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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

OLGA







Olga

- Pai, porque escolheram o meu nome assim... Olga?
- Foi o teu bisavô que insistiu, e também era uma homenagem à tua avó!
- Porque seria assim tão importante para ele?
- Tinha  a ver com a história dele na Grande Guerra...

Quando António José Cerqueira, 1º cabo, foi alistado para o CEP, já pressupunha que, mais dia menos dia, iria ser alistado para França, para  a frente da batalha. Tinha feito a preparação militar em Tancos, na famosa cidade de “paulona”, por causa das barracas de pau e de lona, alinhadas num gigantesco espaço de 68 hectares, onde só para os regimentos de infantaria existiam no acampamento 864 barracas.
Apertava a placa pendurada no peito com a inscrição gravada 70292 A, enquanto dizia si próprio, “seja o que Deus quiser”. Olhava o horizonte à procura dum ponto dentro de si,  que só ele sabia onde continuava.

Em março de 1917, as primeiras unidades do CEP chegaram à frente de combate, onde se encontrava instalada uma Brigada da 1ª Divisão a ocupar o sector de Ferme du Bois, em França.
António José integrava a unidade que iria reforçar as tropas portuguesas e  partiu numa terça feira, para Brest, em vinte e cinco de julho de 1917.
O dia anterior era uma segunda feira radiosa, boa demais para desperdiçar numa guerra distante da terra portuguesa.  Iniciaram a marcha pelas 10 horas da manhã para a estação de caminho de ferro de Braga, desde a Praça dos Voluntários da República, fronteira à sede do regimento, seguindo pela rua do Anjo, largo dos Remédios, rua de S. Marcos, largo do Barão de S. Martinho, rua do Souto, rua Nova de Sousa, praça do Conde de S. Joaquim, rua do Corvo até ao largo da estação.
Abria esta marcha a banda do regimento com pouco povo ao longo do trajeto. Doía tanta indiferença para quem ia matar e ser morto.
Junto à estação estavam as autoridades locais e muitos familiares, onde se fizeram as últimas despedidas emocionadas, à mistura com o patriotismo republicano.
O comboio repleto de militares deixou a estação de Braga às 11.37 horas, tendo chegado ao cais de Alcântara, em Lisboa, na madrugada de dia 25 de julho, seguindo de imediato para bordo do navio que os ia levar até Brest, no norte de França.
Enquanto isso, ele repetia  para sipróprio, “seja o que Deus quiser”.

Após uma viagem turbulenta no mar, chegados a França, prosseguem de comboio a Calais, seguindo-se a marcha até Wismes, ainda a mais de 50 km da frente. Nos dias seguintes e após uma ligeira instrução ocupam as trincheiras, contando, de imediato, com o batismo de fogo alemão, com granadas, bombardeamentos de morteiros e lançamento de gases.
A vida na “front” corria cheia de percalços. Os combates, a desorganização, a comida de ração fria, com moral baixa, o frio e a chuva, o nevoeiro e a falta de horizontes compunham a via sacra dos suplícios.
Os oficias vinham de férias e não voltavam. Aos soldados não lhes era permitido serem substituídos ou gozarem descanso. Quantas vezes teve de mandar calar aquela gente cheia de razão. Apesar disso, sentiu orgulho pela  nomeação:  2º sargento miliciano. Era uma quinta feira cheia de frio e humidade, 23 de março do ano de 1918. Seja o que Deus quiser.
Era abril, as papoilas começavam a romper a terra e as boas notícias a chegar, iriam ser rendidos. Estava tudo preparado para cederem o lugar da frente a outros. Iam ter umas merecidas férias. Mas a 9 de abril, não sei o que deu aos alemães, irromperam com uma força desmedida e soube mais tarde, foram os ingleses que cederam e os portugueses foram apanhados pelas costas.
Feito prisioneiro, na companhia de milhares, foram encaminhados para a estação de Lille e daí só se lembra que encontrou um catre seco no Campo de Prisioneiros de Friedrichsfeld, junto da fronteira holandesa, numa aldeia chamada Wesel, a norte da cidade de Colónia.
Os homens não paravam de chegar. Pelos oficias portugueses feitos prisioneiros, soube que em agosto de 1918, estavam internados neste Campo, mais de 5 000 praças e oficiais. Só em outubro havia de ser feita a transferência dos Oficiais portugueses para Breesen, um mês antes do fim da guerra.
Havia um hospital e uma capela, mas a vida no Campo era miserável. Além da comida insuficiente, esta ainda era má: cascas de melão e melancia, cascas de batata com terra e peixe tão malcheiroso de podre, que, mesmo famintos, os prisioneiros não o conseguiam comer.
Viu os alemães  a matarem  ou ferirem prisioneiros mesmo depois de estes deporem as armas e se renderem e o mesmo no campo de prisioneiros. Alguns queixavam-se das roupas e pertences roubados, dos castigos, empregando os presos de guerra em trabalhos excessivos ou em operações bélicas.
Viu serem recusados apoios médicos e sanitários aos doentes, sendo a pneumonia, as amputações, a “gripe espanhola”, a sepsias, a pleurisia e a tuberculose as principais causas de morte.
Era a este Campo, que o 2º sargento António José Cerqueira tinha chegado. Já há muito que tinha desistido de dizer para si próprio, Seja o que Deus quiser. Essa voz interior tinha-se calado, nem ele sabia bem como. Deus pode querer umas coisas, mas um homem pode querer outras, pensava consigo. A ideia de fugir dali crescia como as papoilas nos campos. Primeiro um botão, depois uma haste e um ponto verde, o ponto a ganhar volume, a respirar condição e, por fim, abre as asas e emerge uma esperança vestida de vermelho, uma bandeira cheia de força e alegria, a tocar as nuvens e o sol.
A sensação de medo e de vergonha, comum a todos os soldados no momento da captura, alastrava por entre os companheiros detidos. Alguns ofereciam objetos pessoais - punhais, emblemas, relógios e carteiras - a fim de obterem a benevolência do inimigo.  Outros eram  vítimas deste por interesse em objetos de valor e até artigos de fardamento como botas e casacos em bom estado.
À medida que iam tomando consciência de que já não eram apenas soldados – a guerra para mim acabou - e passaram a ser prisioneiros de guerra, surgia a desmoralização e a depressão para alguns.
Nos prisioneiros crescia a certeza que estavam entregues a si próprios. Os seus pensamentos iam desde o sentimento de desgraça, abandono e raiva, à sensação de alívio por saberem que sobreviveram ao conflito e que, para eles, a guerra estava acabada, diria ele mais tarde aos oficiais portugueses.
Havia contudo outros que mantinham uma adaptação às novas circunstâncias, sem contudo, desistirem dos desafios e obter a gratificação de os alcançar.
A fuga esteve sempre presente na alma de António José Cerqueira. Tudo que observava em volta, a dimensão do campo, as rotinas, o carácter dos soldados alemães que os vigiavam, os civis que entravam no Campo, o estado do tempo, a viagem até ao caminho de ferro, tudo era observado minuciosamente e guardado na memória ativa. Tudo podia ajudar à fuga. Podia ser o que Deus quisesse, mas ele, António José, tinha uma palavra dizer. Mantinha-se aparentemente desinteressado e alheado, mas nada do que ali se passava lhe era indiferente. Tomando consciência desta resolução, endireitou o corpo e a sombra alongou-se mais um palmo na terra batida.

