sexta-feira, 27 de março de 2026

PARTE II Sereias e mouras em Soajo

 O prometido é devido. Aqui vai para cumprir a promessa. Qualquer achega para completar este trabalho pode ser enviado nos Xomentários,  por email mrodas1234@gmail, ou pelo Messenger, ou Whatsapp. Muito obrigado e não se esqueça de partilhar pelos amigos. 




Parte 
II

Embora a "Sereia" seja uma figura essencialmente marinha, ela partilha o mesmo "ADN" mitológico com as lendas de Soajo. Aqui estão os pontos de ligação:


A Metamorfose: Sereia vs. Serpente
​No litoral (Afife/Viana), a criatura é descrita como uma mulh
er-peixe
. À medida que subimos em direção à Serra do Soajo, essa mesma figura "transforma-se" na Moura Encantada ou na Mulher-Serpente.

Em ambas as regiões, o mito fala de uma mulher de beleza sobrenatural, frequentemente sob um feitiço (o "encanto"), que aparece junto à água (mar no litoral, fontes ou rios na serra).
Tanto a sereia de Viana como certas mouras do Soajo são descritas a pentear cabelos com um pente de ouro, um símbolo universal destas divindades aquáticas em Portugal.

 O Rio Lima como "Autoestrada" Mitológica
​O Rio Lima nasce em Espanha, une a serra de Soajo com a  serra Amarela e desagua em Viana do Castelo, acreditando os mais antigos que as criaturas das águas viajavam pelo rio.
​Existem relatos populares que sugerem que as sereias podiam subir os rios até às zonas de montanha. No Soajo, em pleno coração do Parque Nacional Soajo-Gerês, o folclore das mouras está profundamente ligado aos monumentos megalíticos (Antas) e à paisagem granítica. Aqui, as mouras não são apenas "moças bonitas", mas entidades poderosas que carregam pedras colossais na cabeça enquanto fiam com um fuso. Segundo a tradição oral, a "moura" não é um ser árabe, mas uma alma penada ou uma entidade pré-cristã (uma "deusa" da terra) que ficou presa a um local por um feitiço, muitas vezes por ter desobedecido aos pais ou por guardar um tesouro que não lhe pertence.
Para desencantar uma moura no Soajo, a tradição afasta-se das rezas cristãs e foca-se no simbolismo da pureza e do silêncio.

O Ritual da Meia-Noite na Mezio e da Ponte da Ladeira
A zona da Mezio (concelho de Arcos de Valdevez, freguesia de Soajo) é famosa pelas suas mamoas e antas e a Ponte da Ladeira permite a passagem dum portal muito antigo para a modernidade, do encanto para o desencanto. Segundo os antigos soajeiros, o ritual para quebrar o fado da moura ou para "desencantar" uma moura e obter as suas riquezas, raramente envolve apenas palavras; exige coragem, precisão e, muitas vezes, o cumprimento de tarefas bizarras. Deve procurar-se afloramentos graníticos que formam pequenas "grutas" ou abrigos naturais.

Ponte da Ladeira
A lenda da Ponte da Ladeira, em Soajo, é uma das mais emblemáticas recolhidas por Gentil Marques no seu volume dedicado ao Minho. Esta ponte medieval (frequentemente chamada de "ponte romana" pelo povo) cruza o rio Soajo e é o cenário de um encontro místico entre o mundo dos homens e o das mouras.
Aqui está o resumo da narrativa e os elementos de "desencanto" que Gentil Marques destaca sobre "O Cavaleiro e a Moura".
A lenda foca-se num jovem cavaleiro (ou caçador, dependendo da variante) que, ao passar pela Ponte da Ladeira numa noite de luar ou ao amanhecer, encontra uma mulher de beleza radiante sentada no parapeito da ponte.
Ela não está apenas ali parada; está a pentear os seus longos cabelos com um pente de ouro ou a fiações de seda (elemento comum no Soajo), (atividade)
A moura não pede ouro, mas sim um beijo ou uma prova de coragem. Ela explica que está sob um fado e que o cavaleiro, homem valente será o único que a pode libertar (prova)

O Ritual de Desencanto na Ponte
Gentil Marques descreve que o desencanto nesta ponte é particularmente difícil porque envolve a transformação, assim que o homem aceita o desafio, a bela mulher transforma-se numa enorme serpente ou dragão que se enrola no corpo do cavaleiro, (metamorfose).
O cavaleiro deve permitir que a serpente o beije na boca ou lhe dê a chave que guarda na garganta. Ele não pode gritar, nem rezar alto, nem fazer o sinal da cruz - o que afugentaria o ser mágico, mas condenaria a moura a mais cem anos de fado, (regra do silêncio e da imobilidade).
Se o cavaleiro resistir ao horror da transformação sem recuar, a serpente volta a ser a mulher e entrega-lhe o pente de ouro ou indica-lhe o local do tesouro oculto debaixo de um dos arcos da ponte, (a recompensa).

