quarta-feira, 12 de junho de 2013

Alunos e professores, o saber e o poder


Até que ponto é que essa capacidade de acreditar que tudo é possível, o livre pensamento, a criatividade, são transmitidas pelo sistema de ensino que temos?
O nosso sistema de ensino tem uma matriz oposta a essa e esse é um dos seus grandes problemas. É absolutamente anacrónico desse ponto de vista. Falo do ensino básico e secundário, onde as coisas melhores acontecem fora da sala de aula, como se não conseguíssemos mudar a sala de aula e fizéssemos umas flores à volta dela, projectos com a comunidade, actividades artísticas. Não inovamos no coração da pedagogia. A questão é como é que construímos uma escola que não seja à volta das aulas, mas sim do estudo? E o estudo implica uma dinâmica de autonomia, de liberdade, de cooperação, que é uma coisa que falta imenso nas nossas escolas e na sociedade portuguesa. E nos últimos anos, pior ainda.

Entrevista de António Nóvoa à revista do Pública, 26/05/2013



Alunos e professores, o saber e o poder


Em Portugal corria o ano de 1990.
Os fundos da CEE inundavam as oportunidades de investimento fácil, desorientando todos, porque não sabiam onde investir, ou porque sabendo, queriam aumentar de imediato a sua conta bancária. Para outros, era a oportunidade definitiva de comprar frigorifico, televisão ou o modelo de carro e Jeep tão desejados e tão anunciados em todo o lado, como se de uma urgência inadiável se tratasse.

Muitos acreditavam que tínhamos chegado ao paraíso prometido desde a revolução de Abril. Cavaco era primeiro ministro e o governo, braço armado da União Europeia, inflamava-se a mandar abater os barcos de pesca, arrancar as oliveiras, derreter dinheiro nos centros de formação profissional, esbanjar apoio às grandes empresas.

As autarquias queriam resolver o problema do emprego aos eleitores mais influentes, alguns caminhos e candeeiros e acabar com os bairros de lata, obedecendo aos ditames dos empreiteiros, dos bancos e técnicos do Instituto de Reabilitação Urbana! Foi preciso esperar muitos anos para alguns estudiosos virem dizer já em 2013 que o realojamento foi injusto e segregador.

Eu tinha passado os dois anos anteriores, 1987 e 1988, a trabalhar num organismo regional (Lisboa) do Ministério da Educação. Tinha como função coordenar as equipas de professores de educação especial das cidades de Lisboa, Amadora e Sintra. Continuando os esforços de integração das crianças e jovens com necessidades especiais de educação, iniciados com a revolução de Abril, os professores de Educação Especial apoiavam estas crianças e jovens, os professores das turmas, davam ainda apoio e aconselhamento aos pais e encarregados de educação. Desenvolviam ainda esforços de colaboração e inter ajuda com vários serviços locais de saúde, segurança social e autarquias. Eram situações de grande necessidade, com poucos recursos mas, muita sensibilidade social.

O trabalho de apoio educativo exigia uma grande disponibilidade de vida dos professores de educação especial, para gerir situações de tão grande stress e desgaste emocional.
A triangulação constituída por três vértices, (Pais, Prof’s e alunos) com forças de atração e oposição, gerava muita tensão, alguns conflitos e muito desconforto e ... alguns êxitos. Os pais queriam mais aceitação e valorização para os filhos; os professores das turmas queixavam-se de tudo, das dificuldades provocadas por estes alunos, da falta de colaboração dos pais, do Ministério da educação, da falta de formação, da falta de condições materiais e profissionais, do excesso de alunos por turma, dos inspetores, dos programas, etc... ; os alunos queixavam-se da falta de atenção e cuidados dos pais,  violência dalguns colegas, e ainda das suas dificuldades de integração na escola. As auxiliares de educação protestavam  contra o baixo salário, as prepotências dos diretores e o aumento de trabalho com estes alunos. Até as autarquias se queixavam do governo que não atribuía as devidas dotações orçamentais.

