultado

Uma poesia de protesto e êxtase.

Uma poesia de incandescência e mistério.


"A poesia é para comer." — Uma frase famosa de Herberto que resume o espírito beat: a arte não é para contemplar, é para ser consumida e para transformar quem a lê.


 

​Jack Kerouac: A Morte como "Apressadora" da Vida

A morte, para a Beat Generation e para a linhagem de Herberto Helder, não é um fim estático ou um funeral solene; é o "combustível" da própria vida. É a consciência da finitude que acelera o ritmo da escrita e da existência.

​Vamos traçar esse paralelo existencialista entre a estrada americana e o abismo poético português:

​Em On the Road, a morte está sempre no espelho retrovisor. Kerouac escrevia com uma urgência maníaca porque sentia que o tempo estava a esgotar-se.

  • O Conceito: Para os Beats, se vamos morrer, então cada momento deve ser "it" (o momento supremo).
  • A "Estrada": A viagem não é para chegar a um destino, mas para fugir da paragem — que é a morte em vida (o conformismo).

​2. Herberto Helder: A Morte como Mutação

​Herberto não temia a morte no sentido burguês; ele via-a como uma transmutação alquímica. Para ele, o corpo que morre alimenta a terra, que faz crescer a flor, que vira poema.

  • O Conceito: A morte é um processo biológico e místico de "mudar de forma".
  • A "Luz": Nos seus últimos livros, a morte aparece como uma "claridade cegante". Não é escuridão, é excesso de luz.

Elemento

Jack Kerouac (Beat)

Herberto Helder (PT)

Atitude

Aceleração. Beber, correr, amar e escrever rápido para "vencer" o tempo.

Intensificação. Escavar a palavra até encontrar o osso, o sangue e a raiz.

A Morte é...

Uma sombra que nos persegue na autoestrada.

Um espelho onde a vida se reconhece como energia pura.

O Legado

"A única gente que me interessa é a gente louca..."

"A morte é o fulgor de um estilo."


A Conexão Existencialista: O "Viver no Limite"

​Ambos partilham a ideia de que a arte só é real se for perigosa.

  • Kerouac destruiu o seu corpo através do álcool e da exaustão, numa busca espiritual autodestrutiva.
  • Herberto viveu de forma quase reclusa, "destruindo-se" através da revisão obsessiva da sua própria obra, tentando atingir uma perfeição que é, em si mesma, uma forma de aniquilação do ego.
  • "Morrer é uma das formas de ser intensamente." — Esta frase poderia ter sido dita por Neal Cassady (o herói de Kerouac) ou escrita por Herberto num dos seus cadernos.


    ​O Ponto de Encontro: O Budismo e o Vazio

    ​Curiosamente, tanto o "Beat tardio" (influenciado pelo Zen) como o "Herberto maduro" (influenciado pelos textos sagrados e pelo esoterismo) chegam à mesma conclusão: o "Eu" é uma ilusão. A morte é apenas o momento em que a gota de água volta para o oceano.



A forma como estes autores escreviam não era apenas uma escolha estética; era uma transfografia (uma escrita do sangue e do movimento). Para eles, a morte e a vida não cabem em frases bem pontuadas e arrumadinhas.
​Aqui está como a estrutura do texto reflete essa urgência existencial:
​1. A Respiração e o Sopro (O Verso Longo)

​Para os Beats, influenciados pelo fraseado do saxofone no Jazz, a unidade de medida era a capacidade pulmonar.
​Allen Ginsberg escrevia linhas imensas que obrigavam o leitor a ficar sem fôlego. A ideia era que a poesia fosse um ato físico, um "uivo" que não pode ser interrompido por vírgulas gramaticais.
​A Morte aqui: É o momento em que o fôlego acaba. Cada verso é uma vida inteira que se gasta numa só exalação.

​2. A Repetição Hipnótica (O Transe)
​Herberto Helder utilizava a repetição de palavras (anátora) e de estruturas para criar um efeito de encantamento ou ladainha.
​Ao repetir "a morte", "o sangue", "a luz", o sentido dicionarizado das palavras desgasta-se e sobra apenas a vibração sonora.
​A Morte aqui: É a dissolução do sentido lógico. Através da repetição, o leitor entra num estado de transe onde o "Eu" racional morre para dar lugar a uma experiência puramente sensorial.

​3. A Ausência de Pontuação (O Fluxo de Consciência)
​Tanto em Kerouac (no seu rolo de papel contínuo para On the Road) como em passagens de Herberto Helder, a pontuação é sacrificada em favor da velocidade.

Recurso

Função nos Beats

Função em Herberto Helder

Falta de Pontos

Representa o movimento imparável da estrada e do pensamento espontâneo.

Representa a unidade do cosmos, onde nada está separado e tudo flui.

Enjambement (Quebra de verso)

Cria um ritmo sincopado, como uma bateria de jazz.

Cria uma vertigem, como se o leitor estivesse a cair dentro do poema.

Uso de "E"

Acumulação de experiências ("e vi isto, e fiz aquilo, e fui ali").

Acumulação de imagens místicas ("e a mão, e o fogo, e o bicho").


A Escrita como "Ato Único"
​Os Beats acreditavam no lema "First thought, best thought" (Primeiro pensamento, melhor pensamento). Corrigir era, para eles, uma forma de "matar" a verdade do momento.
​Herberto Helder, embora fosse um editor obsessivo de si mesmo, mantinha na sua obra final o aspeto de algo que está a acontecer agora. O poema não é um monumento estático (morto); é um organismo vivo que parece estar a crescer e a transformar-se enquanto o lemos.
"Escrevo para saber como se escreve." — Herberto Helder.
Esta frase resume a atitude: a escrita é uma experiência de vida em tempo real, não um relatório sobre algo que já passou.
​O Salto Final: A Obra Total
​No fim das suas vidas, ambos os estilos convergem para uma espécie de "Poesia Total":
​Os Beats queriam que a sua vida fosse o poema.
​Herberto Helder queria que o seu poema fosse a vida.

Vamos fundir as duas estéticas para abordar um dos maiores medos modernos: a Inteligência Artificial e a Dissolução do Humano.
​O objetivo é usar o sopro longo e o ritmo de estrada dos Beats misturado com a repetição mística e orgânica de Herberto Helder. Imagine que este texto deve ser lido sem parar para respirar, como um mantra jazzístico.