Elementos Específicos do Soajo (Notas de Gentil Marques)
O autor sublinha que, no Soajo, esta lenda tem um aviso moral:
O "Ouro que Arde": Diz-se que muitos tentaram escavar debaixo da Ponte da Ladeira à procura do tesouro da moura. Contudo, Gentil Marques nota que, para os gananciosos, o ouro transformava-se em brasas ardentes que lhes queimavam as mãos, deixando cicatrizes para sempre.

A Ligação ao Rio: A moura da Ponte da Ladeira é uma "moura das águas". Se o desencanto falha, ela mergulha no poço do rio Soajo, com um grito que se ouve em toda a serra.

O Ritual do Beijo (A Serpente)
Muitas vezes, a moura aparece sob a forma de uma serpente monstruosa com uma flor ou uma chave na boca. O "desencanto" exige que o homem a beije.
Não existe uma oração específica, mas sim um compromisso de silêncio. Se o pretendente gritar ou fugir, o encanto quebra-se para ele, mas a moura permanece presa, muitas vezes soltando um grito terrível:
"Ai, que me dobraste a dor!" ou "Cento e um anos me dobraste o fado!"

A Oferta do Pão sem Sal
Aqui, como no Alto Minho, em geral, acredita-se que o sal afasta o sobrenatural. Para desencantar uma moura que aparece a fiar junto a uma fonte, deve oferecer-se um pedaço de pão sem salAo receber o pão, se o encanto for quebrado, ela dirá algo:"Pão sem sal me deste, da minha prisão me tiraste. Leva este carvão, que o teu bem achaste." Ou ainda, "Pão te dou, fado te tiro, pelo sal que não comeste, pela vida que perdeste, dá-me o ouro a que vieste."  (O carvão, ao chegar a casa, transforma-se em moedas de ouro. Reza de Aceitação).

 O Ritual da Noite de São João
O São João é o momento de maior porosidade entre o mundo real e o encantado. No Alto Minho, diz-se que se deve ir a um penedo específico à meia-noite.
Deve bater-se três vezes na pedra com uma vara  e dizer: "Moura encantada, que o fado te deu, sai do teu reino, que o tempo venceu. Pelo poder da água e do pão, entrega o tesouro e a tua mão.
Ou ainda,  "Moura, moura, encantada, sai da tua pedra lascada! Pelo poder de São João, dá-me o ouro da tua mão. Que o teu fado se acabe agora, e que o sol te leve embora. 

A Quebra pelo Batismo
Nalgumas variantes mais cristãs, o desencanto ocorre através da conversão. Deve atirar água benta sobre a moura, enquanto se diz: "Eu te batizo, Maria, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo." 
Diz a lenda que ela perderá a sua forma sobre-humana e tornar-se-á uma mulher mortal, casando-se com quem a salvou.
Se ela for libertada, o encanto quebra-se, ela torna-se humana e o tesouro (ouro) aparece. Se falhar a entoação ou tiver medo, ela solta um grito e desaparece por mais cem anos.

Avisos da Tradição
Tenha em conta que, no folclore minhoto, as tentativas de desencanto são perigosas:
O Silêncio é Ouro: Não se pode proferir uma única palavra durante todo o percurso até ao local (geralmente uma anta ou um penedo rachado). Se o caminhante falar ou responder a uma voz que o chama pelo nome, o encanto fortifica-se.
Em quase todos os relatos, se a pessoa falar ou demonstrar medo antes do momento certo, o tesouro transforma-se em fumo ou pedras. 
A Ambição Castigada: Quem tenta enganar a moura para ficar com o ouro sem cumprir a promessa acaba, geralmente, "atoleimado" ou levado para dentro da rocha.

O Teste do Leite
 Diz-se que a moura aparece a ordenhar uma cabra ou a oferecer uma tigela de leite. O segredo é beber o leite sem fazer o sinal da cruz e sem agradecer, aceitando o pacto de igual para igual.
A Reza do Destemido: Não é uma prece, mas um grito de comando que deve ser feito enquanto se agarra a chave: "Pela chave que guardas e pelo sangue que corre, quebra-se o ferro e o encanto morre!"
A Troca do Fuso: Se a vires a fiar, deves tocar no fuso e dizer:"Vem comigo, Maria, que o tempo de fiar já lá vai."
Existe um aviso constante nas histórias de desencanto: a moura costuma oferecer carvão ou cascas de cebola como recompensa inicial.

O erro comum: O explorador, achando que foi enganado, deita o carvão fora. Deve guardar o o carvão no bolso em silêncio absoluto até chegar a casa e passar a porta. Só dentro de casa, com a porta fechada, é que o carvão se transforma em ouro maciço.
Nota: Se olhares para trás antes de entrar em casa, ouves o grito da moura: "Ai, que me deixaste em maior desgraça!", e o ouro volta a ser carvão para sempre, 

A Sentença do "Ouro ou Carvão"
Muitas vezes, a moura não quer ser salva, mas sim testar a tua virtude. Quando ela entrega o carvão, deve aceitar-se com humildade e dizer em voz baixa, pois o silêncio é obrigatório até chegar a casa: O que a moura me deu, o destino guardou; se era carvão, o sol o doirou.
 
