Mostrar mensagens com a etiqueta Crítica de arte. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crítica de arte. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 27 de março de 2026

PARTE II Sereias e mouras em Soajo

 O prometido é devido. Aqui vai para cumprir a promessa. Qualquer achega para completar este trabalho pode ser enviado nos Xomentários,  por email mrodas1234@gmail, ou pelo Messenger, ou Whatsapp. Muito obrigado e não se esqueça de partilhar pelos amigos. 




Parte 
II

Embora a "Sereia" seja uma figura essencialmente marinha, ela partilha o mesmo "ADN" mitológico com as lendas de Soajo. Aqui estão os pontos de ligação:


A Metamorfose: Sereia vs. Serpente
​No litoral (Afife/Viana), a criatura é descrita como uma mulh
er-peixe
. À medida que subimos em direção à Serra do Soajo, essa mesma figura "transforma-se" na Moura Encantada ou na Mulher-Serpente.

Em ambas as regiões, o mito fala de uma mulher de beleza sobrenatural, frequentemente sob um feitiço (o "encanto"), que aparece junto à água (mar no litoral, fontes ou rios na serra).
Tanto a sereia de Viana como certas mouras do Soajo são descritas a pentear cabelos com um pente de ouro, um símbolo universal destas divindades aquáticas em Portugal.

 O Rio Lima como "Autoestrada" Mitológica
​O Rio Lima nasce em Espanha, une a serra de Soajo com a  serra Amarela e desagua em Viana do Castelo, acreditando os mais antigos que as criaturas das águas viajavam pelo rio.
​Existem relatos populares que sugerem que as sereias podiam subir os rios até às zonas de montanha. No Soajo, em pleno coração do Parque Nacional Soajo-Gerês, o folclore das mouras está profundamente ligado aos monumentos megalíticos (Antas) e à paisagem granítica. Aqui, as mouras não são apenas "moças bonitas", mas entidades poderosas que carregam pedras colossais na cabeça enquanto fiam com um fuso. Segundo a tradição oral, a "moura" não é um ser árabe, mas uma alma penada ou uma entidade pré-cristã (uma "deusa" da terra) que ficou presa a um local por um feitiço, muitas vezes por ter desobedecido aos pais ou por guardar um tesouro que não lhe pertence.
Para desencantar uma moura no Soajo, a tradição afasta-se das rezas cristãs e foca-se no simbolismo da pureza e do silêncio.

O Ritual da Meia-Noite na Mezio e da Ponte da Ladeira
A zona da Mezio (concelho de Arcos de Valdevez, freguesia de Soajo) é famosa pelas suas mamoas e antas e a Ponte da Ladeira permite a passagem dum portal muito antigo para a modernidade, do encanto para o desencanto. Segundo os antigos soajeiros, o ritual para quebrar o fado da moura ou para "desencantar" uma moura e obter as suas riquezas, raramente envolve apenas palavras; exige coragem, precisão e, muitas vezes, o cumprimento de tarefas bizarras. Deve procurar-se afloramentos graníticos que formam pequenas "grutas" ou abrigos naturais.

Ponte da Ladeira
A lenda da Ponte da Ladeira, em Soajo, é uma das mais emblemáticas recolhidas por Gentil Marques no seu volume dedicado ao Minho. Esta ponte medieval (frequentemente chamada de "ponte romana" pelo povo) cruza o rio Soajo e é o cenário de um encontro místico entre o mundo dos homens e o das mouras.
Aqui está o resumo da narrativa e os elementos de "desencanto" que Gentil Marques destaca sobre "O Cavaleiro e a Moura".
A lenda foca-se num jovem cavaleiro (ou caçador, dependendo da variante) que, ao passar pela Ponte da Ladeira numa noite de luar ou ao amanhecer, encontra uma mulher de beleza radiante sentada no parapeito da ponte.
Ela não está apenas ali parada; está a pentear os seus longos cabelos com um pente de ouro ou a fiações de seda (elemento comum no Soajo), (atividade)
A moura não pede ouro, mas sim um beijo ou uma prova de coragem. Ela explica que está sob um fado e que o cavaleiro, homem valente será o único que a pode libertar (prova)

O Ritual de Desencanto na Ponte
Gentil Marques descreve que o desencanto nesta ponte é particularmente difícil porque envolve a transformação, assim que o homem aceita o desafio, a bela mulher transforma-se numa enorme serpente ou dragão que se enrola no corpo do cavaleiro, (metamorfose).
O cavaleiro deve permitir que a serpente o beije na boca ou lhe dê a chave que guarda na garganta. Ele não pode gritar, nem rezar alto, nem fazer o sinal da cruz - o que afugentaria o ser mágico, mas condenaria a moura a mais cem anos de fado, (regra do silêncio e da imobilidade).
Se o cavaleiro resistir ao horror da transformação sem recuar, a serpente volta a ser a mulher e entrega-lhe o pente de ouro ou indica-lhe o local do tesouro oculto debaixo de um dos arcos da ponte, (a recompensa).

Elementos Específicos do Soajo (Notas de Gentil Marques)
O autor sublinha que, no Soajo, esta lenda tem um aviso moral:
O "Ouro que Arde": Diz-se que muitos tentaram escavar debaixo da Ponte da Ladeira à procura do tesouro da moura. Contudo, Gentil Marques nota que, para os gananciosos, o ouro transformava-se em brasas ardentes que lhes queimavam as mãos, deixando cicatrizes para sempre.