Apesar destes problemas, muitos professores de educação especial eram verdadeiros missionários, intervenientes e criativos, mobilizando recursos na comunidade, atores e arautos no apoio a estes intervenientes no processo educativo.

Eu próprio tinha trabalhado como professor de educação especial durante 9 anos,  desde 1978 e senti todas estas dificuldades, desde construir uma profissão diferente, dentro do espaço pedagógico, que até aí não existia, como contribuir para a mudança da escola e das suas práticas tradicionais. Quando aceitei a coordenação destas equipas de professores pensava que poderia ajudar na mediação entre as suas necessidades profissionais e as possibilidades de resposta do serviço coordenador do Ministério da Educação.

Ao mesmo tempo trabalhei exaustivamente com a coordenação do 1º ciclo na Direcção Regional de Lisboa, na preparação de ações de formação e na sua execução em todo o distrito de Lisboa. Isso levou-me a terras desconhecidas, aldeias remotas desde a Lezíria até Torres Vedras, a norte e a sul. Conheci colegas desiludidos com a profissão e zangados com a vida, conheci pessoas muito interessantes, verdadeiros profissionais para quem a sua vida era o seu trabalho e outros que era fácil fazê-los re-acreditar e arrancar um “brilhozinho no olhar”! Espero que lhes tenha servido de alguma coisa para a sua atividade. Foi numa destas sessões  que um dia em Vialonga, vi uns olhos, negros brilhando a cada palavra que ouvia...
Eu pensava que era preciso tratar dos peixinhos doentes, feridos, diferentes, mas também era necessário ir despoluindo as águas onde viviam. Daí o ter contribuído no esforço conjunto da formação, a partir da reflexão sobre a escola!

Estes dois anos passaram e recolhi material suficiente para algumas reflexões:
·      Os governados têm um uma grande capacidade de fantasiar as potencialidades do poder e esperam tudo dele, mesmo o que não está na natureza do poder fazer (pelo menos nestas circunstâncias).

·      O poder está muito mais dependente dos governados do que estes próprios imaginam. Qualquer abaixo assinado por dois ou três pais duma escola deixavam a tremer vários serviços, com medo que este protesto alastrasse na escola, e pior ainda, a outras escolas. Pior ainda se havia eleições próximas...

·      Na sala de aula, os professores têm mais poder que qualquer ministro.

·      A capacidade de intervenção do poder na mudança de práticas  e concepções tradicionais é muito fraca e condenada ao fracasso, se este não for capaz de mobilizar os intervenientes, partindo do principio que o poder quer alguma mudança!

·      O poder tem uma dificuldade tradicional em mobilizar forças da mudança. O poder não quer a mudança. O poder quer estabilidade, continuação do ontem, manutenção da situação, quer seja justa ou injusta. 

·      O poder aparenta desenvolver áreas de liberdade e de justiça, desde que daí decorram dividendos para a sua permanência, auto-justificando-se  e auto-legitimando-se.

·      Quem detém o poder tenta a todo o custo mantê-lo, para continuar a beneficiar dos seus privilégios, ou como meio para atingir os seus fins.

·      Quem não tem poder aspira tê-lo. Muitos, para beneficiar dos seus privilégios, poucos para o utilizar para o bem de todos.

·      A mudança só muito raramente resulta da ação individual, mas um pequeno grupo coeso, com ideias, princípios e valores comuns, pode aproveitar as fragilidades dos sistemas, para evoluir e fermentar um conjunto de ações estruturadas, desafiantes e alternativas.

·      O grupo funciona melhor, em torno duma liderança aceite como vantajosa para todos e assente em princípios e valores consensuais.