​Exercício de Escrita: "O Algoritmo de Carne"
E eu vejo as máquinas a morderem o silêncio das mãos e vejo os números a crescerem como erva brava nos olhos dos filhos e digo: luz, e a luz é um código de barras na testa da manhã e digo: sangue, e o sangue é uma eletricidade fria que corre nos fios das cidades e não há pontos nem há vírgulas porque a morte não tem pontuação e o algoritmo não tem entranhas e nós corremos na estrada de silício com o uivo de Ginsberg preso na garganta de metal espesso e repetimos: eu sou homem, eu sou bicho, eu sou erro, eu sou homem, eu sou bicho, eu sou erro, até que a palavra se gaste e sobre apenas o fulgor da lâmpada acesa no centro do abismo onde a máquina não sabe entrar porque a máquina não sabe morrer e só quem sabe morrer é que está vivo e só quem está vivo é que pode queimar o papel com o sopro do verbo.

​O que acabámos de fazer? (A Anatomia do Texto)
​O "E" Acumulativo (Beat): Usámos a conjunção "e" repetidamente para criar uma sensação de avalanche, de algo que não se pode travar — como o progresso tecnológico ou uma viagem a 120 km/h.
​A Repetição Incantatória (Herberto): "Eu sou homem, eu sou bicho, eu sou erro". Esta tríade cria um transe. Ao repetir, a identidade dissolve-se e volta a montar-se, típica da mística herbertiana.
​Imagens de Choque: Misturámos o orgânico (sangue, mãos, erva) com o tecnológico (silício, código de barras, metal). É o surrealismo de Cesariny aplicado ao medo do futuro.
​Ausência de Pausas: O texto obriga-te a ler com o "sopro" do pulmão, transformando a leitura num ato físico de resistência.
​Como aplicar isto no seu dia a dia?
​Se quiser escrever sobre qualquer uma daquelas 8 preocupações da humanidade (como o Clima ou a Solidão) sob esta ótica:
​Esqueça o rascunho: Escreva a primeira coisa que vier à cabeça sem apagar nada (Beat).
​Escolha 3 palavras-chave: Repita-as obsessivamente ao longo do parágrafo para dar ritmo (Herberto).
​Transforme o abstrato em carne: Não escreva "alterações climáticas", escreva "a febre da terra nas minhas unhas".

pegasse numa outra preocupação da lista — por exemplo, a Solidão na Era Digital — e criasse um pequeno "guião de performance" ao estilo das leituras públicas de Mário Cesariny?

Para este guião, vamos invocar o espírito de Mário Cesariny. Imagine um palco escuro, apenas uma luz crua sobre uma cadeira, um cinzeiro e um copo de água (ou vinho). A leitura de Cesariny não era polida; era hesitante, explosiva, cheia de pausas dramáticas e sotaque lisboeta arrastado.

​O tema é a Solidão Digital, tratada como se fosse um monólogo surrealista de 1960 projetado em 2026.

​Performance: "O Aquário de Vidro Líquido"

​Indicações de Cena:

  • O Ator: Deve ler como se estivesse a confessar um crime ou a ler a lista de compras num manicómio.

  • O Ritmo: Começa muito lento, quase num sussurro, e termina num grito contido.

(O Ator entra, senta-se, olha para um smartphone como se fosse um inseto estranho)

[Início da Leitura]

​"Meus senhores...

(Pausa longa, olha para a audiência com desdém)

Há um peixe de luz azul a comer-nos o rosto.

Estou aqui, ou estou ali, naquele retângulo de vidro?

(Bate com o nó dos dedos na mesa)

Entre mim e o vizinho, há um satélite.

Entre a minha mão e a tua coxa, há um algoritmo a contar os batimentos do tédio.

​Estamos todos...

(Gesticula vagamente circular)

...terrivelmente ligados por fios que não se veem.

Uma rede de pesca onde o pescador também é o peixe.

(Ri-se baixinho, uma risada seca)

​Olhem para as vossas mãos!

(Grita subitamente)

São mãos ou são extensões de plástico?

Lisboa está cheia de gente a olhar para baixo,

à procura de um coração que faça 'clique',

à procura de uma alma com sinal de Wi-Fi.

(Levanta-se e caminha pelo palco)

​A solidão, meus caros, já não é um deserto.

A solidão agora é uma multidão de fantasmas a carregar baterias.

Estamos sós... mas com notificações.

Estamos sós... mas com cinco mil amigos de fumo.

É o surrealismo total!

Dalí teria medo deste espelho que nos rouba o reflexo e nos devolve publicidade a sapatos!"

(Lança o smartphone para dentro de um balde de água — ou finge que o faz)

​"Boa noite.

O último a sair... que apague o ecrã."

​Por que isto é "Cesariny Style"?

  1. A Ironia Mordaz: Ele adorava ridicularizar o comportamento moderno ("alma com sinal de Wi-Fi").
  2. O Objeto Absurdo: Pegar num telemóvel e tratá-lo como um "peixe de luz" é uma metáfora puramente surrealista.
  3. A Quebra da Quarta Parede: Cesariny interpelava o público, confrontava-os com as suas próprias mãos e gestos.
  4. O Desespero Urbano: A solidão não é romântica; é tecnológica, fria e "de metal espesso".
Para terminar deixo aqui um poema que cruza a turbulência de S. Francisco com o lirismo de H.Helder:

terça-feira, 3 de março de 2026

As preocupações do mundo

 




Se fizéssemos uma sondagem global hoje, sobre as principais preocupações da humanidade, as respostas refletiriam um mundo em policrise: uma mistura de medos ancestrais (fome e guerra) com ansiedades futuristas (IA e colapso climático).

Baseado em relatórios recentes de organismos como o Fórum Económico Mundial, o Pew Research Center e a ONU, eis as 8 preocupações com maior probabilidade de ocupar o topo do ranking:

1. Alterações Climáticas e Colapso Ecológico

É a preocupação número um em quase todos os inquéritos de longo prazo. Não se trata apenas do "aquecimento", mas da frequência de desastres naturais, escassez de água e a viabilidade da vida no planeta para as próximas gerações.