A Ligação ao Rio: A moura da Ponte da Ladeira é uma "moura das águas". Se o desencanto falha, ela mergulha no poço do rio Soajo, com um grito que se ouve em toda a serra.

O Ritual do Beijo (A Serpente)
Muitas vezes, a moura aparece sob a forma de uma serpente monstruosa com uma flor ou uma chave na boca. O "desencanto" exige que o homem a beije.
Não existe uma oração específica, mas sim um compromisso de silêncio. Se o pretendente gritar ou fugir, o encanto quebra-se para ele, mas a moura permanece presa, muitas vezes soltando um grito terrível:
"Ai, que me dobraste a dor!" ou "Cento e um anos me dobraste o fado!"

A Oferta do Pão sem Sal
Aqui, como no Alto Minho, em geral, acredita-se que o sal afasta o sobrenatural. Para desencantar uma moura que aparece a fiar junto a uma fonte, deve oferecer-se um pedaço de pão sem salAo receber o pão, se o encanto for quebrado, ela dirá algo:"Pão sem sal me deste, da minha prisão me tiraste. Leva este carvão, que o teu bem achaste." Ou ainda, "Pão te dou, fado te tiro, pelo sal que não comeste, pela vida que perdeste, dá-me o ouro a que vieste."  (O carvão, ao chegar a casa, transforma-se em moedas de ouro. Reza de Aceitação).

 O Ritual da Noite de São João
O São João é o momento de maior porosidade entre o mundo real e o encantado. No Alto Minho, diz-se que se deve ir a um penedo específico à meia-noite.
Deve bater-se três vezes na pedra com uma vara  e dizer: "Moura encantada, que o fado te deu, sai do teu reino, que o tempo venceu. Pelo poder da água e do pão, entrega o tesouro e a tua mão.
Ou ainda,  "Moura, moura, encantada, sai da tua pedra lascada! Pelo poder de São João, dá-me o ouro da tua mão. Que o teu fado se acabe agora, e que o sol te leve embora. 

A Quebra pelo Batismo
Nalgumas variantes mais cristãs, o desencanto ocorre através da conversão. Deve atirar água benta sobre a moura, enquanto se diz: "Eu te batizo, Maria, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo." 
Diz a lenda que ela perderá a sua forma sobre-humana e tornar-se-á uma mulher mortal, casando-se com quem a salvou.
Se ela for libertada, o encanto quebra-se, ela torna-se humana e o tesouro (ouro) aparece. Se falhar a entoação ou tiver medo, ela solta um grito e desaparece por mais cem anos.

Avisos da Tradição
Tenha em conta que, no folclore minhoto, as tentativas de desencanto são perigosas:
O Silêncio é Ouro: Não se pode proferir uma única palavra durante todo o percurso até ao local (geralmente uma anta ou um penedo rachado). Se o caminhante falar ou responder a uma voz que o chama pelo nome, o encanto fortifica-se.
Em quase todos os relatos, se a pessoa falar ou demonstrar medo antes do momento certo, o tesouro transforma-se em fumo ou pedras. 
A Ambição Castigada: Quem tenta enganar a moura para ficar com o ouro sem cumprir a promessa acaba, geralmente, "atoleimado" ou levado para dentro da rocha.

O Teste do Leite
 Diz-se que a moura aparece a ordenhar uma cabra ou a oferecer uma tigela de leite. O segredo é beber o leite sem fazer o sinal da cruz e sem agradecer, aceitando o pacto de igual para igual.
A Reza do Destemido: Não é uma prece, mas um grito de comando que deve ser feito enquanto se agarra a chave: "Pela chave que guardas e pelo sangue que corre, quebra-se o ferro e o encanto morre!"
A Troca do Fuso: Se a vires a fiar, deves tocar no fuso e dizer:"Vem comigo, Maria, que o tempo de fiar já lá vai."
Existe um aviso constante nas histórias de desencanto: a moura costuma oferecer carvão ou cascas de cebola como recompensa inicial.

O erro comum: O explorador, achando que foi enganado, deita o carvão fora. Deve guardar o o carvão no bolso em silêncio absoluto até chegar a casa e passar a porta. Só dentro de casa, com a porta fechada, é que o carvão se transforma em ouro maciço.
Nota: Se olhares para trás antes de entrar em casa, ouves o grito da moura: "Ai, que me deixaste em maior desgraça!", e o ouro volta a ser carvão para sempre, 

A Sentença do "Ouro ou Carvão"
Muitas vezes, a moura não quer ser salva, mas sim testar a tua virtude. Quando ela entrega o carvão, deve aceitar-se com humildade e dizer em voz baixa, pois o silêncio é obrigatório até chegar a casa: O que a moura me deu, o destino guardou; se era carvão, o sol o doirou.
 