Todos os dias uma menina, de olhos claros e cabelos louros, de vestido de chita e botas sujas pela lama, vinha distribuir água aos prisioneiros. Talvez fosse filha dalgum trabalhador do Campo ou dalgum soldado. Era difícil comunicar com ela por palavras, apenas restavam os gestos, o sorriso das papoilas e o olhar mais límpido que a água.
A ele agradava mais a feliz aparição do que a água, propriamente dita. Aqueles olhos sorriam de humanidade jovial. Anunciavam um tempo de promessas de paz, com as famílias reunidas, as crianças a brincar ao sol...
Olga, chama-se Olga a feliz aparição diária. Olga, nome de futuro.
Se um dia casar e tiver uma filha há de chamar-se Olga, prometia o 2º sargento, a si próprio. É um nome que me enche a boca e empurra o amor pela garganta abaixo direto ao coração, Olga. E sonhava com o dia do casamento, do batizado, o dia em que a levaria à feira dos Arcos...Olga.
Era a senha e contrassenha para a sua fuga, o seu sonho.
Para isso, era preciso sair daquele inferno. Começara com mais prisioneiros a trabalhar na reparação dos caminhos de ferro. Era assim que os alemães cobravam o esforço de guerra, obrigando os prisioneiros a trabalharem nos caminhos de ferro, nos campos, no enterro dos mortos, na manutenção do Campo e em operações de guerra.
Rapidamente deitou mão ao mapa dos caminhos de ferro da região e ... com sorte chegariam à frente portuguesa. Os outros dois soldados facilmente se deixaram conduzir pela voz confiante do 2º sargento.
Vamos, meu sargento, vamos consigo! Seja o que Deus quiser.
Sorriu António José. Afinal, Deus também podia querer que eles fugissem. E fugiram. Aproveitando a desatenção do oficial alemão já não regressaram ao Campo. Traziam o mapa e pão escuro armazenado durante a semana. E levavam a certeza que se safavam daquela aventura.
De comboio, a pé, acordados ou a dormir, guiados por um mapa e pelas estrelas do firmamento, apresentaram-se ao comando militar português em 10 de dezembro de 1918, uma terça feira, ao fim do dia.
Aclamados como bravos, contaram todas as peripécias da fuga. A importância do mapa, o deslocarem-se de noite, ao frio, a fome e a vontade de nunca desistirem. Após um período de descanso voltou António José ao desempenho das suas funções de 2º sargento, tendo regressado a Lisboa,  a 13 de Janeiro de 1919, uma segunda feira. Boa para recomeçar a organizar a vida e cumprir a promessa feita nos campos da Alemanha, Olga!
A vida é um conjunto de possibilidades, não é uma fatalidade, dizia para si próprio! Era isto que havia de ensinar a sua filha Olga!