A minha passagem pela direção regional do Ministério da Educação, obrigou-me a refazer o meu percurso profissional e ... nada melhor que voltar ao princípio. Eu também era professor primário! Desejei voltar a uma turma e re-experimentar conduzir uma classe, ao longo dum ano lectivo, numa escola primária. E depois logo faria o balanço, se queria regressar à educação especial, ou manter-me numa turma.
Andava eu de volta destas reflexões quando dei comigo a assinar os boletins de tomada de posse do lugar de professor na escola primária nº 124 em Benfica.

A escola fazia-me lembrar o modelo do Plano dos Centenários do Estado Novo. Mas vim a saber mais tarde que era um modelo do Estado Novo para servir as habitações construídas e entregues aos funcionários do Estado e  classe média.

Encostada ao Jardim municipal Silva Porto, em Benfica, era constituída por dois grandes blocos, com rés do chão e 1º andar, cozinha, refeitório, ginásio e um espaço exterior muito agradável.
Na entrada de  cada bloco existiam grandes salas de entrada, com informação nos placards aos pais e alunos.
O corpo docente era constituído por mulheres (23, ou 24...) sendo eu o único homem. As colegas já tinham bastante idade e tinham sido colocadas nesta escola, antes da revolução, ainda por nomeação ministerial, por pertencerem a famílias ou grupos sociais influentes.
A diretora da escola tinha-me entregue a turma dela (4º ano) e assumira a direção da escola, pela primeira vez, a tempo inteiro. Disse-me: Tem quatro alunos a mais, mas como são ciganos só vêm no principio do ano e depois... nunca mais aparecem.
Mais um desafio! Fazer com que eles não faltassem! E não faltavam!

A cultura da escola era não fazer ondas, nada de atividades que mexessem muito com o que era tradicional fazer-se. No natal fazia-se o presépio, na Páscoa, os coelhos punham ovos, e na Primavera os pássaros faziam lindos desenhos. Os alunos, não.
O horário era em regime normal, das 9h às 15,15h, com intervalo de 1,30h para almoço. Havia ainda um intervalo na parte da manhã. Todos cumpriam este horário, saíam, voltavam para suas casas e no dia seguinte lá estavam. Quase todos. Uns mais bem dispostos que outros.

As ordens que chegavam, eram predominantemente administrativas e eram aceites como definitivas e inquestionáveis. Não havia discussão, nem reflexão. Pedagógica. Era assim porque a administração dizia. Ponto. Cavaco era primeiro ministro e havia como um consenso social que proclamava: agora acabou-se a discussão!
Ficava a pensar como estas ilhas pedagógicas tinham permanecido no seu isolamento, na sua solidão, silenciosas e no remanso da quietude do conforto e do marasmo. O tempo não tinha passado. Ainda cheirava a Estado Novo, desde o crucifixo por cima das ardósias, os estrados junto à ardósia, até o ar bafiento dos corredores e dos mapas.

Contaram-me que algumas experiências de modernização e atualização tinham sido condenadas ao fracasso. Ou por cansaço e desistência dos atores, ou pela pressão inexorável dos que querem mudar... para que fique tudo na mesma.
Eu acreditava nos direitos das crianças, na expressão livre, no seu papel ativo e na sua participação nas aprendizagens na sala de aula, na planificação e avaliação das atividades, no valor da cooperação e da ajuda mútua.
Eu obrigava-me a organizar a minha turma, em obediência a estes princípios morais e éticos duma moderna pedagogia, para uma sociedade mais justa!
Sabia que estava sozinho naquela escola, mas confiava que os meus alunos seriam tocados pelo meu querer e boa vontade. Eles seriam os porta vozes deste vento novo, junto das famílias, e essa alegria interior e entusiasmo juvenil, por mim esperado,  deveria chegar para convencer os pais.

