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segunda-feira, 22 de julho de 2019

A concentração de Faro


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 23 de julho de 2010

O Paulo E. convidou-me a ir a Faro, à concentração de motas e motociclistas. Um grupo pequeno, partida na sexta e regresso no domingo, com estadia numa residencial e ida à praia. Porque não!? Já há vários anos que digo para mim “ para o ano vou”. A verdade, é que os afazeres do quotidiano, uma certa inércia e falta de planeamento têm adiado sucessivamente esta possibilidade. Convencida a família, lavei a moto, puxei-lhe o brilho, soprei, mudei os piscas e olhei a obra, com enlevo. Ela continuava linda e a sorrir para mim.
Aquilo prometia!
À hora combinada, sexta feira, 10,30 h, encontrei-me com ele na esplanada dum cafezinho num Bairro de Lisboa. Conversa daqui, conversa dali, apresentação a um grupo inicial de 6, depois mais 4, depois cinco, mais café, outro aperitivo, mas ninguém tinha pressa. Um amigo pede uma sopa de legumes! Eram 11,30h.
Finalmente soube da razão de tanta espera. Um elemento do grupo tinha ido comprar a moto, nessa manhã, e por isso, estávamos à espera…
Aquilo prometia!
A maior parte eram Harley’s. As outras distribuíam-se entre as Hondas, VFR e Goldwin, a Triumph, a BMW e claro, a minha Yamaha. O grupo era constituído por vários subgrupos: uns 4 ou cinco mais maduros, reformados ou pré-reformados, 3 ou 4 professores, 3 ou 4 tecnocratas, informáticos, dois casais, 3 ou 4 musculados com tatuagens e finalmente o M.! A sua moto, uma Harley com mais de 50 anos, há muito pedia a reforma. Não tinha farol e não carregava a bateria. Ele era baixo, quase gordinho, quarentão, cabelo (pouco) preso atrás e uma barbinha dependurada no queixo, com andar gingão, riso matreiro, entre a ironia e a piada fácil, olhar rápido e de soslaio. Calças de ganga e na camisola o retrato do Salazar, ainda novo, talvez professor em Coimbra, com a inscrição na vertical “ o incorruptível”. Concentrava as atenções de todo o grupo. Resposta fácil, era o anti-líder. O outro era baixo, vestido de preto, olhava por cima de todos e chamavam-lhe o chefe. Era o líder. Finalmente deu o sinal e as Harley’s fizeram-se ouvir com o matraquear constante, tradicional destes motores, seguidos do resto da orquestra, mais silenciosa, mas afinada.
Aquilo prometia!
Atravessamos a Ponte Vasco da Gama e aquele enxame de motores a zumbir, cromados e capacetes a brilhar, entusiasmava-me, confesso. Parece que já tinha visto esta cena, ou num filme, num sonho, numa revista, não importa, era-me familiar! Finalmente íamos! As paragens foram-se sucedendo. A caravana lá ia encolhendo nas paragens e alongava-se nas partidas. Umas vezes para meter gasolina, outras porque era preciso ir à casa de banho e reabastecer com água, cerveja e salgados. Logo a seguir, porque a bateria da mota do M. tinha acabado e como não recarregava era preciso trocar por outra. Ou porque estava muito calor e era preciso aguardar. Afinal eles já se conheciam há vários anos e até conheciam algumas pessoas nas tascas onde parávamos. Soube depois que faziam esta peregrinação, todos os anos nesta altura.
Aquilo prometia!
Quando alguém perguntou ingenuamente se já tinham marcado o jantar, o M. respondeu: Mas vocês querem andar de moto ou querem ir numa excursão com tudo programado? O risinho sarcástico, os olhos semicerrados, como quem tinha descoberto a última verdade… Todos riram, acharam piada e claro, queriam andar de moto e tudo o que isso pudesse significar. O M. prendeu com um esticador a lanterna no lugar do farol, a sorrir cinicamente e ligou o interruptor escondido da iluminação da matricula. O pequeno rectangulozinho do tamanho duma carteira de fósforos vermelha piscava como luzinhas do pinheiro de natal, enquanto dizia não querer problemas com a polícia.
O Alentejo estava redondo, quente, seco e sonhador. Imensas áreas com plantação de tubos, a imitar o plantio das videiras no Douro, mas afinal eram oliveiras… Eram os espanhóis a investir na azeitona, no Alentejo. O sol ia-se despedindo de nós, ainda antes de chegarmos ao Algarve. O ar começava a ficar mais fresco e o ronronar dos motores embalava um final de tarde reconfortante e prometedor.

