domingo, 30 de agosto de 2026

 

O homem sentou-se, por isso, estava de pé. 

Ele estava sempre de pé, mesmo sentado, imaginava-se sempre de pé.

Foi um habito que lhe ficou, mal começou a andar. 

Sempre de pé. 

Fazia tudo de pé.

Escrevia de pé

Lia de pé.

Comia de pé.

Ouvia os discursos do 1.ministro na TV de pé.

Assistia as conferências de pé.

Mesmo nasconsultas medicas ficava depé.

Recusava andar de carro porque não podia ir de pé. 

Ia de autocarro.

Ou de comboio.

Também andava de bicicleta, mas sempre de pé.

ErA professor e mesmo nas reunioes ficava sempre  de pé

Até quando dormia, os sonhos aconteciam sempre de pé. 


__€€€€€€€-------€€€€€€-----€€€€€----€€€€€€


O homem não se  sentou na bancada da Assembleia da República, por isso, estava de pé.

​Ele estava sempre de pé, mesmo sentado naquele hemiciclo de veludo vermelho; na sua cabeça, imaginava-se irredutivelmente de pé. Foi um hábito que lhe ficou desde que começou a andar, uma recusa obstinada em curvar-se perante o mundo. Escrevia as suas propostas de lei de pé, consultava os pareceres jurídicos de pé e comia na cafetaria do parlamento de pé, sob o olhar sobressaltado dos funcionários. Recusava os carros oficiais com motorista porque neles não podia ir de pé; apanhava o comboio suburbano e viajava agarrado ao varão, hirto, ou pedalava até São Bento sempre em cima dos pedais. Era uma rigidez que trazia desde os tempos em que era professor, altura em que as reuniões de conselho pedagógico o viam eternamente erguido junto à janela. Até nos escassos momentos em que fechava os olhos, os seus sonhos aconteciam vertiginosamente de pé.

​Mas a Assembleia da República tem rituais seculares, geometrias estritas de submissão regimental e assentos que exigem a curvatura do corpo. Naquele vasto salão de passos perdidos e microfones acesos, a sua presença erguida sobressaía como uma afronta muda. Quando os sinos chamavam para as votações, enquanto duzentos e trinta deputados se sentavam  obedientemente nas cadeiras para carregar nos botões electrónicos, ele mantinha-se fixo, plantado sobre as solas dos sapatos, qual estátua de si mesmo no meio da tempestade.

​A perplexidade inicial dos colegas de partido transformou-se rapidamente em cochichos e, depois, numa vaga de chacota generalizada. Os jornalistas apontavam-lhe as câmaras nas galerias, os comentadores políticos ridicularizavam a sua excentricidade nos programas de debate da noite, e o próprio líder da bancada chamou-o a reuniões de urgência para lhe exigir decoro institucional, lembrando-lhe que a democracia se faz sentada, alinhada e dócil às ordens da direção.

​Cansado das críticas, das interrogações irónicas nos corredores e dos olhares de esguelha que mediam a altura da sua insolência, subiu finalmente à tribuna dos oradores. Olhou a sala inteira com soberana altivez e esmagou o microfone com a força das suas convicções:

​— Ridicularizam-me porque me recuso a baixar a cabeça e a dobrar os joelhos! Acusam-me de indisciplina, de quebrar o decoro, de perturbar a sagrada harmonia dos vossos consensos de carpete! Mas eu digo-vos aqui, de alto a baixo desta tribuna: um homem de pé não tem de obedecer a ninguém!

​Um silêncio gélido caiu sobre o hemiciclo, logo seguido por gargalhadas abafadas nas bancadas da oposição. Mas ele não vacilou, erguendo ainda mais o tronco perante o espanto geral:

​— Vocês aprenderam a sentar-se antes de aprender a pensar. Curvam-se perante a disciplina de voto, prostram-se perante os líderes, sentam-se à mesa dos vossos pequenos confortos partidários e chamam a isso democracia. Eu não. Eu sou um homem de pé. E um homem de pé é o único e verdadeiro senhor do seu livre arbítrio!

​A sala irrompeu num coro de protestos e apupos, mas ele continuou hirto, imóvel na sua verticalidade, sozinho contra a geometria inteira do Estado.