Os colegas sabiam que eu tinha estado no Ministério  e isso era suficiente para respeitarem as minhas opções pedagógicas. Eu vinha iluminado pela aura do poder... Era assim que eu pensava e desejava que eles pensassem, para me deixarem em paz, pois os instalados e desconfiados podem ser muito atrevidos.
A diretora tinha bom senso e era simpática comigo. Viemos a ficar amigos. Viúva, mãe dum filho de 19 anos com problemas graves de saúde, manifestei-lhe o meu reconhecimento pelo seu profissionalismo, e pela sua vida cheia de tristeza, dor e sacrifício.

A minha turma de 4º ano era composta por um número semelhante de rapazes e raparigas. Alguns repetentes, 3 ciganos e 3 negros. Eram provenientes das camadas populares em volta da escola. Havia um aluno, filho duma mãe solteira que vivia num autocaravana no Parque de campismo de Monsanto. Diogo? Penso que sim. Havia outros filhos de retornados das ex colónias, alguns filhos de alentejanos radicados na capital e os restantes ... de Benfica!
Como em todos os grupos sociais, representados através duma curva de distribuição normal, havia um pequeno número dos que tinham progredido muito nas aprendizagens, um grande grupo, mais ou menos homogéneo e uns pouco que estavam muito atrasados, havendo 2 ou 3 que soletravam e uma aluna, cigana que não sabia ler.

Em assembleia, e como tinha lido nos pedagogos modernos e aprendido na cooperativa de professores da escola moderna, (MEM) comecei por planificar as atividades semanais na 2ª feira de manhã e fazer a sua avaliação na 6ª feira de tarde. À medida que avaliamos o que tínhamos feito, relançávamos a atividade para a semana seguinte, prevendo tempos para trabalho em conjunto, trabalho de grupo, trabalho a pares e trabalho individual.

Distribuímos tarefas, de modo que o maior nº possível participasse. Marcar presenças, distribuir cadernos e material, manter o quadro e a sala limpos, instituindo como regra que quem sabe deve ajudar quem não sabe.
Como foram surgindo alguns pequenos conflitos, escrevemos num cartaz dividido por 3 colunas, o que gostamos, o que não gostamos e sugestões, onde todos poderiam escrever, elogiar e criticar os colegas e a escola. Na sexta feira, em assembleia, afastados da emoção do momento, analisaríamos este material, já com a distância necessária para achar ridículo o que era ridículo e valorizar o que deveria ser valorizado e assim regulando e gerindo a nossa vida, construirmos um pensamento moral e ético a partir das situações reais de vida.

Organizamos grupos de trabalho, de constituição equilibrada e diversificada, de modo a se poderem ajudar uns aos outros, desenvolvendo projetos de investigação em volta dos temas de Estudo do Meio e da Língua portuguesa e agendamos a sua apresentação à turma, prevendo para isso alguns tempo ao longo da semana, acrescidos do trabalho de pesquisa, sempre que possível, em casa com os pais.

Eu andava radiante e fascinado! A atividade docente era tão gratificante, mas tão exigente, que durante o horário lectivo, me esquecia de tudo o resto, preocupações particulares, recados, etc. Os meus alunos exigiam-me a tempo inteiro, para construírem a sua autonomia!
Poder organizar este grupo duma forma coerente com o que eu acreditava, dava–me uma satisfação tão grande ... que contagiava os alunos. E o entusiasmo deles retornava e contagiava-me a mim!

Contagiava? Não todos.
Um dia numa assembleia, o melhor aluno da sala pediu para falar e disse que já tinha falado com alguns colegas e não queriam continuar nesta escola nova. Tinham saudades da escola antiga, tal como fazia a antiga professora. Não imagino como teria ficado a minha cara. Com certeza com muito espanto. Não era evidente para todos as vantagens da escola nova? Como era possível?
Nunca ninguém me tinha relatado, quer nos diversos encontros de professores, quer na literatura da especialidade, uma situação semelhante.
Perguntei se havia mais colegas a pensar assim e constatei que um grupo constituído pelos melhores alunos, mais alguns, na sua dependência, levantaram o braço, assumindo a sua discordância. Eram pelo menos um terço do total da turma.