O teste do galo preto
Levar um galo preto, à meia noite, ao local pretendido. Se o galo cantar, a moura é desencantada e trará os tesouros com ela.
O Ritual de Desencanto (Leite de Vasconcelos)
Diferente de outras zonas do Minho, no Soajo o desencanto exige um teste de astúcia e coragem física, não apenas uma reza. Ele anotou que, no Soajo, as mouras eram chamadas, por vezes, de "Madamas".
O caminhante deve subir ao penedo e não demonstrar espanto perante a força da mulher, (encontro). 
Ela estende o fuso de ouro. Se o homem tentar agarrar o fuso, ela transforma-se em serpente. O segredo, segundo o folclore local, é tocar na pedra que ela leva na cabeça e não no ouro, (prova do fuso).

A reza ou sentença: Ao tocar na pedra, deve-se dizer a fórmula de libertação do fardo: "Pesa-te a pedra, moura fada? Deixa-a no chão, que a tua vida é chegada!"
Se dita com a intenção certa, a pedra cai (formando os monumentos que vemos hoje no Mezio) e a moura desaparece, deixando o fuso de ouro como recompensa.
 
A "Moura da Peneda"
​Na Serra do Soajo, simultaneamente  com outras lendas de mouras encantadas, a lenda mais forte é de uma aparição, a  Senhora da Peneda que apareceu a uma pastora na serra. Curiosamente, antes da versão cristã, muitos destes locais eram associados a "mulheres das águas" ou "mães-do-rio", figuras que a Sereia Marinha do Minho também personifica no litoral. Diz-se que algumas destas figuras da serra podiam assumir a forma de serpente com rosto de mulher, uma imagem que na iconografia medieval é exatamente a mesma que a de certas sereias.
A região do Mezio, no Soajo é o cenário perfeito para um roteiro místico. O complexo megalítico local é um dos mais importantes da Península Ibérica, e as suas pedras guardam histórias de tesouros e fados.

Aqui está um roteiro sugerido para explorar estes locais de lenda:
Ponto de Partida:  Núcleo Megalítico do Mezio (Mamoas 5 e 6 e Anta
A poucos metros da Porta do Mezio, encontras este conjunto de monumentos funerários com cerca de 5000 anos.
A Lenda: A Mamoa 5 (a mais imponente e restaurada) é o local onde se acredita que a moura aparece sentada a fiar.
Dizem os antigos que, se se circundar a mamoa três vezes em silêncio absoluto à meia-noite, poderá ouvir-se o som do fuso ou ver o brilho do ouro. Mas atenção: se se for movido pela ganância, o ouro que transformar-se-á em carvão assim que se sair do planalto.

O Penedo da Moura 
 Conta-se que uma menina aparecia aqui pedindo leite e pão quente. Quem lho desse de coração aberto, sem perguntar nada, recebia em troca carvões que, ao chegar a casa, se tornavam barras de ouro puro.

Descendo em direção à vila do Soajo, encontras zonas de rio com poços profundos e a Ponte da Ladeira que  é descrita como um lugar de "amor proibido". A lenda diz que uma moura se afogou ali por causa de um cristão e que, desde então, ela atrai os incautos para as profundezas. Aí também se faziam invocações dos espíritos e almas penadas para a realização de desejos terrenos: amor não correspondido, afastar concorrente do namorado ou marido, dificuldade em engravidar e batismos noturnos. É um local de beleza serena, mas que a tradição recomenda respeitar, evitando mergulhos solitários ao entardecer.

 Espigueiros do Soajo
 Embora os espigueiros sejam estruturas comunitárias para secar milho, a sua implantação sobre um enorme necrópole granítica liga-os à crença de que os "antigos" (os mouros) dominavam a arte de mover pedras gigantescas com a força do pensamento ou de feitiços. Em eras remotas a  Eira era lugar de celebrações, sacrifícios e invocação dos espíritos e de contemplação do universo. O historiador grego Estrabão escreveu que os povos indígenas do Norte (Galaicos e Lusitanos) sacrificavam prisioneiros de guerra e cavalos para ler o futuro nas suas entranhas. Em qualquer um dos  lugares distribuídos pela serra, (Adrão, Várzea, Paradela, Cunhas, Vilar de Suente e Vilarinho das Quartas, Ermelo, Gavieira, Tibo, Rouces, Castro Laboreiro)  se encontram referencias a mouras encantadas. Os cuidados são os mesmos: silêncio e respeito para com as mouras e a negação da cobiça. Há ainda locais ainda por encontrar, como atesta a descoberta recente do  agrupamento militar romano, no Alto da Pedrada.


sexta-feira, 20 de março de 2026

Sereia Marinha do Minho

 






PUBLICO HOJE A PRIMEIRA PARTE E AMANHÃ A II PARTE. ESPERO AS VOSSAS CRÍTICAS. COM AMIZADE!


Parte I

O mito da Sereia da Marinha do Minho (frequentemente associada à lenda da Serpente ou Sereia de Afife, em Viana do Castelo) é uma daquelas misturas fascinantes de folclore local, misticismo cristão e relação profunda do povo minhoto com o mar e o Rio Minho.

​Aqui está o "onde" e o "como" dessa lenda:

​1. Onde surgiu?

​A lenda está centralizada na costa do Alto Minho, especificamente na região de Viana do Castelo e nas praias de Afife. O cenário principal é o areal e os rochedos da costa atlântica, onde a paisagem é simultaneamente bela e perigosa, propícia à criação de mitos sobre criaturas que habitam as profundezas.