Nova paragem. A mota do M. recusava-se a andar. Os cinquenta anos impunham a sua lei. Todas as motas encostaram na berma da estrada, que subia até ao céu e deixava imaginar o que se esconderia lá por trás da elevação. Os vários experts foram sucessivamente desistindo, enquanto se contavam piadas e histórias acerca de M. e da sua mota. As coisas este ano até estavam a correr bem. O ano passado trazia uma bateria de computador e pedia nos cafés para a carregar. Só muito depois a turba começou a mostrar alguma impaciência. Eram 22h e estávamos numa recta em direcção ao céu… Os carros iam passando e alguns perguntavam se precisávamos de ajuda. Com os telemóveis acesos, dois ou três faziam sinal para abrandarem. De repente, ouve-se uma chiadeira de pneus, uma guinada e… um alívio! Por sorte, o carro tinha-se desviado a tempo de levar na frente as motos todas… Este foi o sinal. Ele que mandasse vir o reboque e ficavam dois ou três a fazer companhia. Assim foi. E outra vez, finalmente, a viagem recomeçou em direcção ao restaurante!
Aquilo prometia!
Quando lá chegamos, o homem entre dentes foi dizendo que era uma falta de consideração, pois tinham marcado para as 21 e já eram 23 h. Entretanto chega mais um casal e comemos, bebemos melhor ainda, e para pagar como éramos 18, alguém resolveu que se dividia por 14, pois as 3 mulheres não pagavam e o marido da recém chegada também não. Porquê? Perguntei ao meu colega do lado. Eu já não quero saber, dizem-me para pagar e eu pago! Era o mesmo que mais tarde me confessava que quando lhe pediram um orçamento, para determinada obra, este disse: Se viesse da Alemanha era 500 mais caro. Assim faço 500 mais barato e dividimos a diferença ao meio!
Aquilo prometia!
Em direcção à residencial, ao virar numa esquina, com os pés no chão, deixei fechar demais a direcção e quando acelerei, já não fui capaz de segurar a mota, pois o peso tinha-se deslocado demasiado e por isso deixei-a cair. Resultado, um pisca e a manete do travão partidos e uma humilhação às 2 da manhã. Como se foram quase todos embora, só dois amigos me acompanharam, pelo que quando quisemos saber onde era a residencial estávamos a perguntar a quem passava… Foi difícil, mas finalmente enquanto tomava banho, jurava que era última vez que ela me faria cair. Quando chegasse a casa a primeira coisa a fazer era pôr um anúncio, isto não voltaria a acontecer, já era a 3ª ou 4ª vez, estava farto e sempre pela mesma razão: ela impacientava-se!…
Aquilo prometia!
No dia seguinte, pequeno-almoço e praia. O mar…mar… sempre igual e sempre diferente. Lá ao longe Marrocos, deste lado as Canárias e mais à direita a Madeira e acima os Açores.
Queres ir a Faro? Que não, era só uma possibilidade, mas não era exactamente necessário. Preferia ir no dia seguinte ao desfile! Fazes bem, pois aquilo é uma confusão, as casas de banho só funcionam no primeiro dia, é uma bagunçada, a comida deixa a desejar e os preços de entrada são exorbitantes e injustos…
Banho, mergulho, passagem pelas gordas do jornal ” i “, almoço, bife de atum. Pouco tempo depois, com um amigo, corre, corre, alergia ao sol, muito calor, tremedeira, calças na mão e… diarreia. Desfazíamo-nos em merda.
Isto prometia!
À noite jantarzinho de peixe assado e coca cola, com passagem pela farmácia. No dia seguinte, enquanto tomava o pequeno-almoço e pronto para ir a Faro ver o desfile, comecei a ouvir: Este e aquele já foram embora… e eu e o outro vamos agora. O T. perguntou: E se fossemos agora, enquanto não há muito calor? Parávamos em Beja ou Évora… Pois… era bom…enquanto não há muita confusão…vamos lá? E eu: Pois vamos lá embora! E assim iniciamos o regresso às 11 horas, quando o sol começava a ficar mais quente. Depois até Évora foi um saltinho. Chegamos lá esbaforidos e assados por volta das 14 H.
Cheguei a casa às 21h de domingo, depois de passar pelo supermercado a comprar chocolates. A família tinha-me preparado uma recepção incrível. Abraços e beijos, sorrisos e beijos. Banho com sais, flores e chá verde, velas e velinhas por tudo quanto era sítio e um vinho branco fresquinho, com mais umas iguarias que a minha filha tinha ajudado a mãe a fazer… com um letreiro florido a dizer: Para o maior motard do mundo!
Sinceramente, senti-me bem. Achei justo e merecido. Tinha valido a pena sair, para voltar a casa, com dois chocolates e um sorriso. Não interessa onde fui, nem com quem fui, nem o que fiz. O mais importante foi ir, correr atrás dos sonhos e fantasias, regressar e continuar a viagem, através dos que mais amo.