O espanto não foi só meu. Os restantes alunos também manifestaram a sua admiração e declararam de imediato, que não estavam dispostos a voltar atrás. Percebi que tinha uma turma dividida. Um pequeno grupo reclamava os seus direitos e uma maioria não estava disposta a cedê-los.
Como era já no final do dia, tentando ganhar tempo, disse que continuaríamos a reflexão no dia seguinte. Passei o resto do dia e da noite, às voltas, a perguntar-me sobre onde tinha errado, que tinha feito de mal? Aqueles anos afastado da turma tinham provocado falhas e corrompido as minhas competências profissionais? Que alunos eram estes, que heroicamente tinham desafiado a figura do professor... para voltar atrás? O que era para eles voltar atrás? Quem eram os que queriam ir para a frente? O que era voltar atrás e ir para a frente? Donde vinha essa força para uns quererem continuar e outros desistirem? Quais eram as suas motivações?
Na verdade, depois de ter recuperado do embate inicial, dei comigo a admirar e a respeitar este grupo. Tinha força, coesão, era corajoso e ia à luta, afrontando mais de metade da turma e o próprio professor!

Durante algum tempo na sala de aula poder-se-ia ver dois grupos. Um, mais pequeno, com as carteiras alinhadas, umas atrás das outras. Outro grupo, com as carteiras distribuídas em U, permitindo deste modo a ajuda, a interação, a colaboração e olhos nos olhos, a expressão livre.

Com este grupo continuamos a nossa organização cooperativa. Plano de trabalho e avaliação semanal, distribuição de tarefas, trabalho individual, em pares e de grupo. Começamos a planear o trabalho de grupo, baseados no programa oficial do estudo do meio. Deste modo, cada grupo iniciava a recolha de materiais, informação diversa e dispersa recorrendo aos manuais escolares, da biblioteca da escola e recorrendo aos pais. O entusiasmo era grande , mesmo entre os que não sabiam ler ou tinham muitas dificuldades. Era com gosto redobrado que os via entusiasmados, os olhitos a brilhar, fazendo-me acreditar que o caminho seria por ali.

Com o outro grupo, perguntava-lhes o que se fazia na escola antiga. Mais como barómetro da sua obstinação, do que por desconhecimento meu. Cópias, ditados e correspondentes erros, leitura em voz alta e respectiva correção, redações com tema dado e fichas de resposta às várias disciplinas. De vez em quando um desenho e respondiam às questões postas pelo professor.
- Assim faremos!
Mas sorrindo baixinho para mim, interrogava-me, quanto tempo iriam resistir?
E tentava estar presente com eles quando o outro grupo tinha atividades mais autónomas. E deixava-os mais sozinhos, quando estes faziam cópias, ditados ou leitura silenciosa!

Só havia uma atividade que tinham de fazer em conjunto: Educação Física. E nesse dia fazíamos o aquecimento a correr no jardim da Mata  e  continuávamos com algum jogo coletivo: Andebol, voleibol e futebol. Ainda pensei no râguebi, mas não houve oportunidade, ou disponibilidade dos recursos ou minha!

A escola não se apercebia desta luta no interior da minha turma e eu também não tinha interlocutor. Fui gerindo a situação na minha solidão de professor, com a turma em ebulição contínua!
Os pais também não reagiam. Alguns achavam graça ao entusiasmo dos filhos. O pai do Rúben tinha mandado dizer que este ano já tinha assinado mais papéis do que nos outros 3 anos de escolaridade. E ainda não tínhamos chegado ao Natal! Esperei que a situação se definisse, para depois fazer a reunião com os pais.