​2. Como surgiu? (As Raízes do Mito)

​Diferente das sereias gregas clássicas, a sereia minhota surge de uma fusão de três influências principais:

 Em Portugal, a base de quase todos os mitos femininos sobrenaturais é a Moura Encantada. No Minho, estas figuras muitas vezes transitaram da terra (fontes e castros) para o mar, assumindo formas híbridas.

​O mar do Norte de Portugal é batido e traiçoeiro. O mito servia como uma personificação dos perigos reais: o canto da sereia era o som do vento e das ondas que "atraía" os pescadores para os naufrágios nas rochas.

​A Lenda de Afife (A Sereia-Serpente): Diz a tradição local que a sereia era, na verdade, uma princesa ou uma jovem sob um feitiço. Reza a lenda que ela aparecia sobre as rochas de Afife, com metade do corpo de mulher e a outra metade de cauda de peixe (ou, em algumas versões mais antigas e obscuras, de serpente), penteando os seus longos cabelos com um pente de ouro.

​3. A Essência da Lenda

​O surgimento específico desta figura está ligado à ideia de tentação e castigo. A história mais comum conta que um pescador ou um jovem da aldeia avista a criatura num pôr do sol. Ela oferece-lhe riquezas ou amores eternos se ele conseguir quebrar o seu desencanto (geralmente através de um beijo ou de uma prova de coragem). O medo humano acaba por prevalecer, o desencanto falha, e a sereia mergulha de volta  mar, deixando um rasto de espuma e, por vezes, uma maldição ou uma saudade eterna no coração de quem a viu.

​Curiosidade: No Minho, o mito também se cruza com a religiosidade. Existem histórias onde estas criaturas são vistas como "almas penadas" que procuram a redenção através de quem reza por elas à beira-mar.

Quando surgiu?

​É um reflexo perfeito da alma minhota: um pouco de tragédia, muita beleza e um respeito enorme pelo oceano.

Determinar uma data exata para o surgimento de um mito oral é como tentar segurar água com as mãos, mas podemos rastrear a "cronologia da existência" da Sereia do Minho através de camadas históricas.

​A lenda, tal como a conhecemos hoje, consolidou-se entre os séculos XVI e XIX, mas as suas raízes são muito mais profundas.

1. A Raiz Pré-Romana (Antiguidade)

​Embora não houvesse o conceito de "sereia" (mulher-peixe) como temos hoje, as populações castrejas do Minho já adoravam divindades aquáticas.

​Século I a.C. / I d.C.: A influência de divindades como Durbedo (deus do rio Douro) ou ninfas locais criaram o terreno fértil para figuras femininas ligadas à água. O mito da "Moura Encantada" nasce aqui, antes de se tornar "sereia".


​2. A Idade Média (Séculos XII a XV)

​É nesta época que o mito ganha contornos morais e religiosos. Com a expansão do Cristianismo, as antigas divindades pagãs foram transformadas em seres "encantados" ou "amaldiçoados". É provável que a variante da Sereia de Afife tenha começado a divergir das lendas de terra firme nesta altura, à medida que as comunidades costeiras do Minho se tornavam mais dependentes da pesca e do comércio marítimo.


​3. A Época dos Descobrimentos (Séculos XV e XVI)

​Este é o período crucial de transição.

​Os marinheiros portugueses que viajavam para o Atlântico Sul e para as Índias traziam relatos de "manatins" e "dugongos", que juravam ser sereias. A iconografia da sereia clássica (com pente e espelho) infiltrou-se no imaginário popular do Minho através da literatura de cordel e dos relatos de marinhagem que chegavam a portos como Viana do Castelo.


​4. A Fixação Literária (Século XIX)

​Foi no século XIX que a lenda da Sereia do Minho foi finalmente "cristalizada".

​Com o movimento do Romantismo, escritores e folcloristas (como Teófilo Braga ou Rocha Peixoto) começaram a recolher as histórias orais das aldeias de pescadores.

​Nesta época, a lenda deixou de ser apenas uma "superstição de pescador" para se tornar parte do património cultural e identidade regional do Minho.

Resumo da "Certidão de Nascimento


Época

Estado do Mito

Antiguidade. 


Divindades das águas e ninfas locais (Paganismo).


Idade Média


Transformação em "Moura Encantada" (Folclore).


Séc. XVI


Fusão com a imagem marítima da sereia (Influência dos Descobrimentos).


Séc. XIX.          

Registo oficial e reconhecimento como "Mito do Minho" (Romantismo)


Onde encontrar

Existem várias representações e curiosidades que ligam a figura da sereia ao património de Viana do Castelo e arredores. Embora as sereias sejam seres pagãos, elas aparecem frequentemente em contextos cristãos e civis devido à forte ligação desta terra com o mar.

​Aqui estão os principais locais e formas onde pode encontrar estas figuras. ​É muito comum encontrar sereias esculpidas na talha dourada de igrejas barrocas e rococó do Minho.

1. A ​Igreja da Misericórdia (Viana do Castelo) é uma das joias do Barroco em Portugal. Nos seus retábulos de talha, é frequente a presença de figuras híbridas e mitológicas (seres com caudas de peixe ou folhagens) que serviam como elementos decorativos chamados "brutescos".

