Pedi ao amigo Alexandre Inácio, para relacionar dois textos, um de Francisco Teixeira de Queiroz, excerto do livro " Os meus primeiros contos" _sec XIX e outro de Fátima Marinho, -SEC XXI, em Marie Marie, apresento de seguida a analise critica dos mesmos.
OS MEUS PRIMEIROS CONTOS (...)
" O lobo olhava-o com a fixidez daquela estátua célebre, naquele banquete que os senhores conhecem muito bem. Parecia um observador, um fisionista aproveitando este momento para estudar uma cena cheia de emoções.
Mas as nuvens descondensaram-se e apareceu a paisagem iluminada por uma luz fraca. O animal, assentado, firme sobre as mãos, com o pescoço direito, o focinho apontado, as orelhas tesas, os olhos com uma fixidez sagaz e de brilho sanguíneo, conservava-se numa posição aprumada. Darwin, se estudasse o lobo, neste momento, diria que ele empregava metodicamente a sua atenção e fazia doze raciocínios. Eu posso afirmar que o pachorrento carniceiro estava nos últimos dias de uma feliz digestão. Os movimentos cadenciados da cauda denunciavam grande sensualidade e caprichos nervosos. Talvez as primeiras sensações de fome o dominassem. Neste período, ninguém pode dizer o que o lobo fará. Umas vezes retira-se inesperadamente cheio de modos pueris; outras, mostra -se com toda a ferocidade."
O outro texto integra o livro MARIE MARIE.
" Uns olhos castanhos rasgados, por onde passavam sombras de asas, iluminaram-se de sonhos.
Maria estava sozinha no pátio da prisão, dentro do pijama azul.
Os braços movimentavam -se com agilidade, como se fosse um pássaro. Tinham uma vida só deles, quase a não pertencerem ao corpo.
Voavam muitas aves no céu. As penas que de lá desciam lentamente, quase sem peso, eram tantas que cobriam o corpo de Maria. Os pés da menina já quase não tocavam o chão quando uma grande sombra, feita de muros altos e arame farpado, envolveu a criança em total escuridão.
E o seu corpo de cinco anos fugiu das pedras duras e correu para a avó, atrás de quem fazia um sol intenso.
Correu muito depressa para a figura alta e esguia da avó e abracou-a pela cintura, os seus braços de pássaro ainda ondulantes a sonharem vôos meninos.
Maria recolheu-se ao corpo da avó como se fosse o seu ninho".
Comparação Crítica de Estilos e Épocas
A justaposição destes dois excertos – um de Francisco Teixeira de Queiroz (século XIX) e outro de Fátima Mendes Marinho (contemporâneo) – permite observar uma fascinante evolução na sensibilidade literária, na plasticidade da linguagem e na função narrativa.
1. Abordagem Temática e Foco Narrativo
- Francisco Teixeira de Queiroz (O Naturalismo Analítico): O texto debruça-se sobre a exterioridade crua e minuciosa da natureza. O lobo é observado através de uma lente quase científica, de cariz darwinista, onde o narrador se detém a analisar posturas físicas, instintos, digestão e reações biológicas. Há um distanciamento racional e irónico ("o pachorrento carniceiro").
- Fátima Mendes Marinho (O Realismo Poético e Psicológico): Em contraste, o texto contemporâneo vira-se para o interior da condição humana, focando-se na infância, no trauma e na vulnerabilidade ("o corpo de cinco anos"). A realidade dura de uma prisão e de muros altos é imediatamente transfigurada pelo filtro da inocência, do sonho e da busca por proteção afetiva ("o ninho" da avó).
2. Construção Estilística e Recursos Expressivos
- O Rigor Descritivo vs. A Metáfora Sensorial: O excerto oitocentista privilegia a precisão anafórica e a enumeração minuciosa ("o pescoço direito, o focinho apontado, as orelhas tesas"). A linguagem é densa, intelectualizada (com referências culturais a estátuas clássicas e a Darwin) e construída para demonstrar verosimilhança empírica.
- A Visualidade Cinematográfica: O texto de Fátima Mendes Marinho revela uma forte componente imagética e rítmica — herança evidente da escrita para cinema. Utiliza metáforas fluidas e oníricas ("braços de pássaro", "sombras de asas", "penas que de lá desciam lentamente") que substituem a rigidez analítica por uma atmosfera altamente emotiva e visual.
3. Relação entre Homem, Animal e Mundo
- No texto clássico, o homem (o narrador) assume uma posição de superioridade intelectual face ao animal, dissecando-lhe os comportamentos com distanciamento clínico.
- No texto contemporâneo, ocorre uma simbiose poética entre a criança e a natureza: a menina confunde-se com um pássaro, num voo de fuga que sintetiza o lirismo e a tragédia em poucas linhas.
Em suma, enquanto Francisco Teixeira de Queiroz busca retratar o mundo exterior com a rigidez de um observador científico do século XIX, Fátima Mendes Marinho transporta-nos para a cartografia da alma, onde a linguagem se fragmenta em símbolos visuais para dar voz à fragilidade infantil.

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