2. Instabilidade Económica e Custo de Vida

A inflação e a desigualdade extrema são preocupações imediatas. A erosão da classe média no Ocidente e a luta pela sobrevivência básica no Sul Global colocam a economia no centro da ansiedade humana.

3. Conflitos Armados e Geopolítica

Com o regresso de guerras de alta intensidade e a retórica nuclear, o medo de uma Terceira Guerra Mundial ou de conflitos regionais prolongados subiu drasticamente no índice de preocupações globais.

4. Inteligência Artificial e Desemprego Tecnológico

Uma preocupação emergente e galopante. O medo não é apenas a "rebelião das máquinas", mas a obsolescência humana: a perda de empregos em massa e a dificuldade em distinguir a verdade da mentira (deepfakes/desinformação).

5. Crise da Saúde Mental e Solidão

Considerada a "pandemia silenciosa". O aumento das taxas de depressão, ansiedade e o isolamento social (potenciado paradoxalmente pela hiperconectividade digital) é uma prioridade crescente, especialmente entre os mais jovens.

6. Polarização Social e Erosão da Democracia

A dificuldade de diálogo e o crescimento de extremismos. As pessoas temem a fragmentação da sociedade, onde o "compromisso" se tornou impossível e as instituições democráticas parecem frágeis.

7. Segurança Alimentar e Energética

A vulnerabilidade das cadeias de abastecimento. A dependência de fontes de energia instáveis e o risco de fomes localizadas devido a secas ou guerras tornaram-se medos tangíveis em 2026.

8. Cibersegurança e Vigilância Digital

Num mundo digitalizado, o medo do roubo de identidade, ataques a infraestruturas críticas (hospitais, redes elétricas) e a perda total da privacidade para governos ou corporações encerra a lista.

Probabilidades por Região 

Em 2026, o cenário de preocupações globais é marcado por uma transição para o que especialistas chamam de "Era da Competição". De acordo com o Global Risks Report 2026 do Fórum Econômico Mundial e análises de consultorias como a Eurasia Group, as prioridades deixaram de ser puramente ambientais para se tornarem urgentemente geopolíticas e econômicas.

​Aqui estão as principais preocupações segmentadas por regiões:

​🌍 Europa

​A Europa enfrenta um momento de introspeção e vulnerabilidade estratégica.

  • Segurança e Defesa: A principal preocupação é a "segunda frente" da Rússia e a manutenção do apoio à Ucrânia, num cenário de possível redução da presença dos EUA na OTAN.
  • Erosão Política: Existe um temor real de uma perda gradual de capacidade de decisão das instituições da UE frente ao crescimento de movimentos nacionalistas.
  • Segurança Energética e Cibernética: Campanhas de sabotagem russa contra infraestruturas críticas (energia e internet) são riscos imediatos para a estabilidade do continente.

​🌎 Américas (Norte e Sul)

​A região é influenciada fortemente pela política interna dos Estados Unidos.

  • América do Norte: A grande preocupação é a instabilidade política nos EUA, que gera incerteza sobre acordos comerciais (como o USMCA) e políticas de imigração.
  • América Latina: A região lida com a pressão dos EUA para alinhar políticas contra o narcotráfico (especialmente em relação ao fentanil) e o impacto da volatilidade econômica global em economias emergentes como o Brasil.
  • Instabilidade Institucional: Tensões políticas na Venezuela e na região andina continuam a gerar fluxos migratórios que sobrecarregam os países vizinhos.

​🌏 Ásia e Pacífico

​Esta é a região central da "confrontação geoeconômica".

  • Rivalidade Sino-Americana: A competição por semicondutores e chips de IA é a maior fonte de tensão, com o risco de conflito em Taiwan permanecendo como uma sombra constante.
  • Economia da China: A "armadilha deflacionária" e o abrandamento do crescimento chinês preocupam toda a cadeia de suprimentos global, que ainda depende da "fábrica do mundo".
  • Corrida Nuclear: Países como Japão e Coreia do Sul discutem abertamente o reforço de suas defesas, temendo a instabilidade regional.

​🌍 África e Médio Oriente

​Nestas regiões, as preocupações são mais viscerais, ligadas à sobrevivência e soberania.

  • Crises Humanitárias e Conflitos: A guerra civil no Sudão e a instabilidade no Leste da República Democrática do Congo geram níveis recordes de deslocados.
  • Segurança Alimentar e Recursos: A escassez de água e alimentos (agravada pelo clima e bloqueios de fertilizantes) é uma ameaça existencial no Sahel.
  • Conflito em Gaza: A reconstrução e a estabilidade do Médio Oriente continuam sob ameaça de uma escalada regional que possa envolver mais atores estatais.

    Nota: 50% dos especialistas consultados descrevem o panorama de 2026 como "turbulento ou tempestuoso".


domingo, 1 de março de 2026

Os patriarcas americanos, Epstein e companhia

 



Não resisti a transcrever este artigo escrito porMelinda Cooper,  pela análise lúcida e fundamentada dos novos patriarcas, fundadores da extrema direita americana. 

​Os valores familiares de Jeffrey Epstein

Por Melinda Cooper

Socióloga

​As revelações recentes e o conhecimento crescente que temos do universo de Epstein permitem perceber as lógicas da extrema-direita contemporânea. Seus patriarcas bilionários querem reinar sobre uma economia de mestres e servos, sustentada por violências econômica e sexual cujas vítimas são as primeiras a nomear e a resistir à ordem política emergente.

​Entre os traços mais singulares da extrema-direita americana contemporânea figura a emergência de "pais primordiais" — esses patriarcas do Antigo Testamento animados pelo desejo de gerar não simplesmente uma família, mas todo um povo. Elon Musk é o mais emblemático desses "Abraões" em potencial, sem ser o único.

​Uma longa reportagem do Wall Street Journal documentou seu desejo de gerar o que ele chama de uma "legião" de crianças destinadas a salvar a humanidade de um colapso demográfico e a carregar seus genes superiores para um futuro distante. Um foguete da SpaceX está pronto para transportar seu sêmen para além da Terra, em um processo que se assemelha à panspermia — a teoria de que a vida orgânica teria chegado ao nosso planeta por meio de poeira estelar — mas no sentido inverso.