 A Igreja da Misericórdia (s. XVI) e o Museu de Artes Decorativas guardam as representações visuais desta ligação ao mar. ​Na Igreja da Misericórdia, observe a talha dourada e os elementos decorativos do século XVI e XVII, onde figuras marítimas e híbridas estão integradas na arquitetura.

​Igrejas do Alto Minho: Em muitos altares laterais de igrejas rurais da região, a sereia era usada como um símbolo de aviso contra a "tentação da carne" ou simplesmente como uma homenagem ao domínio dos mares.


​2. O "Fóssil de Sereia" no Museu de Artes e Arqueologia

 Museu de Artes Decorativas (frequentemente referido como Museu de Artes e Arqueologia) é o local ideal para explorar o espólio histórico que inclui curiosidades sobre o folclore local e a iconografia marinha da região.

Uma das curiosidades mais insólitas  é a existência de um "fóssil de sereia" que esteve em exposição no Museu de Artes e Arqueologia de Viana do Castelo. Trata-se, na verdade, de uma peça de "arte bruta" ou uma montagem histórica curiosa, mas que demonstra como o mito estava entranhado na cultura local. Durante anos, alimentou a imaginação de quem visitava o museu, sendo uma representação física direta da crença popular.


​3. O Chafariz da Praça da República (Séc. XVI)

O Chafariz da Praça da República serve como um ponto de referência histórico da era dos Descobrimentos, período em que a sereia se tornou um símbolo comum. ​As figuras esculpidas no chafariz renascentista mostram a estética da época que misturava o humano com o mitológico. Situa-se no centro cívico da cidade, rodeado por outros edifícios históricos que utilizam motivos marinhos na sua decoração. ​Embora as figuras centrais não sejam sereias "clássicas" com cauda de peixe, o chafariz monumental de Viana (concluído em 1559) possui figuras antropomórficas que vertem água. A estética desta época (Renascimento/Maneirismo) frequentemente misturava figuras humanas com elementos marinhos, refletindo o espírito dos Descobrimentos.


​4. A Arte Contemporânea e a "Lavradeira Marinha"

​A cidade continua a homenagear esta ligação:

​Existem murais de azulejos recentes (como a Lavradeira de Viana em versão moderna) que por vezes fundem o traje típico de Viana com elementos marinhos.

​No ateliê de artistas locais (como o conhecido Joaquim Pires, em Darque*), as sereias são um tema recorrente, criadas a partir de materiais recolhidos no mar, mantendo vivo o mito através da arte popular atual.

​5. Afife: O Cenário Natural

A Serpente ou Sereia de Afife,  é uma daquelas misturas fascinantes de folclore local, misticismo cristão e a relação profunda do povo minhoto com o mar e o Rio Minho. ​Em Afife, embora não haja uma estátua gigante de uma sereia, os habitantes apontam para as rochas à beira-mar como o local exato das aparições. O "monumento" aqui é a própria paisagem natural, que os locais preservam através da tradição oral. A Praia de Afife é o cenário natural por excelência da lenda, onde se acredita que a sereia aparecia sobre os rochedos. ​É um local de enorme beleza natural, conhecido pelas suas dunas e mar batido, ideal para compreender a origem do mito.

​As rochas na zona norte da praia são frequentemente apontadas pela tradição oral como o lugar do "desencanto".




*

Joaquim Pires é um antigo pescador de Viana do Castelo que se tornou um reconhecido artista de arte bruta (ou arte popular) em Darque. Após passar mais de 40 anos no mar, especialmente na faina do bacalhau, ele dedica-se agora a transformar materiais reciclados e objetos encontrados na praia em esculturas vibrantes.

​O seu trabalho é profundamente ligado ao imaginário marítimo do Minho, sendo as sereias uma das suas figuras mais icónicas e recorrentes.

Um detalhe curioso: o artista Joaquim Pires (que mencionámos em Darque) vive perto da foz do Lima, mas a sua arte "bruta" utiliza pedras e madeiras que muitas vezes foram trazidas pela corrente do rio desde as montanhas (como a Serra do Soajo) até ao mar. De certa forma, o material de que são feitas as suas sereias vem da serra.

Atelier Joaquim Pires é o espaço onde ele dá vida às suas criações, localizado no bairro dos pescadores em Darque.

  • Materiais Reciclados: Joaquim utiliza madeira flutuante, restos de baldes de tinta, esferovite e outras "velharias" que recolhe na Praia do Cabedelo para criar os seus seres.
  • Temas Marítimos: Além das sereias, o seu portfólio inclui peixes, barcos, aves marinhas (como flamingos e garças), mas também aviões e figuras religiosas.
  • Estilo "Bruto": O próprio artista define o seu trabalho como "arte bruta", caracterizada pela autenticidade e pela ausência de formação académica, nascendo puramente da intuição e das memórias da vida no mar.

​Reconhecimento

​Embora trabalhe num atelier improvisado de zinco, o seu talento já atravessou as fronteiras locais:

  • Exposições: Já participou na prestigiada Bienal de Arte de Cerveira e teve obras expostas em galerias no Porto (como a Cruzes Canhoto) e em Lisboa.
  • Presença na Cidade: Quem passa pela zona da Senhora das Areias, em Darque, pode facilmente identificar a sua casa pelas antenas parabólicas decoradas com motivos marinhos que adornam o portão.