O silêncio que se seguiu à sua declaração foi cortado apenas pelo som abafado de um microfone mal desligado. Ele ajustou os óculos, firmou as mãos nos rebordos de madeira da tribuna e, recusando qualquer apelo à moderação vindo da mesa da presidência, prosseguiu com a voz cortante que vinha da sua imutável verticalidade:

​— Vocês esqueceram-se para que serve este edifício. Julgam que a soberania nacional cabe inteiramente no conforto estéril destas cadeiras estofadas. Mas trago comigo a memória daqueles que nunca souberam o que era curvar-se. Como nos lembrava Jean-Paul Sartre, a liberdade não é um prémio nem um dom gracioso, mas uma conquista perpétua que exige que estejamos de pé contra todas as formas de tirania, mesmo quando essa tirania se veste com a gravata e o decoro institucional de um regimento parlamentar!

​Nas bancadas, alguns deputados começaram a folhear ostensivamente os papéis, enquanto outros trocavam sorrisos cúmplices. Ele, no entanto, não recuou um milímetro. A sua postura era de quem defendia uma trincheira intransponível.

​— Querem impor-me a disciplina de voto? Querem que eu abdique da minha consciência em troca da paz dos vossos corredores? Como alertava Albert Camus, a liberdade é, antes de mais, um risco e um combate permanente contra a complacência. Um homem não se ajoelha perante a conveniência de um partido nem perante a ditadura mansa das maiorias absolutas. Quem se senta para obedecer perde o direito de reclamar a aurora.

​Os murmúrios na sala adensaram-se, transformando-se num zumbido de indignação por parte dos líderes de bancada que gesticulavam furiosamente para os serviços taquigráficos. Mas ele ergueu ainda mais a voz, rasgando o ar do hemiciclo com a convicção dos resistentes:

​— Recuso-me a ser mais uma engrenagem dócil nesta máquina de conformismo. Se a vossa política exige submissão, joelhos dobrados e cabeças baixas, prefiro a solidão da minha postura à vossa comitiva de dóceis cortesãos. Porque, como proclamava Rosa Luxemburgo, a liberdade é sempre e apenas a liberdade de quem pensa de maneira diferente — e quem pensa de pé, caminha sem coleira!

​Um tumulto generalizado rebentou na sala, com deputados a levantarem-se aos gritos para exigir a interrupção do uso da palavra. Ele continuou hirto, imóvel na tribuna, olhando de cima o frenesim do parlamento, soberano e irredutível no seu livre arbítrio.

--Senhores deputados, mantenham  a compostura, silêncio, por favor!- dizia o Presidente da Assembleia.

O alvoroço nas bancadas ameaçava soterrar-lhe as palavras, mas ele bateu com a palma da mão na madeira da tribuna, exigindo o silêncio que a sua intransigência impunha. Os taquígrafos tentavam apanhar o fio à meada daquele discurso insólito, enquanto o Presidente da Assembleia fazia soar a campainha numa cadência furiosa que ele ignorou por completo.

​— Continuam a fazer soar os sinos para tentar abafar a única voz que ousa desobedecer ao guião! Mas o barulho da vossa burocracia nunca conseguirá sufocar a verdade dos resistentes. Como nos ensinou António Sérgio, a verdadeira democracia não se compadece com o rebanho domesticado, mas exige espíritos livres que saibam erguer-se contra o dogma instituído, quer esse dogma venha da rua, quer venha dos gabinetes dourados do poder!

​Alguns deputados mais veteranos cruzavam os braços, visivelmente irritados com a evocação dos grandes nomes do pensamento livre, enquanto outros nas bancadas mais jovens filmavam a cena com os telemóveis, divididos entre o escândalo e a diversão. Ele, porém, manteve os olhos fixos na presidência, sem pestanejar, sem recuar um único centímetro na sua geometria de homem inteiro.

​— Acusam-me de utopia, de viver fora do tempo, de ignorar as regras do jogo democrático. Mas o que é o vosso "jogo" senão uma coreografia milimetricamente estudada para domesticar a esperança? Como proclamava o poeta e combatente Agostinho Neto, a nossa marcha faz-se de passos irredutíveis em direção à dignidade humana, e a dignidade não cabe em assentos reclináveis, nem se negocia nos corredores escuros das negociações de secretaria! Um homem que se ergue de pé rasga a teia de aranha do conformismo e obriga o mundo a olhar-lhe nos olhos, de igual para igual.

​O eco das suas palavras ressoou pelo teto pintado do hemiciclo, estilhaçando a solenidade pacata daquela tarde parlamentar. A campainha da presidência emudeceu de repente, como se o próprio chefe da mesa tivesse ficado sem argumentos perante tanta audácia obstinada. Ele permaneceu ali, imóvel, estátua viva de carne e osso, provando a um parlamento inteiro que a maior revolução de um cidadão começa simplesmente por recusar baixar a espinha.