19 de julho 2019

Quem diria que nove anos depois eu voltava pela terceira vez ao Algarve, de mota, com os amigos de 2010? Bom eu já tinha ido lá em 2015, mas foi uma viagem normal. Normal? Com estes amigos nada pode ser normal.
Ainda não tinha falado no Meia Orelha? Pois o Meia Orelha era um artista...incompreendido. Tinha trabalhado nas Páginas Amarelas (PA) pintava e tinha algum sucesso na venda das suas obras. Antes tinha dado aulas  de Educação Visual, mas foi ganhar mais e com mais liberdade para as PA.
Era gordo, suava muito, bebia mais, conduzia a maior parte do tempo com a mão esquerda no punho da direita, enquanto coçava as pernas e as costas com a mão direita. Tinha uma mochila escura que nunca largava o que levantava as maiores suspeitas sobre o seu conteúdo. Conduzia uma BMW azul, 1100 cm3, como nova, bonita, mas a precisar de óleo, a cada 300kms.
Quem fez a marcação do hotel, reservou 12 ou 13 lugares e por distribuição mais ou menos anárquica, ficou decidido que íamos para o mesmo quarto do hotel. O Meia Orelha era simpático, bonacheirão, até. Um artista nunca pode estar zangado com a vida. Com as pessoas e as instituições, sim, mas com a vida, não.
O problema é que ele ressonava muito e de manhã pedia-me desculpa e sorria com um sorriso de complacência com a fatalidade - não havia nada a fazer. Por mim, eram duas noites e pronto. Mas fiquei a pensar que a esposa não teria vida fácil, deitada ao lado dum trombone resfolegante. Conversamos muito e ele fez muitas confidências, o que me pareceu estranho, uma vez que nos conhecíamos mal. E perguntei-me: o que tenho eu para lhe transmitir tanta confiança?
E era um rosário de confidências. A má relação com a mulher, com os filhos, problemas de saúde, o acidente que tinha tido e o obrigara a andar com meia orelha transplantada nas costas, durante algum tempo, enfim, uma vida bem preenchida com factos cinematográficos, mas que se percebia uma alma incompreendida e inquieta.
No regresso, o grupo de seis parou para almoçar em Évora. Comemos e bebemos o bastante para chegar a casa sem apetite. Quando voltamos para as montadas, não é que a BMW do Meia Orelha tinha um pneu furado? Depois de se ter analisado a situação, concluiu-se que era a válvula que tinha rebentado e ...precisava dum reboque. Foi com pena de todos que o vimos assistir ao reboque da mota e com ar compungido subir para o camião de reboque, com a mochila às costas. Ficamos a tecer considerações sobre as BMW’s, sobre o carácter dele e sobre a sua mochila. Alguém adiantou que ele trazia as jóias (da mulher?) ou pedras preciosas. Disse que deviam ser documentos importantes que ele guardava lá. Não lhes podia falar sobre as confidências que me tinha feito nessa noite.

