PUBLICO HOJE A PRIMEIRA PARTE E AMANHÃ A II PARTE. ESPERO AS VOSSAS CRÍTICAS. COM AMIZADE!
Parte I
O mito da Sereia da Marinha do Minho (frequentemente associada à lenda da Serpente ou Sereia de Afife, em Viana do Castelo) é uma daquelas misturas fascinantes de folclore local, misticismo cristão e relação profunda do povo minhoto com o mar e o Rio Minho.
Aqui está o "onde" e o "como" dessa lenda:
1. Onde surgiu?
A lenda está centralizada na costa do Alto Minho, especificamente na região de Viana do Castelo e nas praias de Afife. O cenário principal é o areal e os rochedos da costa atlântica, onde a paisagem é simultaneamente bela e perigosa, propícia à criação de mitos sobre criaturas que habitam as profundezas.
2. Como surgiu? (As Raízes do Mito)
Diferente das sereias gregas clássicas, a sereia minhota surge de uma fusão de três influências principais:
A "Moura Encantada": Em Portugal, a base de quase todos os mitos femininos sobrenaturais é a Moura Encantada. No Minho, estas figuras muitas vezes transitaram da terra (fontes e castros) para o mar, assumindo formas híbridas.
O Perigo do Mar: O mar do Norte de Portugal é batido e traiçoeiro. O mito servia como uma personificação dos perigos reais: o canto da sereia era o som do vento e das ondas que "atraía" os pescadores para os naufrágios nas rochas.
A Lenda de Afife (A Sereia-Serpente): Diz a tradição local que a sereia era, na verdade, uma princesa ou uma jovem sob um feitiço. Reza a lenda que ela aparecia sobre as rochas de Afife, com metade do corpo de mulher e a outra metade de cauda de peixe (ou, em algumas versões mais antigas e obscuras, de serpente), penteando os seus longos cabelos com um pente de ouro.
3. A Essência da Lenda
O surgimento específico desta figura está ligado à ideia de tentação e castigo. A história mais comum conta que um pescador ou um jovem da aldeia avista a criatura num pôr do sol. Ela oferece-lhe riquezas ou amores eternos se ele conseguir quebrar o seu desencanto (geralmente através de um beijo ou de uma prova de coragem). O medo humano acaba por prevalecer, o desencanto falha, e a sereia mergulha de volta mar, deixando um rasto de espuma e, por vezes, uma maldição ou uma saudade eterna no coração de quem a viu.
Curiosidade: No Minho, o mito também se cruza com a religiosidade. Existem histórias onde estas criaturas são vistas como "almas penadas" que procuram a redenção através de quem reza por elas à beira-mar.
Quando surgiu?
É um reflexo perfeito da alma minhota: um pouco de tragédia, muita beleza e um respeito enorme pelo oceano.
Determinar uma data exata para o surgimento de um mito oral é como tentar segurar água com as mãos, mas podemos rastrear a "cronologia da existência" da Sereia do Minho através de camadas históricas.
A lenda, tal como a conhecemos hoje, consolidou-se entre os séculos XVI e XIX, mas as suas raízes são muito mais profundas.
1. A Raiz Pré-Romana (Antiguidade)
Embora não houvesse o conceito de "sereia" (mulher-peixe) como temos hoje, as populações castrejas do Minho já adoravam divindades aquáticas.
Século I a.C. / I d.C.: A influência de divindades como Durbedo (deus do rio Douro) ou ninfas locais criaram o terreno fértil para figuras femininas ligadas à água. O mito da "Moura Encantada" nasce aqui, antes de se tornar "sereia".
2. A Idade Média (Séculos XII a XV)
É nesta época que o mito ganha contornos morais e religiosos. Com a expansão do Cristianismo, as antigas divindades pagãs foram transformadas em seres "encantados" ou "amaldiçoados". É provável que a variante da Sereia de Afife tenha começado a divergir das lendas de terra firme nesta altura, à medida que as comunidades costeiras do Minho se tornavam mais dependentes da pesca e do comércio marítimo.
3. A Época dos Descobrimentos (Séculos XV e XVI)
Este é o período crucial de transição.
Os marinheiros portugueses que viajavam para o Atlântico Sul e para as Índias traziam relatos de "manatins" e "dugongos", que juravam ser sereias. A iconografia da sereia clássica (com pente e espelho) infiltrou-se no imaginário popular do Minho através da literatura de cordel e dos relatos de marinhagem que chegavam a portos como Viana do Castelo.
4. A Fixação Literária (Século XIX)
Foi no século XIX que a lenda da Sereia do Minho foi finalmente "cristalizada".
Com o movimento do Romantismo, escritores e folcloristas (como Teófilo Braga ou Rocha Peixoto) começaram a recolher as histórias orais das aldeias de pescadores.