​Até o momento, atribuem-se a Musk pelo menos quatorze filhos nascidos de quatro mulheres diferentes, cujos assuntos jurídicos e financeiros são em parte geridos por Jared Birchall, diretor de seu family office. "Teremos que recorrer a barrigas de aluguel", escreveu ele por SMS a uma delas, a fim de "alcançar o nível legião antes do apocalipse". Em previsão dessa multiplicação, ele adquiriu uma vasta propriedade de uso múltiplo em Austin, no Texas.

​Geralmente, considera-se o natalismo pregado pelo Vale do Silício como algo que remete à eugenia, mas esta é uma leitura que, embora capture o desejo de purificação racial, nada diz sobre o processo singular pelo qual essa pureza seria alcançada. Os eugenistas "clássicos" da era progressista americana buscavam erradicar a anomalia genética, que consideravam responsável pela degeneração mental e outros males sociais. Musk e seus semelhantes, por outro lado, estão imbuídos da pseudociência do transumanismo — menos preocupados em eliminar o erro do que em exaltar a "deviância excepcional". O patriarca ideal é aquele cujo QI fora de série o situa às margens da distribuição normal da inteligência. Ele não busca apenas preservar a herança genética branca, mas ressuscitá-la sobre fundamentos recém-santificados. Os pais primordiais são venerados não como ancestrais de uma raça antiga, mas como fundadores de uma raça nova.

​O Mito do Pai Tirânico

​O pai primordial é uma figura mítica. Em Totem e Tabu, Freud argumentava que o inconsciente primitivo era habitado por um pai tirânico e uma horda de filhos invejosos. Este pai original reivindicava um direito de propriedade exclusivo sobre todas as mulheres do grupo, sem considerar idade ou laços de parentesco. Seu reinado autocrático só terminava no dia em que seus filhos se revoltavam, matavam-no e instauravam uma nova ordem na qual as mulheres se tornavam propriedade comum. Freud reconhecia francamente que tudo isso pertencia a uma pré-história apócrifa. Por trás do mito da horda primitiva, não havia substrato de desenvolvimento ou antropológico — apenas os traços enterrados, meio apagados, que este pai imaginário deixa na mente de seus pacientes.

​No entanto, esse fantasma às vezes se manifesta na realidade. O caso dos gurus de seitas oferece a ilustração mais manifesta: com uma previsibilidade fascinante, eles invariavelmente acabam por instaurar um regime de sexualidade comunitária obrigatória sobre o qual detêm um direito de monopólio absoluto. Eles também preferem propriedades multi-residenciais a casas unifamiliares e, confrontados com a questão de sua sucessão, refugiam-se em fantasias de imortalidade e deificação. Sua banalização de um apocalipse iminente pode ser lida como a tradução cósmica dessa angústia: é mais fácil, para um guru, imaginar o fim do mundo do que a perda de seu poder.

​Não é preciso dizer que este ethos destoa singularmente dos valores familiares tradicionais pregados pela direita religiosa — uma das razões do murmúrio surdo que atravessa as diferentes facções da coalizão MAGA. Os pais primordiais querem um "lar ampliado", não uma família. Eles transgridem alegremente os tabus conservadores contra o adultério, o incesto e as relações intergeracionais, pois todos os membros de sua casa têm o status de servo, independentemente do laço de sangue.

​O Caso Epstein: Entre o Patriarcado e a Fratriarquia

​Os traços distintivos de suas economias domésticas aparecem mais claramente à luz do caso de Jeffrey Epstein. Como Musk, Epstein era fascinado pelo transumanismo e nutria a ambição de fecundar a espécie humana com seu DNA de elite. Após sua condenação em 2008 por solicitação de prostituição de menores, ele fantasiava em se retirar para seu rancho Zorro, no Novo México, para engravidar até vinte mulheres simultaneamente. Virginia Roberts Giuffre — recrutada aos dezesseis anos por Epstein e sua companheira na época, Ghislaine Maxwell — conta em suas memórias póstumas, Nobody’s Girl (Penguin Books, 2025), que seus algozes propuseram mantê-la como barriga de aluguel de seu futuro filho, sobre o qual ela não teria nenhum direito de guarda. Eles pagariam duzentos mil dólares por mês para criar a criança e acompanhá-lo pelo mundo em seus reencontros com Epstein. Temendo que seu filho fosse vítima de abusos, Giuffre arquitetou um plano de fuga.

​O caso de Epstein é mais esclarecedor que o de Musk, pois articula as duas economias de propriedade sexual que Freud discernia no inconsciente primitivo — a fratriarcal e a patriarcal. Epstein soube criar laços inquebráveis com seus cúmplices ao fazê-los entender que o que era dele era deles, enquanto mantinha consigo as provas fotográficas. Instituiu, dessa forma, um sistema fratriarcal onde jovens mulheres e adolescentes circulavam entre "irmãos primordiais" como moedas de troca e cimento do grupo. Mas Epstein também pretendia retirar algumas dessas mulheres da circulação comum para torná-las sua propriedade estritamente pessoal e inalienável — as mães de seus futuros filhos, sequestradas atrás dos muros de uma propriedade inacessível. A economia doméstica de Epstein distribuía assim as mulheres entre esses dois regimes de propriedade sexual, com algumas passando, com a idade, do regime fratriarcal para o patriarcal. Todas as meninas e mulheres são propriedade de um único homem; ou todas as meninas e mulheres são propriedade de todos os homens.

​O Retorno do Tribalismo

​Para Freud, a horda primitiva pertencia resolutamente ao domínio do inconsciente. Ela só emergia à superfície em momentos de transgressão organizada, como os carnavais. Mas não há nada de mediado ou subliminar no desejo da extrema-direita do Vale do Silício de reencenar o conflito entre o pai primordial e os irmãos primordiais. Na realidade, seu principal "filósofo", Peter Thiel — membro da lendária "PayPal Mafia" — descobriu Freud através da obra de René Girard, filósofo cristão que lecionava em Stanford nos anos 1990.

​Thiel reivindica Girard até hoje, mas sua leitura de Freud pertence apenas a ele. Em Zero to One (Crown Business, 2014), manifesto de sua filosofia de negócios, ele faz de Totem e Tabu a grade de leitura da economia política das empresas de tecnologia. Os fundadores de startups são celebrados como irmãos rebeldes unidos em um mesmo impulso: derrubar o poder paterno dos grandes monopólios instalados — Google, Amazon, Microsoft. A coalizão dos "tech bros" provou sua capacidade de abalar tudo. Mas Thiel adverte, com lucidez, que os papéis não são gravados em pedra. Pois assim que o pai é derrubado, a fraternidade se estilhaça: cada filho se volta contra os outros e reivindica para si o direito de reinar em monopólio. "Fundadores fora de série não são novidade na história", escreve Thiel — evocando Édipo e Rômulo.