O tempo passou e um dia recebo uma chamada. O Meia Orelha queria tomar um café comigo e eu sugeri o Inatel de Oeiras. Ele apareceu, muito transtornado, com o suor a cair em bica, muito agitado e quando nos vamos sentar surgiu uma colega que eu não via há muitos anos. Ela perguntou por mim, pela esposa, pela minha filha, por colegas, contou histórias dos passeios dela e enquanto ia olhando para o meu amigo sentado, ia pensando que talvez fosse bom, pois podia acalmar-se enquanto esperava e depois podíamos falar melhor.
Enganei-me. O Meia Orelha levantou-se ainda mais agitado e  disse que não podia esperar mais, que tinha pena mas tinha de ficar para outro dia. Mostrei-me arrependido da demora e foi constrangido que me despedi dele. Nunca mais o vi e passado duas semanas o Tó M. telefona-me a dar a novidade, tinha sido internado a pedido da esposa, deram-lhe duas injeções, prenderam-no com o colete, mas ...tinha havido um erro e ele morreu.
Reconstituí a cena e as peças não articulavam de modo a fazerem sentido. Porque tinha tanta necessidade de falar comigo, que mal nos conhecíamos? Porque estava tão agitado? Porque não esperou?
Foram perguntas que só agora, nesta ultima viagem pude encontrar algumas repostas, depois de muito conversarmos. Sim porque ele  e o famoso Manel, foram as estrelas temas da nossa conversa em 2019!
Pelos vistos ele estava muito agitado nesse dia, porque me iria fazer um pedido extraordinário e o deixava tão inquieto, que eu ficasse fiel depositário da sua mochila! Porquê? Porque eu não era conhecido da família, nem dos amigos e deste modo, eles nunca suspeitariam da pessoa que guardava a mochila, bem como do seu conteúdo.
Fiquei lisonjeado por ele confiar em mim, mas não sei como lhe poderia dizer o quanto isso me incomodava, pois como iria guardar algo de proveniência muito suspeita?
Tive pena dele e de que tivesse morrido dessa forma, aparentemente por negligência médica.
Mas voltando a 2019. Eu tinha prometido que não mais atravessaria o Alentejo às 16h da tarde. Nem às 17!
Mas voltei. Passei no inferno duas vezes, uma para baixo na sexta feira, dia 19 e outra para cima no domingo, 21. Ele existe, mesmo que o Papa venha dizer que o inferno já não existe. Existe na estrada do Alentejo, entre Évora e Almodovar, ou entre Almodovar e Évora, de mota, em julho de 2019!
A parte restante e que dá muito prazer é a possibilidade de fazer muitos quilómetros com amigos. Partilhar a paisagem, apontar com o dedo indicador o ninho da cegonha no alto dum poste da eletricidade de alta tensão, uma ave de rapina a vigiar o espaço, uma carroça puxada por um casal cigano com uma catrefada de filhos, a silhueta dum monte, o amarelo da pradaria, a azinheira frondosa, o estendal da roupa caída no meio da estrada, a raposa atropelada, um gato morto...
 Numa viagem de carro podemos encontrar um amigo que nunca se cala, mas de mota isso só acontece quando estamos parados. De resto, só os gestos são permitidos e não é sempre porque a 140 ou 150 à hora, não é fácil ter tempo para estes pormenores. É por isso que a viagem de mota permite uma solidão acompanhada, sobrando tempo para uma paz interior, promotora de associações livres de diálogos intemporais e memórias ocultas, comunicação com o eu! E depois, sentir o perfume da terra, a resina dos pinheiros, o vento do deserto e a maresia longínqua, trazida pela aragem é algo que não podemos fazer com a janela do carro fechada e o ar condicionado ligado. É a comunicação mais pura entre o eu e a natural natureza, sem intermediários, sem fingimentos, nem palavras!
Parados, a conversa corre mais depressa que a cerveja. Recordam-se as peripécias do ano anterior, os incidentes críticos da viagem, fala-se das pessoas e de ...motas.
As aventuras do Manel são repetidas, acrescentam-lhes mais episódios, como das lanchas que comprou nos Estado Unidos e quando pôs a primeira na água afundou de imediato. A segunda atracou na doca de Setúbal, mas quando a maré desceu, os cabos rebentaram porque eram muito curtos e a lancha lá ficou no fundo, como a outra.
Ingenuamente perguntei, mais para saber histórias do que para obter respostas:
-  Mas afinal o que faz o homem para sobreviver?
-  Compra seco e  vende molhado - respondeu o Vasco H. com o ar mais prazenteiro do mundo.

Para além do Manel, o Zé C. nascido em Vila Verde foi a atração deste ano.  Baixinho, com o cabelo todo branco, 60 anos, a fazer-me lembrar um ator de cinema, (C.Bronson?).
Com um sorriso  confiante e decidido o homem sabia tudo sobre motas, como se rebaixa, baixa, desfaz e refaz, como se alarga, comprime e encurta, como alonga, encolhe e torce, ou se endireita, desenferruja e pinta! Nada lhe escapava, fazendo meças a qualquer enciclopédia de motas ou qualquer livro técnico de metodologia e instruções, um verdadeiro engenheiro de motas!
Conhecia os modelos todos das motas, desde os anos sessenta, as variações entre modelos e marcas, as características dos motores, amortecedores, espelhos, faróis, parafusos e molas! E por fim, porque os depósitos da gasolina das motas enferrujam todos no fundo.
Tanto conhecimento obrigava-nos a termos cuidado no que dizíamos ou no que perguntávamos, porque senão ele de sorriso irónico, e com autoridade consentida, dizia que não era assim, era assado!