- Pai, depois dessa guerra nunca mais houve outra?
- Olga, trinta e seis anos depois os alemães começaram a II Grande Guerra. Se na primeira morreram dez milhões de soldados, na segunda houve 75 milhões de pessoas mortas, incluindo militares e civis, cerca de 3% da população total do planeta.
- Já sei que nome vou chamar a minha boneca…
- Qual?
- Maria da Paz!


Manuel Rodas

sábado, 24 de novembro de 2018

O REI DAS NUVENS



O REI DAS NUVENS

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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A guerra


Saio de casa, sen vontade de mirar cara atrás.
Sei que hei de volver, por iso, non me despido de ninguén.
Nin de nada.
Vou alí dar un recado, matar ou ser morto nesta guerra - o que é a guerra? - pero volverei.
Claro que levo o corazón preso nunha sombra negra
e as pernas pesan co temor de non saber executar ou fuxir.
Nacín en 1896 e teño 22 anos.
Sei que volverei para ti.
Levo o teu retrato.
Non precisaba, pero teño medo de ser gaseado e perder a memoria.
Se che perder que me atope
e se non me atopas, que non me perda.

Vou á guerra ... matar e ser morto.

...

Saio de casa, sem vontade de olhar para trás.
Sei que hei de voltar, por isso, não me despeço de ninguém.
Nem de nada.
Vou ali dar um recado, matar ou ser morto nesta guerra – o que é a guerra?- mas voltarei.
Claro que levo o coração preso numa sombra negra
e as pernas pesam com o receio de não saber correr ou fugir.
Nasci em 1896 e tenho 22 anos.
Sei que voltarei para ti.
Levo o teu retrato.
Não precisava, mas tenho medo de ser gaseado e perder a memória.
Se te perder que eu me encontre
e se não me encontrares, que não me perca.
Vou à guerra...matar e ser morto.



Manuel Rodas
no centenário do final da I Grande Guerra (1918-2018)

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Manuel de Amorim

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Todos os dias Manuel de Amorim, soldado do 4.º Batalhão de Infantaria* guardava aqueles instantes para sozinho conversar consigo próprio, a pretexto de limpar a sua arma, a inglesa Lee-Enfield.
Bem sabia que agora na Flandres, a vida era diferente. Havia a urgência da guerra e poucos eram esses momentos. Mas hoje era outra coisa. Hoje era o perfume doce da memória, o manto terno da saudade.
Tinha recebido carta de Portugal e a Lee-Enfield de 7,7 mm ganhou outro brilho. A patilha de segurança enrolava-se-lhe nos dedos, como as mãos dela, depois da desfolhada. A culatra, hoje, não era tão fria. Fria tinha sido a despedida, não a culatra.
Com o trapo sujo de óleo e ferrugem, voltou afagar a coronha e a mira, limpando-lhe as lágrimas que a arma não sustinha. Espreitou por ela e lá ao fundo já não havia inimigos. O que ontem seria um campo revolvido de balas e bombas, parecia-lhe hoje um prado acabado de lavrar nas veigas dos Arcos de Valdevez e amanhã um campo de flores de linho, onde se dissolvia o perfume doce das suas liberdades no fim da romaria. O corpo a dar-se e as almas a fundirem-se. Era a ode do amor que atirava para longe a nudez crua da morte.
Lá ao fundo da trincheira, mas bem próximo de si, o sorriso dela apertava-lhe a mão e o dedo no gatilho disparava abraços.
Sorriram-lhe os olhos em volta.
Alheados da sua rotina, alguns soldados vigilantes, mantinham-se de pé, enquanto os outros descansavam.
..........
Desde que ele tinha partido, as tarefas da lide doméstica mantinham-se inalteradas para Avelina da Conceição:
lavrar, esfregar, limpar, cozinhar.
Coser, ferver, mexer, arder.
Sair, decidir, resistir, repartir.
Por, sobrepor, transpor, dispor.
Conjugava a vida toda num único verbo: morrer.
Morria quando pegava na vassoura e quando a arrumava.
Morria com a roupa suja nas mãos.
Morria a olhar para o forno, a descascar as batatas, a dormir, a olhar pela janela a ver quem passa, a suspirar, a lavar-se de vermelho, no riacho.
O corpo renegava as lides e as lides questionavam o corpo com murros na alma.
Maldito campo de flores de linho, onde se dissolvia o perfume doce das tardes soalheiras.
Maldita guerra!

Manuel de Amorim, soldado do 4.º Batalhão de Infantaria; nascido a 25 de Dezembro de 1895 no lugar da Tavarela, freguesia de Santa Maria de Távora, filho de Domingos António de Amorim e de Avelina da Conceição; embarcou para França a 22 de Abril de 1917; faleceu em combate a 9 de Abril de 1918, na I Guerra Mundial.