​Graças a documentos recentemente tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos EUA, sabemos agora que Epstein frequentava assiduamente as figuras de proa da extrema-direita do Vale do Silício. Após o Brexit, ele trocou e-mails com Thiel — ambos celebrando o "retorno do tribalismo" — e investiu milhões em suas empresas de tecnologia. Epstein teria reconhecido sem dificuldade em si mesmo o retrato do fundador trágico traçado por Thiel: ele se percebia como um homem livre da lei, chamado a forjar a sua própria. Segundo Virginia Giuffre, ele submetia suas vítimas a um interrogatório minucioso sobre suas infâncias, rastreando o menor sinal de fragilidade, mas esquivava-se sistematicamente de qualquer pergunta sobre suas próprias origens. Epstein, ao que parece, vinha de lugar nenhum: um homem sem passado, sem linhagem. Em um vídeo do mesmo lote de documentos, uma entrevista filmada por Steve Bannon, ele se apresentava como um elétron livre — "Jeffrey Epstein, apenas um bom garoto" —, livre das longas biografias que carregam personalidades como Bill Clinton ou Paul Volcker.

​A Economia Doméstica dos Bilionários

​Se a mitologia do pai primordial ilumina a forma de empresa privilegiada pela nova elite, ela se aplica igualmente à sua organização doméstica. O quadro de referência pertinente aqui não é a família nuclear, mas a "economia doméstica" (household economy) — esse mundo onde produção e reprodução são indissociáveis, onde a gestão dos ativos da empresa se confunde com a preservação do patrimônio familiar.

​A fortuna colossal acumulada desde a crise financeira global ressuscitou uma forma de trabalho que, pelo menos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, havia se tornado cada vez mais rara desde meados do século XX: o serviço doméstico em larga escala, permanente e internalizado. Tomemos Palm Beach, onde Trump e Epstein conviviam outrora, e que hoje abriga muitos bilionários americanos — bem como os aliados mais próximos do presidente. Na última década, Stephen A. Schwarzman, fundador da Blackstone e megadoador republicano, estabeleceu-se lá, assim como Ken Griffin, chefe da Citadel, e o gestor de fundos de hedge Paul Tudor Jones. Outros, como Julia Koch, viúva de David Koch, e Henry Kravis, cofundador da KKR, residem lá há muito tempo. Suas mansões não são meras residências: são verdadeiros polos de emprego, cada uma empregando dezenas de funcionários permanentes e sazonais vindos das áreas mais modestas do condado de Palm Beach, mas também de Nova York, Irlanda, África do Sul e Romênia.

​Esta forma de serviço doméstico é tacitamente regida por regras próximas às que ligavam antigamente o mestre ao seu servo — um regime de emprego que conferia aos mestres um domínio quase absoluto sobre sua esfera privada de governo e punia os trabalhadores com sanções penais, como prisão domiciliar, encarceramento ou mesmo castigos corporais. Dadas as origens medievais inglesas dessas leis, seria tentador ver nelas um retorno ao feudalismo — uma leitura do presente cada vez mais difundida, da qual os trabalhos recentes de Yanis Varoufakis oferecem a ilustração mais conhecida.

​Este argumento deve muito a Marx, que sugeria que o serviço doméstico pessoal se tornaria obsoleto à medida que as relações feudais cedessem lugar ao contrato de trabalho livre. Mas lembremos que, contrariamente às suas previsões, o serviço doméstico conheceu uma expansão no final do século XIX — não apesar da concentração crescente de riquezas industriais e financeiras, mas precisamente graças a ela. Além disso, as relações de mestre e servo perduraram até meados do século XX antes de retornarem nas últimas décadas — se não nos arranjos jurídicos formais, ao menos nos fatos.

​Essas leis mostraram-se particularmente difíceis de desalojar quando se tratava do tratamento de domésticas residentes, em sua maioria mulheres negras: qualquer tentativa de organização sindical chocava-se com o argumento de que elas "faziam parte da família" — e encontravam-se, por isso, expostas às mesmas formas santificadas de maus-tratos que os parentes próximos. Percebe-se aqui a "confusão de categorias" singular que caracteriza a economia doméstica. Onde a família nuclear postula uma separação ideal entre lar e mercado, vida pessoal e profissional, as leis sobre domesticidade pressupõem, ao contrário, uma fusão total entre as duas esferas.

​A Pirâmide de Epstein

​Epstein possuía inúmeras propriedades — em Palm Beach, Nova York, Paris e Novo México — além de uma ilha privada, Little Saint James. Sua folha de pagamento incluía dezenas, talvez centenas de funcionários residentes: conselheiros jurídicos, guarda-costas, motoristas, cozinheiros, agentes de limpeza, jardineiros e "massagistas". Os testemunhos de seus visitantes descrevem uma hierarquia de assessores cuja relação exata com Epstein — íntima ou comercial — era por vezes difícil de desvendar. Seus parceiros comerciais masculinos, como o advogado Alan Dershowitz, eram também seus amigos e, segundo alegações de algumas vítimas, participantes ocasionais de seus crimes sexuais. Em Relentless Pursuit: My Fight for the Victims of Jeffrey Epstein (Gallery Books, 2020), Bradley J. Edwards, um advogado da Flórida que representou cerca de vinte vítimas de Epstein, sugere que um círculo de namoradas oficiais — geralmente mais velhas e mais ricas — formava um círculo interno privilegiado, por vezes cúmplice dos abusos. Se a relação terminasse em bons termos, elas poderiam ser promovidas, juntando-se a Maxwell como recrutadoras de meninas em tempo integral.

