segunda-feira, 16 de março de 2026

Gerhard Richter

 

 "Nu Descendo uma Escada, nº 2" (francês: Nu descendant un escalier n° 2) é uma pintura feita em 1912 por Marcel Duchamp. O trabalho é amplamente considerado como um clássico modernista e se tornou um dos mais famosos de seu tempo. Antes de sua primeira apresentação no Salon des Indépendants em Paris em 1912, ela foi rejeitada pelos cubistas como sendo demasiadamente futurista. No entanto, foi exibida juntamente com o mesmo grupo na Galeries J. Dalmau, Exposicion d'art cubista, em Barcelona, de ​​20 de abril à 10 de maio de 1912, posteriormente causando um grande rebuliço durante sua exposição no Armory Show em Nova Iorque em 1913. Nu Descendo uma Escada, nº 2 encontra-se agora em permanente exposição no The Louise and Walter Arensberg Collection no Museu de Arte da Filadélfia, na Filadélfia.




Foi com esta obra que Gerhard Richter se inspirou para, a partir duma fotografia produzir a famosa obra "Nu descendo uma escada (B)” (Ema – Akt auf einer Treppe), pintada em 1966 (em baixo)

​A pintura é rica em significados e sugere várias camadas de interpretação:





O Diálogo com a História da Arte

​A obra é uma resposta direta ao quadro futurista/cubista de Marcel Duchamp (Nu descendo uma escada, nº 2, 1912). Enquanto Duchamp fragmentou o movimento em formas geométricas, Richter utiliza a fotografia como base para humanizar o tema, trazendo-o de volta ao realismo, mas de uma forma distorcida.

O Google está dominado por gente tão obscurantista que me impede de partilhar a imagem. Contudo, publico um link e mostro uma fotografia do écran de pesquisa para entenderem melhor o que estou a dizer. Há imagens que alteram a obra cobrindo-a com plástico (?).  Este é um bom exemplo da censura a que estamos sujeitos, não conseguindo o algoritmo, ou quem o coordena,distinguir entre o que é pornografia e o que é uma obra de arte, mundialmente reconhecida. A obra a que me refiro é a primeira imagem com um observador à direita.

Contudo, podem procurar neste site:

https://www.artgallery.nsw.gov.au/collection/works/14.1993/


​ A Técnica do "Blur" (Desfoque)

​Richter é mestre em pintar a partir de fotografias e depois passar um rodo ou pincel seco sobre a tinta fresca. Esse efeito sugere:

  • Memória e Distância: A sensação de algo que estamos tentando recordar, mas que foge à nitidez.
  • Movimento: Captura a dinâmica da descida, como uma fotografia de longa exposição.
  • Vulnerabilidade: O desfoque preserva a identidade da modelo (que era a esposa do artista na época, Marianne "Ema" Eufinger), conferindo uma aura etérea e íntima.

​A Tensão entre Pintura e Fotografia

​A obra questiona a objetividade da imagem. Ao pintar algo para parecer uma foto mal focada, Richter sugere que nem a pintura nem a fotografia podem capturar a "verdade" absoluta de um momento. A realidade é sempre algo filtrado, fluido e, por vezes, inacessível.

​Gerhard Richter é um dos artistas mais fascinantes do século XX justamente por essa relação ambígua com a fotografia.

​Para entender o que ele estava tentando fazer, imagine que ele agia como um "filtro humano". Ele não queria apenas copiar uma foto; ele queria questionar por que confiamos tanto nelas.

​1. A Fotografia como "Ponto de Partida"

​Richter começou a usar fotos de jornais, álbuns de família e revistas nos anos 60. Para ele, a fotografia era uma forma de distanciamento:

  • Sem Estilo: Ao pintar uma foto, ele evitava o "toque artístico" tradicional e a subjetividade da pintura clássica.
  • Objetividade Falsa: Ele acreditava que a fotografia, embora pareça a "verdade", é apenas uma superfície. Ao pintá-la, ele expõe essa ilusão.

​2. O Método do "Desfoque" (Vermoala)

​ Ele pintava a cena com precisão fotográfica e, enquanto a tinta ainda estava molhada, passava um pincel macio ou um rodo sobre a tela. Isso criava:

  • Igualdade Visual: O desfoque faz com que o fundo e o objeto (o corpo, a escada, a luz) tenham o mesmo peso visual. Nada é mais importante que o resto.
  • Presença e Ausência: Dá a sensação de que a imagem está "sumindo" ou "aparecendo", como se fosse um fantasma da realidade.

​3. O Contexto Alemão (Pós-Guerra)

​Pintar a partir de fotos teve um peso político enorme na Alemanha do pós-guerra:

  • O Trauma: Richter (que viveu na Alemanha Oriental e fugiu para a Ocidental) usava fotos de álbuns de família que continham tanto vítimas do Holocausto quanto oficiais nazistas.
  • O Silêncio: O desfoque servia como uma metáfora para a memória traumática alemã: algo que está lá, mas que é difícil de encarar com clareza ou que as pessoas preferem manter "nublado".

​Curiosidade: O Atlas de Richter

​Richter manteve uma coleção gigante de recortes de fotos, esboços e diagramas chamada "Atlas". É um arquivo visual que ele usou durante décadas para decidir o que transformar em pintura.

Resumindo: Para Richter, a pintura não serve para mostrar o que vemos, mas para mostrar como vemos: de forma imperfeita, mediada pela tecnologia e sempre sujeita ao esquecimento.


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