Um dia recebi numa carta, uma declaração de amor da mãe duma aluna! Recém chegada do Alentejo, divorciada com uma filha na turma, a solidão da capital empurrou-a para mim, que era terno para  a filha e simpático para ela.  Conversamos e mostrei a minha indisponibilidade para uma relação mais afetiva, um possível enamoramento, pois nesse tempo estava numa relação muito envolvente! Ela iria com certeza encontrar alguém que a amasse e iria sem dúvida relançar o seu projeto de vida. Entendeu o que lhe disse e sempre nos tratamos cordialmente! No final do ano veio dizer-me que estava enamorada e ia viver com um homem que tinha conhecido e agradecer-me ter sido compreensivo com a filha e com ela. Fiquei contente por ela e pela filha! Uma história de amor que ia começar bem!

A atividade do grande grupo democrático crescia a olhos vistos. O seu entusiasmo não parava. Às vezes até me sentia arrastado por eles e tinha de recomendar calma e paciência.
O pequeno grupo, dos pequenos iluminados, não cedia, o que sinceramente fazia aumentar a minha admiração e alguma inquietação, pela sua necessidade de marcar terreno e não sair das trincheiras.

Mas havia zonas de sobreposição. Nas Assembleias, onde só participava o grupo da escola nova, rapidamente perceberam o seu funcionamento e a sua natureza reguladora da atividade na turma. Mas muitas vezes havia queixas de algum elemento da escola antiga. Nesse caso pedíamos autorização à assembleia, através de votação, se admitia a participação do referido elemento, tendo este o direito a esclarecer a situação e poder defender-se. Várias vozes se levantaram contra a sua participação. Não querem ser da escola nova, não têm que participar! Mas com algum tacto e bom senso as questões lá se iam resolvendo!

Nas assembleias foi emergindo uma menina cigana, tornando-se muito respeitada e temida por todos. Porquê?
Porque a Maria conhecia muito bem as cumplicidades entre eles e desmascarava as jogadas e combinações deles. Por exemplo, se um aluno defendia outro que não tinha razão, logo a Maria levantava o dedo, fazia-se silêncio e dizia:
- O Ivo está a defender o Miguel porque este lhe dá o lanche no intervalo.
Ou porque o deixa jogar à bola, ou ainda porque ele o defende doutros alunos doutra turma.

A Maria conhecia os esquemas, argumentava com seriedade, corajosa e denunciava todos as tramas, combinações, falcatruas e demais nuvens negras das relações humanas!
A Maria copiava e não escrevia. Mas desenhava, recortava, era responsável nas tarefas, fazia contas, sabia a tabuada, não fosse ela cigana experimentada na ajuda aos pais nas feiras. Que pena a Maria não saber ler!
Finalmente para mim era claro porque o pequeno grupo resistia. Detentores do conhecimento escolar, e por isso mesmo, respeitados pelos outros e pela forma como se vestiam e comportavam, não estavam dispostos a ceder parte desse poder aos pobres coitados, sujos, despenteados, sem saber ler, silabando, hesitando, gaguejando...
Qual era a piada de terem de se calar, para deixar o João falar? Que poderia o Moisés, negro, dizer de interessante que eles não soubessem explicar muito melhor? Quem dominava os instrumentos da cultura e do saber? Eles sentiam-se até humilhados, não reconhecidos. Por isso, foi tão difícil sermos uma só turma.

O Zé Luís, recém chegado de Angola ainda disse: Obrigue-os a serem da escola nova!
“Não, Zé Luís. Não os posso obrigar. Quero que eles percebam e sintam o que aqui se passa, e sejam eles a decidir da coerência das coisas, da amizade e solidariedade, da ajuda mútua, da justiça, dos direitos e deveres e da liberdade de viverem em sociedade. É uma oportunidade para todos podermos refletir e vivenciar esta situação. Não só o que tenho de aprender, mas também como estou a aprender, com quem aprendo e o meu contributo para o crescimento dos outros.”