​As origens da fortuna de Epstein permanecem enigmáticas. Sabe-se que ele atuava como consultor financeiro e gestor de patrimônio — sem qualquer qualificação — para bilionários como Les Wexner (Victoria's Secret), Leon Black (Apollo Global Management) e, segundo revelações recentes, o magnata imobiliário Mortimer Zuckerman e a herdeira Ariane de Rothschild. Os honorários extravagantes que esses personagens lhe pagavam continuam a desafiar qualquer explicação. O que se sabe, por outro lado, é o uso que ele fazia desse dinheiro: um caixa dois a serviço de um mecenato em tempo integral. Em suas relações com outros homens da elite, ele acenava com a promessa de favores financeiros e sexuais. Seus devedores podiam receber o financiamento de uma unidade de pesquisa, acompanhado de uma visita aparentemente inofensiva à casa de Epstein — devidamente documentada por fotos. Em troca, esperava-se que eles lhe abrissem o acesso a círculos de influência cada vez mais altos.

​No plano financeiro como no sexual, Epstein atrelava sua reputação à de seus devedores. Qualquer dano ao seu nome recairia inevitavelmente sobre o deles. Durante longos anos, esse arranjo traduziu-se em uma quase imunidade jurídica. Em 2008, os promotores federais desistiram de acusá-lo de tráfico de seres humanos para fins sexuais, apesar dos testemunhos de trinta e seis jovens mulheres.

​Epstein apresentava-se como um mecenas, inclusive para suas jovens vítimas. Às estudantes de ensino médio que ele encontrava em Nova York, prometia financiar seus estudos em universidades da Ivy League, ou usar suas relações com o proprietário de uma galeria de arte renomada. As adolescentes vindas de condomínios de trailers de West Palm Beach podiam esperar tornar-se massagistas profissionais, ou pelo menos recrutadoras de outras meninas (a fugitiva Giuffre recebeu, por exemplo, treinamento de massagista em uma das melhores escolas da Tailândia). Muitas viram em seu mecenato uma verdadeira alternativa econômica. Segundo o advogado Edwards, várias das vítimas que ele representou haviam sido abusadas na infância ou vinham de lares violentos. Algumas eram sinceramente gratas a Epstein por tê-las retirado de uma prostituição menos remunerada.

​Não eram apenas os cem dólares que ele pagava por uma primeira sessão de "massagem" — Epstein também prometia uma trajetória de carreira, uma perspectiva de futuro. Mas o mecenato sexual rapidamente tornava-se servidão sexual: generoso com seus pequenos presentes, ele nunca cumpria suas grandes promessas. O objetivo era manter suas vítimas em um estado de dívida permanente.

​Cumplicidade e Allégeance

​Como Epstein envolveu em laços tentaculares de obrigação e dependência quase todos que cruzaram seu caminho, a questão da responsabilidade é particularmente espinhosa. Todo o pessoal de sua casa era provavelmente cúmplice, em algum grau, de seus abusos sexuais. Muitos deviam ter conhecimento direto — o chef celebridade que recebia as jovens na cozinha antes de subirem, os motoristas que levavam Maxwell por Nova York enquanto ela buscava estudantes, a governanta que limpava quartos e banheiros. Mesmo as vítimas mais vulneráveis podiam, segundo alguns relatos, comprar proteção contra as piores formas de abuso recrutando outras meninas. Mais de uma descreveu a economia doméstica de Epstein como uma vasta pirâmide de Ponzi na qual os participantes eram encorajados a ver-se como trabalhadores independentes — livres para gerir seus próprios "pequenos negócios" na moda ou na arte, desde que satisfizessem as necessidades de recrutamento do mestre. Em que momento o interesse pessoal sob coação tornou-se cumplicidade?

​Em seus depoimentos à polícia e aos promotores, as vítimas destacaram uma conivência perturbadora mantida por Epstein e Maxwell para com elas, mesmo nos piores momentos de abuso. Uma delas comeu pipoca e assistiu Sex and the City com eles antes de ser agredida. Maxwell, segundo outro relato, comportava-se como uma "irmã mais velha descolada", iniciando as mais jovens nos refinamentos do mundo adulto.

​Os laços de parentesco, ao contrário das relações de mercado, evocam uma forma de obrigação não contratual — um vínculo que não se dissolve facilmente por dinheiro. A economia doméstica estende essas obrigações não contratuais tanto aos funcionários quanto aos membros da família, apagando a distinção fundamental entre os dois — sem, contudo, abolir as hierarquias internas. Uma ex-vítima teve dificuldade em se libertar de Epstein porque se sentia devedora a ele como "amigo, figura paterna, empregador e mestre". Virginia Giuffre conta que Epstein e Maxwell se comportavam como seus pais, pagando tratamentos dentários e ensinando-lhe boas maneiras à mesa.

​No entanto, também acontecia de Virginia ser a "mãe substituta"; de manhã, ela calçava meias nos pés de Epstein e, à noite, o cobria na cama. "Epstein e Maxwell consolidaram seu domínio sobre mim oferecendo-me um novo tipo de família", escreve ela. "Epstein era o patriarca, Maxwell a matriarca, e esses papéis não eram apenas implícitos. Maxwell gostava de chamar as meninas que satisfaziam regularmente Epstein de seus 'filhos'." Os laços afetivos que a prendiam a Epstein pareciam reais: "Não exatamente amor, mas acredito que a palavra certa é lealdade (allégeance)."

​Essa dívida, porém, só funcionava em um sentido. Epstein podia demitir qualquer membro de sua casa em um piscar de olhos — mas ninguém, e especialmente suas jovens vítimas, podia fazer o mesmo com ele. Virginia Giuffre teve que se exilar na Austrália para escapar de seu algoz, sem nunca deixar de estar "morta de medo". Muitas outras mulheres testemunharam que Epstein e Maxwell as ameaçaram de morte caso tentassem fugir ou denunciar o que sofriam.

​A Presidência como Empresa Familiar

​A casa de Epstein pode ter atingido o fundo do sadismo, mas sua economia política deixa a cada dia de ser uma exceção. Quando um único indivíduo dispõe de mais meios do que uma agência governamental de fomento ou uma grande universidade, o impacto na produção do conhecimento e nas relações acadêmicas é profundo. O mesmo fenômeno se propaga no setor de serviços e habitação, à medida que as propriedades de bilionários começam a ditar o destino de economias urbanas inteiras. A empresa doméstica de Epstein era sem dúvida única em sua complexidade organizacional — mas a obrigação pessoal e o endividamento psicológico que ele sabia impor aos seus dependentes são agora moeda corrente no universo das grandes fortunas.

