Paradela, 2026
Fotografia de M. Rodas
Que foi aqui
No interior destas pedras
Com vista para o mundo
Que aprendi a amar?
Sim, aprendi a amar
Antes de saber soletrar
Aprendi a amar
Antes de saber desenhar.
Mas como dizer a esta vaca
-Vai-te embora, não és desta história
Esta ruína foi uma escola
Subi estes degraus de pedra
Pelas mãos duma lousa e sacola
Aqui aprendi a fazer rabiscos,
mais tarde,letras
E depois palavras e frases
Números e operações
Com giz traçamos fronteiras
descobrimos países e continentes
Seguimos Viriato até ao Gama
De Lisboa a Calicut, Macau e Timor
Vimos Cabral a chegar ao Brasil
E Fernão de Magalhães abraçar o mundo.
Ah, também suspeitamos que os escravos
iam de África para a América e Brasil
E a guerra colonial
Matava gente, dum lado e do outro,
Mas não sabíamos que tinhamos de esperar abril
Para nos abraçamos uns aos outros
E podermos acreditar que o papão
Não nos assustava mais.
Como dizer a esta vaca
Que foi no interior destas pedras
Com vista para o mundo
Que aqui aprendi o amor e desamor
Aprendi a soletrar e sonhar
Aprendi a alegria e a dor
O mel e o fel, o corpo e a pele.
Mas como dizer a esta vaca
-Vai-te embora, não és desta história
Esta ruína foi uma escola
Subi estes degraus de pedra
Pelas mãos duma lousa e sacola.
Como dizer a esta vaca
Cada vez que aqui passo
É a nostalgia e a melancolia
Que faço e desfaço
Cada uma à porfia
Como gume de faca
Assombrar a memória
Que hei-de reescrever esta história?
Aqui fui professor aqui ensinei outros
A sonhar com um novo mundo
Promessa de utopia e dança
A guardar bem lá no fundo
As cores e alegrias da esperança
Dum mundo que havia de vir
E nunca mais nos iria fugir...


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