Eu nunca fui um especialista das componentes técnicas duma mota. Sei o principal e este ano até fiz a revisão da minha. Mudei os filtros e o óleo. Foi um êxito para mim, mas daí para a frente é para quem sabe. Gostava que ele fosse meu vizinho, gostava de falar mais com ele e consultá-lo quando tivesse curiosidade ou necessidade, mas infelizmente ele vive lá para os lados de Sacavém, pelo que não será fácil.
Este ano, tal como nos anteriores manifestamos uma alegria enorme no reencontro, como estás, como vais, fomos jantar todos juntos, bebemos uns copos, falamos muito e no dia seguinte uma ida à praia, à noite alguns foram a Espanha  jantar. Metemos gasolina em Espanha porque é mais barata e regressamos no outro dia depois do pequeno almoço. O Paulo E. sugeriu um restaurante em Évora, o Moinho, e aí retemperamos as forças para o regresso. Muito bem escolhido, com sopa de cação, migas com bacalhau e migas de carne frita. Uma cericá, uma troucha, mais uns doces, cafés e o Tó M. não resistiu a um bagaço, prontamente dividido com o sempre atento Jorge. Parece distraído, mas quando lhe convém, ali está ele de copo no ar! Grande Jorge! Para o ano vou fazer uma crónica sobre ele.
Já me esquecia. Este ano os filhos também foram de mota. A geração seguinte apresenta-se ao serviço. Apareceram o filho do Vasco H., o filho do Luís e as respetivas namoradas, e mais um amigo. Preferia que no regresso, a conversa em Montemor-o-Novo, a roda tivesse sido alargada e as duas gerações partilhassem as histórias, as emoções e afectos. Não gostei de ver os dois grupos de costas voltadas.
Ainda não foi possível desta vez. Para o ano vou fazer questão disso!
Ah! E ainda não foi desta vez que fomos a Faro. Ficamos em Vila Real de Santo António!
Boas curvas e ... até breve!
Manuel Rodas






quinta-feira, 29 de novembro de 2018

OLGA







Olga

- Pai, porque escolheram o meu nome assim... Olga?
- Foi o teu bisavô que insistiu, e também era uma homenagem à tua avó!
- Porque seria assim tão importante para ele?
- Tinha  a ver com a história dele na Grande Guerra...

Quando António José Cerqueira, 1º cabo, foi alistado para o CEP, já pressupunha que, mais dia menos dia, iria ser alistado para França, para  a frente da batalha. Tinha feito a preparação militar em Tancos, na famosa cidade de “paulona”, por causa das barracas de pau e de lona, alinhadas num gigantesco espaço de 68 hectares, onde só para os regimentos de infantaria existiam no acampamento 864 barracas.
Apertava a placa pendurada no peito com a inscrição gravada 70292 A, enquanto dizia si próprio, “seja o que Deus quiser”. Olhava o horizonte à procura dum ponto dentro de si,  que só ele sabia onde continuava.

Em março de 1917, as primeiras unidades do CEP chegaram à frente de combate, onde se encontrava instalada uma Brigada da 1ª Divisão a ocupar o sector de Ferme du Bois, em França.
António José integrava a unidade que iria reforçar as tropas portuguesas e  partiu numa terça feira, para Brest, em vinte e cinco de julho de 1917.
O dia anterior era uma segunda feira radiosa, boa demais para desperdiçar numa guerra distante da terra portuguesa.  Iniciaram a marcha pelas 10 horas da manhã para a estação de caminho de ferro de Braga, desde a Praça dos Voluntários da República, fronteira à sede do regimento, seguindo pela rua do Anjo, largo dos Remédios, rua de S. Marcos, largo do Barão de S. Martinho, rua do Souto, rua Nova de Sousa, praça do Conde de S. Joaquim, rua do Corvo até ao largo da estação.
Abria esta marcha a banda do regimento com pouco povo ao longo do trajeto. Doía tanta indiferença para quem ia matar e ser morto.
Junto à estação estavam as autoridades locais e muitos familiares, onde se fizeram as últimas despedidas emocionadas, à mistura com o patriotismo republicano.
O comboio repleto de militares deixou a estação de Braga às 11.37 horas, tendo chegado ao cais de Alcântara, em Lisboa, na madrugada de dia 25 de julho, seguindo de imediato para bordo do navio que os ia levar até Brest, no norte de França.
Enquanto isso, ele repetia  para sipróprio, “seja o que Deus quiser”.