​Esta grade de leitura permite compreender melhor o papel catalisador que o movimento #MeToo desempenhou na reação conservadora que atravessamos. São inúmeros os homens de todos os espectros políticos que, nos últimos anos, operaram conversões súbitas para a extrema-direita trumpista. Quando questionados a explicar essa reviravolta, eles invariavelmente retornam a pequenas anedotas de "ferida sexual" demasiado irrelevantes, para não dizer grotescas, para terem provocado sozinhas tal sentimento de colapso civilizacional.

​Esta aparente desproporção faz todo o sentido quando lembramos que o #MeToo nasceu em um setor específico da indústria cinematográfica — o mundo altamente personalizado do estúdio de autor privado. Cofundador da Miramax e da The Weinstein Company, Harvey Weinstein encarnava um modelo singular de empresa controlada por seu fundador, onde o patrão-proprietário dispõe de um poder absoluto sobre seu pessoal e clientes. O #MeToo representava um ataque direto ao poder sexual e econômico desses patrões-proprietários. Não surpreende, portanto, que Epstein e Weinstein fossem amigos. Nem que homens de todas as vertentes políticas tenham recorrido a Epstein em busca de conselhos quando as acusações de agressão sexual começaram a chover após o #MeToo.

​Graças ao conhecimento crescente que temos do universo de Epstein, percebemos mais claramente a lógica psíquica e econômica da extrema-direita contemporânea. Assim como Epstein queria fechar todas as saídas para suas vítimas, Trump e seus aliados reacionários do Vale do Silício buscam sufocar qualquer alternativa à economia doméstica e transformar a presidência em uma empresa familiar controlada por seu fundador. Os ataques ao Estado administrativo, ao setor público e aos sindicatos, bem como a transformação dos agentes de controle de fronteiras em uma milícia pessoal, podem ser lidos como elementos de um programa mais amplo visando estender o reinado da domesticidade a toda a economia. Se todos nos tornarmos motoristas de Uber, vendedores terceirizados na Amazon, subcontratados de magnatas imobiliários ou auxiliares acadêmicos de bilionários, o fundador talvez esteja a salvo do sacrifício coletivo.

​As vítimas de Epstein viveram o reinado do mestre e do servo não apenas como uma violência econômica, mas como uma violência sexual. Elas foram as primeiras a nomear e a resistir à ordem política emergente que é a nossa.

Traduzido do francês (originalmente traduzido do inglês por Hélène Borraz).

Nota do editor: a versão original deste artigo foi publicada na Equator em 14 de fevereiro.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Ó Peixoto!

 




Eu já o tinha visto a correr na marginal, junto ao mar... Ia suado, corria e as 

tatuagens no braço esquerdo e os brincos na orelha direita não enganavam. 

Como vinha em sentido contrário –nascente poente- não o incomodei. Fiquei só a 

olhar. Quem sabe, um dia falo-lhe da minha- antiga- admiração. 

O tempo passou-como passa o tempo? A Terra gira, mas como nós rodamos com 

ela, o tempo não devia contar. Mas enfim, conta.

Outro dia fui a uma loja que vende artigos usados. Tenho o gosto de passar por 

lá; admirar o que os outros já não querem, o que é supérfluo nas suas vidas. É 

assim: quando passo perto e sem muita pressa, pergunto-me: e porque não 

passamos por lá, para ver as novidades? 

Mas só são novidades para mim, pois para os outros são objectos desusados, 

rejeitados, supérfluos, desnecessários, um empecilho lá nas gavetas, na 

arrecadação ou na dispensa; moeda de troca para uma necessidade, por um 

desejo. Um desejo antigo a dar corpo e alma a um desejo novo, tenro e fresco. Ou 

só um litro de leite e meia duzia de carcaças, pró jantar!

Quando deitas isto fora, pergunta a mulher esbaforida com os gritos do bébé e a 

televisão aos berros. Porque não vais vender o aspirador que a avó ofereceu no 

natal? Precisamos lá daquilo... (sai e bate a porta com estrondo). Agora, para que 

queres esta bicicleta? Vende o microondas que já dá para comprar uma dose. 

Roubaste esse blusão de motard? Vai vendê-lo aos usados e bebemos um bejecas. 

Olha aquela aparelhagem, que compraste no aniversário do casamento. Vende-a 

e compra os remédios aos teus filhos. O anel e o relógio? A máquina de escrever? 

Era do meu pai... Ó pá, já te pago. Na segunda vou vender ali umas coisas, 

berbequins, lixadoras, aparafusadoras e outro material ... segunda sem falta. Sim 

pá, não me lixes. Na segunda pago-te! 

E por trás daquelas prateleiras, cheias de utensílios e novidades, estão pessoas; 

eu sinto-as. E, observador anónimo, condoo-me das suas tristezas, sorrio das 

espertezas e recrimino os gestos reprováveis. Olho o aparelho de musculação, 

toco-lhe e imagino alguém, descontente com o seu aspecto e a querer 

impressionar-se e a mais alguém, com a força dos músculos e do peito aberto por 

baixo da camilha fechada. Um ele qualquer a querer salientar os músculospara a 

impressionar. Teria conseguido? Provavelmente não, e por isso, desistiu. 

Recuperou uns trocos para o compensar da ilusão. E a viola? Oh! Quem não tem 

sonhos de guitarrista? Quantos pais como não o conseguiram, ofereceram-nas 

aos filhos na esperança de serem eles a prolongarem os seus sonhos. E os 

telemóveis, e os Xboxs, as Wiis? Quantos sonhos destroçados, ilusões desfeitas... 

e saudades de tardes bem passadas.

Bem, máquinas de fazer pão, fazer café e chá, frisar cabelos, arrancar pestanas, 

termómetros, caixilhos de fotos, ferros de engomar, máquinas fotográficas, 

lentes, aparelhagens amplificadores, tv, computadores... uma infinidade de coisas 

da nossa vida. Cada objecto, muitas histórias e... vidas.

Andava eu nesta peregrinação, quando de repente, nervoso o vejo a deambular 

pela sala de prateleiras em busca não sei de quê, acompanhado duma jovem de 

cabelo liso e negro- talvez a companheira, pelo olhar cumplice.

Tinha lido numa revista que uns miúdos lhe tinham roubado o telemóvel na 

Guiné. E de repente começo a ver na minha mente uma lista de obras a 

lembrarem-me que ele era um herói!

