terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Ó Peixoto!

 




Eu já o tinha visto a correr na marginal, junto ao mar... Ia suado, corria e as 

tatuagens no braço esquerdo e os brincos na orelha direita não enganavam. 

Como vinha em sentido contrário –nascente poente- não o incomodei. Fiquei só a 

olhar. Quem sabe, um dia falo-lhe da minha- antiga- admiração. 

O tempo passou-como passa o tempo? A Terra gira, mas como nós rodamos com 

ela, o tempo não devia contar. Mas enfim, conta.

Outro dia fui a uma loja que vende artigos usados. Tenho o gosto de passar por 

lá; admirar o que os outros já não querem, o que é supérfluo nas suas vidas. É 

assim: quando passo perto e sem muita pressa, pergunto-me: e porque não 

passamos por lá, para ver as novidades? 

Mas só são novidades para mim, pois para os outros são objectos desusados, 

rejeitados, supérfluos, desnecessários, um empecilho lá nas gavetas, na 

arrecadação ou na dispensa; moeda de troca para uma necessidade, por um 

desejo. Um desejo antigo a dar corpo e alma a um desejo novo, tenro e fresco. Ou 

só um litro de leite e meia duzia de carcaças, pró jantar!

Quando deitas isto fora, pergunta a mulher esbaforida com os gritos do bébé e a 

televisão aos berros. Porque não vais vender o aspirador que a avó ofereceu no 

natal? Precisamos lá daquilo... (sai e bate a porta com estrondo). Agora, para que 

queres esta bicicleta? Vende o microondas que já dá para comprar uma dose. 

Roubaste esse blusão de motard? Vai vendê-lo aos usados e bebemos um bejecas. 

Olha aquela aparelhagem, que compraste no aniversário do casamento. Vende-a 

e compra os remédios aos teus filhos. O anel e o relógio? A máquina de escrever? 

Era do meu pai... Ó pá, já te pago. Na segunda vou vender ali umas coisas, 

berbequins, lixadoras, aparafusadoras e outro material ... segunda sem falta. Sim 

pá, não me lixes. Na segunda pago-te! 

E por trás daquelas prateleiras, cheias de utensílios e novidades, estão pessoas; 

eu sinto-as. E, observador anónimo, condoo-me das suas tristezas, sorrio das 

espertezas e recrimino os gestos reprováveis. Olho o aparelho de musculação, 

toco-lhe e imagino alguém, descontente com o seu aspecto e a querer 

impressionar-se e a mais alguém, com a força dos músculos e do peito aberto por 

baixo da camilha fechada. Um ele qualquer a querer salientar os músculospara a 

impressionar. Teria conseguido? Provavelmente não, e por isso, desistiu. 

Recuperou uns trocos para o compensar da ilusão. E a viola? Oh! Quem não tem 

sonhos de guitarrista? Quantos pais como não o conseguiram, ofereceram-nas 

aos filhos na esperança de serem eles a prolongarem os seus sonhos. E os 

telemóveis, e os Xboxs, as Wiis? Quantos sonhos destroçados, ilusões desfeitas... 

e saudades de tardes bem passadas.

Bem, máquinas de fazer pão, fazer café e chá, frisar cabelos, arrancar pestanas, 

termómetros, caixilhos de fotos, ferros de engomar, máquinas fotográficas, 

lentes, aparelhagens amplificadores, tv, computadores... uma infinidade de coisas 

da nossa vida. Cada objecto, muitas histórias e... vidas.

Andava eu nesta peregrinação, quando de repente, nervoso o vejo a deambular 

pela sala de prateleiras em busca não sei de quê, acompanhado duma jovem de 

cabelo liso e negro- talvez a companheira, pelo olhar cumplice.

Tinha lido numa revista que uns miúdos lhe tinham roubado o telemóvel na 

Guiné. E de repente começo a ver na minha mente uma lista de obras a 

lembrarem-me que ele era um herói!

Um herói e artista das palavras, das idéias, carregadas de humanidade e amor à vida e ao próximo. 

Obras do José Luís Peixoto, até 2011!


• 2000 - Morreste-me em que este retrata a morte e as recordações 

que tem do pai.

2000 - Nenhum Olhar É uma viagem pela vida das personagens que 

tanto nos partilham momentos de alegria como momentos de tristeza e 

solidão.

• 2002 - Uma Casa na Escuridão É um romance que perscruta a alma 

desesperada de um narrador, que encontra o verdadeiro amor na 

imagem de uma mulher reflectida dentro do seu próprio interior, 

mulher que não existe no seu tempo real, amor esse que é 

descrito e passado a papel noite após noite, centro único da sua 

vida que já se manifestava completamente despegada da vida 

real, na sua casa, vivendo com a sua mãe e a sua escrava, a 

casa na escuridão.1

• 2003 - Antídoto um livro de contos

• 2006 - Minto Até ao Dizer que Minto (distribuído apenas com a revista 

Visão)

2006 - Cemitério de Pianos Os narradores – pai e filho –, em tempos 

diferentes, que se sobrepõem por vezes, desvendam a história da 

família. Falam de morte, não para indicar o fim, mas a renovação, o elo 

entre as gerações e a continuação: o pai – relação entre dois 

Franciscos, iguais no nome e no destino, por um gerado, do outro 

genitor – nasce no dia da morte desse primeiro Lázaro; o filho, neto do 

seu homónimo, morre no dia em que a sua mulher dá à luz.1

A obra retrata uma família de Benfica (Lisboa) e, aborda a morte como 

não apenas o fim, mas também a continuidade através da herança 

deixada em vida. A morte como destino irremediável da vida e nova 

vida após a morte. Um ciclo que se repete ininterruptamente.

Relata tanto o lado negro como luminoso das ligações entre familiares 

cujas algumas das vivências mais importantes se sucedem num 

espaço de uma oficina chamado de cemitério de pianos que alberga 

pianos "mortos" cujas peças vão dar vida a novos pianos.

• O maratonista português Francisco Lázaro foi a inspiração para a 

personagem principal deste romance, que partilha o seu nome e 

parte da sua história.

• 2007 - Hoje Não (distribuído apenas com a revista Sábado)

• 2007 - Cal Reúne textos de natureza diversa (3 poemas, 17 contos, 1 

peça de teatro), ancorados num espaço rural e na vivência e 

memória dos mais velhos.1

• 2010 - Livro O cenário deste livro é a saga da emigração portuguesa 

para a França, entre uma vila do interior de Portugal e Paris.1

• 2011 - Abraço

Poesia[editar]

 

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