​Joaquim Pires é frequentemente descrito como um "escultor de memórias e de sonhos", sendo uma figura viva que mantém as lendas e a cultura visual da Marinha do Minho presentes na atualidade através da arte.


:


 Autores fundamentais

1. José Leite de Vasconcelos (O "Pai" da Etnografia)

É a figura mais importante. No seu monumento literário "Etnografia Portuguesa" e em "Religiões da Lusitânia", ele cataloga centenas de lendas de mouras. Leite de Vasconcelos foi o primeiro a teorizar que as "mouras" não têm nada a ver com os muçulmanos da invasão de 711. Para ele, são divindades pré-romanas (ninfas das águas ou deusas da terra) que foram "demonizadas" ou "mourificadas" pela Igreja Católica.

2. Alexandre Herculano

Embora seja historiador, Herculano interessou-se pelo folclore nas suas "Lendas e Narrativas".  Ele ajudou a consolidar a imagem literária da moura encantada, misturando o rigor histórico com a tradição oral. Ele explora muito a figura da moura que vive em castelos e ruínas, algo muito comum no Alto Minho.

3. Consiglieri Pedroso

Contemporâneo de Leite de Vasconcelos, escreveu "Tradições Populares Portuguesas". Focou-se na estrutura do conto popular. É a melhor fonte para entender os padrões das rezas e dos castigos (como o ouro que vira carvão). Ele analisa a moura como um ser mitológico europeu, comparando-a com as fadas e as "banshees".

4. Teófilo Braga

Em "O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições", o antigo Presidente da República e folclorista dedicou capítulos inteiros a estes seres.  Teófilo Braga via as mouras como uma sobrevivência do animismo dos povos galaicos e lusitanos. No Minho, ele destaca a ligação das mouras com a fiação (o fuso e a roca) como um símbolo do destino.

5. Cláudio Basto (Especialista no Minho)

Este autor é crucial  pois era de Viana do Castelo e focou-se especificamente na etnografia minhota. Escreveu na revista "Lusa" e na "Revista de Guimarães".  Ele estudou as particularidades do falar minhoto nas rezas de desencanto e a relação específica das mouras com os Penedos e as Citânias (como a de Briteiros ou Santa Luzia).

6. Gentil Marques

Autor da famosa "Lenda de Portugal" (uma coleção de vários volumes).  É uma leitura mais acessível e narrativa. Ele reconta as lendas do Soajo, da Peneda e de Arcos de Valdevez de uma forma literária, ideal para quem quer conhecer a história "romanceada" sem o peso académico.


segunda-feira, 16 de março de 2026

Gerhard Richter

 

 "Nu Descendo uma Escada, nº 2" (francês: Nu descendant un escalier n° 2) é uma pintura feita em 1912 por Marcel Duchamp. O trabalho é amplamente considerado como um clássico modernista e se tornou um dos mais famosos de seu tempo. Antes de sua primeira apresentação no Salon des Indépendants em Paris em 1912, ela foi rejeitada pelos cubistas como sendo demasiadamente futurista. No entanto, foi exibida juntamente com o mesmo grupo na Galeries J. Dalmau, Exposicion d'art cubista, em Barcelona, de ​​20 de abril à 10 de maio de 1912, posteriormente causando um grande rebuliço durante sua exposição no Armory Show em Nova Iorque em 1913. Nu Descendo uma Escada, nº 2 encontra-se agora em permanente exposição no The Louise and Walter Arensberg Collection no Museu de Arte da Filadélfia, na Filadélfia.




Foi com esta obra que Gerhard Richter se inspirou para, a partir duma fotografia, produzir a famosa obra "Nu descendo uma escada (B)” (Ema – Akt auf einer Treppe), pintada em 1966 (em baixo)

​A pintura é rica em significados e sugere várias camadas de interpretação:





O Diálogo com a História da Arte

​A obra é uma resposta direta ao quadro futurista/cubista de Marcel Duchamp (Nu descendo uma escada, nº 2, 1912). Enquanto Duchamp fragmentou o movimento em formas geométricas, Richter utiliza a fotografia como base para humanizar o tema, trazendo-o de volta ao realismo, mas de uma forma distorcida.

O Google está dominado por gente tão obscurantista que me impede de partilhar a imagem. Contudo, publico um link e mostro uma fotografia do écran de pesquisa para entenderem melhor o que estou a dizer. Há imagens que alteram a obra cobrindo-a com plástico (?).  Este é um bom exemplo da censura a que estamos sujeitos, não conseguindo o algoritmo, ou quem o coordena,distinguir entre o que é pornografia e o que é uma obra de arte, mundialmente reconhecida. A obra a que me refiro é a primeira imagem com um observador à direita.

Contudo, podem procurar neste site:

https://www.artgallery.nsw.gov.au/collection/works/14.1993/


​ A Técnica do "Blur" (Desfoque)

​Richter é mestre em pintar a partir de fotografias e depois passar um rodo ou pincel seco sobre a tinta fresca. Esse efeito sugere:

  • Memória e Distância: A sensação de algo que estamos tentando recordar, mas que foge à nitidez.
  • Movimento: Captura a dinâmica da descida, como uma fotografia de longa exposição.
  • Vulnerabilidade: O desfoque preserva a identidade da modelo (que era a esposa do artista na época, Marianne "Ema" Eufinger), conferindo uma aura etérea e íntima.