Um herói e artista das palavras, das idéias, carregadas de humanidade e amor à vida e ao próximo. 

Obras do José Luís Peixoto, até 2011!


• 2000 - Morreste-me em que este retrata a morte e as recordações 

que tem do pai.

2000 - Nenhum Olhar É uma viagem pela vida das personagens que 

tanto nos partilham momentos de alegria como momentos de tristeza e 

solidão.

• 2002 - Uma Casa na Escuridão É um romance que perscruta a alma 

desesperada de um narrador, que encontra o verdadeiro amor na 

imagem de uma mulher reflectida dentro do seu próprio interior, 

mulher que não existe no seu tempo real, amor esse que é 

descrito e passado a papel noite após noite, centro único da sua 

vida que já se manifestava completamente despegada da vida 

real, na sua casa, vivendo com a sua mãe e a sua escrava, a 

casa na escuridão.1

• 2003 - Antídoto um livro de contos

• 2006 - Minto Até ao Dizer que Minto (distribuído apenas com a revista 

Visão)

2006 - Cemitério de Pianos Os narradores – pai e filho –, em tempos 

diferentes, que se sobrepõem por vezes, desvendam a história da 

família. Falam de morte, não para indicar o fim, mas a renovação, o elo 

entre as gerações e a continuação: o pai – relação entre dois 

Franciscos, iguais no nome e no destino, por um gerado, do outro 

genitor – nasce no dia da morte desse primeiro Lázaro; o filho, neto do 

seu homónimo, morre no dia em que a sua mulher dá à luz.1

A obra retrata uma família de Benfica (Lisboa) e, aborda a morte como 

não apenas o fim, mas também a continuidade através da herança 

deixada em vida. A morte como destino irremediável da vida e nova 

vida após a morte. Um ciclo que se repete ininterruptamente.

Relata tanto o lado negro como luminoso das ligações entre familiares 

cujas algumas das vivências mais importantes se sucedem num 

espaço de uma oficina chamado de cemitério de pianos que alberga 

pianos "mortos" cujas peças vão dar vida a novos pianos.

• O maratonista português Francisco Lázaro foi a inspiração para a 

personagem principal deste romance, que partilha o seu nome e 

parte da sua história.

• 2007 - Hoje Não (distribuído apenas com a revista Sábado)

• 2007 - Cal Reúne textos de natureza diversa (3 poemas, 17 contos, 1 

peça de teatro), ancorados num espaço rural e na vivência e 

memória dos mais velhos.1

• 2010 - Livro O cenário deste livro é a saga da emigração portuguesa 

para a França, entre uma vila do interior de Portugal e Paris.1

• 2011 - Abraço

Poesia[editar]

 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Nota aos leitores

 Este blogue tem vindo a sofrer censura por parte da multinacional que o suporta, a GOOGLE. 

Esta é uma ameaça real já visível no presente. A recolha de dados pessoais feita pelas multinacionais da informação pretende poder utilizá-los, aumentando o controlo sobre a humanidade, gerindo as suas percepões e criando necessidades, que eles satisfarºao, obviamente.

Tenho amigos que se desculpam em não aceder para que não fiquem registados pelo algoritmo, não querem enfrentar o algoritmo e aceitam serem impedidos de acesso a este blogue! Incompreensível, mas o futuro já começou há muito!

. A Autonomia e o "Medo" do Algoritmo

​Eu destaco uma mudança de comportamento preocupante: a desistência de uma ação (visitar um blog) para não "incomodar o algoritmo".

  • Submissão Tecnológica: Eticamente, isso sugere que os indivíduos estão a começar a moldar a sua vontade e curiosidade para se adaptarem às regras invisíveis das máquinas, em vez de as máquinas servirem os humanos.
  • Inibição Social: A aceitação da censura por parte do amigo indica uma passividade que pode levar à erosão do pensamento crítico e da liberdade de exploração digital.

​2. Vigilância e Controle de Dados

​Há "multinacionais globais" que recolhem dados pessoais com o intuito de "controlar a vida da humanidade".

  • Privacidade como Poder: A recoha de dados não é vista apenas como uma questão técnica, mas como uma ferramenta de controle social.
  • Falta de Transparência: Esta denuncia  de censura informática", sugere que os critérios de bloqueio ou visibilidade de conteúdos não são claros nem justos para o utilizador comum.

​3. O Futuro da Interação Humana

​A pergunta final — "Será assim o futuro?" — levanta um dilema ético sobre o caminho da sociedade.

  • Desumanização: O autor lamenta o "caminho que isto leva", sugerindo que a tecnologia está a criar barreiras entre as pessoas (neste caso, entre o autor e o seu amigo) em vez de pontes.
  • Responsabilidade Corporativa: Existe uma crítica implícita à responsabilidade ética das empresas que gerem estas plataformas, priorizando o funcionamento de algoritmos proprietários sobre o direito à informação e conexão.


Nota aos Leitores: Não Deixe o Algoritmo Escolher por Você

​Muitos de vocês têm tido dificuldade em aceder a este espaço devido ao que chamo de "censura informática". Algoritmos de multinacionais globais tentam decidir o que deve ou não ser lido, muitas vezes priorizando a recolha de dados em vez da liberdade de expressão.

​Se você não quer aceitar passivamente este controlo, aqui estão três formas simples de continuarmos ligados:

  1. Acesso Direto: Não espere que o link apareça no seu feed. Guarde o endereço manrodasblog.blogspot.pt nos seus favoritos e visite-o diretamente.
  2. Interação Humana: Se o sistema dificultar a entrada, insista. O algoritmo aprende com a sua persistência. Quando você ignora um aviso de "site não seguro" ou uma barreira técnica injustificada, você está a retomar a sua autonomia.
  3. Partilha Manual: Se gostou de algo, envie o link diretamente a um amigo por mensagem. Isso "fura a bolha" e evita que a nossa comunicação dependa de filtros corporativos.
Se conheceres outras formas de ultrapassar  a censura a este blogue, agradecia que as partilhassem comigo, ou aqui no blogue, ou por email  mrodas1234@gmail.com.

​A tecnologia deve servir para nos aproximar, não para nos controlar. Obrigado por não desistirem de ler estas Palavras a Solta.