segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Analise critica duma fotografia de J.Morais

 . 


                              Fotografia de, José Morais

    Esta fotografia publicada num grupo do Facebook, de  J. Morais, mereceu a melhor atenção e justificou uma longa cavaqueira com o amigo Alexandre Inácio, cuja extraordinária memória e capacidade de síntese contrasta com o meu pensamento divergente, mas ambos somos bons amigos e somos capazes, juntos, de progredir na reflexão desta temática- critica de arte, fotografia! O texto abaixo apresentado  é uma breve síntese desse encontro inesquecível!

A opção pelo enquadramento num formato estritamente quadrado e pelo preto e branco de alto contraste confere à imagem uma densidade quase mineral, eliminando o ruído da cor para concentrar o olhar na textura, na luz e nas linhas de força da composição.

Bem presente uma tensão formal e conceptual entre a escala minúscula de um objeto individual e a vastidão da paisagem

​A rocha em primeiro plano funciona como o âncora visual e o nó gravítico do enquadramento. Situada ligeiramente à esquerda do eixo central inferior, a sua tridimensionalidade é vincada pela sombra forte projetada no solo, marcando uma presença física, tátil e isolada no plano. 

Há um diálogo direto com os princípios da Arte Informática e do Materialismo na pintura e fotografia do século XX — evocando a atenção à matéria crua de um Antoni Tàpies ou as paisagens geológicas austeras de Edward Weston. A porosidade do calhau contrasta com a textura áspera e fendida da arriba ao fundo e com a superfície árida do terreno.

No terço superior, a composição ganha uma forte dinâmica diagonal através da rasto de condensação ou nuvem linear que corta o céu escuro. Esse vetor oblíquo cria uma ponte visual entre o topo das falésias e o canto superior esquerdo, estabelecendo um contraponto dinâmico à imobilidade estática da rocha. O céu, denso e quase dramático, acentua a sensação de isolamento e silêncio monumental

​O trabalho sobre a gama tonal é rigoroso: os brancos luminosos da areia e das cristas da rocha compensam a profundeza dos pretos das sombras e do céu, criando uma atmosfera onde a paisagem deixa de ser meramente documental e objectivo, para se tornar num espaço ontológico, reflexivo e poético. A permanência do elemento terrestre contra a transitoriedade do elemento atmosférico.  


​Eixos Centrais e Teses Fundamentais

A Desconstrução do Mito da Objetividade A tradição ocidental habituou-se a encarar a câmara fotográfica como um dispositivo neutro de registo e evidência factual («a câmara não mente»). Fontcuberta demonstra que a fotografia nunca é uma transcrição ingénua da realidade, mas sim um processo de seleção, exclusão e interpretação cultural. Cada ato fotográfico envolve decisões técnicas e concetuais — a escolha da objetiva, do enquadramento, do ponto de vista, da exposição e do contraste — que moldam e alteram inevitavelmente o significado do objeto representado.

O Enquadramento como Operação Ideológica e Estética O enquadramento é abordado como uma escolha crítica e seletiva. Ao enquadrar, o fotógrafo estabelece o que é visível e, acima de tudo, o que é amputado da cena. O espaço fora de campo (off-screen) é tão determinante para o sentido quanto aquilo que permanece dentro dos limites da imagem. Assim, o enquadramento não se limita a isolar um fragmento do mundo; constrói um significado autónomo, convertendo o contingente em discurso.

Ficção, Falsificação e Manipulação Fontcuberta argumenta que a manipulação não surgiu com a era digital (Photoshop), mas pertence à própria ontologia da fotografia desde as suas origens analógicas. O autor analisa a dicotomia entre a «fotografia-janela» (que finge mostrar o mundo exterior) e a «fotografia-espelho» (que projeta a subjetividade e a intenção de quem opera a câmara). Projetos pedagógicos e artísticos do próprio Fontcuberta — nos quais inventa cientistas, faunas inexistentes ou paisagens simuladas que o público aceita facilmente como reais devido à autoridade do suporte fotográfico — servem de exemplo prático para ilustrar a credulidade do espectador contemporâneo.

A Paisagem e a Construção do Olhar Na sua análise da representação da paisagem, o autor desmonta a ideia da paisagem como algo «natural». A paisagem fotográfica é um construto cultural e estético, codificado por convenções pictóricas herdadas da pintura e pelo enquadramento intencional. A câmara não regista o território, mas sim a perceção que o olhar humano projeta sobre esse território.