Nesta época, a lenda deixou de ser apenas uma "superstição de pescador" para se tornar parte do património cultural e identidade regional do Minho.
Resumo da "Certidão de Nascimento
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Época |
Estado do Mito |
|---|---|
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Antiguidade. |
Divindades das águas e ninfas locais (Paganismo). |
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Idade Média |
Transformação em "Moura Encantada" (Folclore). |
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Séc. XVI |
Fusão com a imagem marítima da sereia (Influência dos Descobrimentos). |
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Séc. XIX. |
Registo oficial e reconhecimento como "Mito do Minho" (Romantismo) |
Onde encontrar
Existem várias representações e curiosidades que ligam a figura da sereia ao património de Viana do Castelo e arredores. Embora as sereias sejam seres pagãos, elas aparecem frequentemente em contextos cristãos e civis devido à forte ligação desta terra com o mar.
Aqui estão os principais locais e formas onde pode encontrar estas figuras:
1. Na Talha Dourada e Igrejas (Séc. XVII - XVIII)
É muito comum encontrar sereias esculpidas na talha dourada de igrejas barrocas e rococó do Minho
Igreja da Misericórdia (Viana do Castelo): Esta igreja é uma das joias do Barroco em Portugal. Nos seus retábulos de talha, é frequente a presença de figuras híbridas e mitológicas (seres com caudas de peixe ou folhagens) que serviam como elementos decorativos chamados "brutescos".
Igrejas do Alto Minho: Em muitos altares laterais de igrejas rurais da região, a sereia era usada como um símbolo de aviso contra a "tentação da carne" ou simplesmente como uma homenagem ao domínio dos mares.
2. O "Fóssil de Sereia" no Museu de Artes e Arqueologia
Uma das curiosidades mais insólitas de Viana do Castelo é a existência de um "fóssil de sereia" que esteve em exposição no Museu de Artes e Arqueologia de Viana do Castelo.
Contexto: Trata-se, na verdade, de uma peça de "arte bruta" ou uma montagem histórica curiosa, mas que demonstra como o mito estava entranhado na cultura local. Durante anos, alimentou a imaginação de quem visitava o museu, sendo uma representação física direta da crença popular.
3. O Chafariz da Praça da República (Séc. XVI)
Embora as figuras centrais não sejam sereias "clássicas" com cauda de peixe, o chafariz monumental de Viana (concluído em 1559) possui figuras antropomórficas que vertem água. A estética desta época (Renascimento/Maneirismo) frequentemente misturava figuras humanas com elementos marinhos, refletindo o espírito dos Descobrimentos.
4. A Arte Contemporânea e a "Lavradeira Marinha"
A cidade continua a homenagear esta ligação:
Existem murais de azulejos recentes (como a Lavradeira de Viana em versão moderna) que por vezes fundem o traje típico de Viana com elementos marinhos.
No ateliê de artistas locais (como o conhecido Joaquim Pires, em Darque*), as sereias são um tema recorrente, criadas a partir de materiais recolhidos no mar, mantendo vivo o mito através da arte popular atual.
5. Afife: O Cenário Natural
Em Afife, embora não haja uma estátua gigante de uma sereia, os habitantes apontam para as rochas à beira-mar como o local exato das aparições. O "monumento" aqui é a própria paisagem natural, que os locais preservam através da tradição oral.
Se for a Viana do Castelo, recomendo vivamente entrar na Igreja da Misericórdia para observar os detalhes da talha e visitar o Museu de Artes e de Arqueologia para perguntar pela história da sereia que ali "habitava".
A Praia de Afife é o cenário natural por excelência da lenda, onde se acredita que a sereia aparecia sobre os rochedos.
É um local de enorme beleza natural, conhecido pelas suas dunas e mar batido, ideal para compreender a origem do mito.
As rochas na zona norte da praia são frequentemente apontadas pela tradição oral como o lugar do "desencanto".
Arte e História na Cidade
O A Igreja da Misericórdia (s. XVI) e o Museu de Artes Decorativas guardam as representações visuais desta ligação ao mar. Na Igreja da Misericórdia, observe a talha dourada e os elementos decorativos do século XVI e XVII, onde figuras marítimas e híbridas estão integradas na arquitetura.
O Museu de Artes Decorativas (frequentemente referido como Museu de Artes e Arqueologia) é o local ideal para explorar o espólio histórico que inclui curiosidades sobre o folclore local e a iconografia marinha da região.
Chafariz da Praça da República serve como um ponto de referência histórico da era dos Descobrimentos, período em que a sereia se tornou um símbolo comum. As figuras esculpidas no chafariz renascentista mostram a estética da época que misturava o humano com o mitológico. Situa-se no centro cívico da cidade, rodeado por outros edifícios históricos que utilizam motivos marinhos na sua decoração. da Serpente ou Sereia de Afife, em Viana do Castelo) é uma daquelas misturas fascinantes de folclore local, misticismo cristão e a relação profunda do povo minhoto com o mar e o Rio Minho.