​A Tensão entre Pintura e Fotografia

​A obra questiona a objetividade da imagem. Ao pintar algo para parecer uma foto mal focada, Richter sugere que nem a pintura nem a fotografia podem capturar a "verdade" absoluta de um momento. A realidade é sempre algo filtrado, fluido e, por vezes, inacessível.

​Gerhard Richter é um dos artistas mais fascinantes do século XX justamente por essa relação ambígua com a fotografia.

​Para entender o que ele estava tentando fazer, imagine que ele agia como um "filtro humano". Ele não queria apenas copiar uma foto; ele queria questionar por que confiamos tanto nelas.

​1. A Fotografia como "Ponto de Partida"

​Richter começou a usar fotos de jornais, álbuns de família e revistas nos anos 60. Para ele, a fotografia era uma forma de distanciamento:

  • Sem Estilo: Ao pintar uma foto, ele evitava o "toque artístico" tradicional e a subjetividade da pintura clássica.
  • Objetividade Falsa: Ele acreditava que a fotografia, embora pareça a "verdade", é apenas uma superfície. Ao pintá-la, ele expõe essa ilusão.

​2. O Método do "Desfoque" (Vermoala)

​ Ele pintava a cena com precisão fotográfica e, enquanto a tinta ainda estava molhada, passava um pincel macio ou um rodo sobre a tela. Isso criava:

  • Igualdade Visual: O desfoque faz com que o fundo e o objeto (o corpo, a escada, a luz) tenham o mesmo peso visual. Nada é mais importante que o resto.
  • Presença e Ausência: Dá a sensação de que a imagem está "sumindo" ou "aparecendo", como se fosse um fantasma da realidade.

​3. O Contexto Alemão (Pós-Guerra)

​Pintar a partir de fotos teve um peso político enorme na Alemanha do pós-guerra:

  • O Trauma: Richter (que viveu na Alemanha Oriental e fugiu para a Ocidental) usava fotos de álbuns de família que continham tanto vítimas do Holocausto quanto oficiais nazistas.
  • O Silêncio: O desfoque servia como uma metáfora para a memória traumática alemã: algo que está lá, mas que é difícil de encarar com clareza ou que as pessoas preferem manter "nublado".

​Curiosidade: O Atlas de Richter

​Richter manteve uma coleção gigante de recortes de fotos, esboços e diagramas chamada "Atlas". É um arquivo visual que ele usou durante décadas para decidir o que transformar em pintura.

Resumindo: Para Richter, a pintura não serve para mostrar o que vemos, mas para mostrar como vemos: de forma imperfeita, mediada pela tecnologia e sempre sujeita ao esquecimento.


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Projeto

 

Passei na rua e fiquei a admirar esta obra de arte. Por vezes precisamos de tempo para observar, distinguir observar, ver e reparar. São atitudes diferentes com diferentes percepções.
Experimenta! 
A fotografia tem ajudado a observar e valorizar pormenores que me passavam despercebidos, anteriormente. 
Um carro artisticamente pintado, com muitos pormenores (maiores) é um bom pretexto para uma paragem.























segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Distopia



A distopia é um género literário e cinematográfico que retrata sociedades imaginárias caracterizadas por condições de vida opressivas, totalitárias e desumanas. O termo deriva do grego antigo "dys" (mau) e "topos" (lugar), significando literalmente "lugar ruim".

Distopias geralmente exploram temas como:

  • Controle social: Governos autoritários que monitoram e controlam a população através de vigilância, censura e propaganda.
  • Tecnologia: Avanços tecnológicos que são usados para oprimir ou alienar as pessoas, como inteligência artificial, robôs ou redes sociais.
  • Desigualdade social:Sociedades divididas em classes sociais distintas, com uma elite privilegiada e uma massa de trabalhadores explorados.
  • Ecologia: Ambientes degradados e poluídos, muitas vezes como resultado da exploração industrial e do consumo excessivo.
  • Perda da liberdade individual: Restrições à liberdade de expressão, pensamento e ação, muitas vezes em nome da segurança ou do bem comum.

Distopias podem ser apresentadas de diferentes formas, como romances, filmes, séries de televisão, quadrinhos e jogos. Algumas das distopias mais famosas incluem:

  • 1984 de George Orwell: Retrata uma sociedade totalitária onde o Grande Irmão vigia tudo e todos.
  • Fahrenheit 451 de Ray Bradbury: Conta a história de um bombeiro que queima livros em uma sociedade onde a leitura é proibida.
  • Unidos de Papel de Erich Fromm: Explora uma sociedade onde as pessoas são reduzidas a números e vivem em uma existência alienada.
  • Jogos Vorazes de Suzanne Collins: Descreve um futuro distópico onde jovens são forçados a lutar até a morte em um reality show televisivo.
  • Mad Max de George Miller: Apresenta um mundo pós-apocalíptico onde a violência e a anarquia reinam.