Após uma viagem turbulenta no mar, chegados a França, prosseguem de comboio a Calais, seguindo-se a marcha até Wismes, ainda a mais de 50 km da frente. Nos dias seguintes e após uma ligeira instrução ocupam as trincheiras, contando, de imediato, com o batismo de fogo alemão, com granadas, bombardeamentos de morteiros e lançamento de gases.
A vida na “front” corria cheia de percalços. Os combates, a desorganização, a comida de ração fria, com moral baixa, o frio e a chuva, o nevoeiro e a falta de horizontes compunham a via sacra dos suplícios.
Os oficias vinham de férias e não voltavam. Aos soldados não lhes era permitido serem substituídos ou gozarem descanso. Quantas vezes teve de mandar calar aquela gente cheia de razão. Apesar disso, sentiu orgulho pela  nomeação:  2º sargento miliciano. Era uma quinta feira cheia de frio e humidade, 23 de março do ano de 1918. Seja o que Deus quiser.
Era abril, as papoilas começavam a romper a terra e as boas notícias a chegar, iriam ser rendidos. Estava tudo preparado para cederem o lugar da frente a outros. Iam ter umas merecidas férias. Mas a 9 de abril, não sei o que deu aos alemães, irromperam com uma força desmedida e soube mais tarde, foram os ingleses que cederam e os portugueses foram apanhados pelas costas.
Feito prisioneiro, na companhia de milhares, foram encaminhados para a estação de Lille e daí só se lembra que encontrou um catre seco no Campo de Prisioneiros de Friedrichsfeld, junto da fronteira holandesa, numa aldeia chamada Wesel, a norte da cidade de Colónia.
Os homens não paravam de chegar. Pelos oficias portugueses feitos prisioneiros, soube que em agosto de 1918, estavam internados neste Campo, mais de 5 000 praças e oficiais. Só em outubro havia de ser feita a transferência dos Oficiais portugueses para Breesen, um mês antes do fim da guerra.
Havia um hospital e uma capela, mas a vida no Campo era miserável. Além da comida insuficiente, esta ainda era má: cascas de melão e melancia, cascas de batata com terra e peixe tão malcheiroso de podre, que, mesmo famintos, os prisioneiros não o conseguiam comer.
Viu os alemães  a matarem  ou ferirem prisioneiros mesmo depois de estes deporem as armas e se renderem e o mesmo no campo de prisioneiros. Alguns queixavam-se das roupas e pertences roubados, dos castigos, empregando os presos de guerra em trabalhos excessivos ou em operações bélicas.
Viu serem recusados apoios médicos e sanitários aos doentes, sendo a pneumonia, as amputações, a “gripe espanhola”, a sepsias, a pleurisia e a tuberculose as principais causas de morte.
Era a este Campo, que o 2º sargento António José Cerqueira tinha chegado. Já há muito que tinha desistido de dizer para si próprio, Seja o que Deus quiser. Essa voz interior tinha-se calado, nem ele sabia bem como. Deus pode querer umas coisas, mas um homem pode querer outras, pensava consigo. A ideia de fugir dali crescia como as papoilas nos campos. Primeiro um botão, depois uma haste e um ponto verde, o ponto a ganhar volume, a respirar condição e, por fim, abre as asas e emerge uma esperança vestida de vermelho, uma bandeira cheia de força e alegria, a tocar as nuvens e o sol.
A sensação de medo e de vergonha, comum a todos os soldados no momento da captura, alastrava por entre os companheiros detidos. Alguns ofereciam objetos pessoais - punhais, emblemas, relógios e carteiras - a fim de obterem a benevolência do inimigo.  Outros eram  vítimas deste por interesse em objetos de valor e até artigos de fardamento como botas e casacos em bom estado.
À medida que iam tomando consciência de que já não eram apenas soldados – a guerra para mim acabou - e passaram a ser prisioneiros de guerra, surgia a desmoralização e a depressão para alguns.
Nos prisioneiros crescia a certeza que estavam entregues a si próprios. Os seus pensamentos iam desde o sentimento de desgraça, abandono e raiva, à sensação de alívio por saberem que sobreviveram ao conflito e que, para eles, a guerra estava acabada, diria ele mais tarde aos oficiais portugueses.
Havia contudo outros que mantinham uma adaptação às novas circunstâncias, sem contudo, desistirem dos desafios e obter a gratificação de os alcançar.
A fuga esteve sempre presente na alma de António José Cerqueira. Tudo que observava em volta, a dimensão do campo, as rotinas, o carácter dos soldados alemães que os vigiavam, os civis que entravam no Campo, o estado do tempo, a viagem até ao caminho de ferro, tudo era observado minuciosamente e guardado na memória ativa. Tudo podia ajudar à fuga. Podia ser o que Deus quisesse, mas ele, António José, tinha uma palavra dizer. Mantinha-se aparentemente desinteressado e alheado, mas nada do que ali se passava lhe era indiferente. Tomando consciência desta resolução, endireitou o corpo e a sombra alongou-se mais um palmo na terra batida.