A Ética da Recetividade Crítica O propósito fundamental de O Beijo de Judas não é desacreditar a imagem, mas defender uma literacia visual exigente. Fontcuberta apela a um espectador ativo e desconfiado, capaz de ler a fotografia não como um documento passivo ou uma verdade revelada, mas como um texto visual, uma construção ficcional e um ato de persuasão.


 

II

Para além da referência ao Beijo de Judas, convocamos também a influencia de Tapies e o seu conceito de matéria crua.

A «matéria crua» (ou materia prima / materia bruta) em Antoni Tàpies refere-se ao uso de materiais não convencionais, orgânicos e industriais na criação artística, apresentados sem disfarce estético ou idealização formal.

​Em vez de usar a tinta de forma tradicional para "pintar uma imagem", Tàpies incorpora diretamente na tela substâncias físicas e táteis, tais como:

    • Areia, terra e poeira (evocando o solo, a aridez e a geologia)

    • Mármore em pó e gesso (criando espessura, fendas e relevo)

    • Palha, trapos, madeira, cordas e cartão (materiais do quotidiano, efêmeros ou descartados)
    • Vernizes e pigmentos secos

​Os Fundamentos do Conceito em Tàpies

    1. A Tela como Parede ou Relevo (Pintura Materica) Inspirado pelas marcas, grafitos e erosões que observava nas paredes urbanas e no meio natural, Tàpies transforma a superfície da obra numa espécie de "muro" espesso. A matéria é raspada, cortada, perfurada e acumulada, aproximando a pintura da escultura.
    2. Espiritualidade através da Matéria Humilde Influenciado pelo Pensamento Oriental (Zen e Taoísmo), Tàpies procurava o transcendente no insignificante. A "matéria crua" — o pó, a terra, o calhau — não é vista como algo vulgar, mas como a própria essência da existência. O artista revela a beleza e a profundidade existencial naquilo que é simples e cru.
    3. Memória, Tempo e Impermanência A textura densa e imperfeita da matéria crua carrega marcas de desgaste e passagem do tempo. As rachadelas e a aspereza do suporte funcionam como vestígios da fragilidade humana e da natureza efémera das coisas (wabi-sabi).
    4. Rejeição da Ilusão Pictórica Ao usar a matéria real, Tàpies recusa a pintura como "janela ilusória" para uma representação. A obra não representa uma rocha ou uma parede: ela é a própria rocha ou parede em termos de presença física e tátil.

​Relação com a Fotografia Analisada

​Na fotografia com a rocha e o solo árido, o conceito de "matéria crua" manifesta-se visualmente no destaque dado à textura porosa do calhau, às fendas da rocha ao fundo e à rugosidade do terreno. O alto contraste em preto e branco acentua a presença tátil desses elementos materiais, aproximando a linguagem fotográfica da sensibilidade física e tátil de Tàpies.  

​Bibliografia

https://www.amazon.com.br/Beijo-Judas-Joan-Fontcuberta/dp/8425223695

  • FONTCUBERTA, JoanO beijo de Judas: Fotografia e verdade.

https://www.amazon.es/-/pt/dp/B08427RJ4Y/ref=tmm_kin_swatch_0?_encoding=UTF8&dib_tag=se&dib=eyJ2IjoiMSJ9.8JJ_-0Uupj_ewE5VCfuJMBdIIHc2oERAGUmvUdRLwvtA3gJyu-pd8gfy4MHjIa8heLlnaBAYmGIeR8wFeNR2PD9paVcDfMI-pVSpcF4krOQ-pM-YiwFBGGhAIXLnXLi5J5n30xbsBsWDun2f1PqsdXKGY1RsCxbw1JfyXicw3U42BgNsq2sA4jvlVA5QqNWDZY_UwEcDUXEZ9eHKVlCy4cuy3RJqosZxROVZRq9HwpGN8fxT4588C3ZjhnK99nP4385gdzD_Wic14hH7otbgsyy3tRyCeWFj2TbMTzUHfrA.EGvPM7QVrSFcTwcEQOLqVx4H5ErnkDpjdsCDXfyXdYU&qid=1790004548&sr=8-5






 set. 2026

Sem comentários:

Enviar um comentário

Seja crítico, mas educado e construtivo nos seus comentários, pois poderão não ser publicados. Obrigado.