Joaquim Pires é um antigo pescador de Viana do Castelo que se tornou um reconhecido artista de arte bruta (ou arte popular) em Darque. Após passar mais de 40 anos no mar, especialmente na faina do bacalhau, ele dedica-se agora a transformar materiais reciclados e objetos encontrados na praia em esculturas vibrantes.
O seu trabalho é profundamente ligado ao imaginário marítimo do Minho, sendo as sereias uma das suas figuras mais icónicas e recorrentes.
Um detalhe curioso: o artista Joaquim Pires (que mencionámos em Darque) vive perto da foz do Lima, mas a sua arte "bruta" utiliza pedras e madeiras que muitas vezes foram trazidas pela corrente do rio desde as montanhas (como a Serra do Soajo) até ao mar. De certa forma, o material de que são feitas as suas sereias vem da serra.
Atelier Joaquim Pires é o espaço onde ele dá vida às suas criações, localizado no bairro dos pescadores em Darque.
- Materiais Reciclados: Joaquim utiliza madeira flutuante, restos de baldes de tinta, esferovite e outras "velharias" que recolhe na Praia do Cabedelo para criar os seus seres.
- Temas Marítimos: Além das sereias, o seu portfólio inclui peixes, barcos, aves marinhas (como flamingos e garças), mas também aviões e figuras religiosas.
- Estilo "Bruto": O próprio artista define o seu trabalho como "arte bruta", caracterizada pela autenticidade e pela ausência de formação académica, nascendo puramente da intuição e das memórias da vida no mar.
Reconhecimento
Embora trabalhe num atelier improvisado de zinco, o seu talento já atravessou as fronteiras locais:
- Exposições: Já participou na prestigiada Bienal de Arte de Cerveira e teve obras expostas em galerias no Porto (como a Cruzes Canhoto) e em Lisboa.
- Presença na Cidade: Quem passa pela zona da Senhora das Areias, em Darque, pode facilmente identificar a sua casa pelas antenas parabólicas decoradas com motivos marinhos que adornam o portão.
Joaquim Pires é frequentemente descrito como um "escultor de memórias e de sonhos", sendo uma figura viva que mantém as lendas e a cultura visual da Marinha do Minho presentes na atualidade através da arte.
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Autores fundamentais
1. José Leite de Vasconcelos (O "Pai" da Etnografia)
É a figura mais importante. No seu monumento literário "Etnografia Portuguesa" e em "Religiões da Lusitânia", ele cataloga centenas de lendas de mouras. Leite de Vasconcelos foi o primeiro a teorizar que as "mouras" não têm nada a ver com os muçulmanos da invasão de 711. Para ele, são divindades pré-romanas (ninfas das águas ou deusas da terra) que foram "demonizadas" ou "mourificadas" pela Igreja Católica.
2. Alexandre Herculano
Embora seja historiador, Herculano interessou-se pelo folclore nas suas "Lendas e Narrativas". Ele ajudou a consolidar a imagem literária da moura encantada, misturando o rigor histórico com a tradição oral. Ele explora muito a figura da moura que vive em castelos e ruínas, algo muito comum no Alto Minho.
3. Consiglieri Pedroso
Contemporâneo de Leite de Vasconcelos, escreveu "Tradições Populares Portuguesas". Focou-se na estrutura do conto popular. É a melhor fonte para entender os padrões das rezas e dos castigos (como o ouro que vira carvão). Ele analisa a moura como um ser mitológico europeu, comparando-a com as fadas e as "banshees".
4. Teófilo Braga
Em "O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições", o antigo Presidente da República e folclorista dedicou capítulos inteiros a estes seres. Teófilo Braga via as mouras como uma sobrevivência do animismo dos povos galaicos e lusitanos. No Minho, ele destaca a ligação das mouras com a fiação (o fuso e a roca) como um símbolo do destino.
5. Cláudio Basto (Especialista no Minho)
Este autor é crucial pois era de Viana do Castelo e focou-se especificamente na etnografia minhota. Escreveu na revista "Lusa" e na "Revista de Guimarães". Ele estudou as particularidades do falar minhoto nas rezas de desencanto e a relação específica das mouras com os Penedos e as Citânias (como a de Briteiros ou Santa Luzia).
6. Gentil Marques
Autor da famosa "Lenda de Portugal" (uma coleção de vários volumes). É uma leitura mais acessível e narrativa. Ele reconta as lendas do Soajo, da Peneda e de Arcos de Valdevez de uma forma literária, ideal para quem quer conhecer a história "romanceada" sem o peso académico.