A sua indignação ecoa a voz do deputado na tribuna: enquanto o hemiciclo se perdia em querelas partidárias e melindres regimentais, o mundo real ardia em chamas que a política institucional finge não ver.

​Ao transpor esse desabafo para o centro do debate, as palavras ganham uma urgência ainda maior, rasgando a hipocrisia do plenário com questões que nenhum regimento consegue calar:

​— Estão aqui há horas a discutir o decoro das posturas, a contabilidade dos votos e a geometria dos assentos, enquanto lá fora o mundo desaba sob o silêncio cúmplice das vossas prioridades! — trovejou ele, inclinando-se sobre a madeira da tribuna, com o olhar fixo nas bancadas atónitas. — Sobre a catástrofe climática que consome o futuro, nada! Sobre a algoritmização das nossas mentes, a manipulação sistemática das redes sociais e o império invisível das grandes tecnológicas, nada!

​Fez uma pausa breve, deixando que o peso da denúncia caísse sobre o silêncio tenso da sala, antes de desferir a pergunta que ressoou como uma lâmina:

​— E sobre o abismo obsceno que separa a maioria de pobres da minoria de ricos, dizem o quê? Absolutamente nada! Quantos pobres são precisos mais para fabricar um só rico, como já perguntava Almeida Garrett há mais de um século, nos escombros de uma pátria que vocês continuam a repetir? Quantas vidas esmagadas são necessárias para sustentar o vosso festim de estatísticas alegres?

​O deputado endireitou ainda mais o tronco, assumindo uma verticalidade implacável, e apontou o dedo indicador diretamente ao centro do hemiciclo:

​— Prefiro mil vezes a chacota dos corredores e a perplexidade dos vossos gabinetes a compactuar com esta fábrica de ilusões. Vocês deixaram que a mentira se tornasse o método de governo e que o medo fosse a coleira com que domesticam os cidadãos, fazendo-os desejar a própria coleira e suspirar por uma ditadura que vos garanta o sossego! Mas eu recuso-me a marchar nesse cortejo de sonâmbulos. Um homem de pé não se cala perante a miséria do mundo, nem abdica da verdade para caber no vosso conforto!

A impaciência do deputado atingiu o ponto de ebulição. Sem arredar pé da tribuna, com os punhos cerrados sobre a madeira e o olhar faiscante dirigido às bancadas do governo e da oposição, empurrou a denúncia ainda mais fundo na ferida aberta do país:

​— E quando o país real desmorona pelas fundações, qual é a vossa resposta? Um silêncio ensurdecedor! Sobre a situação caótica e desumana da educação pública, onde professores são esmagados pela burocracia e escolas se desfazem em abandono, nada! Sobre a saúde a agonizar nas urgências entupidas, onde os doentes esperam a morte nos corredores enquanto as listas de espera se tornam lápides burocráticas, silêncio absoluto!

​O tom de voz subiu de jacto, cortando o ar rarefeito da sala como uma lâmina afiada, sem dar tréguas aos sussurros nervosos que tentavam abafá-lo.

​— Sobre a incompetência sistémica e a criminosa incapacidade no combate aos incêndios que todos os verões reduzem a cinzas as nossas florestas, as nossas aldeias e a vida de quem trabalha, zero! Sobre a proliferação impune da droga que apodrece os bairros e destrói gerações, zero! E sobre a corrupção endémica que apodrece as instituições a partir de dentro, transformando o Estado num balcão de negócios e de influências, zero absoluto! Vocês estão demasiado ocupados a olhar para o umbigo dos vossos tachos e a acomodar os traseiros nestas poltronas para verem que o país está a arder em todas as frentes!

​O deputado ergueu ainda mais o queixo, esticando o corpo até ao limite da sua orgulhosa verticalidade, enquanto o plenário irrompia de novo num coro ensurdecedor de protestos, com os líderes parlamentares a gritarem por ordens de expulsão. Ele, porém, soberano no seu livre arbítrio, retorquiu com a força inquebrantável de quem se recusa a ajoelhar:

​— Podem espernear, podem mandar cortar-me o microfone, podem ordenar a minha expulsão deste circo regimental! Mas enquanto houver um homem de pé, a vossa hipocrisia não terá sossego!


O deputado não recuou um único milímetro face à tempestade de protestos que se abatia sobre a tribuna. Com a mesma rigidez com que enfrentara a vida inteira — de pé contra tudo e contra todos —, agarrou-se aos rebordos de madeira e desferiu o golpe final na consciência cúmplice daquela Assembleia:

​— Esse vosso silêncio ensurdecedor, esse vazio absoluto de respostas perante a ruína do país, não é um descuido nem um esquecimento! É a prova cabal, cristalina e vergonhosa de como o mundo financeiro, os fundos abutre e os grandes interesses económicos vos controlam por fios invisíveis! Vocês não governam para o povo que vos elegeu; gerem apenas a sucursal de uma corporação, agachados perante os mercados que vos ditam as leis, as privatizações e a miséria social!