Distopias são frequentemente usadas para criticar aspectos negativos da sociedade atual e alertar sobre os perigos de certos caminhos. Elas também podem ser interpretadas como metáforas para questões mais amplas, como a natureza humana, o poder e a liberdade

Alexandre Inácio

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

O caracol

  •  

  • Caldas da Rainha, 2024 
  • Fotografia, Manuel Rodas



  •  Análise técnica:
  • 1. **Perspectiva e ponto de vista:** A fotografia foi tirada de baixo para cima, uma escolha que dá um ar monumental à escultura e à luminária. A visão inclinada não apenas adiciona dinamismo, mas também faz com que o espectador se sinta "menor" em relação ao caracol e à lâmpada, como se estivesse no papel de observador de algo maior e mais impactante. Essa perspectiva acentua a sensação de uma narrativa entre os elementos da imagem.
  •    
  • 2. **Geometria e formas:** As formas curvas da escultura do caracol são contrapostas às linhas retas da arquitetura e aos detalhes angulares da luminária. Esse contraste entre formas orgânicas e geométricas cria um equilíbrio estético interessante. As curvas da luminária e os arabescos no suporte de metal também se conectam visualmente com a concha do caracol, sugerindo uma harmonia subjacente entre os elementos.

  • 3. **Foco e nitidez:** A foto apresenta nitidez nos elementos principais (caracol e luminária), enquanto o fundo, como as árvores, está levemente desfocado. Isso direciona o olhar do observador para o primeiro plano, enfatizando a importância da escultura e da lâmpada no contexto da cena.

  • 4. **Linhas condutoras:** O telhado e os fios que atravessam a imagem ajudam a conduzir o olhar do espectador. As linhas verticais e diagonais presentes na composição criam uma estrutura que sugere movimento e continuidade além da moldura da foto, fazendo com que o olhar percorra todo o espaço visual.

  • Análise artística:
  • 1. **Surrealismo e estranheza:** O grande destaque é a escultura do caracol em uma escala que contrasta com o cenário realista ao redor. Essa justaposição de algo fora de contexto em um ambiente cotidiano cria um efeito surrealista. O caracol, um animal pequeno e discreto na natureza, é aqui transformado em algo monumental e digno de nota, desafiando a percepção comum. Isso pode evocar interpretações sobre a transformação de pequenos detalhes da vida em algo digno de atenção e reflexão.

  • 2. **Simbologia do caracol:** O caracol é frequentemente associado à lentidão, paciência e à natureza cíclica da vida (devido à sua concha em espiral). Sua presença em uma parede de uma cidade moderna pode sugerir uma crítica sutil ao ritmo acelerado da vida urbana. A imagem pode estar provocando uma reflexão sobre a importância de desacelerar e observar o que está ao redor, algo que a fotografia em si permite — congelar um momento para contemplação. 

  • 3. **Contraste entre o natural e o construído:** A parede lisa e a estrutura do prédio simbolizam o mundo feito pelo homem, enquanto o caracol representa a natureza, mesmo que neste caso seja uma criação artística. Essa interação pode ser vista como uma metáfora para o modo como a natureza e a humanidade estão sempre em tensão, coexistindo e muitas vezes se moldando mutuamente. O fato de a luminária estar presente sugere uma intervenção humana sobre a natureza, enquanto o caracol parece permanecer impassível.

  • 4. **Temporalidade e permanência:** Há também um jogo de temporalidade implícito. A luminária é um objeto utilitário, que ilumina temporariamente, enquanto o caracol, tanto na sua forma quanto no simbolismo, é uma figura que representa o tempo prolongado e a permanência. A escultura é fixa, duradoura, enquanto a luz é algo efêmero, que se acende e apaga. Esta dualidade pode sugerir uma reflexão sobre a passagem do tempo e o que permanece ou desaparece com o tempo.

  • 5. **Atmosfera minimalista:** Apesar dos detalhes ricos, a imagem tem uma atmosfera minimalista por causa do uso de preto e branco. A ausência de cor reforça o foco nas formas, texturas e contrastes, permitindo que o espectador se concentre na mensagem visual sem distrações cromáticas. Isso cria um ambiente mais contemplativo e poético.

  •  Contextualização possível:
  • 1. **Arte pública e urbanismo:** Se a escultura faz parte de um projeto de arte pública, ela também pode estar desempenhando o papel de questionar o espaço urbano e como interagimos com ele. Ao colocar um caracol gigante numa parede, o artista pode estar destacando a relação entre o espaço natural e urbano, ou até mesmo convidando os transeuntes a verem o cotidiano de uma nova perspectiva. A arte pública tem o poder de desafiar percepções e recontextualizar ambientes familiares, como essa obra parece fazer.

  • 2. **Fotografia de rua e a captura de momentos inusitados:** O fotógrafo, ao escolher capturar essa cena, pode estar celebrando o inesperado que existe nos cenários urbanos. A escolha de enquadrar o caracol junto à luminária pode ser uma forma de transformar algo ordinário (a lâmpada) em parte de uma narrativa visual mais ampla e criativa, mostrando como pequenos detalhes arquitetônicos ou esculturas podem transformar um ambiente.

  • Em resumo, a imagem que você compartilhou é rica em camadas de interpretação tanto técnica quanto artisticamente. Ela consegue capturar um momento que mescla o mundano e o surreal, enquanto utiliza a fotografia em preto e branco para criar uma atmosfera de introspecção e contemplação visual.

  • Alexandre Inácio