O teste do galo preto
Levar um galo preto, à meia noite, ao local pretendido. Se o galo cantar, a moura é desencantada e trará os tesouros com ela.
O Ritual de Desencanto (Leite de Vasconcelos)
Diferente de outras zonas do Minho, no Soajo o desencanto exige um teste de astúcia e coragem física, não apenas uma reza. Ele anotou que, no Soajo, as mouras eram chamadas, por vezes, de "Madamas".
O caminhante deve subir ao penedo e não demonstrar espanto perante a força da mulher, (encontro). 
Ela estende o fuso de ouro. Se o homem tentar agarrar o fuso, ela transforma-se em serpente. O segredo, segundo o folclore local, é tocar na pedra que ela leva na cabeça e não no ouro, (prova do fuso).

A reza ou sentença: Ao tocar na pedra, deve-se dizer a fórmula de libertação do fardo: "Pesa-te a pedra, moura fada? Deixa-a no chão, que a tua vida é chegada!"
Se dita com a intenção certa, a pedra cai (formando os monumentos que vemos hoje no Mezio) e a moura desaparece, deixando o fuso de ouro como recompensa.
 
A "Moura da Peneda"
​Na Serra do Soajo, simultaneamente  com outras lendas de mouras encantadas, a lenda mais forte é de uma aparição, a  Senhora da Peneda que apareceu a uma pastora na serra. Curiosamente, antes da versão cristã, muitos destes locais eram associados a "mulheres das águas" ou "mães-do-rio", figuras que a Sereia Marinha do Minho também personifica no litoral. Diz-se que algumas destas figuras da serra podiam assumir a forma de serpente com rosto de mulher, uma imagem que na iconografia medieval é exatamente a mesma que a de certas sereias.
A região do Mezio, no Soajo é o cenário perfeito para um roteiro místico. O complexo megalítico local é um dos mais importantes da Península Ibérica, e as suas pedras guardam histórias de tesouros e fados.

Aqui está um roteiro sugerido para explorar estes locais de lenda:
Ponto de Partida:  Núcleo Megalítico do Mezio (Mamoas 5 e 6 e Anta
A poucos metros da Porta do Mezio, encontras este conjunto de monumentos funerários com cerca de 5000 anos.
A Lenda: A Mamoa 5 (a mais imponente e restaurada) é o local onde se acredita que a moura aparece sentada a fiar.
Dizem os antigos que, se se circundar a mamoa três vezes em silêncio absoluto à meia-noite, poderá ouvir-se o som do fuso ou ver o brilho do ouro. Mas atenção: se se for movido pela ganância, o ouro que transformar-se-á em carvão assim que se sair do planalto.

O Penedo da Moura 
 Conta-se que uma menina aparecia aqui pedindo leite e pão quente. Quem lho desse de coração aberto, sem perguntar nada, recebia em troca carvões que, ao chegar a casa, se tornavam barras de ouro puro.

Descendo em direção à vila do Soajo, encontras zonas de rio com poços profundos e a Ponte da Ladeira que  é descrita como um lugar de "amor proibido". A lenda diz que uma moura se afogou ali por causa de um cristão e que, desde então, ela atrai os incautos para as profundezas. Aí também se faziam invocações dos espíritos e almas penadas para a realização de desejos terrenos: amor não correspondido, afastar concorrente do namorado ou marido, dificuldade em engravidar e batismos noturnos. É um local de beleza serena, mas que a tradição recomenda respeitar, evitando mergulhos solitários ao entardecer.

 Espigueiros do Soajo
 Embora os espigueiros sejam estruturas comunitárias para secar milho, a sua implantação sobre um enorme necrópole granítica liga-os à crença de que os "antigos" (os mouros) dominavam a arte de mover pedras gigantescas com a força do pensamento ou de feitiços. Em eras remotas a  Eira era lugar de celebrações, sacrifícios e invocação dos espíritos e de contemplação do universo. O historiador grego Estrabão escreveu que os povos indígenas do Norte (Galaicos e Lusitanos) sacrificavam prisioneiros de guerra e cavalos para ler o futuro nas suas entranhas. Em qualquer um dos  lugares distribuídos pela serra, (Adrão, Várzea, Paradela, Cunhas, Vilar de Suente e Vilarinho das Quartas, Ermelo, Gavieira, Tibo, Rouces, Castro Laboreiro)  se encontram referencias a mouras encantadas. Os cuidados são os mesmos: silêncio e respeito para com as mouras e a negação da cobiça. Há ainda locais ainda por encontrar, como atesta a descoberta recente do  agrupamento militar romano, no Alto da Pedrada.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Seja crítico, mas educado e construtivo nos seus comentários, pois poderão não ser publicados. Obrigado.