​Um coro de gritos de indignação estalou de imediato nas bancadas da maioria e da oposição, com os deputados a levantarem-se em protesto furioso, apontando o dedo à tribuna. O Presidente da Assembleia batia a campainha num ritmo frenético e inútil, exigindo a interrupção imediata da sessão.

​Mas ele continuou inabalável, erguido na sua absoluta verticalidade, uma torre humana a desafiar o colapso de um sistema inteiro:

​— Podem gritar, podem espumar de raiva, podem expulsar-me deste hemiciclo! Mas a verdade já foi dita e não há regimento que a consiga apagar. Enquanto vocês continuarem sentados a obedecer aos vossos donos invisíveis, eu continuarei aqui: inteiro, irredutível e de pé! Porque um homem de pé não tem dono, não se vende ao capital e é o único senhor do seu livre arbítrio!

A fúria do plenário atingiu o paroxismo, mas ele recusou-se a ceder um único centímetro àquela cacofonia de indignação fingida. Com o corpo esticado ao máximo na sua orgulhosa verticalidade, fixou os olhos nos rostos pálidos da liderança parlamentar e desferiu a última estocada:

​— E agora vejo-vos a tremer, a espumar falsas lágrimas e a encher os telejornais de alarmismo com o crescimento da extrema direita! Mas não nos enganem com o vosso teatro moralista: o vosso pânico não nasce de uma genuína preocupação pelo país, pela democracia ou pelos direitos do povo! Vocês estão aterrorizados é com a ameaça que isso representa para a conservação do vosso exclusivo poder de manipulação, para a manutenção dos vossos tachos blindados e para a sinecura intocável dos grandes interesses corporativos e financeiros que alimentam a vossa engrenagem!

​O eco daquela acusação estilhaçou o pouco decoro que restava no hemiciclo. Os gritos cruzavam-se de uma ponta à outra da sala, os deputados acotovelavam-se nas bancadas e o Presidente da Assembleia, com o rosto rubro de ira, abandonou a contenção regimental para berrar a expulsão imediata do orador.

​Ele, porém, nem piscou. Permaneceu plantado na tribuna como um monumento intransigente, a desafiar a tempestade inteira com a força inabalável de quem sabe que a verdadeira liberdade não se acomoda em poltronas estofadas.

​— Podem ordenar a força pública, podem rasgar os regulamentos e podem cortar-me o microfone de vez! Mas a máscara caiu para sempre. Vocês são o retrato acabado de um sistema podre que apodreceu por dentro. Enquanto continuarem sentados a negociar a pátria nos corredores escuros do capital, eu serei sempre a vossa maior insónia: a voz de um homem inteiro que se recusa a baixar a espinha, porque um homem de pé não tem dono, não tem amo e é o único senhor absoluto do seu livre arbítrio!

O apelo ecoou final e retumbante, cortando o coro de insultos e a agitação febril que tomava conta de todo o hemiciclo:

​— Por isso, aqui e agora, lanço um apelo direto a todos os homens e mulheres de bem deste país: não esperem nada de quem trocou a dignidade pelo conforto de um assento parlamentar! Organizem-se em cada rua, em cada bairro, em cada associação, em cada IPSS, em cada fábrica e local de trabalho! Reúnam-se, discutam sem medo e decidam que democracia queremos para o nosso futuro, porque a liberdade nunca nos foi dada de bandeja pelos senhores dos gabinetes! Organizemo-nos de braços dados e mentes abertas para defender o povo, resgatar o país e devolver a soberania a quem verdadeiramente trabalha!

​Enquanto o microfone se desviava num estalido seco e os funcionários se precipitavam para o obrigar a abandonar o estrado, ele desceu da tribuna. Não curvou os ombros, não baixou a cabeça e não cedeu à tentação de se sentar na poltrona que a sua bancada lhe reservava. Caminhou pelo corredor central do hemiciclo, altivo, com o passo firme e cadenciado de quem recusava qualquer geometria de submissão, deixando para trás um parlamento atónito, amordaçado pelo eco implacável de um homem que escolheu viver e morrer inteiramente de pé.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Seja crítico, mas educado e construtivo nos seus comentários, pois poderão não ser publicados. Obrigado.