O podermos decidir sobre o que vamos fazer e como nos organizamos tinha um impacto muito cativante e sedutor em toda a turma. Mas foi preciso tempo, respeito pela posição do outro, muito bom senso, sentido de justiça, muita coerência! Sentia que pisava um terreno escorregadio e a qualquer altura podia descambar e fazer ruir o que acreditava!
Sobre mim pesavam a possível descrença dos alunos, as criticas e desconfiança dos pais, e a mais que evidente ironia dos colegas: “São muito espertos lá nas direções e coordenações, mas aqui no terreno é que se vê como elas são...”

Com todos estes cuidados e precauções, com a ajuda da educação física e a apresentação dos projetos de trabalho à turma, foram-se abrindo brechas naquele muro humano e regressou alguma tranquilidade. Eles foram cedendo, também porque se sentiram respeitados. Foram momentos de partilha e grande emotividade e visibilidade social. Nós fizemos este trabalho que agora vos apresentamos, para que aprendam connosco e possam ajudar a enriquecê-lo.

Só passados aí uns três meses, mais ou menos, é que começaram a debandar. Primeiro um, depois o outro anunciavam que queriam pertencer à escola nova e por fim foi a debandada geral. Foi um momento de grande emotividade para todos. A família tinha-se reunido, eram agora um grupo, um corpo, respeitando as diferenças, mas reunificado, e decididos a enfrentar o futuro.... vamos lá ao trabalho!  A tensão foi ultrapassada e as forças da coesão tinham superado as da distensão!

Projeto a projeto, assembleia a assembleia, grupo a grupo, par a par, tarefa a tarefa, dia após dia, êxito após erro, dei comigo no final do ano tão surpreendido a ver alguns alunos a despedirem-se de mim, sorrindo com o êxito da experiência escolar, mas de tristeza pela separação definitiva, e alguns com lágrimas nos olhos. Aí percebi como o professor faz tudo para deixar de ser preciso! Para que eles sejam autónomos, o professor tem de desaparecer, auto-destruir-se!

Nunca os esqueci e por isso estou a recordá-los. Estejam onde estiverem, Sara e Zé Luís, Zé Manel, Rosário, Camilo... todos, obrigado por me ajudarem a gostar tanto de ser professor. Graças a vocês, eu tive a melhor profissão do mundo!

Oeiras, Maio de 2013



4 comentários:

  1. Mina Bacelar
    Texto lindo. Uma ode ode ao amor. A vida linda de um professor que somente queria ser professor Parabéns

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  2. Manuel, adoro o modo como descreves as tuas vivências …és tão real! Invejo o teu dom! Mas revejo-me em algumas situações…
    O que nos torna diferentes é a diversidade de atividades ao longo da carreira profissional. Tal como tu, também experimentei a Telescola, Apoio Educativo, Delegação Escolar, Executivo e acabei como comecei, por opção própria, com o 1º ciclo. Para estes últimos 3 anos, trazia uma vasta experiência adicional e acolhi de braços abertos o projeto curricular de escola que, por acaso, era muito semelhante ao que adotaste e descreves. Foi uma experiência única!
    Trabalhei numa forma mais direta de participação dos alunos na negociação, distribuição e controlo das atividades. Eles tinham acesso aos conteúdos programáticos, previamente “traduzidos” para uma linguagem acessível e geriam o tempo de aquisição.
    Mensalmente, em reunião de turma, registavam-se os pontos trabalhados na aula, cada aluno assinalava os que sabia, aqueles em que tinha dúvidas e o que deveria fazer para superar as dificuldades experimentadas.
    Acompanhava os alunos em todos os momentos de avaliação para verificação do ritmo de aprendizagem de modo a avaliar o que planearam realizar e o que conseguiram concretizar. Assim a informação aos encarregados de educação era feita de um modo mais eficaz.
    Claro que trabalhar deste modo não é fácil, tens uma carga horária ilimitada e muita componente administrativa e lidar com a recusa e crítica negativa de alguns colegas também não é pêra doce mas a recompensa, essa vês nos olhos dos alunos, quando no último dia se despedem de nós.
    Acabo citando uma frase tua “ dei comigo no final do ano tão surpreendido a ver alguns alunos a despedirem-se de mim, sorrindo com o êxito da experiência escolar, mas de tristeza pela separação definitiva, e alguns com lágrimas nos olhos."
    Um abraço