Todos os dias uma menina, de olhos claros e cabelos louros, de vestido de chita e botas sujas pela lama, vinha distribuir água aos prisioneiros. Talvez fosse filha dalgum trabalhador do Campo ou dalgum soldado. Era difícil comunicar com ela por palavras, apenas restavam os gestos, o sorriso das papoilas e o olhar mais límpido que a água.
A ele agradava mais a feliz aparição do que a água, propriamente dita. Aqueles olhos sorriam de humanidade jovial. Anunciavam um tempo de promessas de paz, com as famílias reunidas, as crianças a brincar ao sol...
Olga, chama-se Olga a feliz aparição diária. Olga, nome de futuro.
Se um dia casar e tiver uma filha há de chamar-se Olga, prometia o 2º sargento, a si próprio. É um nome que me enche a boca e empurra o amor pela garganta abaixo direto ao coração, Olga. E sonhava com o dia do casamento, do batizado, o dia em que a levaria à feira dos Arcos...Olga.
Era a senha e contrassenha para a sua fuga, o seu sonho.
Para isso, era preciso sair daquele inferno. Começara com mais prisioneiros a trabalhar na reparação dos caminhos de ferro. Era assim que os alemães cobravam o esforço de guerra, obrigando os prisioneiros a trabalharem nos caminhos de ferro, nos campos, no enterro dos mortos, na manutenção do Campo e em operações de guerra.
Rapidamente deitou mão ao mapa dos caminhos de ferro da região e ... com sorte chegariam à frente portuguesa. Os outros dois soldados facilmente se deixaram conduzir pela voz confiante do 2º sargento.
Vamos, meu sargento, vamos consigo! Seja o que Deus quiser.
Sorriu António José. Afinal, Deus também podia querer que eles fugissem. E fugiram. Aproveitando a desatenção do oficial alemão já não regressaram ao Campo. Traziam o mapa e pão escuro armazenado durante a semana. E levavam a certeza que se safavam daquela aventura.
De comboio, a pé, acordados ou a dormir, guiados por um mapa e pelas estrelas do firmamento, apresentaram-se ao comando militar português em 10 de dezembro de 1918, uma terça feira, ao fim do dia.
Aclamados como bravos, contaram todas as peripécias da fuga. A importância do mapa, o deslocarem-se de noite, ao frio, a fome e a vontade de nunca desistirem. Após um período de descanso voltou António José ao desempenho das suas funções de 2º sargento, tendo regressado a Lisboa,  a 13 de Janeiro de 1919, uma segunda feira. Boa para recomeçar a organizar a vida e cumprir a promessa feita nos campos da Alemanha, Olga!
A vida é um conjunto de possibilidades, não é uma fatalidade, dizia para si próprio! Era isto que havia de ensinar a sua filha Olga!

- Pai, depois dessa guerra nunca mais houve outra?
- Olga, trinta e seis anos depois os alemães começaram a II Grande Guerra. Se na primeira morreram dez milhões de soldados, na segunda houve 75 milhões de pessoas mortas, incluindo militares e civis, cerca de 3% da população total do planeta.
- Já sei que nome vou chamar a minha boneca…
- Qual?
- Maria da Paz!


Manuel Rodas