    ResponderEliminar
  3. Manuel, adoro o modo como descreves as tuas vivências …és tão real! Invejo o teu dom! Mas revejo-me em algumas situações…
    O que nos torna diferentes é a diversidade de atividades ao longo da carreira profissional. Tal como tu, também experimentei a Telescola, Apoio Educativo, Delegação Escolar, Executivo e acabei como comecei, por opção própria, com o 1º ciclo. Para estes últimos 3 anos, trazia uma vasta experiência adicional e acolhi de braços abertos o projeto curricular de escola que, por acaso, era muito semelhante ao que adotaste e descreves. Foi uma experiência única!
    Trabalhei numa forma mais direta de participação dos alunos na negociação, distribuição e controlo das atividades. Eles tinham acesso aos conteúdos programáticos, previamente “traduzidos” para uma linguagem acessível e geriam o tempo de aquisição.
    Mensalmente, em reunião de turma, registavam-se os pontos trabalhados na aula, cada aluno assinalava os que sabia, aqueles em que tinha dúvidas e o que deveria fazer para superar as dificuldades experimentadas.
    Acompanhava os alunos em todos os momentos de avaliação para verificação do ritmo de aprendizagem de modo a avaliar o que planearam realizar e o que conseguiram concretizar. Assim a informação aos encarregados de educação era feita de um modo mais eficaz.
    Claro que trabalhar deste modo não é fácil, tens uma carga horária ilimitada e muita componente administrativa e lidar com a recusa e crítica negativa de alguns colegas também não é pêra doce mas a recompensa, essa vês nos olhos dos alunos, quando no último dia se despedem de nós.
    Acabo citando uma frase tua “ dei comigo no final do ano tão surpreendido a ver alguns alunos a despedirem-se de mim, sorrindo com o êxito da experiência escolar, mas de tristeza pela separação definitiva, e alguns com lágrimas nos olhos."
    Um abraço de parabéns, PROFESSOR

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  4. Gostei imenso do texto. A "escola velha" tem de ser substituída, sem dúvida. Lembro-me de andar no preparatório, onde tive professores que se mantiveram com a minha turma durante vários anos e ficar perplexo pelo facto de não terem mudado em nada, o que é um erro terrível quando se dá aulas a alunos de uma faixa etária que está em mudança permanente. As aulas eram simples: o professor dava trabalho, o aluno cumpria. Se engolisse e estudasse, tinha bons resultados. No entanto, o que aprendia na sala estava no papel e não saía do papel. O maior problema do sistema de ensino (visto pela perspectiva de um ex-aluno) é que não ensina a pensar nem a estabelecer uma relação entre o que se aprende na sala e o que se passa lá fora. O modelo que o Manuel aplicou na sua sala de aula, para além de estimular os alunos a pensar por eles (e a questionar a autoridade), ensina-os a aplicar o que aprendem na sala no mundo real. A distância que existe muitas vezes entre professores e alunos numa sala de aula faz-me pensar na escola como uma fábrica de autómatos que vao acumulando informaçao para aplicar no mundo do trabalho. E as consequências vêem-se bem na terceira idade: as pessoas deixam de trabalhar e não sabem o que fazer da vida, pq simplesmente nao aprenderam a viver. E o mais assustador é ver que o Governo, para além de fomentar este tipo de ensino mais "quadrado" parece achar prioritário fazer cortes no ensino e fazer os possíveis para se ver livre dos idosos. É de louvar que haja pessoas como o Manuel que tenham noção de que a escola não é só para aprender a ler e escrever. Bem-haja.

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